Análise das nossas crenças
Escrito por João D. Fonseca
Muitas pessoas sentem-se desconcertadas quando têm que definir o que é a filosofia. Outras pensam que a própria definição de filosofia é já uma questão filosófica, o que também contribui para reforçar a ideia de que não é fácil definir o que é a filosofia. Talvez não haja nenhuma área do saber que tenha dedicado tanta energia à sua própria definição. Não é usual encontrarmos num livro de biologia, por exemplo, um capítulo completo a explicar o que é a biologia. Na filosofia, contudo, todos sentem necessidade de explicar aos seus pares de que assunto trata a filosofia e, além disso, como se faz filosofia. Uma estratégia vulgarmente usada é tentar mostrar como surgiu a filosofia: a filosofia nasceu há cerca de 2.500 anos a.C. na costa do mediterrâneo graças a um conjunto restrito de pensadores que começaram a questionar-se sobre a realidade, etc... Outra estratégia, também usual, é mostrar de que tipo de questões trata a filosofia: Será que Deus existe? Se sim, porque é que as pessoas acreditam em diferentes deuses? Será que o mal existe? O que é o bem? Praticar o aborto é moralmente errado? Matar é sempre condenável? O que distingue as pessoas de outros seres? O que é uma pessoa? O que é a mente ou a consciência? Apesar de mudarmos continuamente ao longo da vida, será que há algo imutável e impermanente ao longo do tempo que explique o nosso sentimento de identidade? O que é a felicidade e porque desejamos ser felizes? Qual o melhor modo de organizar a vida social? Deve ou não existir um governo? A lista de questões poderia continuar.
Em geral, quase todos concordam que a filosofia consiste numa análise racional acerca das crenças que formamos sobre o mundo e sobre nós mesmos. Assim, não seria arriscado dizer que há algo de comum a todas as questões anteriores. Todas elas visam a justificação das nossas crenças fundamentais acerca do mundo. Essas questões normalmente apresentam um elevado grau de generalidade; são questões que dizem respeito a todos os seres humanos, que tocam, directa ou indirectamente a vida das pessoas, mesmo que muitas delas não tenham interesse em aprofundar aquilo que sabem acerca de si mesmas e do mundo em que vivem. Tais questões referem-se a crenças que são comuns a qualquer ser humano. Todos têm uma dada crença acerca da existência de Deus, acerca do bem e da justiça, acerca da forma ideal de governo, acerca da existência da mente e da consciência, etc... Portanto, num certo sentido a filosofia diz respeito a todos os seres humanos, ao modo como eles pensam, agem e sentem, ao modo como vêem e compreendem o mundo.
Mas será que a existência de crenças justifica a existência da filosofia? Faz sentido que milhares de pessoas em todo o mundo, e ao longo destes 25 séculos, se dediquem a pensar sobre as suas próprias crenças e as crenças dos outros? A resposta parece residir no facto de as crenças não serem todas iguais, de haver crenças de diferentes categorias. No mínimo, podemos distinguir dois tipos de crenças: as crenças sólidas, bem fundamentadas e as crenças óbvias ou ilusoriamente evidentes. Uma outra razão que justifica o facto de muitas pessoas se dedicarem, pelo menos desde o tempo de Sócrates, a examinar a sua vida e as suas crenças, talvez seja o facto de que todos possuímos crenças dos dois tipos anteriormente referidos. A maioria dos seres humanos, ou porventura todos, têm um conjunto de crenças óbvias e ilusoriamente evidentes. Elas habitam a nossa vida com toda a naturalidade e a sua existência não parece constituir qualquer tipo de problema para a maioria das pessoas. Contudo, elas são a raiz do dogmatismo, ou seja, da aceitação de crenças que nunca foram submetidas a uma fundamentação racional. Elas são também a raiz do preconceito e todos sabemos como o preconceito pode ser prejudicial. É por isso que temos que ter em conta um terceiro elemento incontornável na nossa vida: a realidade por vezes exige que pensemos, que ponhamos em causa as nossas crenças e convicções, mesmo que no fim continuemos com elas. Isso sucedeu variadíssimas vezes ao longo da história da humanidade ou sucede vulgarmente ao longo da história de vida de um indivíduo. Quando certos povos entraram em contacto com povos que lhes eram desconhecidos interrogaram-se porque é que havia hábitos e costumes morais tão variados; quando as pestes assolavam a Idade Média, muitas pessoas questionaram-se acerca da fragilidade da vida humana ou acerca da carácter efémero da sua existência; quando alguém sentiu que existia uma grande injustiça social, como a escravatura, interrogou-se que razões havia a fundamentar a crença esclavagista; quando alguém vê um familiar querido a morrer interroga-se se alguma parte dele ainda subsistirá; quando um empresário tem que decidir se cumpre com as suas obrigações fiscais para com o estado ou se paga o salário aos seus trabalhadores, este questiona-se acerca do que é o bem e a justiça; quando alguém tem de ir para a frente de batalha, descobre que ou mata ou morre, etc... Estes exemplos parecem ser suficientes para mostrar que os homens e as mulheres muitas vezes têm necessidade de reflectir e pensar criticamente acerca das suas crenças e convicções sobre o mundo, ou porque estas falham na sua função de explicar a realidade, ou porque estas se confrontam com novos dados até então desconhecidos, ou simplesmente elas não são consistentes umas com as outras...
Em todo o caso, se a necessidade de reflectir e de analisar de modo crítico e racional as nossas crenças é assim tão óbvia e necessária, porque será que muitas pessoas simplesmente não o fazem? Esta objecção pode dar azo, no mínimo, a duas respostas. As pessoas não o fazem, porque não tiveram oportunidade de desenvolver capacidades críticas e racionais que lhes permitam pensar por si mesmas, os outros e o mundo. Faltam-lhes um conjunto de instrumentos conceptuais, lógicos e de análise, que lhes permitam compreender melhor o corpo de crenças a partir das quais vivem a sua vida. Se as pessoas tivessem esses instrumentos, elas certamente que o fariam. A segunda resposta é a de que não é verdade que as pessoas não o façam. Num certo sentido, as pessoas interrogam-se e questionam-se acerca do mundo, no entanto não o fazem do mesmo modo que os filósofos profissionais o fazem. Vou tentar esclarecer este ponto.
Os filósofos profissionais desenvolveram ao longo dos séculos, um conjunto específico de ferramentas conceptuais e lógicas que lhes permitem analisar crenças e convicções. De certo modo, os filósofos assemelham-se aos profissionais de outras disciplinas; o filósofo é como o biólogo, o matemático, o físico, o teólogo, o artista ou o arquitecto. Todas as áreas do saber, desenvolveram ao longo do tempo um vocabulário próprio e um conjunto de métodos e técnicas de análise e investigação. Assim, o vocabulário do biólogo ou do físico é muitas vezes difícil de compreender por aqueles que não foram iniciados nessas disciplinas. Do mesmo modo, o vocabulário e os processos de pensamento dos filósofos são difíceis de compreender por aqueles que não se iniciaram na filosofia. Resta-nos por isso mostrar em que é que o trabalho do filósofo difere do trabalho de outras áreas de saber.
Em boa parte, como já tentei mostra no início deste texto, a especificidade da filosofia deve-se ao tipo de questões que os filósofos tratam - questões gerais que dizem respeito a todos os seres humanos e questões que têm a ver com as crenças que temos acerca de nós mesmo, dos outros e do mundo. Por outro lado, a filosofia faz-se argumentado. Isto não significa que nas outras ciências, por exemplo, não exista argumentação. A ciência é tudo menos o reino das verdades definitivas ou um depósito de factos inquestionáveis. A ciência é feita de polémicas, debates, confrontos de argumentos e objecções e não uma observação e recolha de factos desligadas da reflexão. Um dos maiores livros de ciência, «A Origem das Espécies» de Charles Darwin, é um exemplo de um trabalho científico repleto de argumentação. No entanto, as questões tratadas pelas ciências são muito mais restritas e delimitadas do que as questões de que trata a filosofia. Além disso, os argumentos que os filósofos utilizam assentam comummente em conhecimentos a priori, ou seja, em ideias para as quais ainda não temos provas empíricas, ao passo que a ciência procura sempre sustentar os seus argumentos com conhecimentos baseados em provas empíricas. Admito, no entanto, que as fronteiras entre filosofia e os outros saberes são ténues e por vezes mal definidas. Por isso mesmo, a filosofia não é território apenas daqueles que são licenciados em filosofia. A filosofia é território público - todos podem ser filósofos, desde que estejam dispostos a examinar as suas vidas e ao mesmo tempo aprendam a dominar um conjunto de instrumentos discursivos que lhes permitam ser pensadores críticos, pensadores independentes, homens e mulheres livres. Nisto reside a principal utilidade ou valor da filosofia. Aquele que pensa criticamente pode, em qualquer momento da vida, tomar as suas próprias decisões, porque as crenças que suportam as suas decisões são crenças sólidas, crenças fundamentadas, crenças que foram racionalmente amadurecidas. Em resumo, o valor da filosofia reside no facto de nos proporcionar a oportunidade de diminuir o nosso corpo de crenças óbvias ou ilusoriamente evidentes e aumentar o corpo de crenças sólidas e bem fundamentadas.
João D. Fonseca
quinta-feira, 30 de abril de 2009
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