quarta-feira, 9 de abril de 2008

cérebro numa cuba

Terra Gémea – Este exemplo foi usado pela primeira vez por Hilary Putnam em «The Meaning of

Meaning» num argumento a favor da ideia de que diferenças microscópicas em substâncias ou

objectos macroscopicamente indistinguíveis mudariam o significado das nossas palavras. Nesse

artigo, Putnam diz-nos que na Terra Gémea aquilo que a nós, terrestres, parece água na

verdade não é composto de H2O, mas de xyz. Assim, se fôssemos transportados para a Terra

Gémea todos os nossos juízos sobre xyz parecer-nos-iam juízos verdadeiros sobre água, mas na

verdade seriam juízos falsos sobre xyz. Isto é em parte uma resposta ao descritivismo

russelliano e ao nominalismo enquanto perspectiva sobre o significado dos termos.



Cérebro numa cuba – Uma actualização do génio cartesiano à maneira dos filmes de ficção

científica dos anos cinquenta. O cenário do cérebro numa cuba é uma experiência mental

concebida para mostrar a plausibilidade do cepticismo radical. Se fôssemos apenas cérebros

em cubas, ligados a computadores capazes de enviar impulsos eléctricos iguais aos que o

nosso corpo costuma receber, teríamos experiências indistinguíveis das que constituem a

«vida real» e ficaríamos sem qualquer hipótese de descobrir a nossa verdadeira situação.

Assim, de acordo com os que consideram este exemplo persuasivo, é possível que o cepticismo

radical – a tese de que não temos qualquer conhecimento seguro – seja verdadeiro. Hilary

Putnam reagiu ao cenário do cérebro numa cuba com uma versão do argumento a favor da ideia

de que o cepticismo radical tem de ser falso. Putnam usa uma versão do argumento da

linguagem privada para defender que um cérebro numa cuba não teria quaisquer crenças

verdadeiras. De acordo com a teoria do céptico radical, devemos supor que um cérebro numa

cuba que estivesse ligado ao computador de modo a receber os mesmos inputs que teria

recebido se estivesse num corpo acreditaria nas mesmas coisas em que nós acreditamos. Mas

não teria qualquer referente público para as suas palavras e frases, e por isso não poderia

ter qualquer linguagem humana, pois segundo Putnam todas as linguagens precisam de

referentes públicos. Putnam defende que o céptico que pensa que todas nossas crenças são (ou

poderiam ser) falsas tem de supor que nós somos como cérebros em cubas. Mas como cérebros em

cubas não poderiam ter uma linguagem e nós temos...



Conhece – No artigo de Judith Jarvis Thomson que reanimou o problema do trólei, «Killing,

Letting Die, and the Trolley Problem», a palavra «conhece» surge em itálico quando se

estipula que o condutor do trólei tem apenas duas opções. Ele pode parar ou fazer

descarrilar o trólei, escreve Thomson, e o condutor tem consciência disto porque ele conhece

tróleis. Peguei neste aspecto e abusei dele ao longo do artigo, o que teve um grande efeito

cómico, não acha?



Jones – Jones é o nome habitual do infeliz «homem comum» em todos os exemplos filosóficos

desde o tempo daqueles rapazes ousados de Cambridge (Bertie Russell, G. E. Moore e Alfred

North White-Westinghouse) Jones? Não podiam ter arranjado um nome mais original? Grandes

génios criativos, não há dúvida...



G. E. M. Anscombe – A Sr.ª Anscombe é uma filósofa moral inglesa muito famosa.



Latas de refrigerantes – Não são giras? Especialmente as novas, com uma abertura grande? Meu

Deus, adoro tecnologia...



Consequência não pretendida – Quem está familiarizado com a Igreja Católica e a sua

influência na filosofia moral, sabe que esta é uma referência à sua Doutrina do Duplo

Efeito, a doutrina segundo a qual é permissível fazer absolutamente tudo a toda a gente

desde que o queiramos e ninguém nos possa impedir. Não, espere! Esta é a sua Doutrina da

Vida Quotidiana. A Doutrina do Duplo Efeito é a doutrina segundo a qual em certas

circunstâncias um agente não é culpável pelas consequências previstas, mas não pretendidas,

de acções moralmente permissíveis, mesmo que essas consequências sejam imorais ou

impermissíveis. Esta doutrina surge frequentemente em discussões sobre o bombardeamento de

alvos civis durante a guerra. Por outras palavras, se alguma coisa que eu disse aqui o

ofendeu, paciência. Eu não tinha a intenção de o ofender, só pretendia esclarecê-lo, e por

isso não fiz nada de mal!



Autora deste exemplo – Esta parte do exemplo também deve muito ao artigo de Judith Jarvis

Thomson, «Killing, Letting Die, and the Trolley Problem». Thomson foi a filósofa que

concebeu o caso parecido conhecido por problema do transplante ou problema do trólei. Neste

problema temos que decidir se sacrificamos uma pessoa cujos órgãos podem ser utilizados para

salvar cinco pessoas que estão prestes a morrer. É certo que a maior parte das pessoas

desviaria o trólei para cima de um trabalhador de modo a salvar cinco, mas é ainda mais

certo que não sacrificariam um paciente de modo a salvar cinco no caso cirúrgico. Esta

assimetria deu origem a um enorme esforço de análise das supostas diferenças morais que se

verificam entre os dois casos. Penso que Jonathan Bennett resolveu a disputa em «Killing and

Letting Die» e no seu livro Events and Their Names.



Hitler – Está a brincar, não está? Não sabe quem foi Hitler? Volte para cima.



Ampliação do efeito – Mais tarde ou mais cedo, qualquer utilitarista digno desse nome tem de

enfrentar um exemplo de ilha deserta. Os críticos do utilitarismo nunca deixam de sublinhar

que, se um utilitarista estivesse numa ilha deserta sem qualquer possibilidade de vir a ser

resgatado ou descoberto, nas circunstâncias apropriadas qualquer curso de acção seria

permissível. Suponho que leram demasiadas vezes A Ilha do Tesouro quando eram jovens. Seja

como for, a ideia é mostrar que, segundo os cálculos utilitaristas, todas as formas de

comportamento repreensível devem ser reprimidas apenas porque seria mau (i.e., provocaria

mais infelicidade que prazer) as más acções serem descobertas. Numa ilha deserta a ameaça de

descoberta desapareceria e nós, utilitaristas, ficaríamos como os miúdos de O Senhor das

Moscas. Para impedir as lamúrias dos anti-utilitaristas, incluo no meu caso a ideia de que

todos os cérebros em cubas se comportariam exactamente como o cérebro.



Guerra justa – Santo Agostinho foi um dos primeiros filósofos que dedicou muito tempo e

energia mental à defesa da ideia de que podem haver guerras justas desde que certas

condições rigorosas sejam satisfeitas. Desde então outros filósofos desenvolveram o projecto

e passaram ainda mais tempo a pensar no problema de saber que guerras são justas e que

guerras são injustas. Investigue.



Génio cartesiano – Ser imaginado por René Descartes nas suas extremamente influentes

Meditações sobre a Filosofia Primeira. Descartes está interessado em assegurar-se de que

todas as suas crenças são dignas de confiança, e por isso decide suspender todas as crenças

de que não pode estar absolutamente seguro. Para ter a certeza de que não persistem

quaisquer crenças duvidosas, imagina um ser omnipotente cujo objectivo principal é enganá-lo

sistematicamente. Descartes conclui que um tal ser poderia iludi-lo fazendo-o enganar-se em

todas as suas crenças excepto nesta – a crença na sua própria existência. Esta é a fonte da

famosa expressão Cogito, ergo sum.



Comissurotomia – Uma operação (tome atenção, pois estamos precisamente a falar de cirurgia

cerebral) na qual os neurónios e o tecido que ligam os hemisférios esquerdo e direito (ou

direito e esquerdo, consoante o ponto de vista) são cortados, de tal modo que deixa de

ocorrer qualquer comunicação entre os dois lados do cérebro. Esta operação foi realizada

sobretudo em pessoas com epilepsia de maneira a reduzir a intensidade dos seus ataques, mas

os resultados deram origem a um bom terreno para exploração filosófica chamado Ciência

Cognitiva. Os efeitos da comissurotomia são assombrosos, até porque não se manifestam fora

das condições laboratoriais. Uma das coisas mais surpreendentes que se descobre quando se

investiga o assunto é a facilidade com que as pessoas deixavam os médicos brincar com o seu

cérebro nos anos 50 e 60. Na altura não devia haver advogados suficientes. Duas leituras

recomendáveis são o bom livro de Charles Marks, Commissurotomy, Consciousness, and Unity of

Mind, e o ensaio de Thomas Nagel, «Brain Bisection and the Unity of Consciousness».



Consequencialista – Um consequencialista é um filósofo moral que pensa que a correcção ou

incorrecção de uma acção depende apenas das suas consequências: não interessa se um acto cai

dentro de uma certa categoria, a intenção do agente ou qualquer outro aspecto da acção. O

utilitarismo é uma forma muito conhecida de consequencialismo (apresentada, entre outros,

por Mill e Bentham), segundo a qual a consequência relevante é quantidade de felicidade que

um acto produz.



Absolutista – Um absolutista é um filósofo moral que pensa que algumas acções são

categoricamente erradas, de tal maneira que nunca podemos ponderar a possibilidade de as

realizar. Immanuel Kant (tal como G. E. M. Anscombe) é um absolutista muito conhecido:

defendeu que nunca é permissível dizer uma mentira, por muito trivial que seja, de modo a

conseguir um bem, por muito grande que seja.





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Michael Patton

Michael Patton

O Guia Destinado a Não-Filósofos para «Os Homens Maus Podem Levar Cérebros Bons a Fazer

Coisas Más?»
(ou Por que Razão Alguém Acha que Isto Tem Graça?)
Considere o seguinte caso:

Na Terra Gémea, um cérebro numa cuba está ao volante de um trólei em movimento. Ao

aproximar-se de uma bifurcação, o cérebro vê que só dispõe de duas opções: ou vai para a

linha direita ou vai para a linha esquerda. Não há qualquer maneira de parar ou fazer

descarrilar o trólei e o cérebro está consciente disso, pois o cérebro conhece tróleis. O

cérebro está causalmente conectado ao trólei de tal maneira que o cérebro pode determinar o

caminho que o trólei vai seguir.

Na linha direita há um único trabalhador ferroviário, Jones, que morrerá de certeza se o

cérebro desviar o trólei para a direita. Se o trabalhador que está à direita não morrer, irá

matar cinco homens simplesmente porque lhe apetece matá-los, mas ao matá-los salvará

inadvertidamente a vida de trinta órfãos (um dos cinco homens que ele matará está a planear

destruir uma ponte que o autocarro dos órfãos irá atravessar nessa noite). Se não for morto,

na vida adulta um dos órfãos tornar-se-á um tirano que levará homens utilitaristas bons a

fazer coisas más. Outro dos órfãos crescerá e tornar-se-á G. E. M. Anscombe, e um terceiro

inventará as latas de refrigerantes.

Se o cérebro numa cuba escolher ir para a linha esquerda, o trólei atingirá e matará de

certeza o trabalhador ferroviário que está na linha esquerda, «Esquerdino». Também atingirá

e destruirá dez corações vivos que estão na linha, que poderiam ser (e seriam)

transplantados para dez pacientes do hospital mais próximo que morrerão na ausência de

corações de doadores. Estes são os únicos corações disponíveis, e o cérebro está consciente

disto, pois o cérebro conhece corações. Se o trabalhador que está na linha esquerda

sobreviver, também ele matará cinco homens – na verdade, os mesmos cinco homens que o

trabalhador da linha direita mataria. No entanto, no caso de «Esquerdino» a morte dos cinco

homens será uma consequência não pretendida de salvar dez homens: ele matará

inadvertidamente os cinco homens enquanto corre para o hospital mais próximo de modo a

entregar os corações a tempo. O acto de «Esquerdino» terá ainda outro resultado: o autocarro

dos órfãos será poupado. Entre os cinco homens que «Esquerdino» matará contam-se o homem

responsável por ter posto o cérebro a conduzir o trólei e a autora deste exemplo. Se os dez

corações e «Esquerdino» forem destruídos pelo trólei, os dez pacientes a aguardar um

transplante de coração morrerão e os seus rins serão utilizados para salvar a vida de vinte

pacientes que aguardam um transplante de rim – um deles descobrirá a cura do cancro quando

for crescido, e outro tornar-se-á Hitler. Existem outros rins e máquinas de hemodiálise, mas

o cérebro não conhece rins, e por isso este não é um factor a ter em conta.

Presuma que a escolha do cérebro, seja ela qual for, será tomada como exemplo por outros

cérebros em cubas e que assim os efeitos da sua decisão serão ampliados. Presuma também que

se o cérebro escolher a linha direita isso resultará numa guerra injusta sem crimes de

guerra, enquanto que se o cérebro escolher a linha esquerda isso resultará numa guerra justa

com crimes de guerra. Além disso, há um génio cartesiano intermitentemente activo que ilude

o cérebro de tal maneira que este nunca sabe se está a ser iludido.



Questão: O que deve fazer o cérebro?



Exemplo alternativo: O mesmo que o anterior, só que desta vez o cérebro foi sujeito a uma

comissurotomia: agora a metade esquerda do cérebro é consequencialista, mas a metade direita

é absolutista.


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O “Utilitarismo” E Peter Singer

O “Utilitarismo” E Peter Singer

Releio actualmente o “Ética Prática” do Peter Singer. Um livro excelente e
extremamente útil nesta época desregulada e os onde os valores morais estão
em decadência. Singer é uma das figuras mais conhecidas da corrente “Utilitarista”
. É uma releitura (como têm sido a maioria das minhas leituras recentes), mas uma
releitura sempre útil para limpar a mente do telelixo que sempre vai entrando…O
“Utilitarismo” é uma corrente que defende que a Ética, a ciência que permite
distinguir o Bem do Mal assenta na permissa que de uma acção é Boa se provoca
a felicidade e é Má se causa o sofrimento. A permissa radica na existência de
opções ou acções alternativas. Extrapolando, isso significa que não existe
Bem ou Mal se não existem acções alternativas, isto é, se alguém fôr confrontado
perante uma situação que não lhe deixe alternativas de acção (o chamado “entre a
espada e a parede”) não lhe pode ser imputada a responsabilidade de agir Bem ou
Mal, porque essa distinção assenta na existência de escolha.
Do “Utilitarismo” resulta também a essência da Educação: neste caso será a
capacidade de induzirmos nas crianças a criação de opções alternativas perante as
situações que a vida lhes irá apresentar. A Educação teria assim a missão de
permitir a descoberta de alternativas onde a vida parece negá-las, alternativas
essas que seriam descobertas por intermédio da Cultura, da Inteligência e da
Imaginação, colocadas desta forma no mesmo pé e contribuindo em igual medida para
fazer seres humanos melhores e mais éticos.
Em Filosofia, o utilitarismo é uma doutrina ética que prescreve a ação
(ou inação) de forma a otimizar o bem-estar do conjunto dos seres senciente.
O utilitarismo é então uma forma de consequencialismo, ou seja, ele avalia
uma ação (ou regra) unicamente em função de suas conseqüências.

Filosoficamente, pode-se resumir a doutrina utilitarista pela frase:
“Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”

(princípio do bem-estar máximo). Ela se define então como uma moral
eudemonista, mas que ao contrário do egoísmo, insiste no fato de que devemos
considerar o bem-estar de todos e não o bem estar de uma única pessoa.
Antes de quaisquer outros, foram Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill
(1806-1873) que sistematizaram o princípio da utilidade, e conseguiram aplicá-lo
às questões concretas – sistema político, legislação, Justiça, política
econômica,
liberdade sexual, emancipação das mulheres, etc.
Em Economia, o utilitarismo pode ser entendido como um princípio ético no qual
o que determina se uma decisão ou ação é correta, é o benefício intrínseco
exercido à coletividade , ou seja, quanto maior o benefício, tanto melhor a decisão ou ação.





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Bioética e Peter Singer

Bioética e Peter Singer

Desde que Peter Singer, filósofo australiano e fundador da Associação
Internacional de Bioética, foi proibido de apresentar suas idéias na Alemanha,
o tema da liberdade de expressão vem sendo discutido entre os pesquisadores
da bioética.
As idéias de Peter Singer são um exemplo do que há de mais provocativo no campo
da bioética, em especial pelas implicações de seus argumentos sobre aborto e
eutanásia para as comunidades de pessoas portadoras de deficiência.
Mas, exemplarmente, as sociedades internacionais de bioética não apenas
reconhecem a importância científica de Singer, como lhe conferem espaços
de destaque em seus encontros internacionais, tal como aconteceu em Brasília,
onde ele foi um dos expositores principais.
O destaque de Singer é, ao mesmo tempo, resultado de seu trabalho de pesquisa,
ensino e divulgação da bioética, mas também resposta à intolerância que insiste
em perseguir alguns temas da bioética.
O aborto é um desses exemplos. Não há civilidade, tampouco tolerância no debate
sobre a moralidade do aborto em muitos países. Esse é um dos temas mais urgentes
para a bioética brasileira e, certamente, o que menor progresso se fez na última
década.
Em uma das sessões do encontro internacional feminista de bioética, foi feita
a sugestão de que a bioética brasileira assumisse uma agenda prioritária de
atuação e o tema do aborto foi, consensualmente, considerado urgente.
Mas para discutirmos a moralidade do aborto no Brasil é preciso que também
reconheçamos o compromisso já assumido pelas comunidades internacionais de
bioética: o do respeito à liberdade de expressão.
A bioética é um campo de pesquisa e intervenção política que se caracteriza
pelo conflito moral.
Por isso, não é fácil discutir os temas bioéticos, mas esse é um exercício ético
fundamental a qualquer estado democrático e laico, como é o Brasil.





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O que Vê a Cegueira: Desatando os Nós de Uma Experiência

O que Vê a Cegueira: Desatando os Nós de Uma Experiência

O que Vê a Cegueira: Desatando os Nós de Uma Experiência
(por Joana Belarmino)
Apresentação
Este trabalho é a narrativa de uma experiência, de um modo particular de encarar a cegueira.

mais do que entender a cegueira, pretende-se aqui compreender a visão como um "múltiplo".
as idéias aqui esboçadas não são novas. É possível que possam ser encontradas em essência no

cerne de muitos trabalhos, ou mesmo disseminadas aqui e ali, nos estudos dedicados à

problemática da cegueira. Assim, ao retomarmos o tema, nos esforçamos por, na medida do

possível, diluir as bipolaridades, as oposições entre cegueira e visão, visão e cegueira.
Se tivéssemos que fazer aqui, considerações metodológicas acerca do desenvolvimento das

nossas idéias, teríamos que reconhecer que esse texto nasceu muito mais das nossas

vivências, do que propriamente de uma reflexão acadêmica sedimentada por teorias e estudos

científicos. É pois a emoção, o único método que nos guia nesse caminho.

1. A Pedra, O Fogo, o Verbo: História de uma Trilogia

Curvada sobre sua carteira escolar, uma menina de sete anos preme no papel, os pontos de uma

pergunta, ainda indistinta, quase inconsciente; esboça sem o saber, as primeiras letras de

um paradoxo, ao mesmo tempo científico, psicológico, social e existencial. O que vê a

cegueira?
O ano é 1964, a menina é cega e aprendeu com as pedras, a dura lição de tentar enxergar uma

primeira resposta para essa questão, sob a capa dessa experiência.
As pedras são como lugares em que a natureza trabalha em silêncio. Lugares em que as

moléculas, os átomos, em sua cavalgadura, são testemunhas do tropel cósmico que produzem,

criando os ciclos da vida.
A menina tinha fascinação pelas pedras, assim como pelo vento, pela chuva anunciada no campo

através do modo plural que a natureza tem de nos falar. As pedras, sobretudo, enchiam sua

infância de espanto e perplexidade.
No pátio da casa, um pátio de terra batida que sua mãe cuidava de varrer todas as manhãs,

havia uma fileira de quatro ou cinco pedras, encostadas a parede da cozinha. Fila indiana de

rochas irmãs, algumas mais altas, outras mais baixas, todas pouco menores do que ela, no

topo dos seus quatro anos.
Naquela época, em algum sítio da sua consciência, já havia se incrustado a sua senssação de

cegueira, algo obscuro, é certo, mas pleno dessa situação ambígua onde por certo já

conviviam pequenas angústias, pequenas alegrias.
Numa manhã de sol radiante, marchava ela defronte das pedras, num passeio ritimado de

criança, quando deu pela presença das pedras. Não que não soubesse que elas sempre ali

estiveram, por as ter tocado, por ter feito delas extensoes das suas brincadeiras infantis.

Dera pela presença das pedras de um modo novo, como se as estivesse vendo. As pedras lhe

comunicavam sua presença irradiando na face. Como ela não sabia o que era "ver", tomou por

"visão" aquele acontecimento. E maravilhada, marchou diante das pedras, como se estivesse em

transe, repetindo um mantra que inventara naquela horinha mesmo: "Eu vejo! eu vejo!" Dizia

aquilo com a inocência e a convicção de uma criança de quatro anos. Foi quando para "ver

melhor" uma pedra, calculou mal a distância entre sua face e a rocha e esbarrou brutalmente

contra a mesma, interrompendo a sangue e a dor, a doce lição de "ver" dentro da cegueira.

Lágrimas e remédios caseiros empurraram para o fundo da memória a força daquela experiência,

e, por muitos e muitos anos,ela não pensou mais naquele primeiro ritual de iniciação, duro

ritual que lhe tinha posto sozinha com sua cegueira, exposta as bordoadas nas pedras.
Não pôde compreender de imediato, a verdade que as pedras haviam lhe ensinado. Essa verdade

não se revelou por inteiro, mas aos poucos, por insinuacoes, pensamentos, conjecturas.
As pedras, a seu jeito, golpeando-lhe a face com sua rude estrutura, haviam lhe ensinado a

"ver" mesmo dentro da sua cegueira. Levou tanto tempo para decifrar os nós daquela

experiencia! Caminhava, caminhava, e sempre, de algum modo, retomava aquela afirmação

infantil, agora sob a forma de pergunta: O mantra se renovara: Ja não afirmava mais "eu

vejo!", mas antes indagava: O que vê a cegueira?
Longe de a desanimar, a pergunta a incitava a dizer coisas, a montoar palavras, a enfileirar

frases e mais frases, ao modo da fileira de rochas, na sua tentativa de tornar clara essa

"visão" que também habita a cegueira, reproduzindo o claro-escuro que sempre parece estar

presente no ato do homem de observar o real.
O que vê a cegueira? Era para essa descoberta que ela caminhara naqueles dias de 1964, agora

não mais instigada pelas pedras, mas munida por artefatos técnicos: Papel, reglete, punção,

desenhavam agora o relevo da sua pergunta, renovando-lhe o sentido, criando para ela um

nicho tecido de palavras e mais palavras. A menina cresceu e de novo pôde apreciar a velha

lição das pedras, agora burilada, como jóia nova e brilhante.

"A minha cegueira é uma forma de visão"! "A minha cegueira é uma forma de visão"! Dentro da

sua cegueira, compreendeu que sempre vira com o corpo inteiro. Via com os pés, que lhe

indicavam as mudanças de solo; via com as mãos, com a face; via por todos os poros do seu

corpo e continuava vendo, todo um espetáculo interior que habitava o seu íntimo, a sua

mente, e dialogava com o mundo exterior de um modo próprio, o seu modo de "ver".
Percebeu como a experiência da cegueira acha-se ela própria "imunda" de visão, e as tantas

vezes em que tivera vergonha disso, as tantas vezes em que negaceara essa visão olfativa,

auditiva, todos os "órgãos de ver", espalhados por seucorpo a fora, e que lhe tinham sido

revelados pela lição das pedras!

2. As Visões da cegueira ou a Cegueira como Visão?

O rosto é inexpressivo. Cabeça e corpo se encolhem para dentro. É a metáfora do

"ensimesmamento". No cinema, na arte, na literatura, a criação devolve ao homem cego o que

já lhe dera a sociedade: um "mundo de silêncio e trevas", um "não lugar" na vida, na poesia,

na paixão. Em muitos lugares do mundo, pessoas cegas foram e são "estrangeiras" em sua

própria págria. Na tribo, nas grandes metrópolis, na aldeia, o olhar que as tocou não as

reconheceu como "parte" da comunidade; andarilhos da idade antiga e medieval, reclusos da

modernidade, estranhos no seu próprio mundo, os cegos persistiram na arte de "aprender a

ver", dentro da sua cegueira.
Houve quem falasse desse acontecimento de "cegos videntes". A mitologia, o cinema, a

literatura, a poesia, "animaram" uma espécie de metáfora da cegueira como "visão", A

metáfora porém, em geral alçou o indivíduo cego para além da sua terra; elevou-o para perto

dos deuses, fez dele um ser que continuava "estranho" no mundo dos viventes. Subtraídos do

mundo da normalidade, impunha-se para os indivíduos cegos, a luta pela sua conquista. Aquele

homem que aprendera a ver o mundo desbastando pedras, palmilhando estradas, ou despertando

os homens do alto da mesquita, à força das suas orações, aquele homem qtosco, de cabeça

baixa, que se encolhia para escutar o canto de um pássaro ou sentir o cheiro da mercearia

mais próxima onde pediria o seu pão, teve que inventar um modo novo de demonstrar a sua

"visão" e assim partilhar do seu mundo como seus iguais, os outros homens.
E da pedra fez-se o fogo; o fogo fundiu o ferro e num dia longínquo, um menino cego curvado

sobre uma mesa de escola, inaugurou o gesto de "ler" o mundo com suas próprias mãos.

3. Por uma Compreensão da Visão como um Múltiplo

Olhar a questão de visão e cegueira ao longo da história, implica reconhecer a existência

clara de um espaço de divisão, significa testemunhar uma relação muitas vezes inconciliável

entre os dois fenômenos. é como se estivéssemos a jogar o jogo de "cara ou coroa", velho

exercício de uma humanidade que ao longo de sua trajetória, esmerou-se na tarefa de separar,

classificar, ordenar, confinar.
Há que se experimentar também aqui, um outro caminho; Se olharmos bem para essa moeda, se

sopesarmos sua essência, veremos que a cara ora é coroa e que a coroa se transmuda em cara.
Parece ser indispensável que renovemos a questão inicial: Qual a qualidade da visão que

habita a cegueira? Teriam os manuais de educação especial se ocupado em decifrar as chaves

dessa pergunta?
Para além dos fenômenos cinestésicos, podemos falar de uma visão estética do mundo dentro da

cegueira, raramente percebida e estimulada pelos projetos pedagógicos formadores desses

indivíduos, mas que pode ser pressentida pela própria arte poética, conforme ilustra a

passagem abaixo:

"...- Se o senhor soubesse - exclamou ela então numa exaltação de alegria - se o senhor

pudesse saber como eu imagino tudo isso facilmente. Veja Quer que eu lhe descreva a

paisagem?... Há atrás de nós, acima e ao redor de nós, os grandes pinheiros, com gosto de

resina, com troncos grenás, com longos e sombrios galhos hori- zontais que se lamentam

quando quer curvá-los o vento. A nossos pés, como um livro aberto, inclinado sobre a estante

da montanha, a grande campina verde e matizada, que a sombra azula, que o sol doura, e cujas

palavras precisas são flores gencianas, pulsatilas, ranúnculos, e os belos lírios de Salomão

- que as vacas vêm soletrar com seus sinos, e onde os anjos vêm ler, já que diz que os olhos

dos homens estão fechados. Na parte inferior do livro, vejo um grande rio de leite,

enfumaçado, enevoado, cobrindo todo um abismo de mistério, um rio imenso, sem outra margem

senão, ao longe, bem longe à nossa frente, os belos Alpes resplandecentes..."
(In, "A sinfonia pastoral", André Gide: p/72).

Pensar na cegueira como forma de ver sugere, pois, a instituição de um novo modo de ação e

de organização, tanto para o cego, como para os que enxergam. Envolve o esforço de

construção de um novo paradigma, o qual possa abolir não a cegueira ocular, mas todos os

entraves culturais e sociais que ao longo da historia do homem foram agregados a essa

limitação fisica, repercutindo muitas vezes de forma nefasta, tanto nos processos

pedagógicos desses indivíduos, como na sua inserção à sociedade mais ampla.
esse é pois um projeto não apenas para um conjunto de pessoas envolvidas nessa problemática,

mas é um projeto para toda uma sociedade, porque envolve o reconhecimento do ser humano na

sua totalidade e nas suas diferenças.
Se a argumentação aqui exposta não é nova, está a exigir uma reflexão de fôlego, que possa

enfrentar o binômio visão/cegueira, não do ponto de vista de suas distinções físico

anatômicas, mas a partir das suas qualidades de junção, de complementaridade.
Se pensarmos pois, o mundo dos homens a partir do conceito de visão, então teremos a

seguinte máxima:
a visão é um múltiplo, com formas diversas".
Desse modo, não há como afirmar: "A visão é uma forma de cegueira", mas antes, "a visão que

os homens têm a respeito da cegueira é também uma forma de visão", que tanto pode servir

para "juntar" as diferenças como para apartá-las. Se observarmos a história dos homens a

partir das suas formas de visão, veremos um magistral desenvolvimento desse processo! O

filósofo Teillard de Chardin tem uma frase exata para a descrição desse fenômeno:
"...a história do mundo vivo se resume na elaboração de olhos cada vez mais perfeitos no

seio de um Cosmos, onde é possível ver cada vez mais."
O homem expandiu seus modos de "ver" de formas as mais variadas. Nesse contexto, a história

da cegueira não é senão, a história do esforço do indivíduo cego para também impor a sua

forma de "ver" o mundo.

Compreender e valorizar essa alquimia de sentidos e pensamento na tradução do mundo, é uma

tarefa que deve envolver não apenas os indivíduos cegos, mas, toda a sociedade. Nos limites

desse trabalho, temos consciência da pouca profundidade com que exploramos o tema. Pensar a

cegueira como uma forma de visão, ou antes, pensar a visão como um "múltiplo" onde precisam

estar contempladas as diversas formas de "ver", eis o desafio que deve alimentar nossa

prática cotidiana, nosso ser e estar no mundo.
Que nos próximos milênios, nossos esforços nos auxiliem a "ver" cada vez mais.




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Memória, memória reprimida e falsa memória

Memória, memória reprimida e falsa memória

Memória é a retenção e recordação de experiencias. Uma memória reprimida é uma que se diz

ser retida na mente inconsciente, onde pode afectar pensamento e acção mesmo se

aparentemente se esqueceu a experiência em que a memória se baseia. Uma falsa memória é uma

memória que se baseia no ouvir dizer ou sugestão. A falsa memória difere da memória errónea.

Esta baseia-se em experiencias reais que são recordadas incorrectamente. Falsa memória são

memórias de ter experimentado algo que na realidade nunca se experimentou.

Quão fiável e correcta é a memória? Enganamo-nos muitas vezes ao pensar que nos recordamos

correctamente de algo. Estudos sobre a memória mostram que muitas vezes construimos as

nossas memórias após o facto, que somos susceptiveis a sugestões de outros que ajudam a

preencher os buracos na nossa memória de um dado evento. É por isso que um policia, ao

investigar um crime, não deve mostrar uma fotografia de um só individuo à vitima e perguntar

se esta reconhece o assaltante. Se é apresentado à vitima com uma linha de suspeitos para

identificar e ela escolhe o individuo cuja fotografia lhe tinham mostrado, não há maneira de

saber se ela se está a recordar do assaltante ou da fotografia.

Outro facto interessante sobre a memória é que estudos mostram que não há uma correlação

significativa entre o sentimento subjectivo da certeza que uma pessoa tem acerca de uma

memória e a exactidão dessa memória. Tambem, contrariamente ao que muitas pessoas pensam, a

hipnose não ajuda à exactidão da memória. Porque o sujeito é extremamente sugestionável

enquanto hipnotizado, a maioria dos países não permitem testemunhos em tribunal feitos sob

hipnose.1 É possivel criar falsas memórias nas pessoas por sugestão, mesmo memórias de vidas

anteriores que nunca foram vividas. Tavris resume o estado actual da investigação da

memória:

A mente não recorda todo o detalhe de um acontecimento, mas apenas alguns dados; preenchemos

o resto baseados no que "deve ter sido". Para um acontecimento ficar guardado a longo prazo,

uma pessoa tem de o perceber, codificar e ensaiá-lo--falar sobre ele--ou ele decai. (Isto

parece ser o mecanismo principal por trás da amnésia infantil, o facto das crianças não

desenvolverem memórias a longo prazo até cerca dos 3 anos) A pesquisa mostra tambem que

mesmo experiencias emocionais que estamos certos nunca esqueceremos--o assassinio de

Kennedy, a explosão do Challenger--tornar-se-ão vagas na memória, e os erros assaltarão o

relato do que permanece.2

Tavris tambem reconta uma história sobre Jean Piaget, o célebre picólogo infantil. Piaget

afirmava que as suas mais antigas memórias eram de ter sido quase raptado com a idade de 2

anos. Recordava detalhes como estar sentado no carro de bébé, ver a enfermeira defender-se

do raptor, arranhões na cara dela, um policia perseguindo o raptor. A história era reforçada

pela enfermeira, os pais e outros que a tinham ouvido. Piaget estava convencido que se

recordava do acontecimento. Contudo, ele nunca aconteceu. Treze anos depois da alegada

tentativa de rapto, a antiga enfermeira escreveu aos pais de Piaget a confessar que tinha

inventado toda a história. Piaget escreveu posteriormente: "Devo portanto ter ouvido,

enquanto criança, o relato desta história... e projectado-a no passado em forma de memória

visual, que era uma memória de uma memória, mas falsa." Bem falado.

Não sabemos exactamente como funciona a memória, embora haja muitos modelos explicatórios.

Alguns destes identificam a memória com funções cerebrais. Num, por exemplo, a memória

diminui com a idade porque os neurónios vão morrendo conforme vamos envelhecendo. Há apenas

três modos de vencer este facto da natureza: 1. descobrir um modo de impedir os neurónios de

morrer; 2. descobrir um modo de estimular o crescimento de novos neurónios; ou 3. fazer os

restantes neurónios trabalharem mais eficientemente. Até agora, as opções 2 e 3 são as mais

prometedoras. Contudo, alguns resultados positivos teem sido obtidos com a estimulação do

crescimento de novas células cerebrais através de implantes fetais. E o Salk Institute tem

relatado que a investigação em neurogénese tem sido encorajadora. Observaram o crescimento

de neurónios no hipocampo de ratos colocados em ambiente estimulante. Investigação

neurologica tambem obteve resultados ao fazer os neurónios trabalharem melhor usando

ampakines, compostos quimicos algumas vezes chamados "drogas de memória." Os primeiros

testes com humanos mostraram excelentes resultados, mas a amostra era demasiado pequena para

justificar alguma conclusão alem de que os estudos deviam ser continuados. Para os que

pensam que a memória é uma função de uma realidade não-fisica, tais resultados devem

provocar alguma reflexão, apesar de pensar que um modelo não-fisico da mente nunca levará a

qualquer investigação que beneficie a humanidade. Para os que postulam que a memória é uma

função cerebral, existe não só um rumo para a investigação, como a esperança de sucesso na

descoberta de algo realmente util.

Por outro lado, um dos mais questionáveis modelos de memória é o que assume que toda a

experiência de uma pessoa é "registada" na memória e que algumas das nossas memórias são

acontecimentos demasiado traumaticos para os querermos recordar. Essas terriveis memórias

são fechadas na alegada "mente inconsciente," i.e., reprimida, para só os recordarmos

emadultos quando algo faz abrir a porta para a mente inconsciente. Quer antes quer depois da

memória reprimida ser chamada, provoca desordens fisicas e mentais na pessoa.

Este modelo de memória é questionavel porque assume que alguem ter problemas a funcionar

como um adulto saudável se deve a traumas de infância reprimidos, e assume que se recordar

um trauma de infância, essa recordação é exacta. O erro não está em que as pessoas não

tenham experiências dolorosas e desagradáveis que não queiram recordar. Nem é errado afirmar

que as crianças teem experiências maravilhosas e/ou brutais para as quais não teem bases

conceptuais ou linguisticas. As crianças são muitas vezes incapazes de compreender o que

experimentam. Como adultos, podem vir a compreender o que lhes aconteceu em criança. As

crianças sofram muitas vezes abusos, reprimem essa experiencia e mais tarde na vida

recordam-na. Não há nenhum mito nisto.

Mas, não há prova de que recordamos tudo o que experimentamos. De facto, há bastantes provas

de que é impossivel guardar todos os elementos conceptuais de uma dada experiencia muito

menos recordarmos todas. Nada prova que todas as memórias de acontecimentos indiqeum que

eles tenham acontecido como recordamos ou que tenham sequer acontecido. E não há qualquer

prova de que a certeza subjectiva quanto à exactidão da memória ou o ser tão real se possa

correlacionar com a sua exactidão. Finalmente, a afirmação de uma conexão causal entre abuso

e saude ou comportamento não permite concluir que doença, mental ou fisica, seja um "sinal"

de ter sofrido abusos.

O grande proclamador deste mito da memória foi Sigmund Freud, que aparentemente sabia que

era um mito. O mito foi expandido na Dianética por L. Ron Hubbard, que aparentemente não se

importava se era ou não um mito mas que culpou todas as desordens mentais e fisicas por

experiencias pré-natais e na infância, experiencias que não podiam ser "gravadas" pela mente

consciente visto a maioria ocorrer antes do cérebro, a mente e a linguagem existirem numa

pessoa.

O mito é a base para uma série de trabalhos pseudocientificossobre abuso de crianças por

auto-proclamados especialistas como Ellen Bass, Laura Davis, Wendy Maltz, Beverly Holman,

Beverly Engel, Mary Jane Williams e E. Sue Blume.3 Através de creinforço comunal muitas

noções empiricas não apoiadas, incluindo a de que metade de todas as mulheres sofreram

abusos sexuais, são tratadas como "factos" por muitas pessoas. A psicóloga Carol Tavris

escreve

No que só pode ser chamado de arranjo incestuoso, os autores destes livros apoiam-se nos

trabalhos dos outros para apioar as suas provas; todos recomnedam ao leitor a consulta dos

livros dos outros. Se um apresentas uma estatistica montada--como "mais de metade de todas

as mulheres são sobreviventes de traumas sexuais da infância"--os numeros são trocados como

cromos e, republicados em cada livro, e posteriormente apresentados como factos. O ciclo de

desinformação, estatisticas erradas e afirmações inválidas menteem-se a si mesmo.4

Uma diferença significativa entre este grupo de especialistas e, digamos, um grupo de

fisicos, é que aqueles especialistas obtiveram o seu estatuto não por treino cientifico mas

por (a) experiencia [foram vitima de abuso ou trataram vitimas de abuso no seu trabalho

social], ou (b) escreveram um livro sobre abuso infantil. Os especialistas de abuso infantil

não são treinados em investigação cientifica, o que, nota Tavris, "não é um comentário à sua

capacidade de escrever ou fazer terapia, mas parece ser uma razão para o seu analfabetismo

cientifico."

Eis algumas das noções não provadas, não cientificas, que são usadas por estes

especialistas: (1)Se duvida de que foi vitima de abuso em criança ou pensa que pode ser a

sua imaginação, isso é um sinal de "sindroma post-incesto" [Blume]. (2) Se não consegue

recordar nenhum momento especifico em que sofreu abusos mas mesmo assim tem uma sensação

estranha de que algum abuso aconteceu, "provavelmente aconteceu" [Bass and Davis]. (3)

Quando uma pessoa não consegue recordar a sua infância ou tem recordações vagas, "o incesto

deve sempre ser considerado como uma possibilidade" [Maltz e Holman]. E, (4) "Se tem alguma

suspeita, alguma memória, por mais vaga que seja, provavelmente aconteceu. É mais provável

que esteja a bloquear essas memórias, negando que algo tenha acontecido." [Engel]

Industrias completas se montaram da histeria que inevitavelmente acompanha acusações de

abusos sexuais de crianças. Hiperzelosos acusadores contrataram hiperzelosos terapeutas para

documentarem os abusos. Terapeutas que normalmente trabalham com crianças que sofreram

abusos foram contratados para descobrir se crianças tinham sido abusadas. Parece interessar

pouco aos acusadores que o terapeuta possa assumir que a criança sofreu abusos. Mas

demasiadas vezes o terapeuta ou o acusador sugere o abuso à criança e esta não só começa a

"recordar" como começa a fantasiar para agradar ao interrogador. A criança pode não

acreditar que nenhum dos acontecimentos que narra tenha acontecido, mas voluntariamente

testemunha as mais horriveis cenas envolvendo pais, avós, professores, amigos e mesmo

estranhos. Se ela começa a acreditar que sofreu realmente os acontecimentos testemunhados

mas implantados na sua mente pelas sugestões do terapeuta ou do acusador, então ela possui

uma falsa memória. Nenhuma pessoa pode condenar um pai ou um professor com base em tal

testemunho.5

Não foram só os terapeutas que trabalham com crianças que teem sido acusados de plantar

falsas memórias de abusos. Tambem os que trabalham com adultos. Terapeutas que usam

hipnoterapia para encorajarem os seus pacientes a "recordar" a infância (ou as vidas

passadas) são especialmente vulneráveis à acusação de sugerirem falsas memórias nos seus

clientes.

Desde Março de 1992, a False Memory Syndrome (FMS) Foundation em Philadelphia reuniu mais de

2.700 casos de pais que relataram falsas acusações como resultado de "memórias" recuperadas

em terapia.6 A FMSF afirma que estes casos incluem cerca de 400 familias que foram acusadas

ou ameaçadas de acusação de abuso infantil.7 Vitimas da acusação falsa pelos seus filhos ou

outros de terem abusado sexualmente deles muitos anos antes estão a ripostar. Laura Pasley,

que trabalha para a policia de Dallas, foi a um terapeuta em 1985 tratar-se de bulimia.

Agora está a processar o terapeuta que a persuadiu que ela sofreu abusos sexuais na

infância. O terapeuta disse-lhe que ela tinha sido abusada e, quando ela se recusou a

acreditar, disse-lhe que ela realmente não se queria curar. Ela queria ficar bem "mais do

que outra coisa" e continuou com o terapeuta. Acabou por "baralhar completamente toda a

terapia" afirma ela. "8 A história dela corre actualmente os tribunais americanos.

Os perigos deste mito da memória são visiveis: não só as memórias falsas são tratadas como

reais, mas as memóris reais de abusos reais podem ser tratadas como falsas memórias,

fornecendo assim uma defesa credível a criminosos autenticos. No fim, ninguem beneficia ao

encorajar uma crença na memória que é falsa. Qualquer que seja a teoria sobre a memória que

se defenda, se não permite examinar provas e tentar de um modo independente verificar

afirmações de abusos recordados, é uma teoria em risco de provocar mais mal do que bem.

Uma variante da memória de não-experiencias é a noção de que uma pessoa pode recordar vidas

passadas. Este mito tem sido perpetuado por relatos de pessoas que, em sonhos ou sob

hipnose, recordam experiencias de pessoas que viveram em épocas passadas. Um caso tipico de

regressão a vidas passadas é o de Bridie Murphy, de quem já falámos o suficiente noutro

lugar.

Então, os relatos de memórias reprimidas devem ser recusados à partida? Claro que não! Mas

temos de tentar corroborar tais memórias com provas e testemunhos independentes antes de

tirar conclusões sobre esses factos, especialmente se abusos ou crimes. Tais relatos devem

ser tomados seriamente e examinados criticamente, dando-lhes toda a atenção e estudo que

devemos dar a qualquer alegação de crime. Mas não devemos apressar o julgamento, quer sobre

a exactidão das memórias quer sobre a relação causal entre experiências passadas e problemas

actuais. Memórias reprimidas durante anos que são subitamente recordadas não devem ser

automaticamente rejeitadas como falsas. Nem devem ser automaticamente aceites como

verdadeiras. Em termos de verificação da sua exactidão, estas memórias devem ser tratadas do

mesmo modo que qualquer outro tipo de memória.

Ver: Bridie Murphy, dianética, hipnose, mente, reincarnação.

Notas

1. Ver Elizabeth Loftus, Eyewitness Testimony, Harvard University Press, 1980. Ver tambem

artigos no Skeptical Inquirer, Vol. XII No. 2, Inverno 1987-88: "The Power of Suggestion on

memória" por Robert A. Baker e "Fantasizing Under Hypnosis: Some Experimental Evidence" por

Peter J. Reveen. Três testemunhas de um assalto armado ensaiado foram hipnotizados por

Reveen. Os seus relatos eram bastante detalhados mas nenhum concordava com o outro e nenhum

se aproximava sequer dos factos reais que narrava.
2. Carol Tavris, "Hysteria and the incest-survivor machine," Sacramento Bee, Forum, 17

Janeiro 1993, p. 1. Tavris é o autor de várias obras de psicologia, incluindo The Mismeasure

of Woman (New York: Simon & Schuster, 1992). Tambem editor de Every Woman's Emotional

Well-being (Garden City, N.Y. : Doubleday, 1986).
3. ibid.
4. ibid.
5. Sim, aconteceu. Numa versão moderna das bruxas de Salem, o caso da escola McMartin

exemplifica o pior na justiça institucional na caça de molestadores de crianças. Ver Mary

Ann Mason, "The McMartin case revisited: the conflict between social work and criminal

justice," [na avaliação da credibilidade de crianças como testemunhas de casos de abuso

sexual] Social Work, v. 36, no. 5 (Set, 1991), pp. 391-396, e Marion Zenn Goldberg, "Child

witnesses: lessons learned from the McMartin trials," Trial, v. 26, no. 10 (Out, 1990), pp.

86-88. Ver tambem Richard Lacayo, "The longest mistrial; the McMartin Pre-School case ends

at last," Time (6 Agosto 1990), p. 28; Frank McConnell, "The trials of television: the

McMartin case," Commonweal (23 Março 1990), pp. 189-190; Douglas J. Besharov, "Protecting

the innocent," National Review (19 Fev 1990), pp. 44-46; Margaret Carlson, "Six years of

trial by torture: children, defendants, jurors and judge were all abused in the wasteful

McMartin case," Time (29 Jan 1990), pp. 26-28; e "The child-abuse trial that left a national

legacy," U.S. News & World Report (29 Jan 1990), p. 8.
6. "`Trauma searches' plant the seed of imagined misery," Joseph de Rivera, The Sacramento

Bee, 18 Maio 1993. De Rivera é um professor de psicologia na Universidade de Clark em

Worcester, Massachusetts, e consultor da False Memory Syndrome Foundation.
7. The Sacramento Bee,18 Março 1993, p. B4. O artigo, "Represed-memory lawsuits spur

backlash from accused," por Claire Cooper descreve a batalha legal em que filho e filha

processam os pais que processam os filhos e os terapeutas dos filhos.
8. ibid.

Links

* False Memory Syndrome Foundation WWW Page
* Recovered Memories or Modern Witch Hunt? by Douglas E. Hill
* Information on Paul Ingram case (of Olympia, Washington)
* Recovered Memory Therapy and False memória Syndrome by John Hochman, M.D.
* Clinicans' Experiences Regarding Recovery of Sexual Abuse Memories
* Witchhunt Information Page
* Streetmap of the Mind
* Neurosciences on the Internet
* Journals from Cold Spring Harbor Laboratory Press on Learning and Memory
* Recovered Memories of Sexual Abuse: Scientific Research & Scholarly Resources by Jim

Hopper, M.A.
* Newton's Apple: Memory for kids of all ages!

Baker, Robert A. Hidden Memories: Voices and Visions From Within (Buffalo, N.Y. : Prometheus

Books, 1992.)

Loftus, Elizabeth F. Memory, Surprising New Insights Into How We Remember and Why We Forget

(Reading, Mass.: Addison-Wesley Pub. Co., 1980).

Loftus, Elizabeth F. Eyewitness Testimony (Cambridge, Mass.: Harvard University Press,

1979).

Loftus, Elizabeth F. and James M.Doyle. Eyewitness Testimony: Civil and Criminal (New York,

N.Y.: Kluwer Law Book Publishers, 1987).

Loftus, Elizabeth and Katherine Ketcham. Witness for the Defense : The Accused, the

Eyewitness, and the Expert Who Puts Memory on Trial (New York: St. Martin's Press, 1991).

Loftus, Elizabeth. The Myth of Repressed Memory (New York: St. Martin's, 1994).

Ofshe, Richard and Ethan Watters. Making Monsters: False Memories, Psychotherapy, and Sexual

Hysteria (New York: Scribner's, 1994).

Schacter, Daniel L. Searching for Memory - the brain, the mind, and the past (New York:

Basic Books, 1996).

Wakefield, Hollida and Ralph Underwager. Return of the Furies - An Investigation into

Recovered Memory Therapy (Peru, Illinois: Open Court Publishing Co., 1994).




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FALSA MEMÓRIA

FALSA MEMÓRIA

Em 1986, Nadean Cool, uma ajudante de enfermagem em Wisconsin, procurou ajuda terapêutica de

um psiquiatra para auxiliá-la a superar um evento traumático experimentado pela sua filha.

Durante a terapia, o psiquiatra usou hipnose e outras técnicas sugestivas para trazer à tona

recordações de abuso que Cool supostamente teria experimentado. No processo, Cool foi

convencida de que ela tinha memórias reprimidas de ter estado em um culto satânico, de comer

os bebês, de ser estuprada, de ter sexo com animais e de ser forçada a assistir o

assassinato da sua amiga de oito anos. Ela chegou a acreditar que teve mais de 120

personalidades - crianças, adultos, anjos e até mesmo um pato - tudo isso porque lhe foi

dito que ela havia passado por severo abuso sexual e físico na infância. O psiquiatra também

executou exorcismos nela, um dos quais durou cinco horas e incluiu o uso de água benta e

gritos para Satanás deixar o seu corpo.

Quando Cool percebeu finalmente que aquelas falsas recordações foram implantadas, ela

processou o psiquiatra por negligência profissional. Depois de cinco semanas de julgamento,

o caso dela foi resolvido fora do tribunal por 2,4 milhões de dólares em março de 1997.

Nadean Cool não é a única paciente a desenvolver falsas recordações como resultado de uma

terapia questionável. Em 1992 no Missouri, um conselheiro de igreja ajudou Beth Rutherford a

se lembrar, durante terapia, que o seu pai, um clérigo, a tinha estuprado regularmente dos

sete aos catorze anos e que a sua mãe às vezes o ajudava segurando-a. Sob a direção do

terapeuta, Rutherford desenvolveu recordações de seu pai engravidando-a duas vezes e

forçando-a a abortar o feto ela mesma com um cabide. O pai teve que resignar do posto de

clérigo quando as alegações se tornaram públicas. Mais tarde um exame médico da filha

revelou, porém, que ela ainda era virgem aos 22 anos e nunca tinha estado grávida. A filha

processou o terapeuta e recebeu 1 milhão de dólares de indenização em 1996.

Aproximadamente um ano antes, dois júris apresentaram vereditos desfavoráveis a um

psiquiatra de Minnesota, o qual foi acusado de implantar falsas recordações pelos seus

ex-pacientes Vynnette Hamanne e Elizabeth Carlson que submetidos à hipnose e ao amytal

sódico1, e depois de serem mal informados sobre os funcionamentos da memória, vieram a se

lembrar de horroroso abuso por membros da família. Os jurados compensaram Hammane com 2,67

milhões e Carlson com 2,5 milhões de dólares pelos seus sofrimentos.

Em todos os quatro casos, as mulheres desenvolveram recordações sobre abuso infantil na

terapia e posteriormente negaram a sua autenticidade. Como nós podemos determinar se

recordações de abuso infantil são verdadeiras ou falsas? Sem corroboração, é muito difícil

de diferenciar entre falsas e verdadeiras recordações. Também, nestes casos, algumas

recordações eram contrárias à evidência física, como memórias explícitas e detalhadas de

estupro e aborto quando o exame médico confirmava virgindade. Como é possível as pessoas

adquirirem falsas recordações tão elaboradas e seguras? Um número crescente de investigações

demonstra que sob circunstâncias adequadas falsas recordações podem ser instiladas muito

facilmente em algumas pessoas.

Minha própria pesquisa em distorção de memória remonta ao início dos anos 70, quando iniciei

os estudos do "efeito da informação incorreta". Estes estudos mostram que quando as pessoas

que testemunham um evento são posteriormente expostas a informação nova e enganosa sobre

ele, as suas recordações freqüentemente se tornam distorcidas. Em um exemplo, participantes

viram um acidente de automóvel simulado em um cruzamento com um sinal de Pare. Depois do

ocorrido, metade dos participantes recebeu uma sugestão de que o sinal de tráfego era um

sinal de passagem preferencial. Quando perguntados posteriormente que sinal de tráfego eles

se lembravam de ter visto no cruzamento, os que haviam sido sugestionados tendiam a afirmar

que tinham visto um sinal de passagem preferencial. Aqueles que não tinham recebido a falsa

informação eram muito mais precisos na lembrança do sinal de tráfego.

Meus estudantes e eu administramos até agora mais de 200 experiências envolvendo mais de

20.000 indivíduos que documentam como a exposição à informação enganosa induz à distorção de

memória. Nestes estudos, pessoas "recordaram" um celeiro digno de nota numa cena bucólica

que não continha nenhum edifício; vidro quebrado e gravadores de fita que não estavam nas

cenas que viram; um veículo branco em vez de azul na cena de um crime; e Minnie Mouse quando

eles na verdade viram Mickey Mouse. Considerados em conjunto, estes estudos mostram que a

informação enganosa pode mudar a memória de um indivíduo de um modo previsível e às vezes

muito poderoso.

A informação enganosa tem o potencial de invadir nossas recordações quando falamos com

outras pessoas, quando somos interrogados sugestivamente ou quando lemos ou vemos a

cobertura da mídia sobre algum evento que podemos ter experienciado nós mesmos. Depois de

mais de duas décadas explorando o poder da informação enganosa, pesquisadores aprenderam

muita coisa sobre as condições que fazem as pessoas suscetíveis à modificação da memória. As

recordações são mais facilmente modificadas, por exemplo, quando a passagem de tempo permite

o enfraquecimento da memória original.

Falsas Memórias Infantis

Uma coisa é mudar um detalhe ou dois numa memória intacta mas outra totalmente diferente é

implantar uma falsa memória de um evento que nunca aconteceu. Para estudar a falsa memória,

eu e meus estudantes tivemos de achar um modo de implantar uma pseudomemória que não

causasse nos nossos participantes tensão emocional imprópria, tanto no processo de criá-la

quanto na revelação de que eles tinham sido enganados intencionalmente. Nós quisemos ainda

tentar implantar uma memória que seria pelo menos ligeiramente traumática se a experiência

tivesse ocorrido de fato.

Eu e minha parceira de pesquisa, Jacqueline E. Pickrell, concordamos em tentar implantar uma

memória específica de estar perdido em um shopping center ou em uma grande loja de

departamentos ao redor dos cinco anos. Aqui está como fizemos isto. Nós perguntamos para

nossos participantes, 24 indivíduos dos 18 aos 53 anos, para tentarem se lembrar de eventos

de infância que tinham sido contados a nós por um pai, um irmão mais velho ou outro parente

próximo. Nós preparamos uma brochura para cada participante contendo estórias de um

parágrafo sobre três eventos que haviam acontecido de fato a ele ou a ela e um que não

havia. Nós construímos o falso evento sobre um possível passeio ao shopping usando

informação provida por um parente, o qual verificou também se o participante não havia

estado, de fato, perdido aos cinco anos. O enredo de "perdido no shopping" incluiu os

seguintes elementos: perdido durante um período prolongado, choro, ajuda e consolo por uma

mulher idosa e, finalmente, a reunião com a família.Depois de ler cada história da brochura,

os participantes escreveram sobre o que eles se lembravam do evento. Se eles não se

lembrassem dele, eram instruídos a escrever, "eu não me lembro disto". Em duas entrevistas

seguidas, nós falamos aos participantes que estávamos interessados em examinar o quanto de

detalhe que eles podiam se lembrar e comparar as recordações deles com as dos seus parentes.

Os parágrafos sobre o evento não foram lidos literalmente a eles, em vez disso foram

fornecidos trechos para sugerir a lembrança. Os participantes recordaram aproximadamente 49

dos 72 eventos verdadeiros (68 %) logo depois da leitura inicial da brochura e também em

cada uma das duas entrevistas seguidas. Depois de lerem a brochura, sete dos 24

participantes (29 %) lembraram-se tanto parcialmente como totalmente do falso evento

construído para eles, e nas duas entrevistas seguidas seis participantes (25 %) continuaram

afirmando que eles se lembravam do evento fictício. Estatisticamente, havia algumas

diferenças entre as verdadeiras e as falsas recordações: participantes usaram mais palavras

para descrever as verdadeiras recordações, e eles avaliaram as verdadeiras recordações como

estando um pouco mais claras. Mas se um espectador fosse observar muitos de nossos

participantes descreverem um evento, seria realmente difícil para ele dizer se a estória era

uma recordação verdadeira ou falsa. Claro que, estar perdido, por mais assustador, não é o

mesmo que ser molestado. Mas o estudo de "perdido no shopping" não é sobre experiências

reais de estar perdido; é sobre implantar falsas memórias de estar perdido. O modelo mostra

um modo de instalar falsas recordações e dá um passo em direção ao entendimento de como isto

poderia acontecer no mundo real. Além disso, o estudo fornece evidência de que as pessoas

podem ser conduzidas a se lembrarem do seu passado de modos diferentes, e elas podem até

mesmo serem persuadidas a se "lembrar" de eventos completos que nunca aconteceram.

Estudos em outros laboratórios usando um procedimento experimental semelhante produziram

resultados semelhantes. Por exemplo, Ira Hyman, Troy H. Husband e F. James Billing da

Western Washington University pediram para estudantes de faculdade que recordassem

experiências de infância que haviam sido contadas pelos seus pais. Os pesquisadores disseram

aos estudantes que o estudo era a respeito de como as pessoas se lembram das mesmas

experiências de modo diferente. Além de eventos reais reportados pelos pais, foi dado a cada

participante um evento falso, seja uma hospitalização à noite devido a uma febre alta e a

uma possível infecção de ouvido, ou uma festa de aniversário com pizza e palhaço que

supostamente aconteceram aos cinco anos. Os pais confirmaram que nenhum desses eventos

ocorreu de verdade.Hyman descobriu que os estudantes recordaram completa ou parcialmente 84

% dos eventos verdadeiros na primeira entrevista e 88 % na segunda entrevista. Nenhum dos

participantes recordou o evento falso durante a primeira entrevista, mas 20 % disseram na

segunda entrevista que se lembravam de algo sobre o evento falso. Um participante que foi

exposto à história da hospitalização de emergência mais tarde se lembrou de um médico, de

uma enfermeira e de um amigo da igreja que veio visitá-lo no hospital. Em um outro estudo,

Hyman apresentou junto com eventos verdadeiros, diferentes eventos falsos, como derramar

acidentalmente uma tigela de ponche nos pais da noiva numa recepção de casamento ou ter que

abandonar um supermercado quando o sistema de irrigação contra fogo ativou-se

acidentalmente. Novamente, nenhum dos participantes recordou o falso evento durante a

primeira entrevista, mas 18 % se lembraram de algo a respeito na segunda entrevista. Por

exemplo, durante a primeira entrevista, um participante, quando perguntado a respeito do

casamento fictício, declarou, "eu não tenho nenhuma idéia. Eu nunca ouvi isso antes". Na

segunda entrevista, o participante disse, "era um casamento ao ar livre, e eu acho que

estávamos correndo e derrubamos alguma coisa como uma tigela de ponche ou algo parecido e

fizemos uma grande bagunça e, é claro, fomos repreendidos por isto."
Inflação da Imaginação

A descoberta de que uma sugestão externa pode conduzir à construção de falsas recordações

infantis nos ajuda a entender o processo pelo qual as falsas recordações surgem. É natural

querer saber se esta pesquisa é aplicável em situações reais como a de ser interrogado por

um oficial da lei ou na psicoterapia. Embora uma sugestão enfática pode não acontecer

habitualmente em um interrogatório policial ou na terapia, a sugestão na forma de um

exercício imagético às vezes o faz. Por exemplo, quando tentando obter uma confissão,

oficiais da lei podem pedir para um suspeito que imagine ter participado de um ato

criminoso, e alguns profissionais de saúde mental encorajam os pacientes a imaginar eventos

infantis como um modo de recuperar memórias supostamente escondidas.
Pesquisas de psicólogos clínicos revelam que 11 % deles instruem seus clientes "a deixarem a

imaginação correr solta" e 22 % dizem para seus clientes "dar rédea livre à imaginação". A

terapeuta Wendy Maltz, autora de um livro popular sobre abuso sexual infantil, defende que

se dê a seguinte recomendação ao paciente: "Gaste tempo imaginando que você foi abusado

sexualmente, sem se preocupar que a exatidão prove qualquer coisa, ou ter que fazer suas

idéias terem sentido....Pergunte a si mesmo...estas questões: Que hora do dia é agora? Onde

você está? Em um lugar fechado ou ao ar livre? Que coisas estão acontecendo? Há uma ou mais

pessoas com você?" Maltz adicionalmente recomenda que os terapeutas continuem fazendo

perguntas como "Quem teria sido o provável responsável? Quando você foi mais vulnerável ao

abuso sexual em sua vida?"

O uso crescente de tais exercícios de imaginação conduziu a mim e a vários colegas a se

perguntarem sobre as suas conseqüências. O que acontece quando as pessoas imaginam

experiências infantis que não aconteceram? Imaginar um acontecimento na infância aumenta a

convicção de que realmente aconteceu? Para explorar isto, nós projetamos um procedimento de

três fases. Nós primeiro pedimos aos participantes que indicassem a probabilidade de que

certos eventos aconteceram a eles durante a infância. A lista contém 40 eventos, cada um

classificado numa escala variando de "definitivamente não aconteceu" a "sem dúvida

aconteceu". Duas semanas mais tarde nós pedimos aos participantes que imaginassem que haviam

experienciado alguns destes eventos. Foi pedido a diferentes indivíduos que imaginassem

diferentes eventos. Algum tempo depois foi pedido aos participantes que respondessem à lista

original de 40 eventos infantis novamente, indicando quão provável estes eventos realmente

aconteceram a eles. Considere um dos exercícios de imaginação: é dito aos participantes que

imaginem brincar dentro de casa depois da escola, ouvindo então um ruído estranho do lado de

fora, correndo para a janela, tropeçando, caindo, e alcançando e quebrando a janela com as

suas mãos. Além disso, nós perguntamos aos participantes coisas como "No que você tropeçou?

Como você se sentia?" Em um estudo 24 % dos participantes que imaginaram a cena da janela

quebrada relataram mais tarde um aumento de confiança de que o evento havia acontecido,

enquanto que aqueles aos quais não foi pedido imaginar o incidente apenas 12 % relataram um

aumento na probabilidade de que havia ocorrido. Nós descobrimos este efeito da "inflação da

imaginação" em cada um dos oito eventos que os participantes imaginaram a nosso pedido.

Várias explicações possíveis vêm à mente. Uma óbvia é de que o ato de imaginar simplesmente

faz o evento parecer mais familiar e essa familiaridade é relacionada erroneamente às

recordações de infância ao invés de ser relacionada ao ato de imaginar. Tal confusão de

fonte, quando uma pessoa não se lembra da fonte de informação, pode ser especialmente

intensa para as distantes experiências da infância.

Os estudos de Lyn Giff e de Henry L. Roediger III da Universidade de Washington sobre

recente experiências ao invés de experiências infantis, conectam de forma mais direta as

ações imaginadas à construção da falsa memória. Durante a sessão inicial, os pesquisadores

instruíram os participantes a imaginar a ação proposta ou apenas escutá-la sem fazer mais

nada. As ações eram simples: bata na mesa, erga o grampeador, quebre um palito, cruze seus

dedos, e rode seus olhos. Durante a segunda sessão, foi pedido aos participantes que

imaginassem algumas das ações que eles não haviam executado anteriormente. Durante a sessão

final, eles responderam perguntas sobre quais ações eles executaram de fato durante a sessão

inicial. Os pesquisadores descobriram que quanto mais os participantes imaginavam uma ação

não executada, mais provável era que eles se lembrassem de tê-la executado.

Recordações Impossíveis

É altamente improvável que um adulto possa se recordar de lembranças incidentais verdadeiras

do primeiro ano de vida, em parte porque o hipocampo, que desempenha um importante papel na

criação de recordações, não amadureceu o bastante para formar e armazenar recordações

duradouras que possam ser recuperadas na fase adulta.
Um procedimento para implantar "recordações impossíveis" sobre experiências que ocorrem logo

após o nascimento foi desenvolvido pelo falecido Nicholas Spanos e seus colegas da

Universidade de Carleton. Pessoas foram levadas a acreditar que elas tinham habilidades de

exploração visual e de movimento ocular bastante coordenados provavelmente porque elas

nasceram em hospitais que penduravam coloridos mobiles oscilantes em cima dos berços das

crianças. Para confirmar se eles tiveram tal experiência, metade dos participantes foi

submetida à hipnose e conduzida até o dia posterior ao nascimento e então foram questionadas

sobre o que elas se lembravam. A outra metade do grupo participou de um procedimento de

"reestruturação mnemônica dirigida" que usou regressão de idade assim como um vívido

encorajamento para se recriar as experiências infantis imaginando-as. Spanos e seus colegas

de trabalho descobriram que a vasta maioria dos participantes era suscetível a estes

procedimentos de implante de memória. Tanto os participantes hipnóticos quanto os dirigidos

relataram recordações infantis. Surpreendentemente, o grupo dirigido recordou um pouco mais

(95 % contra 70 %). Ambos os grupos se lembravam do móbile colorido numa taxa relativamente

alta (56 % do grupo dirigido e 46 % do hipnótico). Muitos participantes que não se lembravam

do móbile, se recordavam de outras coisas, como médicos, enfermeiras, luzes brilhantes,

berços e máscaras. Também, em ambos os grupos, daqueles que relataram recordações de

infância, 49 % sentiam que as recordações eram reais contra 16 % que reivindicavam que elas

eram apenas fantasias. Estas descobertas confirmam estudos prévios de que muitas pessoas

podem ser levadas a construir falsas recordações complexas, vívidas e detalhadas por meio de

um procedimento bastante simples. A hipnose claramente não é necessária.

Como as Falsas Memórias se Formam

No estudo de perdido-no-shopping, a implantação da falsa memória aconteceu quando outra

pessoa, normalmente um membro da familia, afirmou que o incidente aconteceu. A corroboração

de um evento por uma outra pessoa pode ser uma técnica poderosa para induzir a uma falsa

memória. De fato, só de afirmar ter visto uma pessoa fazendo algo errado já é o suficiente

para conduzí-la a uma falsa confissão.

Este efeito foi demonstrado em um estudo de Saul M. Kassin e seus colegas da Williams

College que investigaram as reações de indivíduos acusados falsamente de danificar um

computador apertando a tecla errada. Os participantes inocentes inicialmente negaram a

acusação, mas quando uma pessoa associada ao experimento disse que havia visto eles

executarem a ação, muitos participantes assinaram uma confissão, absorveram a culpa pelo ato

e continuaram a confabular detalhes que fossem consistentes com aquela convicção. Estas

descobertas mostram que uma falsa evidência incriminatória pode induzir as pessoas a

aceitarem a culpa por um crime que não cometeram e até mesmo a desenvolver recordações para

apoiar os seus sentimentos de culpa.

As pesquisas estão começando a nos dar uma compreensão de como falsas recordações de

experiências emocionalmente envolventes e completas são criadas em adultos. Primeiro, há uma

exigência social para que os indivíduos se lembrem; por exemplo, num estudo para trazer à

tona as recordações, os pesquisadores costumam exercer um pouco de pressão nos

participantes. Segundo, a construção de memórias pelo processo de imaginar os eventos pode

ser explicitamente encorajada quando as pessoas estão tendo dificuldades em se lembrar. E,

finalmente, os indivíduos podem ser encorajados a não pensar se as suas construções são

reais ou não. A elaboração de falsas recordações é mais provável de acontecer quando estes

fatores externos estão presentes, seja num ambiente experimental, terapêutico, ou durante as

atividades cotidianas.

Falsas recordações são construídas combinando-se recordações verdadeiras com o conteúdo das

sugestões recebidas de outros. Durante o processo, os indivíduos podem esquecer a fonte da

informação. Este é um exemplo clássico de confusão sobre a origem da informação na qual o

conteúdo e a proveniência da informação estão dissociados.

Está claro que não é porque nós podemos implantar falsas recordações de infância em alguns

indivíduos que todas as recordações que surgirem após a sugestão serão necessariamente

falsas. Dizendo de outro modo, embora o trabalho experimental na criação de falsas

recordações pode levantar dúvidas sobre a validade de recordações remotas, como um trauma

recorrente, de nenhuma maneira os desmentem. Sem corroboração, há muito pouco que possa ser

feito para ajudar até mesmo o mais experiente observador a diferenciar as verdadeiras

recordações daquelas que foram sugestivamente implantadas.

Os mecanismos precisos pelos quais esses tipos de falsas memórias são construídos aguardam

por novas pesquisas. Nós ainda temos muito a aprender sobre o grau de confiança e as

características das falsas memórias criadas desta maneira, e nós precisamos descobrir que

tipos de indivíduos são particularmente suscetíveis a estas formas de sugestão e que tipos

são resistentes.

Enquanto continuamos este trabalho, é importante prestar atenção à advertência contida nos

dados já obtidos: profissionais de saúde mental e outros devem estar atentos de quão

enormemente eles podem influenciar a lembrança de eventos e da urgente necessidade de se

manter a moderação em situações nas quais a imaginação é usada como um auxílio para

recuperar memórias presumivelmente perdidas.

***

Artigo publicado na Scientific American, em setembro de 1997, vol 277 #3 páginas 70-75..

ELIZABETH F. LOFTUS é professora de psicologia e professora auxiliar de Direito na

Universidade de Washington. Ela recebeu o Ph.D em psicologia da Universidade de Stanford em

1970. Sua pesquisa concentra-se em memória humana, depoimento de testemunha ocular e

procedimentos de Tribunal. Loftus publicou 18 livros e mais de 250 artigos científicos e

serviu como especialista ou assessora em testemunhas em centenas de julgamentos, inclusive

no caso de molestamento na pré-escola McMartin2. Seu livro Eyewitness Testimony ganhou o

National Media Award da Fundação Psicológica Americana. Ela recebeu doutorados honorários da

Universidade de Miami, Universidade de Leiden e da Faculdade John Jay de Justiça Criminal.

Loftus foi eleita presidenta da Sociedade Psicológica Americana recentemente.

Notas

1 - Barbitúrico usado como sedativo e hipnótico. Vulgarmente conhecido como 'soro da

verdade'. (N.T.) Voltar

2 - Processo sobre abuso sexual na Califórnia que durou seis anos e custou 15 milhões de

dólares ao Estado. Em agosto de 1983, Judy Johnson denunciou que seu filho havia sido

molestado na pré-escola McMartin. Devido à falta de evidência não houve processo.

Entretanto, o delegado da polícia de Manhattan Beach fez circular uma carta aos pais dos

estudantes da pré-escola McMartin mencionando um possível abuso sexual. Criou-se um pânico

generalizado e a mídia se encarregou de espalhar o boato. Centenas de crianças foram

entrevistadas e 360 foram diagnosticadas como tendo sofrido abuso. O exame médico foi

realizado em 150 crianças e apesar da falta de evidência física, o médico concluiu que 120

delas haviam sido molestadas. Outras escolas da área e até uma igreja foram envolvidas numa

suposta quadrilha de abuso infantil. Professores foram acusados de abuso sexual e de

praticar rituais satânicos. Entre as inúmeras acusações estavam a de terem forçado as

crianças a participarem de filmes e fotos pornográficos, de terem matado e mutilado animais

para intimidar as crianças, de as terem forçado a participar de rituais satânicos e a beber

o sangue de bebês que haviam sido mortos, de as terem forçado a entrar em caixões e de

enterrá-las, e outras ainda mais bizarras. A polícia investigou 10 escolas e uma igreja e

não encontrou nenhuma evidência concreta. Judy Johnson foi posteriormente diagnosticada como

esquizofrênica e acabou morrendo em casa de problemas no fígado relacionados ao excesso de

álcool antes do início do julgamento. A informação sobre o seu estado mental foi escondida

da defesa. Após um longo e extenuante processo, em 1990 os acusados foram considerados

inocentes, e a promotoria desistiu de novas acusações. Qualquer semelhança entre este caso e

o ocorrido em São Paulo na Escola Base não é mera coincidência. Guardada as devidas

proporções, os dois casos foram uma combinação sinergética entre uma imprensa irresponsável,

uma polícia ineficiente, e médicos e terapeutas incompetentes. (N.T.) Voltar

Leitura Complementar

THE MYTH OF REPRESSED MEMORY. Elizabeth F Loftus and Katherine Ketcham. St. Martin's Press,

1994.

THE SOCIAL PSYCHOLOGY OF FALSE CONFESSIONS: COMPLIANCE, INTER NALIZATION, AND CONFABULATION.

Saul M. Kassin and Katherine L. Kiechel in Psychological Science, Vol. 7, NO. 3, pages

12S-128; May 1996.

IMAGINATION INFLATION: IMAGINING A CHILDHOOD EVENT INFLATES CONFIDENCE THAT IT OCCURRED.

Maryanne Carry, Charles G. Manning, Elizabeth F. Loftus and Steven J. Sherman in Psychonomic

Bulletin and Review, Vol. 3, NO. 2, pages 208-214; June 1996.

REMEMBERING OUR PAST: STUDIES IN AUTOBIOGRAPHICAL MEMORY. Edited by David C. Rubin.

Cambridge University Press, 1996.

SEARCHING FOR MEMORY: THE BRAIN, THE MIND, AND THE PAST. Daniel L. Schacter. BasicBooks,

1996.

False Memory Syndrome Foundation

http://directory.google.com/Top/Society/People/Men/Issues/Equality/Men%27s_Rights/Law/False_

Accusations/False_Memory_Syndrome

Referência

# http://www.skepdic.com/falsememory.html





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REALISMO

REALISMO

Tomei a liberdade de traçar um "guia" para aqueles que pretendem estudar Filosofia,

dividindo nosso estudo da Evolução do Pensamento Filosófico, nas duas correntes do

pensamento, que são, segundo a Teoria do Conhecimento: REALISMO e IDEALISMO.Estudaremos

primeiro, tudo que diz respeito ao Realismo, só então passando ao Idealismo.( para os que se

interessarem: Bom proveito! Abçs, Ideny.)




A- REALISMO-
Durante a Idade Média, três soluções para o problema dos universais e dos particulares foram

propostas: o realismo, o conceitualismo e o nominalismo.
(O universal é um conceito, idéia ou essência comum a todas as coisas que indicamos pelo

mesmo nome).
Nominalismo
Nos séculos XI e XII, o nominalismo surgiu como uma possível solução à questão: o universal

(conceito, idéia ou essência comum a todas as coisas que indicamos pelo mesmo nome): é algo

de real ou não será antes um ato simples de nossa mente expresso por um nome? Os conceitos

são realidade (res) ou palavras (voces)? ( ou seja, os conceitos correspondem à realidade?

Ou são “produtos” do que “sentimos”?)ideny
Três soluções fundamentais desse problema são: o realismo, o conceitualismo e o nominalismo.
• Para o nominalismo o universal é um puro nome, um flatus vocis (pura emissão fonética).
• Para o realismo os universais existem objetivamente, seja na forma realidades em si,

transcendentes em relação aos particulares (como em Platão, universais ante rem), ou como

imanentes encontrados nas coisas individuais (como para Aristóteles, universidade in re).
• Para o conceitualismo, os universais são apenas conteúdos de nossa mente, inteligíveis ou

conceitos, representações do intelecto que as deriva das coisas (universalia post rem) e

dessas guarda alguma semelhança.
A questão dos universais, inicialmente lógico-gramatical, estendeu-se para os problemas

teológicos e metafísicos, atingindo o conjunto de dogmas da igreja cristã. Por exemplo, João

Roscelino (falecido em 1120), mestre de Abelardo, com seu nominalismo coloca em dúvida o

dogma trinitário de deus: a única substância divina não passa de um nome, as três pessoas

(Pai, Filho e Espírito Santo) são três substâncias diversas, indicadas por um nome comum.

Assim surgiu a heresia do triteísmo, condenada em 1092 pelo Concílio de Reims, no qual

muitos temiam pelas verdades da fé.
Abelardo foi um dos principais promotores da lógica até o século XIII. Sua obra "Dialética"

libertava a lógica da metafísica dando-lhe autonomia.
O ambiente das discussões lógicas e gramaticais ao final da Idade Média foi reconstruído por

Umberto Eco em seu romance intitulado O Nome da Rosa.
Realismo na literatura
Motivados pelas teorias científicas e filosóficas da época, os escritores realistas

desejavam retratar o homem e a sociedade em sua totalidade. Não bastava mostrar a face

sonhadora e idealizada da vida como fizeram os românticos; era preciso mostrar a face nunca

antes revelada: a do cotidiano massacrante, do amor adúltero, da falsidade e do egoísmo

humano, da impotência do homem comum diante dos poderosos.
Uma característica comum ao Realismo é o seu forte poder de crítica, porém sem

subjetividade. Grandes escritores realistas descrevem o que está errado de forma natural.

Por exemplo, se um autor deseja criticar a postura da Igreja católica, não escreverá um

soneto anti-cristão como no Romantismo, porém escreverá histórias que envolvam a Igreja

Católica de forma a inserir nessas histórias o que eles julgam ser a Igreja Católica e como

as pessoas reagem a ela. Em lugar do egocentrismo romântico, verifica-se um enorme interesse

de descrever, analisar e até em criticar a realidade. A visão subjetiva e parcial da

realidade é substituida pela visão que procura ser objetiva, fiel, sem distorções. Em lugar

de fugir à realidade, os realistas procuram apontar falhas como forma de estimular a mudança

das instituições e dos comportamentos humanos. Em lugar de heróis, surgem pessoas comuns,

cheias de problemas e limitações. Na Europa, o realismo teve início com a publicação do

romance realista Madame Bovary(1857) de Gustav Flauber.

Principais correntes da época
I• POSITIVISMO
II• DETERMINISMO
II• DARWINISMO


O Positivismo é uma corrente sociológica cujo precursor foi o francês Auguste Comte

(1789-1857). Surgiu como desenvolvimento sociológico do Iluminismo e das crises social e

moral do fim da Idade Média e do nascimento da socidade industrial. Propõe à existência

humana valores completamente humanos, afastando radicalmente teologia ou metafísica. Assim,

o Positivismo - na versão comteana, pelo menos - associa uma interpretação das ciências e

uma classificação do conhecimento a uma ética humana, desenvolvida na segunda fase da

carreira de Comte.

Todavia, é importante enfatizar que a palavra "Positivismo" não é unívoca, pois há correntes

de outras disciplinas que se consideram "positivistas" sem guardar nenhuma relação com a

obra de Comte. Exemplo paradigmático disso é o Positivismo Jurídico, com o austríaco Hans

Kelsen, e o Positivismo Lógico (ou Círculo de Viena), de Rudolph Carnap e seus associados.

O Positivismo teve grande repercussão na segunda metade do século XIX, mas perdeu influência

no século XX para outras correntes de pensamento.
História do realismo na arte
O Realismo fundou uma Escola artística que surge no séc. XIX em reação ao ROMANTISMOe se

desenvolve baseada na observação da realidade , na razão, e na ciência. Além de uma oposição

a um realismo fotográfico.
O Realismo é um movimento artístico surgido na França, e cuja influência se estendeu a

numerosos países europeus. Esta corrente aparece no momento em que ocorrem as primeiras

lutas sociais, sendo também objecto de acção contra o capitalismo progressivamente mais

dominador. Das influências intelectuais que mais ajudaram no sucesso do Realismo denota-se a

reacção contra as excentricidades românticas e contra as suas falsas idealizações da paixão

amorosa, bem como um crescente respeito pelo facto empiricamente averiguado, pelas ciências

exactas e experimentais e pelo progresso técnico. A passagem do Romantismo para o Realismo,

corresponde uma mudança do belo e ideal para o real e objectivo.

Realismo nas artes plásticas
Artistas do realismo
• Édouard Manet
• Gustave Courbet
• Honoré Daumier
• Jean-Baptiste Camille Corot
• Jean-François Millet
• Théodore Rousseau

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COMPARAÇÃO COM O ROMANTISMO

REALISMO
Distanciamento do narrador
Valoriza o que se é
Crítica direta
Objetividade
Textos, às vezes, sem censura
Imagens sem fantasias, reais
Aversão ao Amor platônico
Mistura de épico e lírico nos textos
Cosmopolita

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ROMANTISMO
Narrador em primeira pessoa
Valoriza o que se idealiza e sente
Crítica indireta
Sentimentos à flor da pele
Textos geralmente respeitosos
Imagens fantasiadas, perfeitas
Amores platônicos
Separação de épico e lírico nos textos
Ufanista/Nacionalista

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FALANDO UM POUCO SOBRE O ROMANTISMO-
Romantismo
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
O Romantismo foi um movimento artístico e filosófico surgido nas últimas décadas do sec.

XVIII na Europa que perdurou por grande parte do sec. XIX. Caracterizou-se como uma visão de

mundo conntrária ao RACIONALISMO que marcou o período NEOCLÁSSICO e buscou um NACIONALISMO

que viria a consolidar os estados nacionais na Europa. Inicialmente apenas uma atitude, um

estado de espírito, o Romantismo toma mais tarde a forma de um movimento e o espírito

romântico passa a designar toda uma visão de mundo centrada no indivíduo.. Os autores

românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores

trágicos, ideais utópicos e desejos de ESCAPISMO. Se o século XVIII foi marcado pela

objetividade, pelo ILUMINISMO e pela razão, o início do século XIX seria marcado pelo

lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo eu.
O termo romântico refere-se, assim, ao movimento estético ou, num sentido mais lato, à

tendência idealista ou poética de alguém que carece de sentido objetivo.
À medida que a escola foi sendo explorada foram surgindo críticos à sua demasiada

idealização da realidade. Destes críticos surgiu o movimento que daria forma ao REALISMO .
VOLTANDO A FALAR UM POUCO MAIS SOBRE O REALISMO
O Realismo e o Idealismo foram fundamentais para a tradição filosófica justamente por serem

as principais correntes de pensamento relativos à Teoria do conhecimento – que investiga o

estudo sobre o conhecimento que o homem tem sobre o mundo. E foram essas duas concepções que

embasaram as obras de grandes autores da Filosofia.
O Realismo é uma posição filosófica que afirma o real; ou seja, ele enxerga no mundo, na

realidade, um complexo emaranhado de causa e efeito pontuado por racionalidade. Sendo assim,

o mundo externo ao sujeito (ao homem) existe em si mesmo e funciona, em todas as suas

potencialidades, independente da vontade ou da consciência humana.
Dessa forma, o Realismo defende uma existência objetiva de todo o real. E vai além disso,

dizendo que mesmo se eliminarmos o sujeito da consciência, ainda assim existiria o mundo em

si exterior a nós, pois este possui uma realidade verdadeira e independente.
Tomando uma posição completamente oposta ao Realismo, temos, então, o Idealismo. Esta

posição filosófica possui seu grande defensor na modernidade, com o filósofo francês Renè

Descartes, que, através da sua dúvida levada ao extremo chegou até sua idéia mais

fundamental, que é justamente a certeza de que existe o pensamento, a razão, a consciência.
Explicando melhor, Descartes partiu de sua incerteza sobre o mundo exterior para atingir uma

certeza máxima e inegável. Ele percebeu, por exemplo, que nossos órgãos sensoriais que

recebem os estímulos externos podem nos enganar em muitos momentos (como quando vemos um

canudo torto dentro de um copo d’água, por exemplo) e que não podíamos confiar nos dados da

realidade que chegavam à nossa mente, pois eles podiam estar absolutamente equivocados.

Sendo deste modo, ele começou a também duvidar não só de nossa percepção do mundo, mas

também da própria existência do mundo exterior à nós. E essa dúvida incessante sobre o real

o levou à máxima de sua filosofia: Cogito ergo sum. Ou seja, “Penso logo existo”, o que

significa que a única certeza absoluta que posso ter do real é que eu existo; existo como

sujeito de pensamento e de razão, e o mundo exterior é improvável – não tenho como comprovar

sua existência em si –. Desse jeito, o mundo real que me chega pode não passar de uma ilusão

projetada por mim mesmo (como em um sonho).
A realidade passa então a não ser mais real em si mesma (como se acreditava no Realismo) e

sim real e lógica dentro da consciência humana. E o que nomeamos de realidade é, tão

somente, o que podemos conhecer por meio das idéias de nossa razão.
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VAMOS COMEÇAR NOSSO ESTUDO A PARTIR DOS PÓS-SOCRÁTICOS( Sócrates= 469-399 a.C)
Na História do REALISMO, temos:
- Aristóteles( 384-322 a.C)
- TOMISMO – Tomás de Aquino( 1224- 1274) – e Michel de Montaigne (1533-1592)-
-HUMANISMO – Com Erasmo de Roterdã(1469-1536), e François Rebelais(1495-1553) – (
- EMPIRISMO – Francis Bacon(1561-1626) –
- Como ramificações do Empirismo, SURGIU :
1- LIBERALISMO(Condorcet 1743-1794) e Hannah Arendt(1906-1975),
2- O POSITIVISMO(Auguste Conte- 1798-1857), Émile Durkheim(18581917), e do positivismo

surgiu o BEHAVIORISMO( B.F.Skinner-1904-1990), e Laurence Stenhouse(1926-1982) – o

behaviorismo é uma ramificação do positivismo.
3- O EVOLUCIONISMO ( Charles Darwin(1809-1882), Herbert Spencer(1820-1903), sendo

ramificação deste, a PSICOLOGIA DESENVOLVIMENTISTA, cujos representantes, são: Édouard

Claparède(1873-1940), Henri Wallon(1879-1962), e Adolphe Ferrière(1879-1960), daí surgindo O

CONSTRUTIVISMO – com: Jean Piaget(1896-1980) e Emilia Ferreiro, em 1936- e o COGNITIVISMO,

(Howard Gardner-1943)
4– O MATERIALISMO, (Karl Marx-1818-1883), que deu origem ao: a)-MARXISMO- (Antonio Gramsci-

1891-1937), Anton Makarenko( 1888-1939), Paulo Freire(1921-1997), e Florestar Fernandes(

1920-1995)e: b) PÓS MARXISMO ( Edgar Morin-1921- ), Michel Focault(1926-1984), e Pierre

Bourdieu( 1930-2002)
VAMOS PASSAR EM SEGUIDA A ESTUDAR SOBRE A OUTRA LINHA DE PENSAMENTO, O IDEALISMO



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MEUS GUARDADOS

AQUI, DIVIDO COM VC, OS TEXTOS QUE MAIS ME CHAMARAM A ATENÇÃO, E QUE A MEU VER, MERECEM SER GUARDADOS E COMPARTILHADOS... ABÇS!!!