Terra Gémea – Este exemplo foi usado pela primeira vez por Hilary Putnam em «The Meaning of
Meaning» num argumento a favor da ideia de que diferenças microscópicas em substâncias ou
objectos macroscopicamente indistinguíveis mudariam o significado das nossas palavras. Nesse
artigo, Putnam diz-nos que na Terra Gémea aquilo que a nós, terrestres, parece água na
verdade não é composto de H2O, mas de xyz. Assim, se fôssemos transportados para a Terra
Gémea todos os nossos juízos sobre xyz parecer-nos-iam juízos verdadeiros sobre água, mas na
verdade seriam juízos falsos sobre xyz. Isto é em parte uma resposta ao descritivismo
russelliano e ao nominalismo enquanto perspectiva sobre o significado dos termos.
Cérebro numa cuba – Uma actualização do génio cartesiano à maneira dos filmes de ficção
científica dos anos cinquenta. O cenário do cérebro numa cuba é uma experiência mental
concebida para mostrar a plausibilidade do cepticismo radical. Se fôssemos apenas cérebros
em cubas, ligados a computadores capazes de enviar impulsos eléctricos iguais aos que o
nosso corpo costuma receber, teríamos experiências indistinguíveis das que constituem a
«vida real» e ficaríamos sem qualquer hipótese de descobrir a nossa verdadeira situação.
Assim, de acordo com os que consideram este exemplo persuasivo, é possível que o cepticismo
radical – a tese de que não temos qualquer conhecimento seguro – seja verdadeiro. Hilary
Putnam reagiu ao cenário do cérebro numa cuba com uma versão do argumento a favor da ideia
de que o cepticismo radical tem de ser falso. Putnam usa uma versão do argumento da
linguagem privada para defender que um cérebro numa cuba não teria quaisquer crenças
verdadeiras. De acordo com a teoria do céptico radical, devemos supor que um cérebro numa
cuba que estivesse ligado ao computador de modo a receber os mesmos inputs que teria
recebido se estivesse num corpo acreditaria nas mesmas coisas em que nós acreditamos. Mas
não teria qualquer referente público para as suas palavras e frases, e por isso não poderia
ter qualquer linguagem humana, pois segundo Putnam todas as linguagens precisam de
referentes públicos. Putnam defende que o céptico que pensa que todas nossas crenças são (ou
poderiam ser) falsas tem de supor que nós somos como cérebros em cubas. Mas como cérebros em
cubas não poderiam ter uma linguagem e nós temos...
Conhece – No artigo de Judith Jarvis Thomson que reanimou o problema do trólei, «Killing,
Letting Die, and the Trolley Problem», a palavra «conhece» surge em itálico quando se
estipula que o condutor do trólei tem apenas duas opções. Ele pode parar ou fazer
descarrilar o trólei, escreve Thomson, e o condutor tem consciência disto porque ele conhece
tróleis. Peguei neste aspecto e abusei dele ao longo do artigo, o que teve um grande efeito
cómico, não acha?
Jones – Jones é o nome habitual do infeliz «homem comum» em todos os exemplos filosóficos
desde o tempo daqueles rapazes ousados de Cambridge (Bertie Russell, G. E. Moore e Alfred
North White-Westinghouse) Jones? Não podiam ter arranjado um nome mais original? Grandes
génios criativos, não há dúvida...
G. E. M. Anscombe – A Sr.ª Anscombe é uma filósofa moral inglesa muito famosa.
Latas de refrigerantes – Não são giras? Especialmente as novas, com uma abertura grande? Meu
Deus, adoro tecnologia...
Consequência não pretendida – Quem está familiarizado com a Igreja Católica e a sua
influência na filosofia moral, sabe que esta é uma referência à sua Doutrina do Duplo
Efeito, a doutrina segundo a qual é permissível fazer absolutamente tudo a toda a gente
desde que o queiramos e ninguém nos possa impedir. Não, espere! Esta é a sua Doutrina da
Vida Quotidiana. A Doutrina do Duplo Efeito é a doutrina segundo a qual em certas
circunstâncias um agente não é culpável pelas consequências previstas, mas não pretendidas,
de acções moralmente permissíveis, mesmo que essas consequências sejam imorais ou
impermissíveis. Esta doutrina surge frequentemente em discussões sobre o bombardeamento de
alvos civis durante a guerra. Por outras palavras, se alguma coisa que eu disse aqui o
ofendeu, paciência. Eu não tinha a intenção de o ofender, só pretendia esclarecê-lo, e por
isso não fiz nada de mal!
Autora deste exemplo – Esta parte do exemplo também deve muito ao artigo de Judith Jarvis
Thomson, «Killing, Letting Die, and the Trolley Problem». Thomson foi a filósofa que
concebeu o caso parecido conhecido por problema do transplante ou problema do trólei. Neste
problema temos que decidir se sacrificamos uma pessoa cujos órgãos podem ser utilizados para
salvar cinco pessoas que estão prestes a morrer. É certo que a maior parte das pessoas
desviaria o trólei para cima de um trabalhador de modo a salvar cinco, mas é ainda mais
certo que não sacrificariam um paciente de modo a salvar cinco no caso cirúrgico. Esta
assimetria deu origem a um enorme esforço de análise das supostas diferenças morais que se
verificam entre os dois casos. Penso que Jonathan Bennett resolveu a disputa em «Killing and
Letting Die» e no seu livro Events and Their Names.
Hitler – Está a brincar, não está? Não sabe quem foi Hitler? Volte para cima.
Ampliação do efeito – Mais tarde ou mais cedo, qualquer utilitarista digno desse nome tem de
enfrentar um exemplo de ilha deserta. Os críticos do utilitarismo nunca deixam de sublinhar
que, se um utilitarista estivesse numa ilha deserta sem qualquer possibilidade de vir a ser
resgatado ou descoberto, nas circunstâncias apropriadas qualquer curso de acção seria
permissível. Suponho que leram demasiadas vezes A Ilha do Tesouro quando eram jovens. Seja
como for, a ideia é mostrar que, segundo os cálculos utilitaristas, todas as formas de
comportamento repreensível devem ser reprimidas apenas porque seria mau (i.e., provocaria
mais infelicidade que prazer) as más acções serem descobertas. Numa ilha deserta a ameaça de
descoberta desapareceria e nós, utilitaristas, ficaríamos como os miúdos de O Senhor das
Moscas. Para impedir as lamúrias dos anti-utilitaristas, incluo no meu caso a ideia de que
todos os cérebros em cubas se comportariam exactamente como o cérebro.
Guerra justa – Santo Agostinho foi um dos primeiros filósofos que dedicou muito tempo e
energia mental à defesa da ideia de que podem haver guerras justas desde que certas
condições rigorosas sejam satisfeitas. Desde então outros filósofos desenvolveram o projecto
e passaram ainda mais tempo a pensar no problema de saber que guerras são justas e que
guerras são injustas. Investigue.
Génio cartesiano – Ser imaginado por René Descartes nas suas extremamente influentes
Meditações sobre a Filosofia Primeira. Descartes está interessado em assegurar-se de que
todas as suas crenças são dignas de confiança, e por isso decide suspender todas as crenças
de que não pode estar absolutamente seguro. Para ter a certeza de que não persistem
quaisquer crenças duvidosas, imagina um ser omnipotente cujo objectivo principal é enganá-lo
sistematicamente. Descartes conclui que um tal ser poderia iludi-lo fazendo-o enganar-se em
todas as suas crenças excepto nesta – a crença na sua própria existência. Esta é a fonte da
famosa expressão Cogito, ergo sum.
Comissurotomia – Uma operação (tome atenção, pois estamos precisamente a falar de cirurgia
cerebral) na qual os neurónios e o tecido que ligam os hemisférios esquerdo e direito (ou
direito e esquerdo, consoante o ponto de vista) são cortados, de tal modo que deixa de
ocorrer qualquer comunicação entre os dois lados do cérebro. Esta operação foi realizada
sobretudo em pessoas com epilepsia de maneira a reduzir a intensidade dos seus ataques, mas
os resultados deram origem a um bom terreno para exploração filosófica chamado Ciência
Cognitiva. Os efeitos da comissurotomia são assombrosos, até porque não se manifestam fora
das condições laboratoriais. Uma das coisas mais surpreendentes que se descobre quando se
investiga o assunto é a facilidade com que as pessoas deixavam os médicos brincar com o seu
cérebro nos anos 50 e 60. Na altura não devia haver advogados suficientes. Duas leituras
recomendáveis são o bom livro de Charles Marks, Commissurotomy, Consciousness, and Unity of
Mind, e o ensaio de Thomas Nagel, «Brain Bisection and the Unity of Consciousness».
Consequencialista – Um consequencialista é um filósofo moral que pensa que a correcção ou
incorrecção de uma acção depende apenas das suas consequências: não interessa se um acto cai
dentro de uma certa categoria, a intenção do agente ou qualquer outro aspecto da acção. O
utilitarismo é uma forma muito conhecida de consequencialismo (apresentada, entre outros,
por Mill e Bentham), segundo a qual a consequência relevante é quantidade de felicidade que
um acto produz.
Absolutista – Um absolutista é um filósofo moral que pensa que algumas acções são
categoricamente erradas, de tal maneira que nunca podemos ponderar a possibilidade de as
realizar. Immanuel Kant (tal como G. E. M. Anscombe) é um absolutista muito conhecido:
defendeu que nunca é permissível dizer uma mentira, por muito trivial que seja, de modo a
conseguir um bem, por muito grande que seja.
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quarta-feira, 9 de abril de 2008
Michael Patton
Michael Patton
O Guia Destinado a Não-Filósofos para «Os Homens Maus Podem Levar Cérebros Bons a Fazer
Coisas Más?»
(ou Por que Razão Alguém Acha que Isto Tem Graça?)
Considere o seguinte caso:
Na Terra Gémea, um cérebro numa cuba está ao volante de um trólei em movimento. Ao
aproximar-se de uma bifurcação, o cérebro vê que só dispõe de duas opções: ou vai para a
linha direita ou vai para a linha esquerda. Não há qualquer maneira de parar ou fazer
descarrilar o trólei e o cérebro está consciente disso, pois o cérebro conhece tróleis. O
cérebro está causalmente conectado ao trólei de tal maneira que o cérebro pode determinar o
caminho que o trólei vai seguir.
Na linha direita há um único trabalhador ferroviário, Jones, que morrerá de certeza se o
cérebro desviar o trólei para a direita. Se o trabalhador que está à direita não morrer, irá
matar cinco homens simplesmente porque lhe apetece matá-los, mas ao matá-los salvará
inadvertidamente a vida de trinta órfãos (um dos cinco homens que ele matará está a planear
destruir uma ponte que o autocarro dos órfãos irá atravessar nessa noite). Se não for morto,
na vida adulta um dos órfãos tornar-se-á um tirano que levará homens utilitaristas bons a
fazer coisas más. Outro dos órfãos crescerá e tornar-se-á G. E. M. Anscombe, e um terceiro
inventará as latas de refrigerantes.
Se o cérebro numa cuba escolher ir para a linha esquerda, o trólei atingirá e matará de
certeza o trabalhador ferroviário que está na linha esquerda, «Esquerdino». Também atingirá
e destruirá dez corações vivos que estão na linha, que poderiam ser (e seriam)
transplantados para dez pacientes do hospital mais próximo que morrerão na ausência de
corações de doadores. Estes são os únicos corações disponíveis, e o cérebro está consciente
disto, pois o cérebro conhece corações. Se o trabalhador que está na linha esquerda
sobreviver, também ele matará cinco homens – na verdade, os mesmos cinco homens que o
trabalhador da linha direita mataria. No entanto, no caso de «Esquerdino» a morte dos cinco
homens será uma consequência não pretendida de salvar dez homens: ele matará
inadvertidamente os cinco homens enquanto corre para o hospital mais próximo de modo a
entregar os corações a tempo. O acto de «Esquerdino» terá ainda outro resultado: o autocarro
dos órfãos será poupado. Entre os cinco homens que «Esquerdino» matará contam-se o homem
responsável por ter posto o cérebro a conduzir o trólei e a autora deste exemplo. Se os dez
corações e «Esquerdino» forem destruídos pelo trólei, os dez pacientes a aguardar um
transplante de coração morrerão e os seus rins serão utilizados para salvar a vida de vinte
pacientes que aguardam um transplante de rim – um deles descobrirá a cura do cancro quando
for crescido, e outro tornar-se-á Hitler. Existem outros rins e máquinas de hemodiálise, mas
o cérebro não conhece rins, e por isso este não é um factor a ter em conta.
Presuma que a escolha do cérebro, seja ela qual for, será tomada como exemplo por outros
cérebros em cubas e que assim os efeitos da sua decisão serão ampliados. Presuma também que
se o cérebro escolher a linha direita isso resultará numa guerra injusta sem crimes de
guerra, enquanto que se o cérebro escolher a linha esquerda isso resultará numa guerra justa
com crimes de guerra. Além disso, há um génio cartesiano intermitentemente activo que ilude
o cérebro de tal maneira que este nunca sabe se está a ser iludido.
Questão: O que deve fazer o cérebro?
Exemplo alternativo: O mesmo que o anterior, só que desta vez o cérebro foi sujeito a uma
comissurotomia: agora a metade esquerda do cérebro é consequencialista, mas a metade direita
é absolutista.
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O Guia Destinado a Não-Filósofos para «Os Homens Maus Podem Levar Cérebros Bons a Fazer
Coisas Más?»
(ou Por que Razão Alguém Acha que Isto Tem Graça?)
Considere o seguinte caso:
Na Terra Gémea, um cérebro numa cuba está ao volante de um trólei em movimento. Ao
aproximar-se de uma bifurcação, o cérebro vê que só dispõe de duas opções: ou vai para a
linha direita ou vai para a linha esquerda. Não há qualquer maneira de parar ou fazer
descarrilar o trólei e o cérebro está consciente disso, pois o cérebro conhece tróleis. O
cérebro está causalmente conectado ao trólei de tal maneira que o cérebro pode determinar o
caminho que o trólei vai seguir.
Na linha direita há um único trabalhador ferroviário, Jones, que morrerá de certeza se o
cérebro desviar o trólei para a direita. Se o trabalhador que está à direita não morrer, irá
matar cinco homens simplesmente porque lhe apetece matá-los, mas ao matá-los salvará
inadvertidamente a vida de trinta órfãos (um dos cinco homens que ele matará está a planear
destruir uma ponte que o autocarro dos órfãos irá atravessar nessa noite). Se não for morto,
na vida adulta um dos órfãos tornar-se-á um tirano que levará homens utilitaristas bons a
fazer coisas más. Outro dos órfãos crescerá e tornar-se-á G. E. M. Anscombe, e um terceiro
inventará as latas de refrigerantes.
Se o cérebro numa cuba escolher ir para a linha esquerda, o trólei atingirá e matará de
certeza o trabalhador ferroviário que está na linha esquerda, «Esquerdino». Também atingirá
e destruirá dez corações vivos que estão na linha, que poderiam ser (e seriam)
transplantados para dez pacientes do hospital mais próximo que morrerão na ausência de
corações de doadores. Estes são os únicos corações disponíveis, e o cérebro está consciente
disto, pois o cérebro conhece corações. Se o trabalhador que está na linha esquerda
sobreviver, também ele matará cinco homens – na verdade, os mesmos cinco homens que o
trabalhador da linha direita mataria. No entanto, no caso de «Esquerdino» a morte dos cinco
homens será uma consequência não pretendida de salvar dez homens: ele matará
inadvertidamente os cinco homens enquanto corre para o hospital mais próximo de modo a
entregar os corações a tempo. O acto de «Esquerdino» terá ainda outro resultado: o autocarro
dos órfãos será poupado. Entre os cinco homens que «Esquerdino» matará contam-se o homem
responsável por ter posto o cérebro a conduzir o trólei e a autora deste exemplo. Se os dez
corações e «Esquerdino» forem destruídos pelo trólei, os dez pacientes a aguardar um
transplante de coração morrerão e os seus rins serão utilizados para salvar a vida de vinte
pacientes que aguardam um transplante de rim – um deles descobrirá a cura do cancro quando
for crescido, e outro tornar-se-á Hitler. Existem outros rins e máquinas de hemodiálise, mas
o cérebro não conhece rins, e por isso este não é um factor a ter em conta.
Presuma que a escolha do cérebro, seja ela qual for, será tomada como exemplo por outros
cérebros em cubas e que assim os efeitos da sua decisão serão ampliados. Presuma também que
se o cérebro escolher a linha direita isso resultará numa guerra injusta sem crimes de
guerra, enquanto que se o cérebro escolher a linha esquerda isso resultará numa guerra justa
com crimes de guerra. Além disso, há um génio cartesiano intermitentemente activo que ilude
o cérebro de tal maneira que este nunca sabe se está a ser iludido.
Questão: O que deve fazer o cérebro?
Exemplo alternativo: O mesmo que o anterior, só que desta vez o cérebro foi sujeito a uma
comissurotomia: agora a metade esquerda do cérebro é consequencialista, mas a metade direita
é absolutista.
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O “Utilitarismo” E Peter Singer
O “Utilitarismo” E Peter Singer
Releio actualmente o “Ética Prática” do Peter Singer. Um livro excelente e
extremamente útil nesta época desregulada e os onde os valores morais estão
em decadência. Singer é uma das figuras mais conhecidas da corrente “Utilitarista”
. É uma releitura (como têm sido a maioria das minhas leituras recentes), mas uma
releitura sempre útil para limpar a mente do telelixo que sempre vai entrando…O
“Utilitarismo” é uma corrente que defende que a Ética, a ciência que permite
distinguir o Bem do Mal assenta na permissa que de uma acção é Boa se provoca
a felicidade e é Má se causa o sofrimento. A permissa radica na existência de
opções ou acções alternativas. Extrapolando, isso significa que não existe
Bem ou Mal se não existem acções alternativas, isto é, se alguém fôr confrontado
perante uma situação que não lhe deixe alternativas de acção (o chamado “entre a
espada e a parede”) não lhe pode ser imputada a responsabilidade de agir Bem ou
Mal, porque essa distinção assenta na existência de escolha.
Do “Utilitarismo” resulta também a essência da Educação: neste caso será a
capacidade de induzirmos nas crianças a criação de opções alternativas perante as
situações que a vida lhes irá apresentar. A Educação teria assim a missão de
permitir a descoberta de alternativas onde a vida parece negá-las, alternativas
essas que seriam descobertas por intermédio da Cultura, da Inteligência e da
Imaginação, colocadas desta forma no mesmo pé e contribuindo em igual medida para
fazer seres humanos melhores e mais éticos.
Em Filosofia, o utilitarismo é uma doutrina ética que prescreve a ação
(ou inação) de forma a otimizar o bem-estar do conjunto dos seres senciente.
O utilitarismo é então uma forma de consequencialismo, ou seja, ele avalia
uma ação (ou regra) unicamente em função de suas conseqüências.
Filosoficamente, pode-se resumir a doutrina utilitarista pela frase:
“Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”
(princípio do bem-estar máximo). Ela se define então como uma moral
eudemonista, mas que ao contrário do egoísmo, insiste no fato de que devemos
considerar o bem-estar de todos e não o bem estar de uma única pessoa.
Antes de quaisquer outros, foram Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill
(1806-1873) que sistematizaram o princípio da utilidade, e conseguiram aplicá-lo
às questões concretas – sistema político, legislação, Justiça, política
econômica,
liberdade sexual, emancipação das mulheres, etc.
Em Economia, o utilitarismo pode ser entendido como um princípio ético no qual
o que determina se uma decisão ou ação é correta, é o benefício intrínseco
exercido à coletividade , ou seja, quanto maior o benefício, tanto melhor a decisão ou ação.
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Releio actualmente o “Ética Prática” do Peter Singer. Um livro excelente e
extremamente útil nesta época desregulada e os onde os valores morais estão
em decadência. Singer é uma das figuras mais conhecidas da corrente “Utilitarista”
. É uma releitura (como têm sido a maioria das minhas leituras recentes), mas uma
releitura sempre útil para limpar a mente do telelixo que sempre vai entrando…O
“Utilitarismo” é uma corrente que defende que a Ética, a ciência que permite
distinguir o Bem do Mal assenta na permissa que de uma acção é Boa se provoca
a felicidade e é Má se causa o sofrimento. A permissa radica na existência de
opções ou acções alternativas. Extrapolando, isso significa que não existe
Bem ou Mal se não existem acções alternativas, isto é, se alguém fôr confrontado
perante uma situação que não lhe deixe alternativas de acção (o chamado “entre a
espada e a parede”) não lhe pode ser imputada a responsabilidade de agir Bem ou
Mal, porque essa distinção assenta na existência de escolha.
Do “Utilitarismo” resulta também a essência da Educação: neste caso será a
capacidade de induzirmos nas crianças a criação de opções alternativas perante as
situações que a vida lhes irá apresentar. A Educação teria assim a missão de
permitir a descoberta de alternativas onde a vida parece negá-las, alternativas
essas que seriam descobertas por intermédio da Cultura, da Inteligência e da
Imaginação, colocadas desta forma no mesmo pé e contribuindo em igual medida para
fazer seres humanos melhores e mais éticos.
Em Filosofia, o utilitarismo é uma doutrina ética que prescreve a ação
(ou inação) de forma a otimizar o bem-estar do conjunto dos seres senciente.
O utilitarismo é então uma forma de consequencialismo, ou seja, ele avalia
uma ação (ou regra) unicamente em função de suas conseqüências.
Filosoficamente, pode-se resumir a doutrina utilitarista pela frase:
“Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar”
(princípio do bem-estar máximo). Ela se define então como uma moral
eudemonista, mas que ao contrário do egoísmo, insiste no fato de que devemos
considerar o bem-estar de todos e não o bem estar de uma única pessoa.
Antes de quaisquer outros, foram Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill
(1806-1873) que sistematizaram o princípio da utilidade, e conseguiram aplicá-lo
às questões concretas – sistema político, legislação, Justiça, política
econômica,
liberdade sexual, emancipação das mulheres, etc.
Em Economia, o utilitarismo pode ser entendido como um princípio ético no qual
o que determina se uma decisão ou ação é correta, é o benefício intrínseco
exercido à coletividade , ou seja, quanto maior o benefício, tanto melhor a decisão ou ação.
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Bioética e Peter Singer
Bioética e Peter Singer
Desde que Peter Singer, filósofo australiano e fundador da Associação
Internacional de Bioética, foi proibido de apresentar suas idéias na Alemanha,
o tema da liberdade de expressão vem sendo discutido entre os pesquisadores
da bioética.
As idéias de Peter Singer são um exemplo do que há de mais provocativo no campo
da bioética, em especial pelas implicações de seus argumentos sobre aborto e
eutanásia para as comunidades de pessoas portadoras de deficiência.
Mas, exemplarmente, as sociedades internacionais de bioética não apenas
reconhecem a importância científica de Singer, como lhe conferem espaços
de destaque em seus encontros internacionais, tal como aconteceu em Brasília,
onde ele foi um dos expositores principais.
O destaque de Singer é, ao mesmo tempo, resultado de seu trabalho de pesquisa,
ensino e divulgação da bioética, mas também resposta à intolerância que insiste
em perseguir alguns temas da bioética.
O aborto é um desses exemplos. Não há civilidade, tampouco tolerância no debate
sobre a moralidade do aborto em muitos países. Esse é um dos temas mais urgentes
para a bioética brasileira e, certamente, o que menor progresso se fez na última
década.
Em uma das sessões do encontro internacional feminista de bioética, foi feita
a sugestão de que a bioética brasileira assumisse uma agenda prioritária de
atuação e o tema do aborto foi, consensualmente, considerado urgente.
Mas para discutirmos a moralidade do aborto no Brasil é preciso que também
reconheçamos o compromisso já assumido pelas comunidades internacionais de
bioética: o do respeito à liberdade de expressão.
A bioética é um campo de pesquisa e intervenção política que se caracteriza
pelo conflito moral.
Por isso, não é fácil discutir os temas bioéticos, mas esse é um exercício ético
fundamental a qualquer estado democrático e laico, como é o Brasil.
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Desde que Peter Singer, filósofo australiano e fundador da Associação
Internacional de Bioética, foi proibido de apresentar suas idéias na Alemanha,
o tema da liberdade de expressão vem sendo discutido entre os pesquisadores
da bioética.
As idéias de Peter Singer são um exemplo do que há de mais provocativo no campo
da bioética, em especial pelas implicações de seus argumentos sobre aborto e
eutanásia para as comunidades de pessoas portadoras de deficiência.
Mas, exemplarmente, as sociedades internacionais de bioética não apenas
reconhecem a importância científica de Singer, como lhe conferem espaços
de destaque em seus encontros internacionais, tal como aconteceu em Brasília,
onde ele foi um dos expositores principais.
O destaque de Singer é, ao mesmo tempo, resultado de seu trabalho de pesquisa,
ensino e divulgação da bioética, mas também resposta à intolerância que insiste
em perseguir alguns temas da bioética.
O aborto é um desses exemplos. Não há civilidade, tampouco tolerância no debate
sobre a moralidade do aborto em muitos países. Esse é um dos temas mais urgentes
para a bioética brasileira e, certamente, o que menor progresso se fez na última
década.
Em uma das sessões do encontro internacional feminista de bioética, foi feita
a sugestão de que a bioética brasileira assumisse uma agenda prioritária de
atuação e o tema do aborto foi, consensualmente, considerado urgente.
Mas para discutirmos a moralidade do aborto no Brasil é preciso que também
reconheçamos o compromisso já assumido pelas comunidades internacionais de
bioética: o do respeito à liberdade de expressão.
A bioética é um campo de pesquisa e intervenção política que se caracteriza
pelo conflito moral.
Por isso, não é fácil discutir os temas bioéticos, mas esse é um exercício ético
fundamental a qualquer estado democrático e laico, como é o Brasil.
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O que Vê a Cegueira: Desatando os Nós de Uma Experiência
O que Vê a Cegueira: Desatando os Nós de Uma Experiência
O que Vê a Cegueira: Desatando os Nós de Uma Experiência
(por Joana Belarmino)
Apresentação
Este trabalho é a narrativa de uma experiência, de um modo particular de encarar a cegueira.
mais do que entender a cegueira, pretende-se aqui compreender a visão como um "múltiplo".
as idéias aqui esboçadas não são novas. É possível que possam ser encontradas em essência no
cerne de muitos trabalhos, ou mesmo disseminadas aqui e ali, nos estudos dedicados à
problemática da cegueira. Assim, ao retomarmos o tema, nos esforçamos por, na medida do
possível, diluir as bipolaridades, as oposições entre cegueira e visão, visão e cegueira.
Se tivéssemos que fazer aqui, considerações metodológicas acerca do desenvolvimento das
nossas idéias, teríamos que reconhecer que esse texto nasceu muito mais das nossas
vivências, do que propriamente de uma reflexão acadêmica sedimentada por teorias e estudos
científicos. É pois a emoção, o único método que nos guia nesse caminho.
1. A Pedra, O Fogo, o Verbo: História de uma Trilogia
Curvada sobre sua carteira escolar, uma menina de sete anos preme no papel, os pontos de uma
pergunta, ainda indistinta, quase inconsciente; esboça sem o saber, as primeiras letras de
um paradoxo, ao mesmo tempo científico, psicológico, social e existencial. O que vê a
cegueira?
O ano é 1964, a menina é cega e aprendeu com as pedras, a dura lição de tentar enxergar uma
primeira resposta para essa questão, sob a capa dessa experiência.
As pedras são como lugares em que a natureza trabalha em silêncio. Lugares em que as
moléculas, os átomos, em sua cavalgadura, são testemunhas do tropel cósmico que produzem,
criando os ciclos da vida.
A menina tinha fascinação pelas pedras, assim como pelo vento, pela chuva anunciada no campo
através do modo plural que a natureza tem de nos falar. As pedras, sobretudo, enchiam sua
infância de espanto e perplexidade.
No pátio da casa, um pátio de terra batida que sua mãe cuidava de varrer todas as manhãs,
havia uma fileira de quatro ou cinco pedras, encostadas a parede da cozinha. Fila indiana de
rochas irmãs, algumas mais altas, outras mais baixas, todas pouco menores do que ela, no
topo dos seus quatro anos.
Naquela época, em algum sítio da sua consciência, já havia se incrustado a sua senssação de
cegueira, algo obscuro, é certo, mas pleno dessa situação ambígua onde por certo já
conviviam pequenas angústias, pequenas alegrias.
Numa manhã de sol radiante, marchava ela defronte das pedras, num passeio ritimado de
criança, quando deu pela presença das pedras. Não que não soubesse que elas sempre ali
estiveram, por as ter tocado, por ter feito delas extensoes das suas brincadeiras infantis.
Dera pela presença das pedras de um modo novo, como se as estivesse vendo. As pedras lhe
comunicavam sua presença irradiando na face. Como ela não sabia o que era "ver", tomou por
"visão" aquele acontecimento. E maravilhada, marchou diante das pedras, como se estivesse em
transe, repetindo um mantra que inventara naquela horinha mesmo: "Eu vejo! eu vejo!" Dizia
aquilo com a inocência e a convicção de uma criança de quatro anos. Foi quando para "ver
melhor" uma pedra, calculou mal a distância entre sua face e a rocha e esbarrou brutalmente
contra a mesma, interrompendo a sangue e a dor, a doce lição de "ver" dentro da cegueira.
Lágrimas e remédios caseiros empurraram para o fundo da memória a força daquela experiência,
e, por muitos e muitos anos,ela não pensou mais naquele primeiro ritual de iniciação, duro
ritual que lhe tinha posto sozinha com sua cegueira, exposta as bordoadas nas pedras.
Não pôde compreender de imediato, a verdade que as pedras haviam lhe ensinado. Essa verdade
não se revelou por inteiro, mas aos poucos, por insinuacoes, pensamentos, conjecturas.
As pedras, a seu jeito, golpeando-lhe a face com sua rude estrutura, haviam lhe ensinado a
"ver" mesmo dentro da sua cegueira. Levou tanto tempo para decifrar os nós daquela
experiencia! Caminhava, caminhava, e sempre, de algum modo, retomava aquela afirmação
infantil, agora sob a forma de pergunta: O mantra se renovara: Ja não afirmava mais "eu
vejo!", mas antes indagava: O que vê a cegueira?
Longe de a desanimar, a pergunta a incitava a dizer coisas, a montoar palavras, a enfileirar
frases e mais frases, ao modo da fileira de rochas, na sua tentativa de tornar clara essa
"visão" que também habita a cegueira, reproduzindo o claro-escuro que sempre parece estar
presente no ato do homem de observar o real.
O que vê a cegueira? Era para essa descoberta que ela caminhara naqueles dias de 1964, agora
não mais instigada pelas pedras, mas munida por artefatos técnicos: Papel, reglete, punção,
desenhavam agora o relevo da sua pergunta, renovando-lhe o sentido, criando para ela um
nicho tecido de palavras e mais palavras. A menina cresceu e de novo pôde apreciar a velha
lição das pedras, agora burilada, como jóia nova e brilhante.
"A minha cegueira é uma forma de visão"! "A minha cegueira é uma forma de visão"! Dentro da
sua cegueira, compreendeu que sempre vira com o corpo inteiro. Via com os pés, que lhe
indicavam as mudanças de solo; via com as mãos, com a face; via por todos os poros do seu
corpo e continuava vendo, todo um espetáculo interior que habitava o seu íntimo, a sua
mente, e dialogava com o mundo exterior de um modo próprio, o seu modo de "ver".
Percebeu como a experiência da cegueira acha-se ela própria "imunda" de visão, e as tantas
vezes em que tivera vergonha disso, as tantas vezes em que negaceara essa visão olfativa,
auditiva, todos os "órgãos de ver", espalhados por seucorpo a fora, e que lhe tinham sido
revelados pela lição das pedras!
2. As Visões da cegueira ou a Cegueira como Visão?
O rosto é inexpressivo. Cabeça e corpo se encolhem para dentro. É a metáfora do
"ensimesmamento". No cinema, na arte, na literatura, a criação devolve ao homem cego o que
já lhe dera a sociedade: um "mundo de silêncio e trevas", um "não lugar" na vida, na poesia,
na paixão. Em muitos lugares do mundo, pessoas cegas foram e são "estrangeiras" em sua
própria págria. Na tribo, nas grandes metrópolis, na aldeia, o olhar que as tocou não as
reconheceu como "parte" da comunidade; andarilhos da idade antiga e medieval, reclusos da
modernidade, estranhos no seu próprio mundo, os cegos persistiram na arte de "aprender a
ver", dentro da sua cegueira.
Houve quem falasse desse acontecimento de "cegos videntes". A mitologia, o cinema, a
literatura, a poesia, "animaram" uma espécie de metáfora da cegueira como "visão", A
metáfora porém, em geral alçou o indivíduo cego para além da sua terra; elevou-o para perto
dos deuses, fez dele um ser que continuava "estranho" no mundo dos viventes. Subtraídos do
mundo da normalidade, impunha-se para os indivíduos cegos, a luta pela sua conquista. Aquele
homem que aprendera a ver o mundo desbastando pedras, palmilhando estradas, ou despertando
os homens do alto da mesquita, à força das suas orações, aquele homem qtosco, de cabeça
baixa, que se encolhia para escutar o canto de um pássaro ou sentir o cheiro da mercearia
mais próxima onde pediria o seu pão, teve que inventar um modo novo de demonstrar a sua
"visão" e assim partilhar do seu mundo como seus iguais, os outros homens.
E da pedra fez-se o fogo; o fogo fundiu o ferro e num dia longínquo, um menino cego curvado
sobre uma mesa de escola, inaugurou o gesto de "ler" o mundo com suas próprias mãos.
3. Por uma Compreensão da Visão como um Múltiplo
Olhar a questão de visão e cegueira ao longo da história, implica reconhecer a existência
clara de um espaço de divisão, significa testemunhar uma relação muitas vezes inconciliável
entre os dois fenômenos. é como se estivéssemos a jogar o jogo de "cara ou coroa", velho
exercício de uma humanidade que ao longo de sua trajetória, esmerou-se na tarefa de separar,
classificar, ordenar, confinar.
Há que se experimentar também aqui, um outro caminho; Se olharmos bem para essa moeda, se
sopesarmos sua essência, veremos que a cara ora é coroa e que a coroa se transmuda em cara.
Parece ser indispensável que renovemos a questão inicial: Qual a qualidade da visão que
habita a cegueira? Teriam os manuais de educação especial se ocupado em decifrar as chaves
dessa pergunta?
Para além dos fenômenos cinestésicos, podemos falar de uma visão estética do mundo dentro da
cegueira, raramente percebida e estimulada pelos projetos pedagógicos formadores desses
indivíduos, mas que pode ser pressentida pela própria arte poética, conforme ilustra a
passagem abaixo:
"...- Se o senhor soubesse - exclamou ela então numa exaltação de alegria - se o senhor
pudesse saber como eu imagino tudo isso facilmente. Veja Quer que eu lhe descreva a
paisagem?... Há atrás de nós, acima e ao redor de nós, os grandes pinheiros, com gosto de
resina, com troncos grenás, com longos e sombrios galhos hori- zontais que se lamentam
quando quer curvá-los o vento. A nossos pés, como um livro aberto, inclinado sobre a estante
da montanha, a grande campina verde e matizada, que a sombra azula, que o sol doura, e cujas
palavras precisas são flores gencianas, pulsatilas, ranúnculos, e os belos lírios de Salomão
- que as vacas vêm soletrar com seus sinos, e onde os anjos vêm ler, já que diz que os olhos
dos homens estão fechados. Na parte inferior do livro, vejo um grande rio de leite,
enfumaçado, enevoado, cobrindo todo um abismo de mistério, um rio imenso, sem outra margem
senão, ao longe, bem longe à nossa frente, os belos Alpes resplandecentes..."
(In, "A sinfonia pastoral", André Gide: p/72).
Pensar na cegueira como forma de ver sugere, pois, a instituição de um novo modo de ação e
de organização, tanto para o cego, como para os que enxergam. Envolve o esforço de
construção de um novo paradigma, o qual possa abolir não a cegueira ocular, mas todos os
entraves culturais e sociais que ao longo da historia do homem foram agregados a essa
limitação fisica, repercutindo muitas vezes de forma nefasta, tanto nos processos
pedagógicos desses indivíduos, como na sua inserção à sociedade mais ampla.
esse é pois um projeto não apenas para um conjunto de pessoas envolvidas nessa problemática,
mas é um projeto para toda uma sociedade, porque envolve o reconhecimento do ser humano na
sua totalidade e nas suas diferenças.
Se a argumentação aqui exposta não é nova, está a exigir uma reflexão de fôlego, que possa
enfrentar o binômio visão/cegueira, não do ponto de vista de suas distinções físico
anatômicas, mas a partir das suas qualidades de junção, de complementaridade.
Se pensarmos pois, o mundo dos homens a partir do conceito de visão, então teremos a
seguinte máxima:
a visão é um múltiplo, com formas diversas".
Desse modo, não há como afirmar: "A visão é uma forma de cegueira", mas antes, "a visão que
os homens têm a respeito da cegueira é também uma forma de visão", que tanto pode servir
para "juntar" as diferenças como para apartá-las. Se observarmos a história dos homens a
partir das suas formas de visão, veremos um magistral desenvolvimento desse processo! O
filósofo Teillard de Chardin tem uma frase exata para a descrição desse fenômeno:
"...a história do mundo vivo se resume na elaboração de olhos cada vez mais perfeitos no
seio de um Cosmos, onde é possível ver cada vez mais."
O homem expandiu seus modos de "ver" de formas as mais variadas. Nesse contexto, a história
da cegueira não é senão, a história do esforço do indivíduo cego para também impor a sua
forma de "ver" o mundo.
Compreender e valorizar essa alquimia de sentidos e pensamento na tradução do mundo, é uma
tarefa que deve envolver não apenas os indivíduos cegos, mas, toda a sociedade. Nos limites
desse trabalho, temos consciência da pouca profundidade com que exploramos o tema. Pensar a
cegueira como uma forma de visão, ou antes, pensar a visão como um "múltiplo" onde precisam
estar contempladas as diversas formas de "ver", eis o desafio que deve alimentar nossa
prática cotidiana, nosso ser e estar no mundo.
Que nos próximos milênios, nossos esforços nos auxiliem a "ver" cada vez mais.
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O que Vê a Cegueira: Desatando os Nós de Uma Experiência
(por Joana Belarmino)
Apresentação
Este trabalho é a narrativa de uma experiência, de um modo particular de encarar a cegueira.
mais do que entender a cegueira, pretende-se aqui compreender a visão como um "múltiplo".
as idéias aqui esboçadas não são novas. É possível que possam ser encontradas em essência no
cerne de muitos trabalhos, ou mesmo disseminadas aqui e ali, nos estudos dedicados à
problemática da cegueira. Assim, ao retomarmos o tema, nos esforçamos por, na medida do
possível, diluir as bipolaridades, as oposições entre cegueira e visão, visão e cegueira.
Se tivéssemos que fazer aqui, considerações metodológicas acerca do desenvolvimento das
nossas idéias, teríamos que reconhecer que esse texto nasceu muito mais das nossas
vivências, do que propriamente de uma reflexão acadêmica sedimentada por teorias e estudos
científicos. É pois a emoção, o único método que nos guia nesse caminho.
1. A Pedra, O Fogo, o Verbo: História de uma Trilogia
Curvada sobre sua carteira escolar, uma menina de sete anos preme no papel, os pontos de uma
pergunta, ainda indistinta, quase inconsciente; esboça sem o saber, as primeiras letras de
um paradoxo, ao mesmo tempo científico, psicológico, social e existencial. O que vê a
cegueira?
O ano é 1964, a menina é cega e aprendeu com as pedras, a dura lição de tentar enxergar uma
primeira resposta para essa questão, sob a capa dessa experiência.
As pedras são como lugares em que a natureza trabalha em silêncio. Lugares em que as
moléculas, os átomos, em sua cavalgadura, são testemunhas do tropel cósmico que produzem,
criando os ciclos da vida.
A menina tinha fascinação pelas pedras, assim como pelo vento, pela chuva anunciada no campo
através do modo plural que a natureza tem de nos falar. As pedras, sobretudo, enchiam sua
infância de espanto e perplexidade.
No pátio da casa, um pátio de terra batida que sua mãe cuidava de varrer todas as manhãs,
havia uma fileira de quatro ou cinco pedras, encostadas a parede da cozinha. Fila indiana de
rochas irmãs, algumas mais altas, outras mais baixas, todas pouco menores do que ela, no
topo dos seus quatro anos.
Naquela época, em algum sítio da sua consciência, já havia se incrustado a sua senssação de
cegueira, algo obscuro, é certo, mas pleno dessa situação ambígua onde por certo já
conviviam pequenas angústias, pequenas alegrias.
Numa manhã de sol radiante, marchava ela defronte das pedras, num passeio ritimado de
criança, quando deu pela presença das pedras. Não que não soubesse que elas sempre ali
estiveram, por as ter tocado, por ter feito delas extensoes das suas brincadeiras infantis.
Dera pela presença das pedras de um modo novo, como se as estivesse vendo. As pedras lhe
comunicavam sua presença irradiando na face. Como ela não sabia o que era "ver", tomou por
"visão" aquele acontecimento. E maravilhada, marchou diante das pedras, como se estivesse em
transe, repetindo um mantra que inventara naquela horinha mesmo: "Eu vejo! eu vejo!" Dizia
aquilo com a inocência e a convicção de uma criança de quatro anos. Foi quando para "ver
melhor" uma pedra, calculou mal a distância entre sua face e a rocha e esbarrou brutalmente
contra a mesma, interrompendo a sangue e a dor, a doce lição de "ver" dentro da cegueira.
Lágrimas e remédios caseiros empurraram para o fundo da memória a força daquela experiência,
e, por muitos e muitos anos,ela não pensou mais naquele primeiro ritual de iniciação, duro
ritual que lhe tinha posto sozinha com sua cegueira, exposta as bordoadas nas pedras.
Não pôde compreender de imediato, a verdade que as pedras haviam lhe ensinado. Essa verdade
não se revelou por inteiro, mas aos poucos, por insinuacoes, pensamentos, conjecturas.
As pedras, a seu jeito, golpeando-lhe a face com sua rude estrutura, haviam lhe ensinado a
"ver" mesmo dentro da sua cegueira. Levou tanto tempo para decifrar os nós daquela
experiencia! Caminhava, caminhava, e sempre, de algum modo, retomava aquela afirmação
infantil, agora sob a forma de pergunta: O mantra se renovara: Ja não afirmava mais "eu
vejo!", mas antes indagava: O que vê a cegueira?
Longe de a desanimar, a pergunta a incitava a dizer coisas, a montoar palavras, a enfileirar
frases e mais frases, ao modo da fileira de rochas, na sua tentativa de tornar clara essa
"visão" que também habita a cegueira, reproduzindo o claro-escuro que sempre parece estar
presente no ato do homem de observar o real.
O que vê a cegueira? Era para essa descoberta que ela caminhara naqueles dias de 1964, agora
não mais instigada pelas pedras, mas munida por artefatos técnicos: Papel, reglete, punção,
desenhavam agora o relevo da sua pergunta, renovando-lhe o sentido, criando para ela um
nicho tecido de palavras e mais palavras. A menina cresceu e de novo pôde apreciar a velha
lição das pedras, agora burilada, como jóia nova e brilhante.
"A minha cegueira é uma forma de visão"! "A minha cegueira é uma forma de visão"! Dentro da
sua cegueira, compreendeu que sempre vira com o corpo inteiro. Via com os pés, que lhe
indicavam as mudanças de solo; via com as mãos, com a face; via por todos os poros do seu
corpo e continuava vendo, todo um espetáculo interior que habitava o seu íntimo, a sua
mente, e dialogava com o mundo exterior de um modo próprio, o seu modo de "ver".
Percebeu como a experiência da cegueira acha-se ela própria "imunda" de visão, e as tantas
vezes em que tivera vergonha disso, as tantas vezes em que negaceara essa visão olfativa,
auditiva, todos os "órgãos de ver", espalhados por seucorpo a fora, e que lhe tinham sido
revelados pela lição das pedras!
2. As Visões da cegueira ou a Cegueira como Visão?
O rosto é inexpressivo. Cabeça e corpo se encolhem para dentro. É a metáfora do
"ensimesmamento". No cinema, na arte, na literatura, a criação devolve ao homem cego o que
já lhe dera a sociedade: um "mundo de silêncio e trevas", um "não lugar" na vida, na poesia,
na paixão. Em muitos lugares do mundo, pessoas cegas foram e são "estrangeiras" em sua
própria págria. Na tribo, nas grandes metrópolis, na aldeia, o olhar que as tocou não as
reconheceu como "parte" da comunidade; andarilhos da idade antiga e medieval, reclusos da
modernidade, estranhos no seu próprio mundo, os cegos persistiram na arte de "aprender a
ver", dentro da sua cegueira.
Houve quem falasse desse acontecimento de "cegos videntes". A mitologia, o cinema, a
literatura, a poesia, "animaram" uma espécie de metáfora da cegueira como "visão", A
metáfora porém, em geral alçou o indivíduo cego para além da sua terra; elevou-o para perto
dos deuses, fez dele um ser que continuava "estranho" no mundo dos viventes. Subtraídos do
mundo da normalidade, impunha-se para os indivíduos cegos, a luta pela sua conquista. Aquele
homem que aprendera a ver o mundo desbastando pedras, palmilhando estradas, ou despertando
os homens do alto da mesquita, à força das suas orações, aquele homem qtosco, de cabeça
baixa, que se encolhia para escutar o canto de um pássaro ou sentir o cheiro da mercearia
mais próxima onde pediria o seu pão, teve que inventar um modo novo de demonstrar a sua
"visão" e assim partilhar do seu mundo como seus iguais, os outros homens.
E da pedra fez-se o fogo; o fogo fundiu o ferro e num dia longínquo, um menino cego curvado
sobre uma mesa de escola, inaugurou o gesto de "ler" o mundo com suas próprias mãos.
3. Por uma Compreensão da Visão como um Múltiplo
Olhar a questão de visão e cegueira ao longo da história, implica reconhecer a existência
clara de um espaço de divisão, significa testemunhar uma relação muitas vezes inconciliável
entre os dois fenômenos. é como se estivéssemos a jogar o jogo de "cara ou coroa", velho
exercício de uma humanidade que ao longo de sua trajetória, esmerou-se na tarefa de separar,
classificar, ordenar, confinar.
Há que se experimentar também aqui, um outro caminho; Se olharmos bem para essa moeda, se
sopesarmos sua essência, veremos que a cara ora é coroa e que a coroa se transmuda em cara.
Parece ser indispensável que renovemos a questão inicial: Qual a qualidade da visão que
habita a cegueira? Teriam os manuais de educação especial se ocupado em decifrar as chaves
dessa pergunta?
Para além dos fenômenos cinestésicos, podemos falar de uma visão estética do mundo dentro da
cegueira, raramente percebida e estimulada pelos projetos pedagógicos formadores desses
indivíduos, mas que pode ser pressentida pela própria arte poética, conforme ilustra a
passagem abaixo:
"...- Se o senhor soubesse - exclamou ela então numa exaltação de alegria - se o senhor
pudesse saber como eu imagino tudo isso facilmente. Veja Quer que eu lhe descreva a
paisagem?... Há atrás de nós, acima e ao redor de nós, os grandes pinheiros, com gosto de
resina, com troncos grenás, com longos e sombrios galhos hori- zontais que se lamentam
quando quer curvá-los o vento. A nossos pés, como um livro aberto, inclinado sobre a estante
da montanha, a grande campina verde e matizada, que a sombra azula, que o sol doura, e cujas
palavras precisas são flores gencianas, pulsatilas, ranúnculos, e os belos lírios de Salomão
- que as vacas vêm soletrar com seus sinos, e onde os anjos vêm ler, já que diz que os olhos
dos homens estão fechados. Na parte inferior do livro, vejo um grande rio de leite,
enfumaçado, enevoado, cobrindo todo um abismo de mistério, um rio imenso, sem outra margem
senão, ao longe, bem longe à nossa frente, os belos Alpes resplandecentes..."
(In, "A sinfonia pastoral", André Gide: p/72).
Pensar na cegueira como forma de ver sugere, pois, a instituição de um novo modo de ação e
de organização, tanto para o cego, como para os que enxergam. Envolve o esforço de
construção de um novo paradigma, o qual possa abolir não a cegueira ocular, mas todos os
entraves culturais e sociais que ao longo da historia do homem foram agregados a essa
limitação fisica, repercutindo muitas vezes de forma nefasta, tanto nos processos
pedagógicos desses indivíduos, como na sua inserção à sociedade mais ampla.
esse é pois um projeto não apenas para um conjunto de pessoas envolvidas nessa problemática,
mas é um projeto para toda uma sociedade, porque envolve o reconhecimento do ser humano na
sua totalidade e nas suas diferenças.
Se a argumentação aqui exposta não é nova, está a exigir uma reflexão de fôlego, que possa
enfrentar o binômio visão/cegueira, não do ponto de vista de suas distinções físico
anatômicas, mas a partir das suas qualidades de junção, de complementaridade.
Se pensarmos pois, o mundo dos homens a partir do conceito de visão, então teremos a
seguinte máxima:
a visão é um múltiplo, com formas diversas".
Desse modo, não há como afirmar: "A visão é uma forma de cegueira", mas antes, "a visão que
os homens têm a respeito da cegueira é também uma forma de visão", que tanto pode servir
para "juntar" as diferenças como para apartá-las. Se observarmos a história dos homens a
partir das suas formas de visão, veremos um magistral desenvolvimento desse processo! O
filósofo Teillard de Chardin tem uma frase exata para a descrição desse fenômeno:
"...a história do mundo vivo se resume na elaboração de olhos cada vez mais perfeitos no
seio de um Cosmos, onde é possível ver cada vez mais."
O homem expandiu seus modos de "ver" de formas as mais variadas. Nesse contexto, a história
da cegueira não é senão, a história do esforço do indivíduo cego para também impor a sua
forma de "ver" o mundo.
Compreender e valorizar essa alquimia de sentidos e pensamento na tradução do mundo, é uma
tarefa que deve envolver não apenas os indivíduos cegos, mas, toda a sociedade. Nos limites
desse trabalho, temos consciência da pouca profundidade com que exploramos o tema. Pensar a
cegueira como uma forma de visão, ou antes, pensar a visão como um "múltiplo" onde precisam
estar contempladas as diversas formas de "ver", eis o desafio que deve alimentar nossa
prática cotidiana, nosso ser e estar no mundo.
Que nos próximos milênios, nossos esforços nos auxiliem a "ver" cada vez mais.
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Memória, memória reprimida e falsa memória
Memória, memória reprimida e falsa memória
Memória é a retenção e recordação de experiencias. Uma memória reprimida é uma que se diz
ser retida na mente inconsciente, onde pode afectar pensamento e acção mesmo se
aparentemente se esqueceu a experiência em que a memória se baseia. Uma falsa memória é uma
memória que se baseia no ouvir dizer ou sugestão. A falsa memória difere da memória errónea.
Esta baseia-se em experiencias reais que são recordadas incorrectamente. Falsa memória são
memórias de ter experimentado algo que na realidade nunca se experimentou.
Quão fiável e correcta é a memória? Enganamo-nos muitas vezes ao pensar que nos recordamos
correctamente de algo. Estudos sobre a memória mostram que muitas vezes construimos as
nossas memórias após o facto, que somos susceptiveis a sugestões de outros que ajudam a
preencher os buracos na nossa memória de um dado evento. É por isso que um policia, ao
investigar um crime, não deve mostrar uma fotografia de um só individuo à vitima e perguntar
se esta reconhece o assaltante. Se é apresentado à vitima com uma linha de suspeitos para
identificar e ela escolhe o individuo cuja fotografia lhe tinham mostrado, não há maneira de
saber se ela se está a recordar do assaltante ou da fotografia.
Outro facto interessante sobre a memória é que estudos mostram que não há uma correlação
significativa entre o sentimento subjectivo da certeza que uma pessoa tem acerca de uma
memória e a exactidão dessa memória. Tambem, contrariamente ao que muitas pessoas pensam, a
hipnose não ajuda à exactidão da memória. Porque o sujeito é extremamente sugestionável
enquanto hipnotizado, a maioria dos países não permitem testemunhos em tribunal feitos sob
hipnose.1 É possivel criar falsas memórias nas pessoas por sugestão, mesmo memórias de vidas
anteriores que nunca foram vividas. Tavris resume o estado actual da investigação da
memória:
A mente não recorda todo o detalhe de um acontecimento, mas apenas alguns dados; preenchemos
o resto baseados no que "deve ter sido". Para um acontecimento ficar guardado a longo prazo,
uma pessoa tem de o perceber, codificar e ensaiá-lo--falar sobre ele--ou ele decai. (Isto
parece ser o mecanismo principal por trás da amnésia infantil, o facto das crianças não
desenvolverem memórias a longo prazo até cerca dos 3 anos) A pesquisa mostra tambem que
mesmo experiencias emocionais que estamos certos nunca esqueceremos--o assassinio de
Kennedy, a explosão do Challenger--tornar-se-ão vagas na memória, e os erros assaltarão o
relato do que permanece.2
Tavris tambem reconta uma história sobre Jean Piaget, o célebre picólogo infantil. Piaget
afirmava que as suas mais antigas memórias eram de ter sido quase raptado com a idade de 2
anos. Recordava detalhes como estar sentado no carro de bébé, ver a enfermeira defender-se
do raptor, arranhões na cara dela, um policia perseguindo o raptor. A história era reforçada
pela enfermeira, os pais e outros que a tinham ouvido. Piaget estava convencido que se
recordava do acontecimento. Contudo, ele nunca aconteceu. Treze anos depois da alegada
tentativa de rapto, a antiga enfermeira escreveu aos pais de Piaget a confessar que tinha
inventado toda a história. Piaget escreveu posteriormente: "Devo portanto ter ouvido,
enquanto criança, o relato desta história... e projectado-a no passado em forma de memória
visual, que era uma memória de uma memória, mas falsa." Bem falado.
Não sabemos exactamente como funciona a memória, embora haja muitos modelos explicatórios.
Alguns destes identificam a memória com funções cerebrais. Num, por exemplo, a memória
diminui com a idade porque os neurónios vão morrendo conforme vamos envelhecendo. Há apenas
três modos de vencer este facto da natureza: 1. descobrir um modo de impedir os neurónios de
morrer; 2. descobrir um modo de estimular o crescimento de novos neurónios; ou 3. fazer os
restantes neurónios trabalharem mais eficientemente. Até agora, as opções 2 e 3 são as mais
prometedoras. Contudo, alguns resultados positivos teem sido obtidos com a estimulação do
crescimento de novas células cerebrais através de implantes fetais. E o Salk Institute tem
relatado que a investigação em neurogénese tem sido encorajadora. Observaram o crescimento
de neurónios no hipocampo de ratos colocados em ambiente estimulante. Investigação
neurologica tambem obteve resultados ao fazer os neurónios trabalharem melhor usando
ampakines, compostos quimicos algumas vezes chamados "drogas de memória." Os primeiros
testes com humanos mostraram excelentes resultados, mas a amostra era demasiado pequena para
justificar alguma conclusão alem de que os estudos deviam ser continuados. Para os que
pensam que a memória é uma função de uma realidade não-fisica, tais resultados devem
provocar alguma reflexão, apesar de pensar que um modelo não-fisico da mente nunca levará a
qualquer investigação que beneficie a humanidade. Para os que postulam que a memória é uma
função cerebral, existe não só um rumo para a investigação, como a esperança de sucesso na
descoberta de algo realmente util.
Por outro lado, um dos mais questionáveis modelos de memória é o que assume que toda a
experiência de uma pessoa é "registada" na memória e que algumas das nossas memórias são
acontecimentos demasiado traumaticos para os querermos recordar. Essas terriveis memórias
são fechadas na alegada "mente inconsciente," i.e., reprimida, para só os recordarmos
emadultos quando algo faz abrir a porta para a mente inconsciente. Quer antes quer depois da
memória reprimida ser chamada, provoca desordens fisicas e mentais na pessoa.
Este modelo de memória é questionavel porque assume que alguem ter problemas a funcionar
como um adulto saudável se deve a traumas de infância reprimidos, e assume que se recordar
um trauma de infância, essa recordação é exacta. O erro não está em que as pessoas não
tenham experiências dolorosas e desagradáveis que não queiram recordar. Nem é errado afirmar
que as crianças teem experiências maravilhosas e/ou brutais para as quais não teem bases
conceptuais ou linguisticas. As crianças são muitas vezes incapazes de compreender o que
experimentam. Como adultos, podem vir a compreender o que lhes aconteceu em criança. As
crianças sofram muitas vezes abusos, reprimem essa experiencia e mais tarde na vida
recordam-na. Não há nenhum mito nisto.
Mas, não há prova de que recordamos tudo o que experimentamos. De facto, há bastantes provas
de que é impossivel guardar todos os elementos conceptuais de uma dada experiencia muito
menos recordarmos todas. Nada prova que todas as memórias de acontecimentos indiqeum que
eles tenham acontecido como recordamos ou que tenham sequer acontecido. E não há qualquer
prova de que a certeza subjectiva quanto à exactidão da memória ou o ser tão real se possa
correlacionar com a sua exactidão. Finalmente, a afirmação de uma conexão causal entre abuso
e saude ou comportamento não permite concluir que doença, mental ou fisica, seja um "sinal"
de ter sofrido abusos.
O grande proclamador deste mito da memória foi Sigmund Freud, que aparentemente sabia que
era um mito. O mito foi expandido na Dianética por L. Ron Hubbard, que aparentemente não se
importava se era ou não um mito mas que culpou todas as desordens mentais e fisicas por
experiencias pré-natais e na infância, experiencias que não podiam ser "gravadas" pela mente
consciente visto a maioria ocorrer antes do cérebro, a mente e a linguagem existirem numa
pessoa.
O mito é a base para uma série de trabalhos pseudocientificossobre abuso de crianças por
auto-proclamados especialistas como Ellen Bass, Laura Davis, Wendy Maltz, Beverly Holman,
Beverly Engel, Mary Jane Williams e E. Sue Blume.3 Através de creinforço comunal muitas
noções empiricas não apoiadas, incluindo a de que metade de todas as mulheres sofreram
abusos sexuais, são tratadas como "factos" por muitas pessoas. A psicóloga Carol Tavris
escreve
No que só pode ser chamado de arranjo incestuoso, os autores destes livros apoiam-se nos
trabalhos dos outros para apioar as suas provas; todos recomnedam ao leitor a consulta dos
livros dos outros. Se um apresentas uma estatistica montada--como "mais de metade de todas
as mulheres são sobreviventes de traumas sexuais da infância"--os numeros são trocados como
cromos e, republicados em cada livro, e posteriormente apresentados como factos. O ciclo de
desinformação, estatisticas erradas e afirmações inválidas menteem-se a si mesmo.4
Uma diferença significativa entre este grupo de especialistas e, digamos, um grupo de
fisicos, é que aqueles especialistas obtiveram o seu estatuto não por treino cientifico mas
por (a) experiencia [foram vitima de abuso ou trataram vitimas de abuso no seu trabalho
social], ou (b) escreveram um livro sobre abuso infantil. Os especialistas de abuso infantil
não são treinados em investigação cientifica, o que, nota Tavris, "não é um comentário à sua
capacidade de escrever ou fazer terapia, mas parece ser uma razão para o seu analfabetismo
cientifico."
Eis algumas das noções não provadas, não cientificas, que são usadas por estes
especialistas: (1)Se duvida de que foi vitima de abuso em criança ou pensa que pode ser a
sua imaginação, isso é um sinal de "sindroma post-incesto" [Blume]. (2) Se não consegue
recordar nenhum momento especifico em que sofreu abusos mas mesmo assim tem uma sensação
estranha de que algum abuso aconteceu, "provavelmente aconteceu" [Bass and Davis]. (3)
Quando uma pessoa não consegue recordar a sua infância ou tem recordações vagas, "o incesto
deve sempre ser considerado como uma possibilidade" [Maltz e Holman]. E, (4) "Se tem alguma
suspeita, alguma memória, por mais vaga que seja, provavelmente aconteceu. É mais provável
que esteja a bloquear essas memórias, negando que algo tenha acontecido." [Engel]
Industrias completas se montaram da histeria que inevitavelmente acompanha acusações de
abusos sexuais de crianças. Hiperzelosos acusadores contrataram hiperzelosos terapeutas para
documentarem os abusos. Terapeutas que normalmente trabalham com crianças que sofreram
abusos foram contratados para descobrir se crianças tinham sido abusadas. Parece interessar
pouco aos acusadores que o terapeuta possa assumir que a criança sofreu abusos. Mas
demasiadas vezes o terapeuta ou o acusador sugere o abuso à criança e esta não só começa a
"recordar" como começa a fantasiar para agradar ao interrogador. A criança pode não
acreditar que nenhum dos acontecimentos que narra tenha acontecido, mas voluntariamente
testemunha as mais horriveis cenas envolvendo pais, avós, professores, amigos e mesmo
estranhos. Se ela começa a acreditar que sofreu realmente os acontecimentos testemunhados
mas implantados na sua mente pelas sugestões do terapeuta ou do acusador, então ela possui
uma falsa memória. Nenhuma pessoa pode condenar um pai ou um professor com base em tal
testemunho.5
Não foram só os terapeutas que trabalham com crianças que teem sido acusados de plantar
falsas memórias de abusos. Tambem os que trabalham com adultos. Terapeutas que usam
hipnoterapia para encorajarem os seus pacientes a "recordar" a infância (ou as vidas
passadas) são especialmente vulneráveis à acusação de sugerirem falsas memórias nos seus
clientes.
Desde Março de 1992, a False Memory Syndrome (FMS) Foundation em Philadelphia reuniu mais de
2.700 casos de pais que relataram falsas acusações como resultado de "memórias" recuperadas
em terapia.6 A FMSF afirma que estes casos incluem cerca de 400 familias que foram acusadas
ou ameaçadas de acusação de abuso infantil.7 Vitimas da acusação falsa pelos seus filhos ou
outros de terem abusado sexualmente deles muitos anos antes estão a ripostar. Laura Pasley,
que trabalha para a policia de Dallas, foi a um terapeuta em 1985 tratar-se de bulimia.
Agora está a processar o terapeuta que a persuadiu que ela sofreu abusos sexuais na
infância. O terapeuta disse-lhe que ela tinha sido abusada e, quando ela se recusou a
acreditar, disse-lhe que ela realmente não se queria curar. Ela queria ficar bem "mais do
que outra coisa" e continuou com o terapeuta. Acabou por "baralhar completamente toda a
terapia" afirma ela. "8 A história dela corre actualmente os tribunais americanos.
Os perigos deste mito da memória são visiveis: não só as memórias falsas são tratadas como
reais, mas as memóris reais de abusos reais podem ser tratadas como falsas memórias,
fornecendo assim uma defesa credível a criminosos autenticos. No fim, ninguem beneficia ao
encorajar uma crença na memória que é falsa. Qualquer que seja a teoria sobre a memória que
se defenda, se não permite examinar provas e tentar de um modo independente verificar
afirmações de abusos recordados, é uma teoria em risco de provocar mais mal do que bem.
Uma variante da memória de não-experiencias é a noção de que uma pessoa pode recordar vidas
passadas. Este mito tem sido perpetuado por relatos de pessoas que, em sonhos ou sob
hipnose, recordam experiencias de pessoas que viveram em épocas passadas. Um caso tipico de
regressão a vidas passadas é o de Bridie Murphy, de quem já falámos o suficiente noutro
lugar.
Então, os relatos de memórias reprimidas devem ser recusados à partida? Claro que não! Mas
temos de tentar corroborar tais memórias com provas e testemunhos independentes antes de
tirar conclusões sobre esses factos, especialmente se abusos ou crimes. Tais relatos devem
ser tomados seriamente e examinados criticamente, dando-lhes toda a atenção e estudo que
devemos dar a qualquer alegação de crime. Mas não devemos apressar o julgamento, quer sobre
a exactidão das memórias quer sobre a relação causal entre experiências passadas e problemas
actuais. Memórias reprimidas durante anos que são subitamente recordadas não devem ser
automaticamente rejeitadas como falsas. Nem devem ser automaticamente aceites como
verdadeiras. Em termos de verificação da sua exactidão, estas memórias devem ser tratadas do
mesmo modo que qualquer outro tipo de memória.
Ver: Bridie Murphy, dianética, hipnose, mente, reincarnação.
Notas
1. Ver Elizabeth Loftus, Eyewitness Testimony, Harvard University Press, 1980. Ver tambem
artigos no Skeptical Inquirer, Vol. XII No. 2, Inverno 1987-88: "The Power of Suggestion on
memória" por Robert A. Baker e "Fantasizing Under Hypnosis: Some Experimental Evidence" por
Peter J. Reveen. Três testemunhas de um assalto armado ensaiado foram hipnotizados por
Reveen. Os seus relatos eram bastante detalhados mas nenhum concordava com o outro e nenhum
se aproximava sequer dos factos reais que narrava.
2. Carol Tavris, "Hysteria and the incest-survivor machine," Sacramento Bee, Forum, 17
Janeiro 1993, p. 1. Tavris é o autor de várias obras de psicologia, incluindo The Mismeasure
of Woman (New York: Simon & Schuster, 1992). Tambem editor de Every Woman's Emotional
Well-being (Garden City, N.Y. : Doubleday, 1986).
3. ibid.
4. ibid.
5. Sim, aconteceu. Numa versão moderna das bruxas de Salem, o caso da escola McMartin
exemplifica o pior na justiça institucional na caça de molestadores de crianças. Ver Mary
Ann Mason, "The McMartin case revisited: the conflict between social work and criminal
justice," [na avaliação da credibilidade de crianças como testemunhas de casos de abuso
sexual] Social Work, v. 36, no. 5 (Set, 1991), pp. 391-396, e Marion Zenn Goldberg, "Child
witnesses: lessons learned from the McMartin trials," Trial, v. 26, no. 10 (Out, 1990), pp.
86-88. Ver tambem Richard Lacayo, "The longest mistrial; the McMartin Pre-School case ends
at last," Time (6 Agosto 1990), p. 28; Frank McConnell, "The trials of television: the
McMartin case," Commonweal (23 Março 1990), pp. 189-190; Douglas J. Besharov, "Protecting
the innocent," National Review (19 Fev 1990), pp. 44-46; Margaret Carlson, "Six years of
trial by torture: children, defendants, jurors and judge were all abused in the wasteful
McMartin case," Time (29 Jan 1990), pp. 26-28; e "The child-abuse trial that left a national
legacy," U.S. News & World Report (29 Jan 1990), p. 8.
6. "`Trauma searches' plant the seed of imagined misery," Joseph de Rivera, The Sacramento
Bee, 18 Maio 1993. De Rivera é um professor de psicologia na Universidade de Clark em
Worcester, Massachusetts, e consultor da False Memory Syndrome Foundation.
7. The Sacramento Bee,18 Março 1993, p. B4. O artigo, "Represed-memory lawsuits spur
backlash from accused," por Claire Cooper descreve a batalha legal em que filho e filha
processam os pais que processam os filhos e os terapeutas dos filhos.
8. ibid.
Links
* False Memory Syndrome Foundation WWW Page
* Recovered Memories or Modern Witch Hunt? by Douglas E. Hill
* Information on Paul Ingram case (of Olympia, Washington)
* Recovered Memory Therapy and False memória Syndrome by John Hochman, M.D.
* Clinicans' Experiences Regarding Recovery of Sexual Abuse Memories
* Witchhunt Information Page
* Streetmap of the Mind
* Neurosciences on the Internet
* Journals from Cold Spring Harbor Laboratory Press on Learning and Memory
* Recovered Memories of Sexual Abuse: Scientific Research & Scholarly Resources by Jim
Hopper, M.A.
* Newton's Apple: Memory for kids of all ages!
Baker, Robert A. Hidden Memories: Voices and Visions From Within (Buffalo, N.Y. : Prometheus
Books, 1992.)
Loftus, Elizabeth F. Memory, Surprising New Insights Into How We Remember and Why We Forget
(Reading, Mass.: Addison-Wesley Pub. Co., 1980).
Loftus, Elizabeth F. Eyewitness Testimony (Cambridge, Mass.: Harvard University Press,
1979).
Loftus, Elizabeth F. and James M.Doyle. Eyewitness Testimony: Civil and Criminal (New York,
N.Y.: Kluwer Law Book Publishers, 1987).
Loftus, Elizabeth and Katherine Ketcham. Witness for the Defense : The Accused, the
Eyewitness, and the Expert Who Puts Memory on Trial (New York: St. Martin's Press, 1991).
Loftus, Elizabeth. The Myth of Repressed Memory (New York: St. Martin's, 1994).
Ofshe, Richard and Ethan Watters. Making Monsters: False Memories, Psychotherapy, and Sexual
Hysteria (New York: Scribner's, 1994).
Schacter, Daniel L. Searching for Memory - the brain, the mind, and the past (New York:
Basic Books, 1996).
Wakefield, Hollida and Ralph Underwager. Return of the Furies - An Investigation into
Recovered Memory Therapy (Peru, Illinois: Open Court Publishing Co., 1994).
-------------------------
Memória é a retenção e recordação de experiencias. Uma memória reprimida é uma que se diz
ser retida na mente inconsciente, onde pode afectar pensamento e acção mesmo se
aparentemente se esqueceu a experiência em que a memória se baseia. Uma falsa memória é uma
memória que se baseia no ouvir dizer ou sugestão. A falsa memória difere da memória errónea.
Esta baseia-se em experiencias reais que são recordadas incorrectamente. Falsa memória são
memórias de ter experimentado algo que na realidade nunca se experimentou.
Quão fiável e correcta é a memória? Enganamo-nos muitas vezes ao pensar que nos recordamos
correctamente de algo. Estudos sobre a memória mostram que muitas vezes construimos as
nossas memórias após o facto, que somos susceptiveis a sugestões de outros que ajudam a
preencher os buracos na nossa memória de um dado evento. É por isso que um policia, ao
investigar um crime, não deve mostrar uma fotografia de um só individuo à vitima e perguntar
se esta reconhece o assaltante. Se é apresentado à vitima com uma linha de suspeitos para
identificar e ela escolhe o individuo cuja fotografia lhe tinham mostrado, não há maneira de
saber se ela se está a recordar do assaltante ou da fotografia.
Outro facto interessante sobre a memória é que estudos mostram que não há uma correlação
significativa entre o sentimento subjectivo da certeza que uma pessoa tem acerca de uma
memória e a exactidão dessa memória. Tambem, contrariamente ao que muitas pessoas pensam, a
hipnose não ajuda à exactidão da memória. Porque o sujeito é extremamente sugestionável
enquanto hipnotizado, a maioria dos países não permitem testemunhos em tribunal feitos sob
hipnose.1 É possivel criar falsas memórias nas pessoas por sugestão, mesmo memórias de vidas
anteriores que nunca foram vividas. Tavris resume o estado actual da investigação da
memória:
A mente não recorda todo o detalhe de um acontecimento, mas apenas alguns dados; preenchemos
o resto baseados no que "deve ter sido". Para um acontecimento ficar guardado a longo prazo,
uma pessoa tem de o perceber, codificar e ensaiá-lo--falar sobre ele--ou ele decai. (Isto
parece ser o mecanismo principal por trás da amnésia infantil, o facto das crianças não
desenvolverem memórias a longo prazo até cerca dos 3 anos) A pesquisa mostra tambem que
mesmo experiencias emocionais que estamos certos nunca esqueceremos--o assassinio de
Kennedy, a explosão do Challenger--tornar-se-ão vagas na memória, e os erros assaltarão o
relato do que permanece.2
Tavris tambem reconta uma história sobre Jean Piaget, o célebre picólogo infantil. Piaget
afirmava que as suas mais antigas memórias eram de ter sido quase raptado com a idade de 2
anos. Recordava detalhes como estar sentado no carro de bébé, ver a enfermeira defender-se
do raptor, arranhões na cara dela, um policia perseguindo o raptor. A história era reforçada
pela enfermeira, os pais e outros que a tinham ouvido. Piaget estava convencido que se
recordava do acontecimento. Contudo, ele nunca aconteceu. Treze anos depois da alegada
tentativa de rapto, a antiga enfermeira escreveu aos pais de Piaget a confessar que tinha
inventado toda a história. Piaget escreveu posteriormente: "Devo portanto ter ouvido,
enquanto criança, o relato desta história... e projectado-a no passado em forma de memória
visual, que era uma memória de uma memória, mas falsa." Bem falado.
Não sabemos exactamente como funciona a memória, embora haja muitos modelos explicatórios.
Alguns destes identificam a memória com funções cerebrais. Num, por exemplo, a memória
diminui com a idade porque os neurónios vão morrendo conforme vamos envelhecendo. Há apenas
três modos de vencer este facto da natureza: 1. descobrir um modo de impedir os neurónios de
morrer; 2. descobrir um modo de estimular o crescimento de novos neurónios; ou 3. fazer os
restantes neurónios trabalharem mais eficientemente. Até agora, as opções 2 e 3 são as mais
prometedoras. Contudo, alguns resultados positivos teem sido obtidos com a estimulação do
crescimento de novas células cerebrais através de implantes fetais. E o Salk Institute tem
relatado que a investigação em neurogénese tem sido encorajadora. Observaram o crescimento
de neurónios no hipocampo de ratos colocados em ambiente estimulante. Investigação
neurologica tambem obteve resultados ao fazer os neurónios trabalharem melhor usando
ampakines, compostos quimicos algumas vezes chamados "drogas de memória." Os primeiros
testes com humanos mostraram excelentes resultados, mas a amostra era demasiado pequena para
justificar alguma conclusão alem de que os estudos deviam ser continuados. Para os que
pensam que a memória é uma função de uma realidade não-fisica, tais resultados devem
provocar alguma reflexão, apesar de pensar que um modelo não-fisico da mente nunca levará a
qualquer investigação que beneficie a humanidade. Para os que postulam que a memória é uma
função cerebral, existe não só um rumo para a investigação, como a esperança de sucesso na
descoberta de algo realmente util.
Por outro lado, um dos mais questionáveis modelos de memória é o que assume que toda a
experiência de uma pessoa é "registada" na memória e que algumas das nossas memórias são
acontecimentos demasiado traumaticos para os querermos recordar. Essas terriveis memórias
são fechadas na alegada "mente inconsciente," i.e., reprimida, para só os recordarmos
emadultos quando algo faz abrir a porta para a mente inconsciente. Quer antes quer depois da
memória reprimida ser chamada, provoca desordens fisicas e mentais na pessoa.
Este modelo de memória é questionavel porque assume que alguem ter problemas a funcionar
como um adulto saudável se deve a traumas de infância reprimidos, e assume que se recordar
um trauma de infância, essa recordação é exacta. O erro não está em que as pessoas não
tenham experiências dolorosas e desagradáveis que não queiram recordar. Nem é errado afirmar
que as crianças teem experiências maravilhosas e/ou brutais para as quais não teem bases
conceptuais ou linguisticas. As crianças são muitas vezes incapazes de compreender o que
experimentam. Como adultos, podem vir a compreender o que lhes aconteceu em criança. As
crianças sofram muitas vezes abusos, reprimem essa experiencia e mais tarde na vida
recordam-na. Não há nenhum mito nisto.
Mas, não há prova de que recordamos tudo o que experimentamos. De facto, há bastantes provas
de que é impossivel guardar todos os elementos conceptuais de uma dada experiencia muito
menos recordarmos todas. Nada prova que todas as memórias de acontecimentos indiqeum que
eles tenham acontecido como recordamos ou que tenham sequer acontecido. E não há qualquer
prova de que a certeza subjectiva quanto à exactidão da memória ou o ser tão real se possa
correlacionar com a sua exactidão. Finalmente, a afirmação de uma conexão causal entre abuso
e saude ou comportamento não permite concluir que doença, mental ou fisica, seja um "sinal"
de ter sofrido abusos.
O grande proclamador deste mito da memória foi Sigmund Freud, que aparentemente sabia que
era um mito. O mito foi expandido na Dianética por L. Ron Hubbard, que aparentemente não se
importava se era ou não um mito mas que culpou todas as desordens mentais e fisicas por
experiencias pré-natais e na infância, experiencias que não podiam ser "gravadas" pela mente
consciente visto a maioria ocorrer antes do cérebro, a mente e a linguagem existirem numa
pessoa.
O mito é a base para uma série de trabalhos pseudocientificossobre abuso de crianças por
auto-proclamados especialistas como Ellen Bass, Laura Davis, Wendy Maltz, Beverly Holman,
Beverly Engel, Mary Jane Williams e E. Sue Blume.3 Através de creinforço comunal muitas
noções empiricas não apoiadas, incluindo a de que metade de todas as mulheres sofreram
abusos sexuais, são tratadas como "factos" por muitas pessoas. A psicóloga Carol Tavris
escreve
No que só pode ser chamado de arranjo incestuoso, os autores destes livros apoiam-se nos
trabalhos dos outros para apioar as suas provas; todos recomnedam ao leitor a consulta dos
livros dos outros. Se um apresentas uma estatistica montada--como "mais de metade de todas
as mulheres são sobreviventes de traumas sexuais da infância"--os numeros são trocados como
cromos e, republicados em cada livro, e posteriormente apresentados como factos. O ciclo de
desinformação, estatisticas erradas e afirmações inválidas menteem-se a si mesmo.4
Uma diferença significativa entre este grupo de especialistas e, digamos, um grupo de
fisicos, é que aqueles especialistas obtiveram o seu estatuto não por treino cientifico mas
por (a) experiencia [foram vitima de abuso ou trataram vitimas de abuso no seu trabalho
social], ou (b) escreveram um livro sobre abuso infantil. Os especialistas de abuso infantil
não são treinados em investigação cientifica, o que, nota Tavris, "não é um comentário à sua
capacidade de escrever ou fazer terapia, mas parece ser uma razão para o seu analfabetismo
cientifico."
Eis algumas das noções não provadas, não cientificas, que são usadas por estes
especialistas: (1)Se duvida de que foi vitima de abuso em criança ou pensa que pode ser a
sua imaginação, isso é um sinal de "sindroma post-incesto" [Blume]. (2) Se não consegue
recordar nenhum momento especifico em que sofreu abusos mas mesmo assim tem uma sensação
estranha de que algum abuso aconteceu, "provavelmente aconteceu" [Bass and Davis]. (3)
Quando uma pessoa não consegue recordar a sua infância ou tem recordações vagas, "o incesto
deve sempre ser considerado como uma possibilidade" [Maltz e Holman]. E, (4) "Se tem alguma
suspeita, alguma memória, por mais vaga que seja, provavelmente aconteceu. É mais provável
que esteja a bloquear essas memórias, negando que algo tenha acontecido." [Engel]
Industrias completas se montaram da histeria que inevitavelmente acompanha acusações de
abusos sexuais de crianças. Hiperzelosos acusadores contrataram hiperzelosos terapeutas para
documentarem os abusos. Terapeutas que normalmente trabalham com crianças que sofreram
abusos foram contratados para descobrir se crianças tinham sido abusadas. Parece interessar
pouco aos acusadores que o terapeuta possa assumir que a criança sofreu abusos. Mas
demasiadas vezes o terapeuta ou o acusador sugere o abuso à criança e esta não só começa a
"recordar" como começa a fantasiar para agradar ao interrogador. A criança pode não
acreditar que nenhum dos acontecimentos que narra tenha acontecido, mas voluntariamente
testemunha as mais horriveis cenas envolvendo pais, avós, professores, amigos e mesmo
estranhos. Se ela começa a acreditar que sofreu realmente os acontecimentos testemunhados
mas implantados na sua mente pelas sugestões do terapeuta ou do acusador, então ela possui
uma falsa memória. Nenhuma pessoa pode condenar um pai ou um professor com base em tal
testemunho.5
Não foram só os terapeutas que trabalham com crianças que teem sido acusados de plantar
falsas memórias de abusos. Tambem os que trabalham com adultos. Terapeutas que usam
hipnoterapia para encorajarem os seus pacientes a "recordar" a infância (ou as vidas
passadas) são especialmente vulneráveis à acusação de sugerirem falsas memórias nos seus
clientes.
Desde Março de 1992, a False Memory Syndrome (FMS) Foundation em Philadelphia reuniu mais de
2.700 casos de pais que relataram falsas acusações como resultado de "memórias" recuperadas
em terapia.6 A FMSF afirma que estes casos incluem cerca de 400 familias que foram acusadas
ou ameaçadas de acusação de abuso infantil.7 Vitimas da acusação falsa pelos seus filhos ou
outros de terem abusado sexualmente deles muitos anos antes estão a ripostar. Laura Pasley,
que trabalha para a policia de Dallas, foi a um terapeuta em 1985 tratar-se de bulimia.
Agora está a processar o terapeuta que a persuadiu que ela sofreu abusos sexuais na
infância. O terapeuta disse-lhe que ela tinha sido abusada e, quando ela se recusou a
acreditar, disse-lhe que ela realmente não se queria curar. Ela queria ficar bem "mais do
que outra coisa" e continuou com o terapeuta. Acabou por "baralhar completamente toda a
terapia" afirma ela. "8 A história dela corre actualmente os tribunais americanos.
Os perigos deste mito da memória são visiveis: não só as memórias falsas são tratadas como
reais, mas as memóris reais de abusos reais podem ser tratadas como falsas memórias,
fornecendo assim uma defesa credível a criminosos autenticos. No fim, ninguem beneficia ao
encorajar uma crença na memória que é falsa. Qualquer que seja a teoria sobre a memória que
se defenda, se não permite examinar provas e tentar de um modo independente verificar
afirmações de abusos recordados, é uma teoria em risco de provocar mais mal do que bem.
Uma variante da memória de não-experiencias é a noção de que uma pessoa pode recordar vidas
passadas. Este mito tem sido perpetuado por relatos de pessoas que, em sonhos ou sob
hipnose, recordam experiencias de pessoas que viveram em épocas passadas. Um caso tipico de
regressão a vidas passadas é o de Bridie Murphy, de quem já falámos o suficiente noutro
lugar.
Então, os relatos de memórias reprimidas devem ser recusados à partida? Claro que não! Mas
temos de tentar corroborar tais memórias com provas e testemunhos independentes antes de
tirar conclusões sobre esses factos, especialmente se abusos ou crimes. Tais relatos devem
ser tomados seriamente e examinados criticamente, dando-lhes toda a atenção e estudo que
devemos dar a qualquer alegação de crime. Mas não devemos apressar o julgamento, quer sobre
a exactidão das memórias quer sobre a relação causal entre experiências passadas e problemas
actuais. Memórias reprimidas durante anos que são subitamente recordadas não devem ser
automaticamente rejeitadas como falsas. Nem devem ser automaticamente aceites como
verdadeiras. Em termos de verificação da sua exactidão, estas memórias devem ser tratadas do
mesmo modo que qualquer outro tipo de memória.
Ver: Bridie Murphy, dianética, hipnose, mente, reincarnação.
Notas
1. Ver Elizabeth Loftus, Eyewitness Testimony, Harvard University Press, 1980. Ver tambem
artigos no Skeptical Inquirer, Vol. XII No. 2, Inverno 1987-88: "The Power of Suggestion on
memória" por Robert A. Baker e "Fantasizing Under Hypnosis: Some Experimental Evidence" por
Peter J. Reveen. Três testemunhas de um assalto armado ensaiado foram hipnotizados por
Reveen. Os seus relatos eram bastante detalhados mas nenhum concordava com o outro e nenhum
se aproximava sequer dos factos reais que narrava.
2. Carol Tavris, "Hysteria and the incest-survivor machine," Sacramento Bee, Forum, 17
Janeiro 1993, p. 1. Tavris é o autor de várias obras de psicologia, incluindo The Mismeasure
of Woman (New York: Simon & Schuster, 1992). Tambem editor de Every Woman's Emotional
Well-being (Garden City, N.Y. : Doubleday, 1986).
3. ibid.
4. ibid.
5. Sim, aconteceu. Numa versão moderna das bruxas de Salem, o caso da escola McMartin
exemplifica o pior na justiça institucional na caça de molestadores de crianças. Ver Mary
Ann Mason, "The McMartin case revisited: the conflict between social work and criminal
justice," [na avaliação da credibilidade de crianças como testemunhas de casos de abuso
sexual] Social Work, v. 36, no. 5 (Set, 1991), pp. 391-396, e Marion Zenn Goldberg, "Child
witnesses: lessons learned from the McMartin trials," Trial, v. 26, no. 10 (Out, 1990), pp.
86-88. Ver tambem Richard Lacayo, "The longest mistrial; the McMartin Pre-School case ends
at last," Time (6 Agosto 1990), p. 28; Frank McConnell, "The trials of television: the
McMartin case," Commonweal (23 Março 1990), pp. 189-190; Douglas J. Besharov, "Protecting
the innocent," National Review (19 Fev 1990), pp. 44-46; Margaret Carlson, "Six years of
trial by torture: children, defendants, jurors and judge were all abused in the wasteful
McMartin case," Time (29 Jan 1990), pp. 26-28; e "The child-abuse trial that left a national
legacy," U.S. News & World Report (29 Jan 1990), p. 8.
6. "`Trauma searches' plant the seed of imagined misery," Joseph de Rivera, The Sacramento
Bee, 18 Maio 1993. De Rivera é um professor de psicologia na Universidade de Clark em
Worcester, Massachusetts, e consultor da False Memory Syndrome Foundation.
7. The Sacramento Bee,18 Março 1993, p. B4. O artigo, "Represed-memory lawsuits spur
backlash from accused," por Claire Cooper descreve a batalha legal em que filho e filha
processam os pais que processam os filhos e os terapeutas dos filhos.
8. ibid.
Links
* False Memory Syndrome Foundation WWW Page
* Recovered Memories or Modern Witch Hunt? by Douglas E. Hill
* Information on Paul Ingram case (of Olympia, Washington)
* Recovered Memory Therapy and False memória Syndrome by John Hochman, M.D.
* Clinicans' Experiences Regarding Recovery of Sexual Abuse Memories
* Witchhunt Information Page
* Streetmap of the Mind
* Neurosciences on the Internet
* Journals from Cold Spring Harbor Laboratory Press on Learning and Memory
* Recovered Memories of Sexual Abuse: Scientific Research & Scholarly Resources by Jim
Hopper, M.A.
* Newton's Apple: Memory for kids of all ages!
Baker, Robert A. Hidden Memories: Voices and Visions From Within (Buffalo, N.Y. : Prometheus
Books, 1992.)
Loftus, Elizabeth F. Memory, Surprising New Insights Into How We Remember and Why We Forget
(Reading, Mass.: Addison-Wesley Pub. Co., 1980).
Loftus, Elizabeth F. Eyewitness Testimony (Cambridge, Mass.: Harvard University Press,
1979).
Loftus, Elizabeth F. and James M.Doyle. Eyewitness Testimony: Civil and Criminal (New York,
N.Y.: Kluwer Law Book Publishers, 1987).
Loftus, Elizabeth and Katherine Ketcham. Witness for the Defense : The Accused, the
Eyewitness, and the Expert Who Puts Memory on Trial (New York: St. Martin's Press, 1991).
Loftus, Elizabeth. The Myth of Repressed Memory (New York: St. Martin's, 1994).
Ofshe, Richard and Ethan Watters. Making Monsters: False Memories, Psychotherapy, and Sexual
Hysteria (New York: Scribner's, 1994).
Schacter, Daniel L. Searching for Memory - the brain, the mind, and the past (New York:
Basic Books, 1996).
Wakefield, Hollida and Ralph Underwager. Return of the Furies - An Investigation into
Recovered Memory Therapy (Peru, Illinois: Open Court Publishing Co., 1994).
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FALSA MEMÓRIA
FALSA MEMÓRIA
Em 1986, Nadean Cool, uma ajudante de enfermagem em Wisconsin, procurou ajuda terapêutica de
um psiquiatra para auxiliá-la a superar um evento traumático experimentado pela sua filha.
Durante a terapia, o psiquiatra usou hipnose e outras técnicas sugestivas para trazer à tona
recordações de abuso que Cool supostamente teria experimentado. No processo, Cool foi
convencida de que ela tinha memórias reprimidas de ter estado em um culto satânico, de comer
os bebês, de ser estuprada, de ter sexo com animais e de ser forçada a assistir o
assassinato da sua amiga de oito anos. Ela chegou a acreditar que teve mais de 120
personalidades - crianças, adultos, anjos e até mesmo um pato - tudo isso porque lhe foi
dito que ela havia passado por severo abuso sexual e físico na infância. O psiquiatra também
executou exorcismos nela, um dos quais durou cinco horas e incluiu o uso de água benta e
gritos para Satanás deixar o seu corpo.
Quando Cool percebeu finalmente que aquelas falsas recordações foram implantadas, ela
processou o psiquiatra por negligência profissional. Depois de cinco semanas de julgamento,
o caso dela foi resolvido fora do tribunal por 2,4 milhões de dólares em março de 1997.
Nadean Cool não é a única paciente a desenvolver falsas recordações como resultado de uma
terapia questionável. Em 1992 no Missouri, um conselheiro de igreja ajudou Beth Rutherford a
se lembrar, durante terapia, que o seu pai, um clérigo, a tinha estuprado regularmente dos
sete aos catorze anos e que a sua mãe às vezes o ajudava segurando-a. Sob a direção do
terapeuta, Rutherford desenvolveu recordações de seu pai engravidando-a duas vezes e
forçando-a a abortar o feto ela mesma com um cabide. O pai teve que resignar do posto de
clérigo quando as alegações se tornaram públicas. Mais tarde um exame médico da filha
revelou, porém, que ela ainda era virgem aos 22 anos e nunca tinha estado grávida. A filha
processou o terapeuta e recebeu 1 milhão de dólares de indenização em 1996.
Aproximadamente um ano antes, dois júris apresentaram vereditos desfavoráveis a um
psiquiatra de Minnesota, o qual foi acusado de implantar falsas recordações pelos seus
ex-pacientes Vynnette Hamanne e Elizabeth Carlson que submetidos à hipnose e ao amytal
sódico1, e depois de serem mal informados sobre os funcionamentos da memória, vieram a se
lembrar de horroroso abuso por membros da família. Os jurados compensaram Hammane com 2,67
milhões e Carlson com 2,5 milhões de dólares pelos seus sofrimentos.
Em todos os quatro casos, as mulheres desenvolveram recordações sobre abuso infantil na
terapia e posteriormente negaram a sua autenticidade. Como nós podemos determinar se
recordações de abuso infantil são verdadeiras ou falsas? Sem corroboração, é muito difícil
de diferenciar entre falsas e verdadeiras recordações. Também, nestes casos, algumas
recordações eram contrárias à evidência física, como memórias explícitas e detalhadas de
estupro e aborto quando o exame médico confirmava virgindade. Como é possível as pessoas
adquirirem falsas recordações tão elaboradas e seguras? Um número crescente de investigações
demonstra que sob circunstâncias adequadas falsas recordações podem ser instiladas muito
facilmente em algumas pessoas.
Minha própria pesquisa em distorção de memória remonta ao início dos anos 70, quando iniciei
os estudos do "efeito da informação incorreta". Estes estudos mostram que quando as pessoas
que testemunham um evento são posteriormente expostas a informação nova e enganosa sobre
ele, as suas recordações freqüentemente se tornam distorcidas. Em um exemplo, participantes
viram um acidente de automóvel simulado em um cruzamento com um sinal de Pare. Depois do
ocorrido, metade dos participantes recebeu uma sugestão de que o sinal de tráfego era um
sinal de passagem preferencial. Quando perguntados posteriormente que sinal de tráfego eles
se lembravam de ter visto no cruzamento, os que haviam sido sugestionados tendiam a afirmar
que tinham visto um sinal de passagem preferencial. Aqueles que não tinham recebido a falsa
informação eram muito mais precisos na lembrança do sinal de tráfego.
Meus estudantes e eu administramos até agora mais de 200 experiências envolvendo mais de
20.000 indivíduos que documentam como a exposição à informação enganosa induz à distorção de
memória. Nestes estudos, pessoas "recordaram" um celeiro digno de nota numa cena bucólica
que não continha nenhum edifício; vidro quebrado e gravadores de fita que não estavam nas
cenas que viram; um veículo branco em vez de azul na cena de um crime; e Minnie Mouse quando
eles na verdade viram Mickey Mouse. Considerados em conjunto, estes estudos mostram que a
informação enganosa pode mudar a memória de um indivíduo de um modo previsível e às vezes
muito poderoso.
A informação enganosa tem o potencial de invadir nossas recordações quando falamos com
outras pessoas, quando somos interrogados sugestivamente ou quando lemos ou vemos a
cobertura da mídia sobre algum evento que podemos ter experienciado nós mesmos. Depois de
mais de duas décadas explorando o poder da informação enganosa, pesquisadores aprenderam
muita coisa sobre as condições que fazem as pessoas suscetíveis à modificação da memória. As
recordações são mais facilmente modificadas, por exemplo, quando a passagem de tempo permite
o enfraquecimento da memória original.
Falsas Memórias Infantis
Uma coisa é mudar um detalhe ou dois numa memória intacta mas outra totalmente diferente é
implantar uma falsa memória de um evento que nunca aconteceu. Para estudar a falsa memória,
eu e meus estudantes tivemos de achar um modo de implantar uma pseudomemória que não
causasse nos nossos participantes tensão emocional imprópria, tanto no processo de criá-la
quanto na revelação de que eles tinham sido enganados intencionalmente. Nós quisemos ainda
tentar implantar uma memória que seria pelo menos ligeiramente traumática se a experiência
tivesse ocorrido de fato.
Eu e minha parceira de pesquisa, Jacqueline E. Pickrell, concordamos em tentar implantar uma
memória específica de estar perdido em um shopping center ou em uma grande loja de
departamentos ao redor dos cinco anos. Aqui está como fizemos isto. Nós perguntamos para
nossos participantes, 24 indivíduos dos 18 aos 53 anos, para tentarem se lembrar de eventos
de infância que tinham sido contados a nós por um pai, um irmão mais velho ou outro parente
próximo. Nós preparamos uma brochura para cada participante contendo estórias de um
parágrafo sobre três eventos que haviam acontecido de fato a ele ou a ela e um que não
havia. Nós construímos o falso evento sobre um possível passeio ao shopping usando
informação provida por um parente, o qual verificou também se o participante não havia
estado, de fato, perdido aos cinco anos. O enredo de "perdido no shopping" incluiu os
seguintes elementos: perdido durante um período prolongado, choro, ajuda e consolo por uma
mulher idosa e, finalmente, a reunião com a família.Depois de ler cada história da brochura,
os participantes escreveram sobre o que eles se lembravam do evento. Se eles não se
lembrassem dele, eram instruídos a escrever, "eu não me lembro disto". Em duas entrevistas
seguidas, nós falamos aos participantes que estávamos interessados em examinar o quanto de
detalhe que eles podiam se lembrar e comparar as recordações deles com as dos seus parentes.
Os parágrafos sobre o evento não foram lidos literalmente a eles, em vez disso foram
fornecidos trechos para sugerir a lembrança. Os participantes recordaram aproximadamente 49
dos 72 eventos verdadeiros (68 %) logo depois da leitura inicial da brochura e também em
cada uma das duas entrevistas seguidas. Depois de lerem a brochura, sete dos 24
participantes (29 %) lembraram-se tanto parcialmente como totalmente do falso evento
construído para eles, e nas duas entrevistas seguidas seis participantes (25 %) continuaram
afirmando que eles se lembravam do evento fictício. Estatisticamente, havia algumas
diferenças entre as verdadeiras e as falsas recordações: participantes usaram mais palavras
para descrever as verdadeiras recordações, e eles avaliaram as verdadeiras recordações como
estando um pouco mais claras. Mas se um espectador fosse observar muitos de nossos
participantes descreverem um evento, seria realmente difícil para ele dizer se a estória era
uma recordação verdadeira ou falsa. Claro que, estar perdido, por mais assustador, não é o
mesmo que ser molestado. Mas o estudo de "perdido no shopping" não é sobre experiências
reais de estar perdido; é sobre implantar falsas memórias de estar perdido. O modelo mostra
um modo de instalar falsas recordações e dá um passo em direção ao entendimento de como isto
poderia acontecer no mundo real. Além disso, o estudo fornece evidência de que as pessoas
podem ser conduzidas a se lembrarem do seu passado de modos diferentes, e elas podem até
mesmo serem persuadidas a se "lembrar" de eventos completos que nunca aconteceram.
Estudos em outros laboratórios usando um procedimento experimental semelhante produziram
resultados semelhantes. Por exemplo, Ira Hyman, Troy H. Husband e F. James Billing da
Western Washington University pediram para estudantes de faculdade que recordassem
experiências de infância que haviam sido contadas pelos seus pais. Os pesquisadores disseram
aos estudantes que o estudo era a respeito de como as pessoas se lembram das mesmas
experiências de modo diferente. Além de eventos reais reportados pelos pais, foi dado a cada
participante um evento falso, seja uma hospitalização à noite devido a uma febre alta e a
uma possível infecção de ouvido, ou uma festa de aniversário com pizza e palhaço que
supostamente aconteceram aos cinco anos. Os pais confirmaram que nenhum desses eventos
ocorreu de verdade.Hyman descobriu que os estudantes recordaram completa ou parcialmente 84
% dos eventos verdadeiros na primeira entrevista e 88 % na segunda entrevista. Nenhum dos
participantes recordou o evento falso durante a primeira entrevista, mas 20 % disseram na
segunda entrevista que se lembravam de algo sobre o evento falso. Um participante que foi
exposto à história da hospitalização de emergência mais tarde se lembrou de um médico, de
uma enfermeira e de um amigo da igreja que veio visitá-lo no hospital. Em um outro estudo,
Hyman apresentou junto com eventos verdadeiros, diferentes eventos falsos, como derramar
acidentalmente uma tigela de ponche nos pais da noiva numa recepção de casamento ou ter que
abandonar um supermercado quando o sistema de irrigação contra fogo ativou-se
acidentalmente. Novamente, nenhum dos participantes recordou o falso evento durante a
primeira entrevista, mas 18 % se lembraram de algo a respeito na segunda entrevista. Por
exemplo, durante a primeira entrevista, um participante, quando perguntado a respeito do
casamento fictício, declarou, "eu não tenho nenhuma idéia. Eu nunca ouvi isso antes". Na
segunda entrevista, o participante disse, "era um casamento ao ar livre, e eu acho que
estávamos correndo e derrubamos alguma coisa como uma tigela de ponche ou algo parecido e
fizemos uma grande bagunça e, é claro, fomos repreendidos por isto."
Inflação da Imaginação
A descoberta de que uma sugestão externa pode conduzir à construção de falsas recordações
infantis nos ajuda a entender o processo pelo qual as falsas recordações surgem. É natural
querer saber se esta pesquisa é aplicável em situações reais como a de ser interrogado por
um oficial da lei ou na psicoterapia. Embora uma sugestão enfática pode não acontecer
habitualmente em um interrogatório policial ou na terapia, a sugestão na forma de um
exercício imagético às vezes o faz. Por exemplo, quando tentando obter uma confissão,
oficiais da lei podem pedir para um suspeito que imagine ter participado de um ato
criminoso, e alguns profissionais de saúde mental encorajam os pacientes a imaginar eventos
infantis como um modo de recuperar memórias supostamente escondidas.
Pesquisas de psicólogos clínicos revelam que 11 % deles instruem seus clientes "a deixarem a
imaginação correr solta" e 22 % dizem para seus clientes "dar rédea livre à imaginação". A
terapeuta Wendy Maltz, autora de um livro popular sobre abuso sexual infantil, defende que
se dê a seguinte recomendação ao paciente: "Gaste tempo imaginando que você foi abusado
sexualmente, sem se preocupar que a exatidão prove qualquer coisa, ou ter que fazer suas
idéias terem sentido....Pergunte a si mesmo...estas questões: Que hora do dia é agora? Onde
você está? Em um lugar fechado ou ao ar livre? Que coisas estão acontecendo? Há uma ou mais
pessoas com você?" Maltz adicionalmente recomenda que os terapeutas continuem fazendo
perguntas como "Quem teria sido o provável responsável? Quando você foi mais vulnerável ao
abuso sexual em sua vida?"
O uso crescente de tais exercícios de imaginação conduziu a mim e a vários colegas a se
perguntarem sobre as suas conseqüências. O que acontece quando as pessoas imaginam
experiências infantis que não aconteceram? Imaginar um acontecimento na infância aumenta a
convicção de que realmente aconteceu? Para explorar isto, nós projetamos um procedimento de
três fases. Nós primeiro pedimos aos participantes que indicassem a probabilidade de que
certos eventos aconteceram a eles durante a infância. A lista contém 40 eventos, cada um
classificado numa escala variando de "definitivamente não aconteceu" a "sem dúvida
aconteceu". Duas semanas mais tarde nós pedimos aos participantes que imaginassem que haviam
experienciado alguns destes eventos. Foi pedido a diferentes indivíduos que imaginassem
diferentes eventos. Algum tempo depois foi pedido aos participantes que respondessem à lista
original de 40 eventos infantis novamente, indicando quão provável estes eventos realmente
aconteceram a eles. Considere um dos exercícios de imaginação: é dito aos participantes que
imaginem brincar dentro de casa depois da escola, ouvindo então um ruído estranho do lado de
fora, correndo para a janela, tropeçando, caindo, e alcançando e quebrando a janela com as
suas mãos. Além disso, nós perguntamos aos participantes coisas como "No que você tropeçou?
Como você se sentia?" Em um estudo 24 % dos participantes que imaginaram a cena da janela
quebrada relataram mais tarde um aumento de confiança de que o evento havia acontecido,
enquanto que aqueles aos quais não foi pedido imaginar o incidente apenas 12 % relataram um
aumento na probabilidade de que havia ocorrido. Nós descobrimos este efeito da "inflação da
imaginação" em cada um dos oito eventos que os participantes imaginaram a nosso pedido.
Várias explicações possíveis vêm à mente. Uma óbvia é de que o ato de imaginar simplesmente
faz o evento parecer mais familiar e essa familiaridade é relacionada erroneamente às
recordações de infância ao invés de ser relacionada ao ato de imaginar. Tal confusão de
fonte, quando uma pessoa não se lembra da fonte de informação, pode ser especialmente
intensa para as distantes experiências da infância.
Os estudos de Lyn Giff e de Henry L. Roediger III da Universidade de Washington sobre
recente experiências ao invés de experiências infantis, conectam de forma mais direta as
ações imaginadas à construção da falsa memória. Durante a sessão inicial, os pesquisadores
instruíram os participantes a imaginar a ação proposta ou apenas escutá-la sem fazer mais
nada. As ações eram simples: bata na mesa, erga o grampeador, quebre um palito, cruze seus
dedos, e rode seus olhos. Durante a segunda sessão, foi pedido aos participantes que
imaginassem algumas das ações que eles não haviam executado anteriormente. Durante a sessão
final, eles responderam perguntas sobre quais ações eles executaram de fato durante a sessão
inicial. Os pesquisadores descobriram que quanto mais os participantes imaginavam uma ação
não executada, mais provável era que eles se lembrassem de tê-la executado.
Recordações Impossíveis
É altamente improvável que um adulto possa se recordar de lembranças incidentais verdadeiras
do primeiro ano de vida, em parte porque o hipocampo, que desempenha um importante papel na
criação de recordações, não amadureceu o bastante para formar e armazenar recordações
duradouras que possam ser recuperadas na fase adulta.
Um procedimento para implantar "recordações impossíveis" sobre experiências que ocorrem logo
após o nascimento foi desenvolvido pelo falecido Nicholas Spanos e seus colegas da
Universidade de Carleton. Pessoas foram levadas a acreditar que elas tinham habilidades de
exploração visual e de movimento ocular bastante coordenados provavelmente porque elas
nasceram em hospitais que penduravam coloridos mobiles oscilantes em cima dos berços das
crianças. Para confirmar se eles tiveram tal experiência, metade dos participantes foi
submetida à hipnose e conduzida até o dia posterior ao nascimento e então foram questionadas
sobre o que elas se lembravam. A outra metade do grupo participou de um procedimento de
"reestruturação mnemônica dirigida" que usou regressão de idade assim como um vívido
encorajamento para se recriar as experiências infantis imaginando-as. Spanos e seus colegas
de trabalho descobriram que a vasta maioria dos participantes era suscetível a estes
procedimentos de implante de memória. Tanto os participantes hipnóticos quanto os dirigidos
relataram recordações infantis. Surpreendentemente, o grupo dirigido recordou um pouco mais
(95 % contra 70 %). Ambos os grupos se lembravam do móbile colorido numa taxa relativamente
alta (56 % do grupo dirigido e 46 % do hipnótico). Muitos participantes que não se lembravam
do móbile, se recordavam de outras coisas, como médicos, enfermeiras, luzes brilhantes,
berços e máscaras. Também, em ambos os grupos, daqueles que relataram recordações de
infância, 49 % sentiam que as recordações eram reais contra 16 % que reivindicavam que elas
eram apenas fantasias. Estas descobertas confirmam estudos prévios de que muitas pessoas
podem ser levadas a construir falsas recordações complexas, vívidas e detalhadas por meio de
um procedimento bastante simples. A hipnose claramente não é necessária.
Como as Falsas Memórias se Formam
No estudo de perdido-no-shopping, a implantação da falsa memória aconteceu quando outra
pessoa, normalmente um membro da familia, afirmou que o incidente aconteceu. A corroboração
de um evento por uma outra pessoa pode ser uma técnica poderosa para induzir a uma falsa
memória. De fato, só de afirmar ter visto uma pessoa fazendo algo errado já é o suficiente
para conduzí-la a uma falsa confissão.
Este efeito foi demonstrado em um estudo de Saul M. Kassin e seus colegas da Williams
College que investigaram as reações de indivíduos acusados falsamente de danificar um
computador apertando a tecla errada. Os participantes inocentes inicialmente negaram a
acusação, mas quando uma pessoa associada ao experimento disse que havia visto eles
executarem a ação, muitos participantes assinaram uma confissão, absorveram a culpa pelo ato
e continuaram a confabular detalhes que fossem consistentes com aquela convicção. Estas
descobertas mostram que uma falsa evidência incriminatória pode induzir as pessoas a
aceitarem a culpa por um crime que não cometeram e até mesmo a desenvolver recordações para
apoiar os seus sentimentos de culpa.
As pesquisas estão começando a nos dar uma compreensão de como falsas recordações de
experiências emocionalmente envolventes e completas são criadas em adultos. Primeiro, há uma
exigência social para que os indivíduos se lembrem; por exemplo, num estudo para trazer à
tona as recordações, os pesquisadores costumam exercer um pouco de pressão nos
participantes. Segundo, a construção de memórias pelo processo de imaginar os eventos pode
ser explicitamente encorajada quando as pessoas estão tendo dificuldades em se lembrar. E,
finalmente, os indivíduos podem ser encorajados a não pensar se as suas construções são
reais ou não. A elaboração de falsas recordações é mais provável de acontecer quando estes
fatores externos estão presentes, seja num ambiente experimental, terapêutico, ou durante as
atividades cotidianas.
Falsas recordações são construídas combinando-se recordações verdadeiras com o conteúdo das
sugestões recebidas de outros. Durante o processo, os indivíduos podem esquecer a fonte da
informação. Este é um exemplo clássico de confusão sobre a origem da informação na qual o
conteúdo e a proveniência da informação estão dissociados.
Está claro que não é porque nós podemos implantar falsas recordações de infância em alguns
indivíduos que todas as recordações que surgirem após a sugestão serão necessariamente
falsas. Dizendo de outro modo, embora o trabalho experimental na criação de falsas
recordações pode levantar dúvidas sobre a validade de recordações remotas, como um trauma
recorrente, de nenhuma maneira os desmentem. Sem corroboração, há muito pouco que possa ser
feito para ajudar até mesmo o mais experiente observador a diferenciar as verdadeiras
recordações daquelas que foram sugestivamente implantadas.
Os mecanismos precisos pelos quais esses tipos de falsas memórias são construídos aguardam
por novas pesquisas. Nós ainda temos muito a aprender sobre o grau de confiança e as
características das falsas memórias criadas desta maneira, e nós precisamos descobrir que
tipos de indivíduos são particularmente suscetíveis a estas formas de sugestão e que tipos
são resistentes.
Enquanto continuamos este trabalho, é importante prestar atenção à advertência contida nos
dados já obtidos: profissionais de saúde mental e outros devem estar atentos de quão
enormemente eles podem influenciar a lembrança de eventos e da urgente necessidade de se
manter a moderação em situações nas quais a imaginação é usada como um auxílio para
recuperar memórias presumivelmente perdidas.
***
Artigo publicado na Scientific American, em setembro de 1997, vol 277 #3 páginas 70-75..
ELIZABETH F. LOFTUS é professora de psicologia e professora auxiliar de Direito na
Universidade de Washington. Ela recebeu o Ph.D em psicologia da Universidade de Stanford em
1970. Sua pesquisa concentra-se em memória humana, depoimento de testemunha ocular e
procedimentos de Tribunal. Loftus publicou 18 livros e mais de 250 artigos científicos e
serviu como especialista ou assessora em testemunhas em centenas de julgamentos, inclusive
no caso de molestamento na pré-escola McMartin2. Seu livro Eyewitness Testimony ganhou o
National Media Award da Fundação Psicológica Americana. Ela recebeu doutorados honorários da
Universidade de Miami, Universidade de Leiden e da Faculdade John Jay de Justiça Criminal.
Loftus foi eleita presidenta da Sociedade Psicológica Americana recentemente.
Notas
1 - Barbitúrico usado como sedativo e hipnótico. Vulgarmente conhecido como 'soro da
verdade'. (N.T.) Voltar
2 - Processo sobre abuso sexual na Califórnia que durou seis anos e custou 15 milhões de
dólares ao Estado. Em agosto de 1983, Judy Johnson denunciou que seu filho havia sido
molestado na pré-escola McMartin. Devido à falta de evidência não houve processo.
Entretanto, o delegado da polícia de Manhattan Beach fez circular uma carta aos pais dos
estudantes da pré-escola McMartin mencionando um possível abuso sexual. Criou-se um pânico
generalizado e a mídia se encarregou de espalhar o boato. Centenas de crianças foram
entrevistadas e 360 foram diagnosticadas como tendo sofrido abuso. O exame médico foi
realizado em 150 crianças e apesar da falta de evidência física, o médico concluiu que 120
delas haviam sido molestadas. Outras escolas da área e até uma igreja foram envolvidas numa
suposta quadrilha de abuso infantil. Professores foram acusados de abuso sexual e de
praticar rituais satânicos. Entre as inúmeras acusações estavam a de terem forçado as
crianças a participarem de filmes e fotos pornográficos, de terem matado e mutilado animais
para intimidar as crianças, de as terem forçado a participar de rituais satânicos e a beber
o sangue de bebês que haviam sido mortos, de as terem forçado a entrar em caixões e de
enterrá-las, e outras ainda mais bizarras. A polícia investigou 10 escolas e uma igreja e
não encontrou nenhuma evidência concreta. Judy Johnson foi posteriormente diagnosticada como
esquizofrênica e acabou morrendo em casa de problemas no fígado relacionados ao excesso de
álcool antes do início do julgamento. A informação sobre o seu estado mental foi escondida
da defesa. Após um longo e extenuante processo, em 1990 os acusados foram considerados
inocentes, e a promotoria desistiu de novas acusações. Qualquer semelhança entre este caso e
o ocorrido em São Paulo na Escola Base não é mera coincidência. Guardada as devidas
proporções, os dois casos foram uma combinação sinergética entre uma imprensa irresponsável,
uma polícia ineficiente, e médicos e terapeutas incompetentes. (N.T.) Voltar
Leitura Complementar
THE MYTH OF REPRESSED MEMORY. Elizabeth F Loftus and Katherine Ketcham. St. Martin's Press,
1994.
THE SOCIAL PSYCHOLOGY OF FALSE CONFESSIONS: COMPLIANCE, INTER NALIZATION, AND CONFABULATION.
Saul M. Kassin and Katherine L. Kiechel in Psychological Science, Vol. 7, NO. 3, pages
12S-128; May 1996.
IMAGINATION INFLATION: IMAGINING A CHILDHOOD EVENT INFLATES CONFIDENCE THAT IT OCCURRED.
Maryanne Carry, Charles G. Manning, Elizabeth F. Loftus and Steven J. Sherman in Psychonomic
Bulletin and Review, Vol. 3, NO. 2, pages 208-214; June 1996.
REMEMBERING OUR PAST: STUDIES IN AUTOBIOGRAPHICAL MEMORY. Edited by David C. Rubin.
Cambridge University Press, 1996.
SEARCHING FOR MEMORY: THE BRAIN, THE MIND, AND THE PAST. Daniel L. Schacter. BasicBooks,
1996.
False Memory Syndrome Foundation
http://directory.google.com/Top/Society/People/Men/Issues/Equality/Men%27s_Rights/Law/False_
Accusations/False_Memory_Syndrome
Referência
# http://www.skepdic.com/falsememory.html
-----------------------------------------
Em 1986, Nadean Cool, uma ajudante de enfermagem em Wisconsin, procurou ajuda terapêutica de
um psiquiatra para auxiliá-la a superar um evento traumático experimentado pela sua filha.
Durante a terapia, o psiquiatra usou hipnose e outras técnicas sugestivas para trazer à tona
recordações de abuso que Cool supostamente teria experimentado. No processo, Cool foi
convencida de que ela tinha memórias reprimidas de ter estado em um culto satânico, de comer
os bebês, de ser estuprada, de ter sexo com animais e de ser forçada a assistir o
assassinato da sua amiga de oito anos. Ela chegou a acreditar que teve mais de 120
personalidades - crianças, adultos, anjos e até mesmo um pato - tudo isso porque lhe foi
dito que ela havia passado por severo abuso sexual e físico na infância. O psiquiatra também
executou exorcismos nela, um dos quais durou cinco horas e incluiu o uso de água benta e
gritos para Satanás deixar o seu corpo.
Quando Cool percebeu finalmente que aquelas falsas recordações foram implantadas, ela
processou o psiquiatra por negligência profissional. Depois de cinco semanas de julgamento,
o caso dela foi resolvido fora do tribunal por 2,4 milhões de dólares em março de 1997.
Nadean Cool não é a única paciente a desenvolver falsas recordações como resultado de uma
terapia questionável. Em 1992 no Missouri, um conselheiro de igreja ajudou Beth Rutherford a
se lembrar, durante terapia, que o seu pai, um clérigo, a tinha estuprado regularmente dos
sete aos catorze anos e que a sua mãe às vezes o ajudava segurando-a. Sob a direção do
terapeuta, Rutherford desenvolveu recordações de seu pai engravidando-a duas vezes e
forçando-a a abortar o feto ela mesma com um cabide. O pai teve que resignar do posto de
clérigo quando as alegações se tornaram públicas. Mais tarde um exame médico da filha
revelou, porém, que ela ainda era virgem aos 22 anos e nunca tinha estado grávida. A filha
processou o terapeuta e recebeu 1 milhão de dólares de indenização em 1996.
Aproximadamente um ano antes, dois júris apresentaram vereditos desfavoráveis a um
psiquiatra de Minnesota, o qual foi acusado de implantar falsas recordações pelos seus
ex-pacientes Vynnette Hamanne e Elizabeth Carlson que submetidos à hipnose e ao amytal
sódico1, e depois de serem mal informados sobre os funcionamentos da memória, vieram a se
lembrar de horroroso abuso por membros da família. Os jurados compensaram Hammane com 2,67
milhões e Carlson com 2,5 milhões de dólares pelos seus sofrimentos.
Em todos os quatro casos, as mulheres desenvolveram recordações sobre abuso infantil na
terapia e posteriormente negaram a sua autenticidade. Como nós podemos determinar se
recordações de abuso infantil são verdadeiras ou falsas? Sem corroboração, é muito difícil
de diferenciar entre falsas e verdadeiras recordações. Também, nestes casos, algumas
recordações eram contrárias à evidência física, como memórias explícitas e detalhadas de
estupro e aborto quando o exame médico confirmava virgindade. Como é possível as pessoas
adquirirem falsas recordações tão elaboradas e seguras? Um número crescente de investigações
demonstra que sob circunstâncias adequadas falsas recordações podem ser instiladas muito
facilmente em algumas pessoas.
Minha própria pesquisa em distorção de memória remonta ao início dos anos 70, quando iniciei
os estudos do "efeito da informação incorreta". Estes estudos mostram que quando as pessoas
que testemunham um evento são posteriormente expostas a informação nova e enganosa sobre
ele, as suas recordações freqüentemente se tornam distorcidas. Em um exemplo, participantes
viram um acidente de automóvel simulado em um cruzamento com um sinal de Pare. Depois do
ocorrido, metade dos participantes recebeu uma sugestão de que o sinal de tráfego era um
sinal de passagem preferencial. Quando perguntados posteriormente que sinal de tráfego eles
se lembravam de ter visto no cruzamento, os que haviam sido sugestionados tendiam a afirmar
que tinham visto um sinal de passagem preferencial. Aqueles que não tinham recebido a falsa
informação eram muito mais precisos na lembrança do sinal de tráfego.
Meus estudantes e eu administramos até agora mais de 200 experiências envolvendo mais de
20.000 indivíduos que documentam como a exposição à informação enganosa induz à distorção de
memória. Nestes estudos, pessoas "recordaram" um celeiro digno de nota numa cena bucólica
que não continha nenhum edifício; vidro quebrado e gravadores de fita que não estavam nas
cenas que viram; um veículo branco em vez de azul na cena de um crime; e Minnie Mouse quando
eles na verdade viram Mickey Mouse. Considerados em conjunto, estes estudos mostram que a
informação enganosa pode mudar a memória de um indivíduo de um modo previsível e às vezes
muito poderoso.
A informação enganosa tem o potencial de invadir nossas recordações quando falamos com
outras pessoas, quando somos interrogados sugestivamente ou quando lemos ou vemos a
cobertura da mídia sobre algum evento que podemos ter experienciado nós mesmos. Depois de
mais de duas décadas explorando o poder da informação enganosa, pesquisadores aprenderam
muita coisa sobre as condições que fazem as pessoas suscetíveis à modificação da memória. As
recordações são mais facilmente modificadas, por exemplo, quando a passagem de tempo permite
o enfraquecimento da memória original.
Falsas Memórias Infantis
Uma coisa é mudar um detalhe ou dois numa memória intacta mas outra totalmente diferente é
implantar uma falsa memória de um evento que nunca aconteceu. Para estudar a falsa memória,
eu e meus estudantes tivemos de achar um modo de implantar uma pseudomemória que não
causasse nos nossos participantes tensão emocional imprópria, tanto no processo de criá-la
quanto na revelação de que eles tinham sido enganados intencionalmente. Nós quisemos ainda
tentar implantar uma memória que seria pelo menos ligeiramente traumática se a experiência
tivesse ocorrido de fato.
Eu e minha parceira de pesquisa, Jacqueline E. Pickrell, concordamos em tentar implantar uma
memória específica de estar perdido em um shopping center ou em uma grande loja de
departamentos ao redor dos cinco anos. Aqui está como fizemos isto. Nós perguntamos para
nossos participantes, 24 indivíduos dos 18 aos 53 anos, para tentarem se lembrar de eventos
de infância que tinham sido contados a nós por um pai, um irmão mais velho ou outro parente
próximo. Nós preparamos uma brochura para cada participante contendo estórias de um
parágrafo sobre três eventos que haviam acontecido de fato a ele ou a ela e um que não
havia. Nós construímos o falso evento sobre um possível passeio ao shopping usando
informação provida por um parente, o qual verificou também se o participante não havia
estado, de fato, perdido aos cinco anos. O enredo de "perdido no shopping" incluiu os
seguintes elementos: perdido durante um período prolongado, choro, ajuda e consolo por uma
mulher idosa e, finalmente, a reunião com a família.Depois de ler cada história da brochura,
os participantes escreveram sobre o que eles se lembravam do evento. Se eles não se
lembrassem dele, eram instruídos a escrever, "eu não me lembro disto". Em duas entrevistas
seguidas, nós falamos aos participantes que estávamos interessados em examinar o quanto de
detalhe que eles podiam se lembrar e comparar as recordações deles com as dos seus parentes.
Os parágrafos sobre o evento não foram lidos literalmente a eles, em vez disso foram
fornecidos trechos para sugerir a lembrança. Os participantes recordaram aproximadamente 49
dos 72 eventos verdadeiros (68 %) logo depois da leitura inicial da brochura e também em
cada uma das duas entrevistas seguidas. Depois de lerem a brochura, sete dos 24
participantes (29 %) lembraram-se tanto parcialmente como totalmente do falso evento
construído para eles, e nas duas entrevistas seguidas seis participantes (25 %) continuaram
afirmando que eles se lembravam do evento fictício. Estatisticamente, havia algumas
diferenças entre as verdadeiras e as falsas recordações: participantes usaram mais palavras
para descrever as verdadeiras recordações, e eles avaliaram as verdadeiras recordações como
estando um pouco mais claras. Mas se um espectador fosse observar muitos de nossos
participantes descreverem um evento, seria realmente difícil para ele dizer se a estória era
uma recordação verdadeira ou falsa. Claro que, estar perdido, por mais assustador, não é o
mesmo que ser molestado. Mas o estudo de "perdido no shopping" não é sobre experiências
reais de estar perdido; é sobre implantar falsas memórias de estar perdido. O modelo mostra
um modo de instalar falsas recordações e dá um passo em direção ao entendimento de como isto
poderia acontecer no mundo real. Além disso, o estudo fornece evidência de que as pessoas
podem ser conduzidas a se lembrarem do seu passado de modos diferentes, e elas podem até
mesmo serem persuadidas a se "lembrar" de eventos completos que nunca aconteceram.
Estudos em outros laboratórios usando um procedimento experimental semelhante produziram
resultados semelhantes. Por exemplo, Ira Hyman, Troy H. Husband e F. James Billing da
Western Washington University pediram para estudantes de faculdade que recordassem
experiências de infância que haviam sido contadas pelos seus pais. Os pesquisadores disseram
aos estudantes que o estudo era a respeito de como as pessoas se lembram das mesmas
experiências de modo diferente. Além de eventos reais reportados pelos pais, foi dado a cada
participante um evento falso, seja uma hospitalização à noite devido a uma febre alta e a
uma possível infecção de ouvido, ou uma festa de aniversário com pizza e palhaço que
supostamente aconteceram aos cinco anos. Os pais confirmaram que nenhum desses eventos
ocorreu de verdade.Hyman descobriu que os estudantes recordaram completa ou parcialmente 84
% dos eventos verdadeiros na primeira entrevista e 88 % na segunda entrevista. Nenhum dos
participantes recordou o evento falso durante a primeira entrevista, mas 20 % disseram na
segunda entrevista que se lembravam de algo sobre o evento falso. Um participante que foi
exposto à história da hospitalização de emergência mais tarde se lembrou de um médico, de
uma enfermeira e de um amigo da igreja que veio visitá-lo no hospital. Em um outro estudo,
Hyman apresentou junto com eventos verdadeiros, diferentes eventos falsos, como derramar
acidentalmente uma tigela de ponche nos pais da noiva numa recepção de casamento ou ter que
abandonar um supermercado quando o sistema de irrigação contra fogo ativou-se
acidentalmente. Novamente, nenhum dos participantes recordou o falso evento durante a
primeira entrevista, mas 18 % se lembraram de algo a respeito na segunda entrevista. Por
exemplo, durante a primeira entrevista, um participante, quando perguntado a respeito do
casamento fictício, declarou, "eu não tenho nenhuma idéia. Eu nunca ouvi isso antes". Na
segunda entrevista, o participante disse, "era um casamento ao ar livre, e eu acho que
estávamos correndo e derrubamos alguma coisa como uma tigela de ponche ou algo parecido e
fizemos uma grande bagunça e, é claro, fomos repreendidos por isto."
Inflação da Imaginação
A descoberta de que uma sugestão externa pode conduzir à construção de falsas recordações
infantis nos ajuda a entender o processo pelo qual as falsas recordações surgem. É natural
querer saber se esta pesquisa é aplicável em situações reais como a de ser interrogado por
um oficial da lei ou na psicoterapia. Embora uma sugestão enfática pode não acontecer
habitualmente em um interrogatório policial ou na terapia, a sugestão na forma de um
exercício imagético às vezes o faz. Por exemplo, quando tentando obter uma confissão,
oficiais da lei podem pedir para um suspeito que imagine ter participado de um ato
criminoso, e alguns profissionais de saúde mental encorajam os pacientes a imaginar eventos
infantis como um modo de recuperar memórias supostamente escondidas.
Pesquisas de psicólogos clínicos revelam que 11 % deles instruem seus clientes "a deixarem a
imaginação correr solta" e 22 % dizem para seus clientes "dar rédea livre à imaginação". A
terapeuta Wendy Maltz, autora de um livro popular sobre abuso sexual infantil, defende que
se dê a seguinte recomendação ao paciente: "Gaste tempo imaginando que você foi abusado
sexualmente, sem se preocupar que a exatidão prove qualquer coisa, ou ter que fazer suas
idéias terem sentido....Pergunte a si mesmo...estas questões: Que hora do dia é agora? Onde
você está? Em um lugar fechado ou ao ar livre? Que coisas estão acontecendo? Há uma ou mais
pessoas com você?" Maltz adicionalmente recomenda que os terapeutas continuem fazendo
perguntas como "Quem teria sido o provável responsável? Quando você foi mais vulnerável ao
abuso sexual em sua vida?"
O uso crescente de tais exercícios de imaginação conduziu a mim e a vários colegas a se
perguntarem sobre as suas conseqüências. O que acontece quando as pessoas imaginam
experiências infantis que não aconteceram? Imaginar um acontecimento na infância aumenta a
convicção de que realmente aconteceu? Para explorar isto, nós projetamos um procedimento de
três fases. Nós primeiro pedimos aos participantes que indicassem a probabilidade de que
certos eventos aconteceram a eles durante a infância. A lista contém 40 eventos, cada um
classificado numa escala variando de "definitivamente não aconteceu" a "sem dúvida
aconteceu". Duas semanas mais tarde nós pedimos aos participantes que imaginassem que haviam
experienciado alguns destes eventos. Foi pedido a diferentes indivíduos que imaginassem
diferentes eventos. Algum tempo depois foi pedido aos participantes que respondessem à lista
original de 40 eventos infantis novamente, indicando quão provável estes eventos realmente
aconteceram a eles. Considere um dos exercícios de imaginação: é dito aos participantes que
imaginem brincar dentro de casa depois da escola, ouvindo então um ruído estranho do lado de
fora, correndo para a janela, tropeçando, caindo, e alcançando e quebrando a janela com as
suas mãos. Além disso, nós perguntamos aos participantes coisas como "No que você tropeçou?
Como você se sentia?" Em um estudo 24 % dos participantes que imaginaram a cena da janela
quebrada relataram mais tarde um aumento de confiança de que o evento havia acontecido,
enquanto que aqueles aos quais não foi pedido imaginar o incidente apenas 12 % relataram um
aumento na probabilidade de que havia ocorrido. Nós descobrimos este efeito da "inflação da
imaginação" em cada um dos oito eventos que os participantes imaginaram a nosso pedido.
Várias explicações possíveis vêm à mente. Uma óbvia é de que o ato de imaginar simplesmente
faz o evento parecer mais familiar e essa familiaridade é relacionada erroneamente às
recordações de infância ao invés de ser relacionada ao ato de imaginar. Tal confusão de
fonte, quando uma pessoa não se lembra da fonte de informação, pode ser especialmente
intensa para as distantes experiências da infância.
Os estudos de Lyn Giff e de Henry L. Roediger III da Universidade de Washington sobre
recente experiências ao invés de experiências infantis, conectam de forma mais direta as
ações imaginadas à construção da falsa memória. Durante a sessão inicial, os pesquisadores
instruíram os participantes a imaginar a ação proposta ou apenas escutá-la sem fazer mais
nada. As ações eram simples: bata na mesa, erga o grampeador, quebre um palito, cruze seus
dedos, e rode seus olhos. Durante a segunda sessão, foi pedido aos participantes que
imaginassem algumas das ações que eles não haviam executado anteriormente. Durante a sessão
final, eles responderam perguntas sobre quais ações eles executaram de fato durante a sessão
inicial. Os pesquisadores descobriram que quanto mais os participantes imaginavam uma ação
não executada, mais provável era que eles se lembrassem de tê-la executado.
Recordações Impossíveis
É altamente improvável que um adulto possa se recordar de lembranças incidentais verdadeiras
do primeiro ano de vida, em parte porque o hipocampo, que desempenha um importante papel na
criação de recordações, não amadureceu o bastante para formar e armazenar recordações
duradouras que possam ser recuperadas na fase adulta.
Um procedimento para implantar "recordações impossíveis" sobre experiências que ocorrem logo
após o nascimento foi desenvolvido pelo falecido Nicholas Spanos e seus colegas da
Universidade de Carleton. Pessoas foram levadas a acreditar que elas tinham habilidades de
exploração visual e de movimento ocular bastante coordenados provavelmente porque elas
nasceram em hospitais que penduravam coloridos mobiles oscilantes em cima dos berços das
crianças. Para confirmar se eles tiveram tal experiência, metade dos participantes foi
submetida à hipnose e conduzida até o dia posterior ao nascimento e então foram questionadas
sobre o que elas se lembravam. A outra metade do grupo participou de um procedimento de
"reestruturação mnemônica dirigida" que usou regressão de idade assim como um vívido
encorajamento para se recriar as experiências infantis imaginando-as. Spanos e seus colegas
de trabalho descobriram que a vasta maioria dos participantes era suscetível a estes
procedimentos de implante de memória. Tanto os participantes hipnóticos quanto os dirigidos
relataram recordações infantis. Surpreendentemente, o grupo dirigido recordou um pouco mais
(95 % contra 70 %). Ambos os grupos se lembravam do móbile colorido numa taxa relativamente
alta (56 % do grupo dirigido e 46 % do hipnótico). Muitos participantes que não se lembravam
do móbile, se recordavam de outras coisas, como médicos, enfermeiras, luzes brilhantes,
berços e máscaras. Também, em ambos os grupos, daqueles que relataram recordações de
infância, 49 % sentiam que as recordações eram reais contra 16 % que reivindicavam que elas
eram apenas fantasias. Estas descobertas confirmam estudos prévios de que muitas pessoas
podem ser levadas a construir falsas recordações complexas, vívidas e detalhadas por meio de
um procedimento bastante simples. A hipnose claramente não é necessária.
Como as Falsas Memórias se Formam
No estudo de perdido-no-shopping, a implantação da falsa memória aconteceu quando outra
pessoa, normalmente um membro da familia, afirmou que o incidente aconteceu. A corroboração
de um evento por uma outra pessoa pode ser uma técnica poderosa para induzir a uma falsa
memória. De fato, só de afirmar ter visto uma pessoa fazendo algo errado já é o suficiente
para conduzí-la a uma falsa confissão.
Este efeito foi demonstrado em um estudo de Saul M. Kassin e seus colegas da Williams
College que investigaram as reações de indivíduos acusados falsamente de danificar um
computador apertando a tecla errada. Os participantes inocentes inicialmente negaram a
acusação, mas quando uma pessoa associada ao experimento disse que havia visto eles
executarem a ação, muitos participantes assinaram uma confissão, absorveram a culpa pelo ato
e continuaram a confabular detalhes que fossem consistentes com aquela convicção. Estas
descobertas mostram que uma falsa evidência incriminatória pode induzir as pessoas a
aceitarem a culpa por um crime que não cometeram e até mesmo a desenvolver recordações para
apoiar os seus sentimentos de culpa.
As pesquisas estão começando a nos dar uma compreensão de como falsas recordações de
experiências emocionalmente envolventes e completas são criadas em adultos. Primeiro, há uma
exigência social para que os indivíduos se lembrem; por exemplo, num estudo para trazer à
tona as recordações, os pesquisadores costumam exercer um pouco de pressão nos
participantes. Segundo, a construção de memórias pelo processo de imaginar os eventos pode
ser explicitamente encorajada quando as pessoas estão tendo dificuldades em se lembrar. E,
finalmente, os indivíduos podem ser encorajados a não pensar se as suas construções são
reais ou não. A elaboração de falsas recordações é mais provável de acontecer quando estes
fatores externos estão presentes, seja num ambiente experimental, terapêutico, ou durante as
atividades cotidianas.
Falsas recordações são construídas combinando-se recordações verdadeiras com o conteúdo das
sugestões recebidas de outros. Durante o processo, os indivíduos podem esquecer a fonte da
informação. Este é um exemplo clássico de confusão sobre a origem da informação na qual o
conteúdo e a proveniência da informação estão dissociados.
Está claro que não é porque nós podemos implantar falsas recordações de infância em alguns
indivíduos que todas as recordações que surgirem após a sugestão serão necessariamente
falsas. Dizendo de outro modo, embora o trabalho experimental na criação de falsas
recordações pode levantar dúvidas sobre a validade de recordações remotas, como um trauma
recorrente, de nenhuma maneira os desmentem. Sem corroboração, há muito pouco que possa ser
feito para ajudar até mesmo o mais experiente observador a diferenciar as verdadeiras
recordações daquelas que foram sugestivamente implantadas.
Os mecanismos precisos pelos quais esses tipos de falsas memórias são construídos aguardam
por novas pesquisas. Nós ainda temos muito a aprender sobre o grau de confiança e as
características das falsas memórias criadas desta maneira, e nós precisamos descobrir que
tipos de indivíduos são particularmente suscetíveis a estas formas de sugestão e que tipos
são resistentes.
Enquanto continuamos este trabalho, é importante prestar atenção à advertência contida nos
dados já obtidos: profissionais de saúde mental e outros devem estar atentos de quão
enormemente eles podem influenciar a lembrança de eventos e da urgente necessidade de se
manter a moderação em situações nas quais a imaginação é usada como um auxílio para
recuperar memórias presumivelmente perdidas.
***
Artigo publicado na Scientific American, em setembro de 1997, vol 277 #3 páginas 70-75..
ELIZABETH F. LOFTUS é professora de psicologia e professora auxiliar de Direito na
Universidade de Washington. Ela recebeu o Ph.D em psicologia da Universidade de Stanford em
1970. Sua pesquisa concentra-se em memória humana, depoimento de testemunha ocular e
procedimentos de Tribunal. Loftus publicou 18 livros e mais de 250 artigos científicos e
serviu como especialista ou assessora em testemunhas em centenas de julgamentos, inclusive
no caso de molestamento na pré-escola McMartin2. Seu livro Eyewitness Testimony ganhou o
National Media Award da Fundação Psicológica Americana. Ela recebeu doutorados honorários da
Universidade de Miami, Universidade de Leiden e da Faculdade John Jay de Justiça Criminal.
Loftus foi eleita presidenta da Sociedade Psicológica Americana recentemente.
Notas
1 - Barbitúrico usado como sedativo e hipnótico. Vulgarmente conhecido como 'soro da
verdade'. (N.T.) Voltar
2 - Processo sobre abuso sexual na Califórnia que durou seis anos e custou 15 milhões de
dólares ao Estado. Em agosto de 1983, Judy Johnson denunciou que seu filho havia sido
molestado na pré-escola McMartin. Devido à falta de evidência não houve processo.
Entretanto, o delegado da polícia de Manhattan Beach fez circular uma carta aos pais dos
estudantes da pré-escola McMartin mencionando um possível abuso sexual. Criou-se um pânico
generalizado e a mídia se encarregou de espalhar o boato. Centenas de crianças foram
entrevistadas e 360 foram diagnosticadas como tendo sofrido abuso. O exame médico foi
realizado em 150 crianças e apesar da falta de evidência física, o médico concluiu que 120
delas haviam sido molestadas. Outras escolas da área e até uma igreja foram envolvidas numa
suposta quadrilha de abuso infantil. Professores foram acusados de abuso sexual e de
praticar rituais satânicos. Entre as inúmeras acusações estavam a de terem forçado as
crianças a participarem de filmes e fotos pornográficos, de terem matado e mutilado animais
para intimidar as crianças, de as terem forçado a participar de rituais satânicos e a beber
o sangue de bebês que haviam sido mortos, de as terem forçado a entrar em caixões e de
enterrá-las, e outras ainda mais bizarras. A polícia investigou 10 escolas e uma igreja e
não encontrou nenhuma evidência concreta. Judy Johnson foi posteriormente diagnosticada como
esquizofrênica e acabou morrendo em casa de problemas no fígado relacionados ao excesso de
álcool antes do início do julgamento. A informação sobre o seu estado mental foi escondida
da defesa. Após um longo e extenuante processo, em 1990 os acusados foram considerados
inocentes, e a promotoria desistiu de novas acusações. Qualquer semelhança entre este caso e
o ocorrido em São Paulo na Escola Base não é mera coincidência. Guardada as devidas
proporções, os dois casos foram uma combinação sinergética entre uma imprensa irresponsável,
uma polícia ineficiente, e médicos e terapeutas incompetentes. (N.T.) Voltar
Leitura Complementar
THE MYTH OF REPRESSED MEMORY. Elizabeth F Loftus and Katherine Ketcham. St. Martin's Press,
1994.
THE SOCIAL PSYCHOLOGY OF FALSE CONFESSIONS: COMPLIANCE, INTER NALIZATION, AND CONFABULATION.
Saul M. Kassin and Katherine L. Kiechel in Psychological Science, Vol. 7, NO. 3, pages
12S-128; May 1996.
IMAGINATION INFLATION: IMAGINING A CHILDHOOD EVENT INFLATES CONFIDENCE THAT IT OCCURRED.
Maryanne Carry, Charles G. Manning, Elizabeth F. Loftus and Steven J. Sherman in Psychonomic
Bulletin and Review, Vol. 3, NO. 2, pages 208-214; June 1996.
REMEMBERING OUR PAST: STUDIES IN AUTOBIOGRAPHICAL MEMORY. Edited by David C. Rubin.
Cambridge University Press, 1996.
SEARCHING FOR MEMORY: THE BRAIN, THE MIND, AND THE PAST. Daniel L. Schacter. BasicBooks,
1996.
False Memory Syndrome Foundation
http://directory.google.com/Top/Society/People/Men/Issues/Equality/Men%27s_Rights/Law/False_
Accusations/False_Memory_Syndrome
Referência
# http://www.skepdic.com/falsememory.html
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REALISMO
REALISMO
Tomei a liberdade de traçar um "guia" para aqueles que pretendem estudar Filosofia,
dividindo nosso estudo da Evolução do Pensamento Filosófico, nas duas correntes do
pensamento, que são, segundo a Teoria do Conhecimento: REALISMO e IDEALISMO.Estudaremos
primeiro, tudo que diz respeito ao Realismo, só então passando ao Idealismo.( para os que se
interessarem: Bom proveito! Abçs, Ideny.)
A- REALISMO-
Durante a Idade Média, três soluções para o problema dos universais e dos particulares foram
propostas: o realismo, o conceitualismo e o nominalismo.
(O universal é um conceito, idéia ou essência comum a todas as coisas que indicamos pelo
mesmo nome).
Nominalismo
Nos séculos XI e XII, o nominalismo surgiu como uma possível solução à questão: o universal
(conceito, idéia ou essência comum a todas as coisas que indicamos pelo mesmo nome): é algo
de real ou não será antes um ato simples de nossa mente expresso por um nome? Os conceitos
são realidade (res) ou palavras (voces)? ( ou seja, os conceitos correspondem à realidade?
Ou são “produtos” do que “sentimos”?)ideny
Três soluções fundamentais desse problema são: o realismo, o conceitualismo e o nominalismo.
• Para o nominalismo o universal é um puro nome, um flatus vocis (pura emissão fonética).
• Para o realismo os universais existem objetivamente, seja na forma realidades em si,
transcendentes em relação aos particulares (como em Platão, universais ante rem), ou como
imanentes encontrados nas coisas individuais (como para Aristóteles, universidade in re).
• Para o conceitualismo, os universais são apenas conteúdos de nossa mente, inteligíveis ou
conceitos, representações do intelecto que as deriva das coisas (universalia post rem) e
dessas guarda alguma semelhança.
A questão dos universais, inicialmente lógico-gramatical, estendeu-se para os problemas
teológicos e metafísicos, atingindo o conjunto de dogmas da igreja cristã. Por exemplo, João
Roscelino (falecido em 1120), mestre de Abelardo, com seu nominalismo coloca em dúvida o
dogma trinitário de deus: a única substância divina não passa de um nome, as três pessoas
(Pai, Filho e Espírito Santo) são três substâncias diversas, indicadas por um nome comum.
Assim surgiu a heresia do triteísmo, condenada em 1092 pelo Concílio de Reims, no qual
muitos temiam pelas verdades da fé.
Abelardo foi um dos principais promotores da lógica até o século XIII. Sua obra "Dialética"
libertava a lógica da metafísica dando-lhe autonomia.
O ambiente das discussões lógicas e gramaticais ao final da Idade Média foi reconstruído por
Umberto Eco em seu romance intitulado O Nome da Rosa.
Realismo na literatura
Motivados pelas teorias científicas e filosóficas da época, os escritores realistas
desejavam retratar o homem e a sociedade em sua totalidade. Não bastava mostrar a face
sonhadora e idealizada da vida como fizeram os românticos; era preciso mostrar a face nunca
antes revelada: a do cotidiano massacrante, do amor adúltero, da falsidade e do egoísmo
humano, da impotência do homem comum diante dos poderosos.
Uma característica comum ao Realismo é o seu forte poder de crítica, porém sem
subjetividade. Grandes escritores realistas descrevem o que está errado de forma natural.
Por exemplo, se um autor deseja criticar a postura da Igreja católica, não escreverá um
soneto anti-cristão como no Romantismo, porém escreverá histórias que envolvam a Igreja
Católica de forma a inserir nessas histórias o que eles julgam ser a Igreja Católica e como
as pessoas reagem a ela. Em lugar do egocentrismo romântico, verifica-se um enorme interesse
de descrever, analisar e até em criticar a realidade. A visão subjetiva e parcial da
realidade é substituida pela visão que procura ser objetiva, fiel, sem distorções. Em lugar
de fugir à realidade, os realistas procuram apontar falhas como forma de estimular a mudança
das instituições e dos comportamentos humanos. Em lugar de heróis, surgem pessoas comuns,
cheias de problemas e limitações. Na Europa, o realismo teve início com a publicação do
romance realista Madame Bovary(1857) de Gustav Flauber.
Principais correntes da época
I• POSITIVISMO
II• DETERMINISMO
II• DARWINISMO
O Positivismo é uma corrente sociológica cujo precursor foi o francês Auguste Comte
(1789-1857). Surgiu como desenvolvimento sociológico do Iluminismo e das crises social e
moral do fim da Idade Média e do nascimento da socidade industrial. Propõe à existência
humana valores completamente humanos, afastando radicalmente teologia ou metafísica. Assim,
o Positivismo - na versão comteana, pelo menos - associa uma interpretação das ciências e
uma classificação do conhecimento a uma ética humana, desenvolvida na segunda fase da
carreira de Comte.
Todavia, é importante enfatizar que a palavra "Positivismo" não é unívoca, pois há correntes
de outras disciplinas que se consideram "positivistas" sem guardar nenhuma relação com a
obra de Comte. Exemplo paradigmático disso é o Positivismo Jurídico, com o austríaco Hans
Kelsen, e o Positivismo Lógico (ou Círculo de Viena), de Rudolph Carnap e seus associados.
O Positivismo teve grande repercussão na segunda metade do século XIX, mas perdeu influência
no século XX para outras correntes de pensamento.
História do realismo na arte
O Realismo fundou uma Escola artística que surge no séc. XIX em reação ao ROMANTISMOe se
desenvolve baseada na observação da realidade , na razão, e na ciência. Além de uma oposição
a um realismo fotográfico.
O Realismo é um movimento artístico surgido na França, e cuja influência se estendeu a
numerosos países europeus. Esta corrente aparece no momento em que ocorrem as primeiras
lutas sociais, sendo também objecto de acção contra o capitalismo progressivamente mais
dominador. Das influências intelectuais que mais ajudaram no sucesso do Realismo denota-se a
reacção contra as excentricidades românticas e contra as suas falsas idealizações da paixão
amorosa, bem como um crescente respeito pelo facto empiricamente averiguado, pelas ciências
exactas e experimentais e pelo progresso técnico. A passagem do Romantismo para o Realismo,
corresponde uma mudança do belo e ideal para o real e objectivo.
Realismo nas artes plásticas
Artistas do realismo
• Édouard Manet
• Gustave Courbet
• Honoré Daumier
• Jean-Baptiste Camille Corot
• Jean-François Millet
• Théodore Rousseau
-------------------
COMPARAÇÃO COM O ROMANTISMO
REALISMO
Distanciamento do narrador
Valoriza o que se é
Crítica direta
Objetividade
Textos, às vezes, sem censura
Imagens sem fantasias, reais
Aversão ao Amor platônico
Mistura de épico e lírico nos textos
Cosmopolita
----------------------------------
ROMANTISMO
Narrador em primeira pessoa
Valoriza o que se idealiza e sente
Crítica indireta
Sentimentos à flor da pele
Textos geralmente respeitosos
Imagens fantasiadas, perfeitas
Amores platônicos
Separação de épico e lírico nos textos
Ufanista/Nacionalista
--------
FALANDO UM POUCO SOBRE O ROMANTISMO-
Romantismo
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
O Romantismo foi um movimento artístico e filosófico surgido nas últimas décadas do sec.
XVIII na Europa que perdurou por grande parte do sec. XIX. Caracterizou-se como uma visão de
mundo conntrária ao RACIONALISMO que marcou o período NEOCLÁSSICO e buscou um NACIONALISMO
que viria a consolidar os estados nacionais na Europa. Inicialmente apenas uma atitude, um
estado de espírito, o Romantismo toma mais tarde a forma de um movimento e o espírito
romântico passa a designar toda uma visão de mundo centrada no indivíduo.. Os autores
românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores
trágicos, ideais utópicos e desejos de ESCAPISMO. Se o século XVIII foi marcado pela
objetividade, pelo ILUMINISMO e pela razão, o início do século XIX seria marcado pelo
lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo eu.
O termo romântico refere-se, assim, ao movimento estético ou, num sentido mais lato, à
tendência idealista ou poética de alguém que carece de sentido objetivo.
À medida que a escola foi sendo explorada foram surgindo críticos à sua demasiada
idealização da realidade. Destes críticos surgiu o movimento que daria forma ao REALISMO .
VOLTANDO A FALAR UM POUCO MAIS SOBRE O REALISMO
O Realismo e o Idealismo foram fundamentais para a tradição filosófica justamente por serem
as principais correntes de pensamento relativos à Teoria do conhecimento – que investiga o
estudo sobre o conhecimento que o homem tem sobre o mundo. E foram essas duas concepções que
embasaram as obras de grandes autores da Filosofia.
O Realismo é uma posição filosófica que afirma o real; ou seja, ele enxerga no mundo, na
realidade, um complexo emaranhado de causa e efeito pontuado por racionalidade. Sendo assim,
o mundo externo ao sujeito (ao homem) existe em si mesmo e funciona, em todas as suas
potencialidades, independente da vontade ou da consciência humana.
Dessa forma, o Realismo defende uma existência objetiva de todo o real. E vai além disso,
dizendo que mesmo se eliminarmos o sujeito da consciência, ainda assim existiria o mundo em
si exterior a nós, pois este possui uma realidade verdadeira e independente.
Tomando uma posição completamente oposta ao Realismo, temos, então, o Idealismo. Esta
posição filosófica possui seu grande defensor na modernidade, com o filósofo francês Renè
Descartes, que, através da sua dúvida levada ao extremo chegou até sua idéia mais
fundamental, que é justamente a certeza de que existe o pensamento, a razão, a consciência.
Explicando melhor, Descartes partiu de sua incerteza sobre o mundo exterior para atingir uma
certeza máxima e inegável. Ele percebeu, por exemplo, que nossos órgãos sensoriais que
recebem os estímulos externos podem nos enganar em muitos momentos (como quando vemos um
canudo torto dentro de um copo d’água, por exemplo) e que não podíamos confiar nos dados da
realidade que chegavam à nossa mente, pois eles podiam estar absolutamente equivocados.
Sendo deste modo, ele começou a também duvidar não só de nossa percepção do mundo, mas
também da própria existência do mundo exterior à nós. E essa dúvida incessante sobre o real
o levou à máxima de sua filosofia: Cogito ergo sum. Ou seja, “Penso logo existo”, o que
significa que a única certeza absoluta que posso ter do real é que eu existo; existo como
sujeito de pensamento e de razão, e o mundo exterior é improvável – não tenho como comprovar
sua existência em si –. Desse jeito, o mundo real que me chega pode não passar de uma ilusão
projetada por mim mesmo (como em um sonho).
A realidade passa então a não ser mais real em si mesma (como se acreditava no Realismo) e
sim real e lógica dentro da consciência humana. E o que nomeamos de realidade é, tão
somente, o que podemos conhecer por meio das idéias de nossa razão.
************************************************************************************
VAMOS COMEÇAR NOSSO ESTUDO A PARTIR DOS PÓS-SOCRÁTICOS( Sócrates= 469-399 a.C)
Na História do REALISMO, temos:
- Aristóteles( 384-322 a.C)
- TOMISMO – Tomás de Aquino( 1224- 1274) – e Michel de Montaigne (1533-1592)-
-HUMANISMO – Com Erasmo de Roterdã(1469-1536), e François Rebelais(1495-1553) – (
- EMPIRISMO – Francis Bacon(1561-1626) –
- Como ramificações do Empirismo, SURGIU :
1- LIBERALISMO(Condorcet 1743-1794) e Hannah Arendt(1906-1975),
2- O POSITIVISMO(Auguste Conte- 1798-1857), Émile Durkheim(18581917), e do positivismo
surgiu o BEHAVIORISMO( B.F.Skinner-1904-1990), e Laurence Stenhouse(1926-1982) – o
behaviorismo é uma ramificação do positivismo.
3- O EVOLUCIONISMO ( Charles Darwin(1809-1882), Herbert Spencer(1820-1903), sendo
ramificação deste, a PSICOLOGIA DESENVOLVIMENTISTA, cujos representantes, são: Édouard
Claparède(1873-1940), Henri Wallon(1879-1962), e Adolphe Ferrière(1879-1960), daí surgindo O
CONSTRUTIVISMO – com: Jean Piaget(1896-1980) e Emilia Ferreiro, em 1936- e o COGNITIVISMO,
(Howard Gardner-1943)
4– O MATERIALISMO, (Karl Marx-1818-1883), que deu origem ao: a)-MARXISMO- (Antonio Gramsci-
1891-1937), Anton Makarenko( 1888-1939), Paulo Freire(1921-1997), e Florestar Fernandes(
1920-1995)e: b) PÓS MARXISMO ( Edgar Morin-1921- ), Michel Focault(1926-1984), e Pierre
Bourdieu( 1930-2002)
VAMOS PASSAR EM SEGUIDA A ESTUDAR SOBRE A OUTRA LINHA DE PENSAMENTO, O IDEALISMO
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Tomei a liberdade de traçar um "guia" para aqueles que pretendem estudar Filosofia,
dividindo nosso estudo da Evolução do Pensamento Filosófico, nas duas correntes do
pensamento, que são, segundo a Teoria do Conhecimento: REALISMO e IDEALISMO.Estudaremos
primeiro, tudo que diz respeito ao Realismo, só então passando ao Idealismo.( para os que se
interessarem: Bom proveito! Abçs, Ideny.)
A- REALISMO-
Durante a Idade Média, três soluções para o problema dos universais e dos particulares foram
propostas: o realismo, o conceitualismo e o nominalismo.
(O universal é um conceito, idéia ou essência comum a todas as coisas que indicamos pelo
mesmo nome).
Nominalismo
Nos séculos XI e XII, o nominalismo surgiu como uma possível solução à questão: o universal
(conceito, idéia ou essência comum a todas as coisas que indicamos pelo mesmo nome): é algo
de real ou não será antes um ato simples de nossa mente expresso por um nome? Os conceitos
são realidade (res) ou palavras (voces)? ( ou seja, os conceitos correspondem à realidade?
Ou são “produtos” do que “sentimos”?)ideny
Três soluções fundamentais desse problema são: o realismo, o conceitualismo e o nominalismo.
• Para o nominalismo o universal é um puro nome, um flatus vocis (pura emissão fonética).
• Para o realismo os universais existem objetivamente, seja na forma realidades em si,
transcendentes em relação aos particulares (como em Platão, universais ante rem), ou como
imanentes encontrados nas coisas individuais (como para Aristóteles, universidade in re).
• Para o conceitualismo, os universais são apenas conteúdos de nossa mente, inteligíveis ou
conceitos, representações do intelecto que as deriva das coisas (universalia post rem) e
dessas guarda alguma semelhança.
A questão dos universais, inicialmente lógico-gramatical, estendeu-se para os problemas
teológicos e metafísicos, atingindo o conjunto de dogmas da igreja cristã. Por exemplo, João
Roscelino (falecido em 1120), mestre de Abelardo, com seu nominalismo coloca em dúvida o
dogma trinitário de deus: a única substância divina não passa de um nome, as três pessoas
(Pai, Filho e Espírito Santo) são três substâncias diversas, indicadas por um nome comum.
Assim surgiu a heresia do triteísmo, condenada em 1092 pelo Concílio de Reims, no qual
muitos temiam pelas verdades da fé.
Abelardo foi um dos principais promotores da lógica até o século XIII. Sua obra "Dialética"
libertava a lógica da metafísica dando-lhe autonomia.
O ambiente das discussões lógicas e gramaticais ao final da Idade Média foi reconstruído por
Umberto Eco em seu romance intitulado O Nome da Rosa.
Realismo na literatura
Motivados pelas teorias científicas e filosóficas da época, os escritores realistas
desejavam retratar o homem e a sociedade em sua totalidade. Não bastava mostrar a face
sonhadora e idealizada da vida como fizeram os românticos; era preciso mostrar a face nunca
antes revelada: a do cotidiano massacrante, do amor adúltero, da falsidade e do egoísmo
humano, da impotência do homem comum diante dos poderosos.
Uma característica comum ao Realismo é o seu forte poder de crítica, porém sem
subjetividade. Grandes escritores realistas descrevem o que está errado de forma natural.
Por exemplo, se um autor deseja criticar a postura da Igreja católica, não escreverá um
soneto anti-cristão como no Romantismo, porém escreverá histórias que envolvam a Igreja
Católica de forma a inserir nessas histórias o que eles julgam ser a Igreja Católica e como
as pessoas reagem a ela. Em lugar do egocentrismo romântico, verifica-se um enorme interesse
de descrever, analisar e até em criticar a realidade. A visão subjetiva e parcial da
realidade é substituida pela visão que procura ser objetiva, fiel, sem distorções. Em lugar
de fugir à realidade, os realistas procuram apontar falhas como forma de estimular a mudança
das instituições e dos comportamentos humanos. Em lugar de heróis, surgem pessoas comuns,
cheias de problemas e limitações. Na Europa, o realismo teve início com a publicação do
romance realista Madame Bovary(1857) de Gustav Flauber.
Principais correntes da época
I• POSITIVISMO
II• DETERMINISMO
II• DARWINISMO
O Positivismo é uma corrente sociológica cujo precursor foi o francês Auguste Comte
(1789-1857). Surgiu como desenvolvimento sociológico do Iluminismo e das crises social e
moral do fim da Idade Média e do nascimento da socidade industrial. Propõe à existência
humana valores completamente humanos, afastando radicalmente teologia ou metafísica. Assim,
o Positivismo - na versão comteana, pelo menos - associa uma interpretação das ciências e
uma classificação do conhecimento a uma ética humana, desenvolvida na segunda fase da
carreira de Comte.
Todavia, é importante enfatizar que a palavra "Positivismo" não é unívoca, pois há correntes
de outras disciplinas que se consideram "positivistas" sem guardar nenhuma relação com a
obra de Comte. Exemplo paradigmático disso é o Positivismo Jurídico, com o austríaco Hans
Kelsen, e o Positivismo Lógico (ou Círculo de Viena), de Rudolph Carnap e seus associados.
O Positivismo teve grande repercussão na segunda metade do século XIX, mas perdeu influência
no século XX para outras correntes de pensamento.
História do realismo na arte
O Realismo fundou uma Escola artística que surge no séc. XIX em reação ao ROMANTISMOe se
desenvolve baseada na observação da realidade , na razão, e na ciência. Além de uma oposição
a um realismo fotográfico.
O Realismo é um movimento artístico surgido na França, e cuja influência se estendeu a
numerosos países europeus. Esta corrente aparece no momento em que ocorrem as primeiras
lutas sociais, sendo também objecto de acção contra o capitalismo progressivamente mais
dominador. Das influências intelectuais que mais ajudaram no sucesso do Realismo denota-se a
reacção contra as excentricidades românticas e contra as suas falsas idealizações da paixão
amorosa, bem como um crescente respeito pelo facto empiricamente averiguado, pelas ciências
exactas e experimentais e pelo progresso técnico. A passagem do Romantismo para o Realismo,
corresponde uma mudança do belo e ideal para o real e objectivo.
Realismo nas artes plásticas
Artistas do realismo
• Édouard Manet
• Gustave Courbet
• Honoré Daumier
• Jean-Baptiste Camille Corot
• Jean-François Millet
• Théodore Rousseau
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COMPARAÇÃO COM O ROMANTISMO
REALISMO
Distanciamento do narrador
Valoriza o que se é
Crítica direta
Objetividade
Textos, às vezes, sem censura
Imagens sem fantasias, reais
Aversão ao Amor platônico
Mistura de épico e lírico nos textos
Cosmopolita
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ROMANTISMO
Narrador em primeira pessoa
Valoriza o que se idealiza e sente
Crítica indireta
Sentimentos à flor da pele
Textos geralmente respeitosos
Imagens fantasiadas, perfeitas
Amores platônicos
Separação de épico e lírico nos textos
Ufanista/Nacionalista
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FALANDO UM POUCO SOBRE O ROMANTISMO-
Romantismo
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O Romantismo foi um movimento artístico e filosófico surgido nas últimas décadas do sec.
XVIII na Europa que perdurou por grande parte do sec. XIX. Caracterizou-se como uma visão de
mundo conntrária ao RACIONALISMO que marcou o período NEOCLÁSSICO e buscou um NACIONALISMO
que viria a consolidar os estados nacionais na Europa. Inicialmente apenas uma atitude, um
estado de espírito, o Romantismo toma mais tarde a forma de um movimento e o espírito
romântico passa a designar toda uma visão de mundo centrada no indivíduo.. Os autores
românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores
trágicos, ideais utópicos e desejos de ESCAPISMO. Se o século XVIII foi marcado pela
objetividade, pelo ILUMINISMO e pela razão, o início do século XIX seria marcado pelo
lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo eu.
O termo romântico refere-se, assim, ao movimento estético ou, num sentido mais lato, à
tendência idealista ou poética de alguém que carece de sentido objetivo.
À medida que a escola foi sendo explorada foram surgindo críticos à sua demasiada
idealização da realidade. Destes críticos surgiu o movimento que daria forma ao REALISMO .
VOLTANDO A FALAR UM POUCO MAIS SOBRE O REALISMO
O Realismo e o Idealismo foram fundamentais para a tradição filosófica justamente por serem
as principais correntes de pensamento relativos à Teoria do conhecimento – que investiga o
estudo sobre o conhecimento que o homem tem sobre o mundo. E foram essas duas concepções que
embasaram as obras de grandes autores da Filosofia.
O Realismo é uma posição filosófica que afirma o real; ou seja, ele enxerga no mundo, na
realidade, um complexo emaranhado de causa e efeito pontuado por racionalidade. Sendo assim,
o mundo externo ao sujeito (ao homem) existe em si mesmo e funciona, em todas as suas
potencialidades, independente da vontade ou da consciência humana.
Dessa forma, o Realismo defende uma existência objetiva de todo o real. E vai além disso,
dizendo que mesmo se eliminarmos o sujeito da consciência, ainda assim existiria o mundo em
si exterior a nós, pois este possui uma realidade verdadeira e independente.
Tomando uma posição completamente oposta ao Realismo, temos, então, o Idealismo. Esta
posição filosófica possui seu grande defensor na modernidade, com o filósofo francês Renè
Descartes, que, através da sua dúvida levada ao extremo chegou até sua idéia mais
fundamental, que é justamente a certeza de que existe o pensamento, a razão, a consciência.
Explicando melhor, Descartes partiu de sua incerteza sobre o mundo exterior para atingir uma
certeza máxima e inegável. Ele percebeu, por exemplo, que nossos órgãos sensoriais que
recebem os estímulos externos podem nos enganar em muitos momentos (como quando vemos um
canudo torto dentro de um copo d’água, por exemplo) e que não podíamos confiar nos dados da
realidade que chegavam à nossa mente, pois eles podiam estar absolutamente equivocados.
Sendo deste modo, ele começou a também duvidar não só de nossa percepção do mundo, mas
também da própria existência do mundo exterior à nós. E essa dúvida incessante sobre o real
o levou à máxima de sua filosofia: Cogito ergo sum. Ou seja, “Penso logo existo”, o que
significa que a única certeza absoluta que posso ter do real é que eu existo; existo como
sujeito de pensamento e de razão, e o mundo exterior é improvável – não tenho como comprovar
sua existência em si –. Desse jeito, o mundo real que me chega pode não passar de uma ilusão
projetada por mim mesmo (como em um sonho).
A realidade passa então a não ser mais real em si mesma (como se acreditava no Realismo) e
sim real e lógica dentro da consciência humana. E o que nomeamos de realidade é, tão
somente, o que podemos conhecer por meio das idéias de nossa razão.
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VAMOS COMEÇAR NOSSO ESTUDO A PARTIR DOS PÓS-SOCRÁTICOS( Sócrates= 469-399 a.C)
Na História do REALISMO, temos:
- Aristóteles( 384-322 a.C)
- TOMISMO – Tomás de Aquino( 1224- 1274) – e Michel de Montaigne (1533-1592)-
-HUMANISMO – Com Erasmo de Roterdã(1469-1536), e François Rebelais(1495-1553) – (
- EMPIRISMO – Francis Bacon(1561-1626) –
- Como ramificações do Empirismo, SURGIU :
1- LIBERALISMO(Condorcet 1743-1794) e Hannah Arendt(1906-1975),
2- O POSITIVISMO(Auguste Conte- 1798-1857), Émile Durkheim(18581917), e do positivismo
surgiu o BEHAVIORISMO( B.F.Skinner-1904-1990), e Laurence Stenhouse(1926-1982) – o
behaviorismo é uma ramificação do positivismo.
3- O EVOLUCIONISMO ( Charles Darwin(1809-1882), Herbert Spencer(1820-1903), sendo
ramificação deste, a PSICOLOGIA DESENVOLVIMENTISTA, cujos representantes, são: Édouard
Claparède(1873-1940), Henri Wallon(1879-1962), e Adolphe Ferrière(1879-1960), daí surgindo O
CONSTRUTIVISMO – com: Jean Piaget(1896-1980) e Emilia Ferreiro, em 1936- e o COGNITIVISMO,
(Howard Gardner-1943)
4– O MATERIALISMO, (Karl Marx-1818-1883), que deu origem ao: a)-MARXISMO- (Antonio Gramsci-
1891-1937), Anton Makarenko( 1888-1939), Paulo Freire(1921-1997), e Florestar Fernandes(
1920-1995)e: b) PÓS MARXISMO ( Edgar Morin-1921- ), Michel Focault(1926-1984), e Pierre
Bourdieu( 1930-2002)
VAMOS PASSAR EM SEGUIDA A ESTUDAR SOBRE A OUTRA LINHA DE PENSAMENTO, O IDEALISMO
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MEUS GUARDADOS
AQUI, DIVIDO COM VC, OS TEXTOS QUE MAIS ME CHAMARAM A ATENÇÃO, E QUE A MEU VER, MERECEM SER GUARDADOS E COMPARTILHADOS... ABÇS!!!
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