A Página Negra do Cristianismo
2000 Anos de Crimes, Terror e Repressão
Autor: Enrico Riboni
Tradução: Cassy Besky
Fonte: Realidade
“Acreditar num deus cruel, faz um homem cruel” Thomas Paine
Prefácio
Há cerca de 2000 anos, nascia na Galiléia um fundador de seita, que acabaria crucificado uns
trinta anos mais tarde. Algumas de suas últimas palavras na cruz foram “Dêem-me de beber”. E
só. A seita que ele tinha fundado tornar-se-ia, com o passar dos anos, a maior de todos os
tempos. Ela tomará o poder político dentro do Império Romano, abolirá a liberdade de
religião, depois ajuntará montanhas de cadáveres: os seus membros massacrarão milhões de
“infiéis”, “hereges”, “feiticeiras” e outros, depois se matarão entre eles próprios, levando
a Europa às guerras mais ferozes que ela conheceu. Um passado destes poderia incitar à
modéstia, mas os cristãos reivindicam, pelo contrário, o monopólio da ética. Proclamam que
adoram o Deus único, que deus é “amor”, e se consideram melhores que o resto da humanidade.
Única ideologia capaz de dividir com o comunismo e o nazismo o pódio dedicado às ideologias
mais mortíferas da história humana, o cristianismo mantém-se uma ideologia dominante em
muitos países ocidentais, como o “gendarme do mundo”, os EUA. Chegou a hora de abrir o
“Livro Negro do Cristianismo: 2000 anos de terror, perseguições e repressão”, que resume
algumas das piores atrocidades cometidas em nome dessa ideologia que pretende promover o
amor ao próximo.
Ano um
“Os deuses não estavam mais, e Deus não estava ainda”
O Império Romano garantia a liberdade de culto. O ateísmo e a razão dominavam. É nessa época
que nasce um sujeito que, segundo dizem certos judeus, perdeu o juízo porque leu o Tora
demasiadamente jovem. Ele funda uma seita que visa proibir o culto dos outros deuses, exceto
o seu. O sujeito é finalmente morto, mas a seita se expande com o êxito que se conhece.
O culto da personalidade do fundador da seita atinge, nos cristãos, um nível que mesmo o
estalinismo não conseguirá igualar: o fundador é proclamado “verdadeiro homem e verdadeiro
Deus” (“Deus-Homem”, em linguagem comum). Os que duvidam disso são proclamados imediatamente
hereges, e sofrerão mais tarde os raios da Inquisição. A partir do século IV da nossa era,
começará o assassinato dos não-crentes pelos cristãos.
Anos 50-70
A seita cristã se desenvolve. Textos gregos, escritos por membros da seita fora da Palestina
(“Os evangelhos”) relatam a vida do fundador: nascido duma virgem, que se manterá virgem
mesmo tendo vários outros filhos, ele terá sarado doentes, mas também amaldiçoa uma figueira
que fica instantaneamente seca, e fará precipitar num lago centenas de porcos que lhe não
pertenciam (Nota 1). Este personagem, que defende os pobres mas também afirma que “aqueles
que têm tudo serão louvados, e aqueles que nada têm, o pouco que têm ser-lhe-á retirado”, um
pouco patético quando amaldiçoa uma figueira ou se deixa crucificar, é declarado a
encarnação do “Deus único”. O fato de, segundo os evangelhos “canônicos”, as suas últimas
palavras sobre a cruz terem sido “Dai-me de beber” não parece perturbar os adeptos da seita,
que se expande por todo o Império.
A intolerância religiosa dos cristãos, que visam abertamente, desde o início, impor uma
interdição aos cultos de deuses que não o seu, o qual eles insistem ser o “único Deus”,
começa logo a atrair a atenção da justiça romana, que defende a liberdade de culto, a qual é
um dos pilares dessa sociedade complexa e multicultural que é o Império Romano dos primeiros
séculos da nossa era. A propaganda cristã inverte habilmente a situação. Os condenados pela
justiça romana são declarados “mártires” e os seus restos são venerados nas igrejas,
inventando-se a lenda de eles terem sido executados por terem “recusado a renegar a fé”,
desculpa essa bem melhor do que a verdade nua, que mostra que foram condenados por desordem
e imposição da intolerância religiosa na sociedade multicultural.
Ano 312
Tomada do poder pelos cristãos. No fim duma guerra civil, Constantino toma o poder. Pouco
depois ele se converte oficialmente ao cristianismo, e “autoriza”, num primeiro tempo, o
culto do deus único cristão, pelo Édito de Milão: é o início da perseguição religiosa na
Europa. Pouco a pouco o culto dos outros deuses, exceto o deus cristão, vai sendo proibido.
Os santuários clássicos serão destruídos ou transformados em igrejas cristãs. No fim do
século IV, não haverá mais nenhum templo pagão em toda a bacia do Mediterrâneo.
Ano de 380
O imperador Teodósio proclama oficialmente o Cristianismo a única “Religião de Estado”. Mas
ainda será necessário esperar mais 12 anos para que todos os outros cultos sejam
definitivamente proibidos.
Ano de 389
Teófilo, hoje Santo Teófilo, é nomeado patriarca de Alexandria e inicia imediatamente uma
violenta campanha de destruição de todos os templos e santuários não-cristãos. Tem o apoio
do pio imperador Teodósio. Deve-se a Teófilo a destruição, em Alexandria, dos templos de
Mitríade e de Dionísio. Essa loucura destruidora culmina em 391 com a destruição do templo
de Serapis e da sua biblioteca. As pedras dos santuários destruídos serão usadas para
edificar igrejas para a nova religião única, a cristã.
Em seguida e para demonstrar que ele é capaz de perseguir também cristãos (na medida em que
eles não sejam 100% ortodoxos), Teófilo comanda pessoalmente as tropas que atacam e destroem
os mosteiros que aderiram às idéias de Orígeno, um teólogo cristão que foi declarado herege
porque afirmava que deus era puramente imaterial.
Ano de 389
Pela primeira vez, um chefe cristão dita a um imperador a política a ser seguida: Santo
Ambrósio de Milão levanta-se em plena catedral e, com o sentido de caridade tão particular
aos cristãos, impõe que o imperador anule a ordem que dera ao bispo de Calinicum, sobre o
Eufrates, para que reconstruísse uma sinagoga que ele e a sua congregação tinham destruído.
A Igreja toma partido, assim, desde o princípio, dos incendiários de sinagogas, posição que
continuará a manter até ao ano de 1940.
Início dos anos 390
O piedoso imperador cristão Teodósio interdita progressivamente todos os cultos não
cristãos. Pouco a pouco, os templos não-cristãos são fechados ao culto, as procissões
“pagãs” são proibidas. Esta supressão da liberdade de religião em proveito exclusivo do
cristianismo causa, por vezes, revoltas, como a de 408, em Calama, na Numídia. É nessa época
que acontecem na Germânia as primeiras execuções de hereges, uma bela tradição que a Igreja
desenvolverá com a Inquisição e a perpetuará até 1826.
Ano de 391
Uma multidão de cristãos, guiados por Santo Atanásio e Santo Teófilo, deita abaixo o templo
e a enorme estátua de Serapis, em Alexandria, duas obras-primas da antiguidade. A coleção de
literatura do templo também é igualmente destruída.
Ano de 412
Cirilo, hoje Santo Cirilo, doutor da Igreja, é nomeado bispo de Alexandria e sucede a seu
tio Teófilo. Excita os sentimentos anti-semitas difundidos entre os cristãos da cidade e, à
frente duma multidão de cristãos, incendeia as sinagogas da cidade e faz fugir os judeus. Em
seguida encoraja os cristãos a tomar os bens dos fugitivos, deixados para trás.
Ano de 415
Hepatia, a última grande matemática da Escola de Alexandria, filha de Theon de Alexandria, é
assassinada por uma multidão de monges cristãos, incitados por Cirilo, patriarca de
Alexandria, que será depois canonizado pela Igreja. O motivo dessa ação foi que a brilhante
professora de matemática representava uma ameaça para a difusão do cristianismo pela sua
defesa da Ciência e do Neoplatonismo. O fato de ela ser mulher, muito bela e carismática,
fazia a sua existência ainda mais intolerável aos olhos dos cristãos. A sua morte marcou uma
reviravolta: após o seu assassinato, numerosos pesquisadores e filósofos trocaram Alexandria
pela Índia e pela Pérsia, e Alexandria deixou de ser o grande centro de ensino das ciências
do Mundo Antigo. Além do mais, a Ciência retrocederá no Ocidente e não atingirá de novo um
nível comparável ao da Alexandria antiga senão no início da Revolução Industrial. Os
trabalhos da Escola de Alexandria sobre matemática, física e astronomia serão preservados,
em parte, pelos árabes, persas, indianos e também chineses. O Ocidente, por outro lado,
mergulha no obscurantismo, do qual começará a sair mais de um milênio depois. Em
reconhecimento pelos seus méritos de perseguidor da comunidade científica e dos judeus de
Alexandria, Cirilo será canonizado e promovido a “Doutor da Igreja”, em 1882.
Séculos V a XV
A “Idade Média Cristã”. Aproveitando o desaparecimento das grandes bibliotecas romanas e na
ausência quase total da atividade editorial na Europa, a Igreja obtém, de fato, um monopólio
sobre o conjunto da escrita e da informação. O povo é deixado propositadamente na
ignorância, a leitura da Bíblia é desencorajada mesmo no caso de se ter acesso a um
exemplar. Pouco a pouco, a Igreja impõe o seu domínio sobre a sociedade. A inquisição, o
celibato dos padres (Nota 2), o caráter obrigatório do casamento antes de qualquer relação
sexual, são todas instituições que datam dessa época. É também nessa época que se desenvolve
o que se tornará uma das mais ricas tradições cristãs: queimar pessoas vivas. Cerca de um
milhão de “bruxos” serão torrados durante a Idade Média. As cidades concorrerão para tentar
bater recordes de quantidade de bruxos queimados por ano. O recorde foi estabelecido pela
cidade de Bamberg, sede do episcopado, que conseguiu assar 600 feiticeiros num só ano.
Um grande número de membros da Igreja atual ainda lamenta o fim dessa época, quando a Igreja
dominava totalmente a vida social. Religiosos (e outros) cristãos lembram com saudade a
“espiritualidade” da época, a arte que deu grande ênfase à morte – assunto que sempre
apaixonou os cristãos, e a música envolvente.
Ano de 804
O imperador cristão Carlos Magno converte grande número de saxões, propondo-lhes a seguinte
escolha: converter-se ao catolicismo ou serem decapitados. Vários milhares de cabeças caem,
com a bênção da Igreja: os sacerdotes presentes participam da jogada do imperador.
Século IX
Cisma do Oriente. O patriarca de Constantinopla pretende que se deve utilizar o pão com
levedura para a Eucaristia. O Papa, bispo de Roma, afirma que se deve usar pão sem levedura.
Com base neste problema de capital importância, a cristandade se divide, e os dois
patriarcas, de Roma e de Constantinopla, se excomungam mutuamente. O Cisma vai provocar
mortes até aos anos 90 (guerras nos Balcãs, ex-Iugoslávia, de católicos contra ortodoxos).
Ano de 1182
Os “pogroms” latinos de Constantinopla. Na cidade do piedoso patriarca que come pão
levedado, estabeleceu-se, desde o início de século XII, uma colônia de mercadores “latinos”,
essencialmente originários de Veneza, Gênova, Pisa e Amalfi. Mas essas pessoas têm tudo para
desagradar aos prelados ortodoxos: além de utilizarem o pão sem levedura para a Eucaristia,
fazem o sinal da cruz no sentido errado, da esquerda para a direita e não da direita para a
esquerda! Os popes excitam a população e enfim, nos dias radiosos de maio de 1182, a
multidão guiada pelos popes pega os latinos: vários milhares deles, homens, mulheres e
crianças são trucidados.
Séculos XI e XII
Em face do crescimento da população da Europa, a Igreja propõe um método de controle
populacional “natural”: as cruzadas. O apelo às cruzadas foi lançado em 1095. Em 1099
Jerusalém é “libertada”: logo que as tropas cruzadas entraram na cidade, o governador
muçulmano rendeu-se sob a promessa da população civil ser poupada. Claro, a totalidade da
população (que compreende essencialmente judeus e muçulmanos) é passada pelas armas nas
horas seguintes, mas com o cuidado de antes violentar todas a mulheres e decapitar as
crianças. Estima-se em 70.000 o número de civis massacrados. A última fase do massacre
passa-se nas sinagogas e mesquitas da cidade, onde os habitantes aterrorizados se
refugiaram: pensam que o caráter religioso dos locais possa inspirar os piedosos cruzados à
clemência. Nada disso acontece: os cruzados entram e transformam os locais de culto em
vastas carnificinas. O massacre de milhares de civis amontoados na grande mesquita da
esplanada do templo dura várias horas. “Tudo o que respira” na cidade foi morto, informam
com orgulho os comandantes dos cruzados.
Ano de 1204
A 4a Cruzada fez uma parada em Constantinopla, na época a maior cidade cristã. Mas os
cristãos sabem fazer entre eles o que fazem aos outros: durante três dias, Constantinopla
foi posta a saque, com uma orgia de violências indescritíveis.
Anos de 1208 a 1244
Cruzada dos Albigences: por iniciativa do papa Inocêncio III, uma cruzada é preparada. Em
1209, como alguns “hereges” se haviam misturado com a população de Beziers, o duque Simon de
Monfort deu uma ordem que lhe assegurou a posteridade: “Matem-nos todos, deus reconhecerá os
seus”. Toda a população, homens, mulheres e crianças são passados pelas armas. A Provence e
a região de Toulouse ficam muito despovoadas após essa guerra que é dirigida contra a
população civil, com uma ferocidade sem precedentes desde as invasões bárbaras.
Anos de 1226 a 1270
Luís IX, rei de França. Finalmente um católico, de reputação piedosa e íntegra, ascende à
coroa de França. A Igreja o canoniza em 1290, em reconhecimento de seus méritos que, ninguém
duvida serem excepcionais. De fato, durante o seu reinado, São Luís lança duas cruzadas, que
terminam as duas de modo catastrófico: pouco importa, é a intenção (de matar e de pilhar)
que conta, aos olhos da misericordiosa Igreja católica! No plano interno, São Luís (Nota 3)
faz de modo que a justiça puna de modo sistemático os blasfemeadores: são postos nos
pelourinhos e têm as suas línguas atravessadas por ferros em brasa.
Ano de 1231
Fundação da Inquisição. O Santo Ofício, durante toda a sua história, queimou mais de um
milhão de pessoas, essencialmente hereges, judeus e muçulmanos convertidos e também os
“bruxos”. A última feiticeira será queimada em 1788. O último “herege” chegará à sua vez em
1826. A inquisição e os seus imitadores protestantes queimam também médicos e cientistas,
desde que haja uma oportunidade.
A Igreja nunca se arrependeu dos atos da Inquisição e até garantiu a continuidade histórica
da instituição até aos nossos dias, limitando-se apenas a mudar-lhe o nome: será necessário
esperar que Pio X, em 1906, faça que o “Santo Ofício da Inquisição” seja renomeado como
“Santo Ofício”, e em 1965, para que seja rebatizado como “Congregação para a doutrina da
fé”. Enfim, em 1997, o papa abre os arquivos do Santo Ofício, e historiadores escolhidos a
dedo são autorizados a fazer pesquisas. As estimativas do número total de vítimas da
inquisição são então revistas para cima, havendo um consenso que roda hoje em torno de um
milhão de pessoas executadas, ao qual é necessário acrescentar as inúmeras pessoas
torturadas e com todos os seus bens apreendidos.
Ano de 1251
O papa Inocêncio IV autoriza enfim a inquisição a praticar a tortura. A obtenção das
confissões de culpa é grandemente facilitada. A inquisição pode aplicar, com base em
confissões arrancadas através de tortura, penas indo duma simples oração ou dum jejum até à
confiscação dos bens e mesmo prisão perpétua. Mas ela não pode condenar à morte. Com a
subtileza característica da Igreja católica, a inquisição podia “passar” um herege para a
justiça comum, que o levará à morte na fogueira, com base na confissão obtida pela Igreja,
mesmo com tortura. Essa subtilidade permitirá à Igreja afirmar que ela nunca matou
ninguém...
Anos 1347 a 1354
Em toda a Europa reina a Morte Negra, a primeira grande epidemia de peste no continente. Os
prelados católicos logo descobriram os culpados: os judeus teriam envenenado os poços de
água. Esse boato espalha-se por toda a Europa e inúmeros “pogroms” acontecem. Na Alemanha
contam-se 350 comunidades judias totalmente destruídas pelos “pogroms” nesse período. Na
Itália, em Milão, as autoridades civis e eclesiásticas, depois de terem executado no
braseiro os “untori” judeus, inauguraram uma coluna comemorativa para lembrar o seu feito.
Essa coluna passou à História com o nome de “Coluna infame”, quando, no século XIX, o
romancista Manzoni teve, em primeira mão, a coragem de denunciar esse monumento à perversão
religiosa.
Ano de 1483
Tomás de Torquemada é nomeado Grande Inquisidor de Castela. Esse monge dominicano (Nota 4)
faz uma ampla utilização da tortura e da confiscação dos bens das vítimas. Estima-se em
20.000 o número de pessoas queimadas durante o seu mandato.
Ano de 1487
Dois monges dominicanos alemães, Jacob Sprenger e Heinrich Institoris publicam o “Malleus
Malleficarum”: trata-se dum espesso volume de 400 páginas que é um guia (claro que aprovado
pela hierarquia católica) de caça às bruxas. Lá se pode aprender a identificá-las (p. ex. se
uma mulher acariciar um gato preto e a centenas de metros alguém se sentir mal, etc), a
torturá-las para as fazer confessar, e como os inquisidores podem se absolver mutuamente,
depois duma sessão de tortura. A obra afirma também que negar a existência da feitiçaria é
uma heresia muito grave, passível de morte na fogueira. Durante dois séculos e meio, na
Alemanha, depois da publicação do Malleus Malleficarum, negar a bruxaria podia levar ao
braseiro. O manual foi um “best-seller”...
Ano de 1492
O rei “muito católico” e a rainha “muito católica” (títulos dados pelo papa em pessoa!) de
Espanha, expulsam os judeus. Eles podem escolher se converter, para então poderem ser
justiçados pela inquisição (que queimará grande número deles) ou partir. Mais de 160.000
judeus saíram da Espanha. A hierarquia católica não fica indiferente a essa medida duma
crueldade assustadora: ela aprova a medida, e o papa encoraja os outros soberanos europeus a
se inspirarem no exemplo espanhol. Em toda a Europa os padres católicos se mobilizam para
obrigar os governos a proibir a entrada dos judeus expulsos.
Os judeus que escolheram se converter são perseguidos pela inquisição com uma impressionante
determinação: até ao século XVIII, far-se-á o “Teste da banha de porco” aos judeus
convertidos e seus descendentes: uma salada com pedaços de carne e banha de porco é
apresentada ao “convertido”. Se for notado que ele não comeu a carne suína, será queimado
como “falso convertido”. Esse método será também aplicado aos muçulmanos e seus
descendentes.
Se a expulsão dos judeus de Espanha foi a maior do gênero registrada na História, não foi a
primeira. Na França, os prelados católicos tinham já conseguido a expulsão dos judeus em
1306, e que foi logo revogada, antes de ser confirmada em 1394. A Inglaterra já tinha
procedido à expulsão em 1290. Em 1496, Portugal imita o seu poderoso vizinho, expulsando
também os judeus.
Ano de 1493
O primeiro índio da América no paraíso. Quando Cristóvão Colombo, que teve o cuidado de
levar um monge nas bagagens, chega à América, encontra os índios que descreverá como gente
amigável e solícita. Prende 12 deles e os leva para Espanha. À chegada, um deles fica
doente: antes da sua morte, é batizado rapidamente, o que permite a corte dos muito
católicos reis exultar, porque um indígena do Novo Mundo acabava de entrar no paraíso
cristão. Esta triste história marcará o início da trágica cristianização dos índios
americanos, onde os episódios dos redutos do Paraguai e as perseguições aos índios Pueblo
serão alguns dos mais trágicos.
Ano de 1499
Acontece neste ano o maior “auto da fé” que a História registra. Em um só auto de fé, o
inquisidor Diego Rodrigues Lucero queima vivos nada menos que 107 judeus convertidos ao
cristianismo, em Córdova.
Século XVI
O drama dos castrados. A Igreja, que tinha proibido que mulheres cantassem no coral das
igrejas, enfrenta um problema trágico: como não torturar os ouvidos dos piedosos prelados de
cristo, privando-os das vozes sopranas, tão importantes nos coros para louvar o amor a deus?
Uma solução bárbara é encontrada: castrar jovens meninos cuja voz tenha sido considerada
bela. Nos corais da Santa Igreja católica não faltarão assim nunca os sopranos e
contraltos...
Esta prática bárbara só terminará em 1878, por ordem do Papa Leão XIII. Mas é mantida ainda
durante o século XIX, a ponto de Rossini, quando ele compôs a “Pequena missa solene”;
escreveu, com naturalidade, que serão suficientes para executá-la “um piano e uma dúzia de
cantores dos três sexos, homens, mulheres e castrados”.
Ano de 1506
“Pogrom” de Lisboa: 3000 judeus são trucidados pelos piedosos católicos, incitados pelos
prelados.
Século XVI
Júlio II della Rovere, papa. Hábil chefe militar, veste uma armadura durante a missa, quando
um monge insolente lhe diz que o traje não é conveniente. “Quando se trata de conquistar
terras, deus não faz questão do traje, mas da fé do seu servidor”, lhe responde, passando
assim à História. Deus lhe permitiu, de fato, conquistar a cidade de Bolonha, que foi, como
deveria, posta a saque.
Ano de 1521
Inspirado pelo Espírito Santo, que aparentemente não tinha o que fazer, um monge alemão,
Martin Luther, traduz do latim o “Novo Testamento”, em algumas semanas. O diabo acaba de o
tentar: Lutero não encontra coisa melhor a fazer do que lançar sobre ele um tinteiro, que
suja a parede. Essa mancha está religiosamente preservada para os turistas do castelo de
Wartburg.
O acontecimento pareceria insignificante. Mas não é, pois ele inaugura o maior cisma da
cristandade: durante os séculos seguintes, os cristãos vão se massacrar mutuamente ainda com
mais entusiasmo do que quando eles matavam e queimavam os não-cristãos, os hereges, as
bruxas, os judeus e muçulmanos convertidos, etc.
Lutero escreverá e dirá diversas vezes que era necessário queimar as sinagogas e escorraçar
os judeus das cidades: ele se situa assim dentro da tradição dos pais da Igreja católica, e
que será mantida até ao século XIX pela inquisição e depois no século XX pelos camisas
castanhas (seguidores de Mussolini).
Ano de 1527
Saque de Roma. Os soldados protestantes massacram a totalidade da população de Roma, umas
40.000 almas, e pilham a cidade. O papa é salvo pelos guardas suíços. Ele se fecha com eles
no Castelo de Santo Ângelo, enquanto a população é massacrada. Ele passou um grande medo. Os
suíços ganham assim uma fama profissional no estrangeiro, o que se perpetua até hoje.
Ano de 1553
Calvino, que condena os excessos da Igreja Católica, faz decapitar o livre-pensador e médico
Michel Servet, que havia descoberto a circulação sanguínea. Esse é somente um dos 15 hereges
que o reformador fez executar durante a sua ditadura sobre Genebra.
Calvino tem um papel muito ativo na prisão e depois na condenação à morte de Michel Servet.
Primeiro ele troca correspondência com ele e depois que o médico, fugindo da inquisição,
chega a Genebra, manda-o prender. Calvino havia dito a seu amigo, o reformador Farel, que se
Servet entrasse em Genebra, de lá não sairia vivo. Ele manteve a sua promessa e interveio
pessoalmente no julgamento pedindo a sua execução. A única clemência dada a Servet foi de
ser decapitado em vez de queimado vivo.
Ano de 1571
A invenção da imprensa permite que um número crescente de pessoas se informe. A Igreja reage
criando o Índex (Index Additus Librorum Prohibitorum): essa instituição editava regularmente
a lista dos livros proibidos. A última edição do Índex foi publicada em 1961.
Anos de 1566 a 1572
Pio V, papa. Este santo da Igreja católica vangloria-se publicamente diversas vezes de ter,
durante a sua carreira de inquisidor, colocado fogo com suas próprias mãos em mais de 100
fogueiras de hereges que ele mesmo acusara, confundira e condenara.
Publica também uma nova edição do catecismo oficial da Igreja, no qual o amor ao próximo e a
misericórdia ocupam um lugar importante.
Anos de 1547 a 1593
Guerras de religião na França. As subseitas cristãs entregam-se a uma guerra civil sem
perdão, interrompida por diversas pazes e tréguas temporárias. Durante uma delas, teve lugar
o massacre de 20.000 protestantes, homens, mulheres e crianças, numa só noite, a tristemente
célebre Noite de S. Bartolomeu (1572).
Fim do século XVI até ao início do século XVIII
Conversão forçada dos índios Pueblo. Subindo pela costa do golfo do México, os exploradores
espanhóis, sempre acompanhados de monges e padres, entram em contato com a tribo dos Pueblo,
no território que hoje pertence ao estado americano do Novo México: diferentes dos índios
nômades das planícies do Norte e doutros indígenas mais combativos que os espanhóis
encontraram no México e na América do Sul, os índios Pueblo vivem em aldeias (los pueblos)
de casas de tijolos com 2 ou 3 andares, são pacíficos e praticam a agricultura. Seguem uma
religião na qual se venera o “Pai do Céu” e a “Terra Mãe”, temem os demônios (os
Skinnwalkers) que andam pela crista das montanhas ao pôr do sol, veneram os corvos como
reencarnação dos seus antepassados. Eles têm também um rico templo de deuses semelhantes aos
dos gregos, sendo o seu deus principal a mulher-aranha. As cerimônias são celebradas em
pequenas igrejas familiares, as Kivas. Estes pacíficos agricultores logo se tornam objeto de
atenção dos padres espanhóis, impacientes por substituir o culto do Pai Céu e da Mãe Terra
por aquele de cujo deus se bebe o sangue durante as cerimônias: os pajés índios são acusados
de bruxaria e executados. As Kivas são destruídas pelos militares hispânicos. Os cultos
religiosos tradicionais são proibidos, sob pena de mutilação. Índios surpreendidos a
celebrar uma cerimônia tradicional terão um braço ou um pé cortados. Apesar disso tudo,
alguns índios continuarão a fazer os seus cultos, em segredo e à noite. Os padres católicos
usarão esse fato nos seus sermões e que os índios ainda hoje citam com amargura: os padres
diziam que a religião dos índios era a das trevas, pois era sempre à noite, enquanto que o
cristianismo era a religião da luz, pois se come a carne e se bebe o sangue do deus cristão
em pleno dia. Diversas revoltas sangrentas pontuam a cristianização dos Pueblo. Essa
perseguição religiosa só cessará depois da anexação do território pelos EUA, em 1847.
Ano de 1600
Giordano Bruno é queimado vivo em Roma, condenado por heresia. Ele havia ousado definir o
Universo como infinito e admitido a hipótese da existência de formas de vida fora da Terra.
Era demais para a Igreja. Depois de 8 anos de processo, durante os quais lhe são arrancadas
confissões, sob tortura, ele é condenado à morte como “herege obstinado e ímpio”. Ele se
defende tentando mostrar que as suas idéias não estão em contradição com as doutrinas
cristãs, mas em vão. Ele foi queimado vivo, em público, em Roma, no Campo dei Fiori. Tiveram
o cuidado de lhe cortar a língua antes de o enviar ao local da execução, para evitar todo o
risco de que as suas palavras emocionassem a multidão que veio assistir ao espetáculo. O seu
principal acusador, o cardeal Bellarmino, será mais tarde canonizado e, em 1930, proclamado
“Doutor da Igreja”.
É interessante notar que, no caso de Galileu, a Igreja católica expressou o seu
arrependimento no fim do séc. XX, com a sua reabilitação em 1992, nunca se arrependerá da
execução de Bruno. Pelo contrário, ela se opôs com veemência à instalação duma estátua de
Giordano Bruno, em 1889. Em 1929, o papa pediu a Mussolini para que destruísse essa estátua,
antes de canonizar e depois nomear “Doutor da igreja” o cardeal Roberto Bellarmino, acusador
de Giordano Bruno.
Ano de 1609
Expulsão dos mouros de Espanha. Depois da expulsão dos judeus de Espanha, a inquisição se
aborrecia um pouco nesse belo país. Lança então a caça aos “morescos”, os árabes convertidos
ao cristianismo. Há a suspeita de serem falsos convertidos e são executados todos os que se
recusam a beber vinho ou comer carne de porco, ou que sejam limpos demais. Com efeito, o
Islamismo, contrariamente ao cristianismo, prescreve lavagens periódicas. A higiene nunca
foi tão perigosa como no séc. XVI em Espanha! Enfim, em 1609, temendo talvez ter deixado
passar alguns falsos convertidos, a inquisição consegue do rei a expulsão dos “morescos”
para o Norte da África. O número dos expulsos é mal conhecido: as estimativas variam entre
300.000 e 3.000.000. Os expulsos chegam a terras islâmicas, onde o Corão prevê a pena de
morte para os que renegaram Mahomé...
Ano de 1633
Processo de Galileu. Por ter duvidado da teoria geocêntrica de Ptolomeu, (que, diga-se de
passagem, não era cristão), Galileo Galilei é obrigado a retratar-se: são-lhe mostrados os
instrumentos de tortura que seriam usados se ele insistisse. O processo de Galileu só foi
reaberto para revisão pelo papa João Paulo II, e Galileu é reabilitado em 1992.
As suas obras já tinham sido colocadas no Índex em 1616. Passará o resto da sua vida
confinado na sua casa (prisão domiciliar). Foi a sua reputação internacional de cientista
que lhe evitou conseqüências mais graves.
Anos de 1618 a 1648
Guerra dos 30 anos. Os muito católicos reis de Habsbourg forçam a conversão dos seus
súbditos protestantes da Boêmia, iniciando a maior guerra que o continente europeu tinha
conhecido. A população da Alemanha é reduzida à metade. Numerosas cidades são devastadas.
Epidemias de peste assolam toda a Europa Central, desde a Lombardia à Prússia.
Trata-se realmente duma guerra religiosa, embora as igrejas tenham tentado fazer crer que se
tratava dum conflito político: a guerra iniciou-se por conflitos religiosos e pela ação de
reis estrangeiros, como Gustavo II da Suécia, que intervieram por razões de convicção
religiosa. O caso de Gustavo II é particularmente significativo, pois obrigava seus soldados
a cantar canções religiosas todas as noites, embora eles fossem uns terríveis saqueadores. O
exército sueco ganhou o título de “Schrecken des Krieges” pela população alemã, que teme a
pilhagem dos suecos ainda mais do que as feitas pelos exércitos dos Habsbourg.
Segunda metade do séc. XVIII
O assunto das reduções do Paraguai. Este caso é particularmente interessante, pois aqui os
católicos se massacram e se excomungam entre eles. Os jesuítas haviam estabelecido no
Paraguai um pequeno império particular feito de reduções (redutos), ou seja, pequenas
aldeias fortificadas na floresta, onde viviam os índios convertidos ao cristianismo, mas uma
correção das fronteiras coloca alguns desses redutos em território português. Ora, Portugal,
país católico e cristão, mantém na época a tradição da escravatura: os portugueses pensam
então roubar aos jesuítas os índios para depois vendê-los como escravos.
O papa intervém, excomunga os jesuítas das reduções. Depois, um exército, com os canhões e
espadas benzidas pelos padres de serviço, ataca as reduções, massacra os jesuítas e toma os
índios como escravos. Um Te Deum solene celebra a vitória, como deve.
Pouco depois o papa interdita a ordem dos jesuítas, culpada de ser muito inteligente e
racional, e sobretudo de não ter servido com lealdade a família de Bourbon, reis de França e
de Espanha, monarcas absolutos e grandes amigos da Igreja católica.
Ano de 1766
Em pleno século das luzes, um jovem de 19 anos, o Cavaleiro de la Barre, passa “a vinte
passos duma procissão, sem tirar o chapéu”. É preso e torturado. Finalmente é decapitado
depois de lhe terem cortado a língua. O seu corpo é depois colocado sobre uma fogueira e
queimado junto com um exemplar do Dicionário Filosófico de Voltaire, diante duma multidão
entusiasmada.
Ano de 1788
No Cantão de Glaris, na Suíça, a última bruxa foi queimada.
Esta execução da Inquisição não foi a última, e continuará queimando hereges até 1826.
Ano de 1793
Kant, professor de Filosofia em Konigsberg e estrela internacional da filosofia moderna,
depois da publicação da “Crítica da Razão Pura”, publica “A religião nos limites da Razão”,
onde ele coloca as doutrinas cristãs à prova do raciocínio e do “imperativo categórico”. É
demais para os piedosos reis da Prússia, que empurrados pelos prelados protestantes,
intervém e Kant é forçado a retratar-se publicamente, sob pena de perder imediatamente o seu
posto na universidade de Konigsberg. Todos os professores universitários são obrigados a
assinar, sob pena de dispensa imediata, um documento onde prometem não citar os ensinamentos
de Kant com relação à religião. Como no caso de Galileu, a fama internacional de Kant o
salva de conseqüências mais severas. Kant ainda pensa em se exilar, mas neste fim de século,
há poucos céus clementes para pensadores que ousaram criticar aspectos da ideologia cristã.
Assim acabará os seus dias em Konigsberg.
Ano de 1826
O último herege é queimado vivo pela inquisição espanhola. Uma rica tradição cristã termina.
Daí para a frente, a Igreja recorrerá a meios mais sutis para matar, como proibir a
assistência a mulheres que devem abortar, sabotando o planejamento familiar nos países
pobres, proibindo os preservativos como modo de lutar contra a Aids-Sida, etc.
Ano de 1847
Guerra do Sonderbund. A Suíça é dilacerada por uma guerra religiosa. Os cantões católicos,
cujos governos estão muito influenciados pelos conselheiros jesuítas, fundam uma aliança
militar, o Sonderbund, que exige a anexação aos cantões católicos de regiões
majoritariamente protestantes. Chamam os monarcas católicos da Áustria em seu auxílio,
depois iniciam as hostilidades. Somente uma vitória rápida das tropas federais/protestantes
permitiu evitar uma intervenção austríaca, que levaria a um conflito de extensão européia.
Os protestantes, por seu lado, encetam uma feroz “Caça aos católicos”, nos campos de
Genebra.
Os jesuítas, considerados responsáveis pela guerra, são expulsos da Suíça, e essa expulsão
valerá até 1970.
Ano de 1848
A população de Roma revolta-se contra a ditadura papal. O papa é expulso. Volta ao poder em
1849, devido à ação das tropas francesas enviadas por Luís Napoleão Bonaparte, presidente da
república francesa. Os opositores são fuzilados. O Estado da Igreja volta a ser uma
monarquia absoluta, cujo soberano é o papa.
Ano de 1871
O papa excomunga todo aquele que participar de qualquer eleição do estado italiano, que é
classificado como “diabólico”, porque retirou aos papas o seu poder temporal. Essa sentença
de excomunhão automática não impedirá o papa de abençoar, alguns anos depois, a fundação do
“Partito populare”, de inspiração católica e fundado por um padre.
Ano de 1881
Os “Pogroms” russos começam. Incitados pelos prelados ortodoxos, que difundiram um boato que
o Czar Alexandre II teria sido assassinado por um judeu, multidões se juntam em mais de 200
cidades russas e destroem os bens dos judeus. Os pogroms tornar-se-ão comuns na piedosa
Rússia Czarista, sobretudo entre 1908 e 1917. O mais violento dentre eles teve lugar em
Kishinev, em 1913: as autoridades civis e religiosas da cidade incitam a multidão que ataca
violentamente os judeus. Durante dois dias a multidão mata 45 judeus, fere 600 e pilha 1500
casas. Claro que os responsáveis (popes e políticos) nunca serão incomodados pela justiça.
Ano de 1889
Numa Roma livre do jugo papal, no dia 9 de junho, é inaugurada a estátua de Giordano Bruno,
no Campo das Flores. O papa Leão XIII, sofredor, passará o dia todo de jejum aos pés da
estátua de S. Pedro. A imprensa católica dispara: fala de “orgia satânica”, descrevendo a
manifestação da inauguração, o “triunfo da sinagoga, dos arquibandidos da Maçonaria, dos
chefes do liberalismo demagógico”, “o máximo da ignorância e da malignidade anti-clerical”.
Anos de 1918 a 1945
Os anos do compromisso. A Igreja católica apóia ativamente o crescimento dos totalitarismos
na Europa. Na Áustria, o seu apoio ao Austro-Fascismo é total. Na Itália, ela assina com o
regime fascista uma concordata que faz do catolicismo a religião de estado: os italianos
podem de novo votar sem serem excomungados, pena que isso de pouco serve em período de
ditadura. A Igreja sacrifica em grande parte as suas próprias associações: todas, exceto a
Ação Católica, devem integrar as organizações fascistas. O Vaticano promete a Mussolini de
fazer com que a Ação Católica não se deixe tentar por ações antifascistas.
Em 1929, Mussolini, depois de ter assinado a concordata dita “Patti Lateranensi”, é
qualificado pelo papa como “o homem da providência”. Em 1932, o ditador recebe das mãos do
papa a Ordem da Espora de Ouro, que é a mais alta distinção concedida pelo Estado do
Vaticano.
Essa bela harmonia vai resistir mesmo ao momento de tensão causado pela estátua de Giordano
Bruno. O papa aproveita a concordata para pedir ao seu amigo ditador que destrua a estátua
erigida em 1889. O ditador, que tem um filho com o nome de Bruno, toma a defesa do
livre-pensador e declara à Câmara de Deputados que “A estátua de Giordano Bruno, melancólica
como o destino desse monge, ficará onde ela está. Tenho a impressão que seria se encarniçar
contra esse filósofo que, se equivocado e persistiu no erro, no entanto já pagou”. Para
mostrar que não se arrepende de nada a Igreja canoniza então Roberto Bellarmino, o acusador
de G. Bruno, nomeando-o “Doutor da Igreja”.
Na Alemanha, em janeiro de 1933, o Zentrum, partido católico, cujo líder é um prelado
católico (Pralat Kaas), vota plenos poderes para Hitler: este último pode assim atingir a
maioria de dois terços necessária para suspender os direitos garantidos pela Constituição.
Com uma caridade toda cristã, o bom prelado aceita também fechar os olhos para os
discutíveis processos nazistas, como a prisão dos deputados comunistas antes da votação.
Depois a Igreja começa a negociar uma nova concordata com a Alemanha: nesse cenário, ela
sacrifica o Zentrum, então o único partido significativo que os nazistas não tinham
proibido. Na realidade ele tinha-o ajudado a chegar ao poder. Em 5 de julho de 1933, o
Zentrum se dissolve sob solicitação da hierarquia católica, deixando o caminho livre para o
NSDAP de Hitler, então partido único.
Hitler declara-se católico no “Mein Kampf”, o livro onde ele anuncia o seu programa
político. Também afirma que está convencido ser ele um “instrumento de deus”. A Igreja
católica nunca colocou no seu Índex o “Mein Kampf”, mesmo antes da ascensão de Hitler ao
poder. Podemos acreditar que o programa anti-semita do futuro chanceler não desagradava à
Igreja. Hitler mostrará o seu reconhecimento tornando obrigatória uma prece a Jesus nas
escolas públicas alemãs e reintroduzindo a frase “Gott mit uns” (Deus está conosco) nos
uniformes do exército alemão.
Em 1938, as SS e SA organizam a “Noite de Cristal”: com trajes civis, os milicianos nazistas
atacam sinagogas e lojas pertencentes a judeus. A população alemã está horrorizada e
aterrorizada. O bispo de Freiburg, monsenhor Gröber, declara então, em resposta às perguntas
sobre as leis racistas e os pogroms da noite de cristal: “Não podemos recusar a ninguém o
direito de salvaguardar a pureza da sua raça e de elaborar medidas necessárias a esse fim”.
Na Espanha, um general tenta um golpe de estado militar, que aborta mas degenera em guerra
civil. A Igreja o apóia, padres e bispos benzem os canhões de Franco, celebram com muita
pompa Te Deum pelas suas vitórias contra o governo republicano legítimo. A guerra faz mais
de um milhão de mortos, e Franco fuzila todos os prisioneiros. Franco se mostrará
reconhecido por seus piedosos aliados, nomeando diversos membros da Opus Dei para o seu
governo. A influência da Opus Dei crescerá ao longo da ditadura franquista, ao ponto de se
chegar a mais de metade dos ministros serem membros dessa venerável instituição católica.
Na França, a Igreja declara, desde 1940, que “Petain é a França”: ela prefere de fato o
Trabalho-Família-Pátria do estado francês às Liberté-Égalité-Fraternité da República, que
sempre a horrorizaram.
Durante a 2a guerra mundial, o Vaticano estava ciente do extermínio dos judeus pelos
nazistas. Saber-se-á, após a guerra, que o papa diversas vezes esteve para fazer um
pronunciamento público, mas que finalmente se absteve essencialmente pela sua comunistofobia
e achando que uma vitória russa seria “pior”. No entanto ele chorou em 1942, junto às ruínas
de Roma, bombardeada pelos aliados. Também ele se esquece de mencionar que o seu aliado
político Mussolini tinha solicitado a Hitler para ter “a honra de participar dos
bombardeamentos sobre Londres”, é verdade que o papa não habitava em Londres...
Ano de 1948
O papa declara que todo aquele que votar nos comunistas ou que ajudar esse partido de
qualquer maneira será automaticamente excomungado. Essa medida divide as famílias, provoca
exclusões socialmente intoleráveis para muitos e obriga à clandestinidade de numerosos
comunistas nas zonas rurais.
Os curas italianos apressaram-se a traduzir essa decisão em fatos, e pedem que as suas
ovelhas votem no grande partido anticomunista (DC – Democrazia Cristiana). O partido DC
vai-se afundar logo em seguida na corrupção generalizada nos anos 90.
Ano de 1961
Última edição do índex (Índex Additus Librorum Prohibitorum), que cita como autores cujas
obras são proibidas de leitura pelos católicos entre outros: Jean-Paul Sartre, Alberto
Moravia, André Gide.
Anos 80
Depois de um período de aparente liberalização, o papa João Paulo II chega à cabeça da maior
seita do mundo e rende-se às mais terríveis tradições da Igreja.
A sua condenação do preservativo, como modo de luta contra a Aids-Sida, provoca um grande
número de mortos, difícil de estimar. Pratica uma política ativa de sabotagem às medidas de
controle da natalidade no terceiro mundo. As conseqüências são difíceis de contabilizar, mas
podem ser medidas em termos de fome, miséria, criminalidade e falta de assistência médica
nos continentes mais pobres – América do Sul e África.
Na sua caça aos hereges, o papa suspende “A divinis”, dois teólogos alemães que tinham
ousado duvidar, um da infalibilidade papal, e outro da imaculada concepção de Maria. (Nota
5)
Anos 90: guerras de religião na Iugoslávia
A Iugoslávia era, nos anos 80, uma das terras favoritas para férias balneares dos europeus.
A publicidade iugoslava da época vendia o caráter multireligioso do país como um argumento
turístico, pois se podia ver em Mostar e em outras belas cidades as mesquitas e as igrejas
lado a lado. Mas o país se afundou numa série de guerras civis que se querem descrever como
guerras “étnicas”, quando na verdade se tratam de guerras religiosas. O caso da guerra da
Croácia é o mais flagrante. Sérvios e croatas têm a mesma origem étnica e até a mesma
língua, o Croata-servo. O mais irônico é que o croata-servo (servo-croata, escrito em
caracteres latinos), é hoje a língua oficial dos soldados do exército Iugoslavo que combateu
em Kosovo contra a OTAN, depois de ter lutado contra os croatas no início dos anos 90. Mas a
religião separa os croatas dos Sérvios: os croatas foram cristianizados por Roma e são
católicos. Os sérvios foram cristianizados pelos bizantinos e são ortodoxos. Quando
Milosevitch começa a agitar o espectro da “Grande Sérvia”, a Croácia declara a
independência. Imediatamente o Vaticano e a R. F. da Alemanha, cujo chanceler se declarava
um católico convicto, reconhecem a Croácia católica como estado independente. O Vaticano
mandou para todo o mundo anúncios para que os países reconhecessem o novo estado católico. O
papa multiplica os apelos, as preces e as missas pela independência da Croácia. Durante esse
tempo, o ditador croata, antigo oficial superior do regime comunista e também católico
praticante, deu férias para todos os seus funcionários ortodoxos, isto é, sérvios. Depois
escolheu como bandeira nacional a antiga insígnia dos Oustachis, que entre 1940 e 44 tinham
praticado um genocídio de cerca de 600.000 sérvios. A guerra civil iniciou-se.
Finalmente termina essa guerra, e o papa beatifica o cardeal Stepinac que havia qualificado
Ante Palevitc, o ditador Oustachi durante a ocupação de 1940/44, de “Dom de deus”, para a
Croácia e o havia apoiado ativamente.
A guerra da Iugoslávia continuou depois na Bósnia, onde os membros dos três grupos
religiosos (ortodoxos, muçulmanos e católicos) se enfrentaram em uma série de combates
triangulares, tendo a população civil como a principal vítima. Depois a guerra passou para o
Kosovo, província agrícola sem interesse estratégico, e todos sabemos o que se passou.
As guerras da Iugoslávia são um caso emblemático da catastrófica intolerância que é típica
das religiões “reveladas”: as comunidades religiosas se enfrentam, neste final de século, em
nome de religiões que elas receberam dos acasos da expansão dos diversos impérios (Romano,
Bizantino e Otomano) desde a idade-média.
Notas do Tradutor:
1 Que falta de conhecimentos sanitários!
2 Para evitar problemas de herança, dos bens da Igreja.
3 ...do Maranhão, é esse mesmo!
4 Dominicanos e franciscanos dominavam a Inquisição.
5 No Brasil também interditou e puniu diversos padres mais ousados, como Leonardo Boff.
sábado, 24 de janeiro de 2009
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
idéias "nietzscheanas "
SEMPRE É BOM LER DE NOVO...
• "Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem número, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria a tua própria pessoa: tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, siga-o!"
• "Odeio seguir alguém, como também conduzir. / Obedecer? Não! E governar, nunca! / Quem não se mete medo não consegue metê-lo a ninguém, / Somente aquele que o inspira é capaz de comandar. / Já detesto comandar a mim mesmo! / Gosto, como os animais, das florestas e dos mares, / De me perder durante um tempo, / Permanecer a sonhar num recanto encantador, E forçar-me a regressar de longe ao meu lar, / Atrair-me a mim próprio... de volta para mim".
• "Um filósofo é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias. (...) Um filósofo, ah, um ser que foge, muitas vezes para longe de si mesmo, muitas vezes tem medo de si mesmo, mas que é demasiado curioso para que não 'volte sempre a si'".
• "Fé significa não querer saber o que é a verdade."
• "O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de facto só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência."
• "Enquanto o padre, esse negador, caluniador e envenenador da vida por profissão for aceito como uma variedade de homem superior, não poderá haver resposta à pergunta: Que é a verdade? A verdade já foi posta de cabeça para baixo quando o advogado do nada foi confundido com o representante da verdade."
• "A essência da felicidade é não ter medo."
"A humanidade aprendeu a chamar a piedade de virtude, quando em todo o sistema moral superior ela é considerada como uma fraqueza".
• "O homem perde o poder quando é contagiado pelo sentimento de piedade".
• "A piedade opõe-se completamente à lei da evolução, lei da seleção natural".
• "Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse."
• "Todo homem tem seu preço, diz a frase. Não é verdade. Mas para cada homem existe uma isca que ele não consegue deixar de morder."
• "O Estado é onde todos bebem veneno, os bons e os maus; onde todos se perdem a si mesmo, os bons e os maus; onde o lento suicídio de todos se chama "a vida"."
• "A loucura é algo raro em indivíduos – mas em grupos, partidos, povos e épocas é a norma".
• "É à glória que aspiras? Nesse caso consideres esta lição: renúncia a tempo e espontaneamente à honra".
• "Independência é algo para bem poucos: - é prerrogativa dos fortes. E quem procura ser independente sem ter a obrigação disso, ainda que com todo o direito demostra que provavelmente é não apenas forte, mas temerário além de qualquer medida. Ele penetra num labirinto, multiplica mil vezes os perigos que o viver já traz consigo; dos quais um dos maiores é que ninguém pode ver como e onde se extravia, se isola e é despedaçado por algum Minotauro da consciência. Supondo que alguém assim desapareça, isto ocorre tão longe do entendimento dos homens que eles não sentem nem compadecem: - e ele não pode voltar! já não pode retornar sequer para a compaixão dos homens!"
• "Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem número, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria a tua própria pessoa: tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, siga-o!"
• "Odeio seguir alguém, como também conduzir. / Obedecer? Não! E governar, nunca! / Quem não se mete medo não consegue metê-lo a ninguém, / Somente aquele que o inspira é capaz de comandar. / Já detesto comandar a mim mesmo! / Gosto, como os animais, das florestas e dos mares, / De me perder durante um tempo, / Permanecer a sonhar num recanto encantador, E forçar-me a regressar de longe ao meu lar, / Atrair-me a mim próprio... de volta para mim".
• "Um filósofo é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias. (...) Um filósofo, ah, um ser que foge, muitas vezes para longe de si mesmo, muitas vezes tem medo de si mesmo, mas que é demasiado curioso para que não 'volte sempre a si'".
• "Fé significa não querer saber o que é a verdade."
• "O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de facto só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência."
• "Enquanto o padre, esse negador, caluniador e envenenador da vida por profissão for aceito como uma variedade de homem superior, não poderá haver resposta à pergunta: Que é a verdade? A verdade já foi posta de cabeça para baixo quando o advogado do nada foi confundido com o representante da verdade."
• "A essência da felicidade é não ter medo."
"A humanidade aprendeu a chamar a piedade de virtude, quando em todo o sistema moral superior ela é considerada como uma fraqueza".
• "O homem perde o poder quando é contagiado pelo sentimento de piedade".
• "A piedade opõe-se completamente à lei da evolução, lei da seleção natural".
• "Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza alguma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes eu quisesse."
• "Todo homem tem seu preço, diz a frase. Não é verdade. Mas para cada homem existe uma isca que ele não consegue deixar de morder."
• "O Estado é onde todos bebem veneno, os bons e os maus; onde todos se perdem a si mesmo, os bons e os maus; onde o lento suicídio de todos se chama "a vida"."
• "A loucura é algo raro em indivíduos – mas em grupos, partidos, povos e épocas é a norma".
• "É à glória que aspiras? Nesse caso consideres esta lição: renúncia a tempo e espontaneamente à honra".
• "Independência é algo para bem poucos: - é prerrogativa dos fortes. E quem procura ser independente sem ter a obrigação disso, ainda que com todo o direito demostra que provavelmente é não apenas forte, mas temerário além de qualquer medida. Ele penetra num labirinto, multiplica mil vezes os perigos que o viver já traz consigo; dos quais um dos maiores é que ninguém pode ver como e onde se extravia, se isola e é despedaçado por algum Minotauro da consciência. Supondo que alguém assim desapareça, isto ocorre tão longe do entendimento dos homens que eles não sentem nem compadecem: - e ele não pode voltar! já não pode retornar sequer para a compaixão dos homens!"
domingo, 11 de janeiro de 2009
MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS I e II
MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS II
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Um dos grandes problemas que eu considero hoje em dia no campo da filosofia
que já vem de longe, é a falta da nítida compreensão entre a filosofia especulativa e a
filosofia prática, sobre o que se chama ciência especulativa e o que se chama de
ciência prática. Muitas vezes nos encontramos em face do que é válido no campo do
especulativo e não é válido no campo da praticidade, outras vezes encontramos que
aquilo que é válido no campo da praticidade não o é no campo especulativo.
Encontramo-nos assim em face de dificuldades teóricas que são fáceis de
resolver, porque eu digo sempre que em filosofia não há questões insolúveis, há
apenas questões mal colocadas, desde que se faça uma boa colocação do problema as
questões tornam-se de fácil solução.
Ora o que caracteriza propriamente o ser humano é aquilo que os antigos
chamavam a sua racionalidade, que entrava na sua definição clássica: homem animal
racional. E nesse termo de racionalidade inclui-se dois aspectos que possui o homem e
não possuem os outros animais que conhecemos, é que o homem dispõe de uma
vontade e de um entendimento, uma vontade que lhe permite deliberar e escolher
entre futuros contingentes, em que o homem pode acertar ou errar a sua escolha
porque sempre busca aquilo que é o seu bem, isto é, aquilo que é conveniente a sua
natureza.
A natureza do homem considerado na sua estaticidade, na sua dinamicidade,
isto é, no desenvolvimento das suas possibilidades que vão se atualizando e também
na sua cinematicidade, isto é, nas suas correlações e interatuações com os seus
semelhantes dentro da vida social e o bem é portanto tudo aquilo que é conveniente a
esta natureza.
A vontade tende para o bem, mas nós ao tendermos para o bem podemos
errar, podemos escolher mal o bem, não sabermos escolher entre o bem e o mal,
escolhendo muitas vezes um bem menor por um bem maior ou escolhendo o mal por
um bem legítimo para nós. Este é o nosso pecado
original, pecado da espécie humana,
pecado com o qual todos nós nascemos, pecado que na
alegoria do Gênese é
apresentado pela desobediência do ato de Adão e Eva.
Porque o ser humano é o único ser que pode dizer não,
porque os animais não
dizem não, os animais apenas seguem os seus instintos,
ocupam-se daquilo que é
imperioso para sua existência e os seus instintos são
suficientes para lhes indicar o
que lhes é conveniente a sua natureza, mas o ser humano
não, é um ser desprovido
de instintos, é um ser que precisa analisar, cogitar,
escolher, verificar e
consequentemente ele pode errar.
Portanto, ao comer do fruto da árvore da ciência que é
esta árvore do saber
que o homem dispõe, ele está sujeito a negações, é
possível desobedecer, ele
desobedece, porque desobedece a própria natureza, porque
nós mesmos perdemos os
nossos instintos logo que nascemos.
A confusão entre o especulativo e o páthico está aqui,
porque o nosso
entendimento tem uma oréxis, tem um desejo, um apetite,
ele parte para alguma
coisa, assim como a nossa vontade parte para o bem, o
nosso entendimento parte
para a verdade, nós queremos captar a verdade, o homem é
um ser anelante de bem
e de verdade, é um ser que se coloca entre estas suas
exigências da sua natureza, da
sua natureza humana, não animal.
A verdade e o bem e o entendimento é esta capacidade de
buscar a verdade,
quanto à vontade é a capacidade de buscar o bem (do
termo grego oréxis que
corresponde mais ou menos ao apetite, o apetite em latim
que quer dizer este ad
petere, este pedir para) este pedir para alguma coisa,
um pede para o bem e outro
pede a verdade.
Então consequentemente o homem constrói o seu mundo
fundado nestas suas
duas grandes realidades: o mundo da vontade é o mundo da
sua prática, é o mundo
da sua dramaticidade, é o mundo da sua ação, e o mundo
do seu entendimento vai
colimar na obra especulativa, o mundo da criação
intelectual. Podemos dizer assim:
que o mundo da prática é uma criação da vontade,
enquanto o mundo da especulação
é uma criação do entendimento.
Mas estão os dois separados? Será que o entendimento é
algo que funciona
completamente fora da vontade? Não, os dois estão
presentes, a vontade precisa do
entendimento para deliberar bem e o entendimento precisa
da vontade para por-se em
ação, para alcançar a verdade.
Ora a filosofia surge e tem as suas raízes na ação do
homem, neste desejo do
bem, porque aspirando o bem, ele investiga, ele anela
este conhecimento e sobretudo
tem as suas raízes nesse anelo, nessa orexis, pela
verdade que lhe dá o entendimento.
E a filosofia vai se polarizar, aquela que predomina no
entendimento é especulativa e
aquela que predomina a vontade é a filosofia prática.
Temos o seguinte: na filosofia prática o valor principal
para o qual tende é o
conveniente, é o certo, toda vida prática humana, o que
vale é aquilo que pode
corresponder a natureza humana em todos os aspectos em
que ela é considerada, de
todas as formas proteicas em que ela possa se
manifestar, enquanto que na
especulação é a verdade.
Ora observamos logo e é fácil observar, que o que se
refere a verdade é
indivisível porque a verdade é indivisível, ou é ou não
é. Então no mundo especulativo
estamos no mundo do aut aut, no mundo do ou ou. A
disciplina que nos pode guiar
como a matemática ou a lógica e a dialética, como a
lógica formal que trabalha entre
ou ou, ou verdade ou falsidade, não há o menos falso nem
o mais falso, não há o
menos verdadeiro nem o mais verdadeiro, há o verdadeiro
ou há o falso.
Mas no mundo da praticidade humana as coisas poderão ser
mais ou menos
convenientes, poderão ser melhores ou piores, poderão
ser mais certas ou erradas,
então nós temos uma gradatividade, temos uma
divisibilidade. Por isso neste mundo
domina a gradação, a intensidade, os graus intensistas.
No outro é estático, as idéias
são estáticas, os princípios são estáticos, tudo é
incomutável, ou é ou não é.As forças de autodestruição
do ser humano
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Elas são inegáveis, típicas da criatura e do ser
composto, porque os elementos
componentes que formam uma nova estrutura são
subordinados ao interesse da
totalidade, porém cada um deles tem, também, o seu
interesse próprio, da sua parte
que colide com o interesse coletivo. Por isso nos
decompomos e, tudo quanto é físico,
decompõe-se e se destrói. Será possível, será suficiente
que a nossa coragem possa
enfrentar esta autodestruição?
Só posso responder com respostas contingentes, porque se
quisesse uma
resposta necessária, cairia na fé e não estaria me
colocando numa posição filosófica,
pois é possível que sim e é possível que não. Mas entre
estas duas possibilidades
podemos escolher a daqueles que crêem que é possível,
que sim, estamos nos
comprometendo em atuar dentro dessa possibilidade.
Se malograrmos ficará, pelo menos, a satisfação dentro
de nós de termos
cumprido o nosso dever e realizado uma possibilidade
nossa e, se amanhã houver um
outro ser inteligente que possa saber da nossa história,
poderá olhar para aqueles que
amaram a coragem e que tiveram o gesto heróico de lutar
contra a própria
autodestruição com respeito por estes homens.
Podemos nos engajar deste lado, já que estamos numa
época em que todos querem se
engajar, mas para o lado construtivo, para o do bem, que
crê numa nova esperança,
em valores superiores e que não proclama, de antemão, a
sua derrota, porque então é
ela uma dupla derrota.
O que não se pode é tratar do tema de Deus e Satã
fazendo chalaça, e procurando
resolver pelas formas primárias de uma concepção que não
tem fundamento. É
necessário que compreendamos bem que a criatura quanto
toma consciência de si
mesmo, julgando-se pela sua unidade, tem uma tendência a
considerar-se igual ao
Criador, porque a criatura de certo modo participa das
perfeições divinas, mas
participa limitadamente, por isso é parte.
Participação é uma parte das perfeições, porque sendo um
ser limitado, um ser
deficiente, um ser imperfeito, os atributos que possui,
que constituem a sua própria
estrutura não podem, de modo algum, ter a perfeição do
Ser Supremo.
Mas, quando o homem envaidecido, orgulhando-se de si
mesmo (como o homem é um
ser racional, é um ser inteligente), julga-se igual ao
Criador porque é capaz de pensar,
porque tem consciência de si, comete então o seu grande
pecado: o pecado do
orgulho.
Satã significa a criação cósmica quando ela julga-se
mais do que realmente é, isto é,
quando perde a sua humildade e julga-se, então,
possuidora de um valor tão alto
quanto o valor do Criador.
Este é o símbolo de Satã examinado dentro da Simbólica.
Aqueles que querem fazer de
Satã uma determinada criatura, um ser com consciência de
si mesmo é uma questão
de ponto de vista discutível, mas nós como filósofos não
podemos tratar deste tema a
não ser filosoficamente, porque doutro modo é tratá-lo
dentro do campo das religiões
e como estamos fazendo filosofia da religião, que é o
fundamental desta palestra de
hoje, não podemos fugir do campo da própria filosofia;
portanto, Satã dentro da
filosofia deve ser assim compreendido.
A quem devemos modificar: o homem ou a sociedade?
Esta pergunta é fundamental em nossa época, pois sabemos
que há uma necessidade
de modificação, tendo em vista uma série de erros que
tem sido cometidos em
prejuízo de grupos humanos e, todos aqueles que desejam
que as relações sociais
sejam as mais positivas possíveis, procuram saber o que
devemos fazer para evitar
que estas relações nocivas se perpetuem.
Não podemos conceber a sociedade como um ser de per si,
subsistente, temos que
compreender a sociedade como algo que é constituído de
indivíduos, por seres
humanos. Também não se poderá dizer que a sociedade é
uma mera abstração.
Quando o marxismo, por exemplo, coloca a sociedade como
uma única realidade, e o
indivíduo como algo abstrato, podemos fazer uma
inversão, considerar o indivíduo
apenas a parte concreta e a sociedade a parte abstrata.
A sociedade também tem uma concreção, tem uma tensão,
que são aquelas
totalidades que tem uma coerência intrínseca, uma força
de coesão e, ao se
constituírem, tornam-se de certo modo distintas dos
elementos que as constituem,
quer dizer, tem uma forma que é outra que a forma dos
indivíduos ou dos elementos
constituintes.
Vamos dar um exemplo muito simples: o da gota d'água.
Uma molécula de água é
composta de hidrogênio e oxigênio em determinadas
proporções de dois para um;
sabemos que o hidrogênio e o oxigênio são
especificamente distintos, mas a gota
d'água não é apenas uma conjunção, uma aglomeração
destes dois elementos pois
estes, de certo modo, se virtualizam e a molécula de
água constitui uma tensão
própria, uma substância própria com suas propriedades.
Consequentemente, forma uma tensão em que subordina os
elementos componente,
numa nova analogação em que eles se harmonizam, mas que
o interesse do
funcionamento do todo domina sobre o interesse da parte.
Assim, por exemplo, o
homem, o ser humano, constituinte de uma família, de
certo modo virtualiza-se, a
família forma uma totalidade coerente, que tem o seu
interesse próprio e que, de certo
modo, subordina o interesse do indivíduo a coletividade
para poder dar aquela
harmonia necessária.
Não podemos assim ficar em nenhuma das duas posições
abstratas, que a concreção
fosse o homem e a sociedade abstrata, ou que a concreção
fosse a sociedade e o
homem abstrato. Temos que olhar o homem concretamente e
a sociedade também,
porque, tanto um como o outro, são duas realidades que
compõem uma nova
realidade.
A sociedade é uma nova realidade, composta da realidade
dos indivíduos, e os
indivíduos de certo modo terão que virtualizar muito dos
seus interesses que colidem
com os interesses coletivos para poderem permanecer
dentro desta nova unidade. Isto
não vem em defesa das concepções totalitárias como
muitos julgaram e quiseram
provar, que o indivíduo não tem mais a sua plenitude,
porque de certo modo tem que
se submeter ao interesse coletivo.
Mas, note-se o seguinte: o que o indivíduo virtualiza é
precisamente aquilo que
colide com os interesses de outros indivíduos, e na
formação da sociedade o que ele
atualiza é o que é conveniente ao grupo social do qual
faz parte; portanto o que
virtualiza é a parte negativa, e a parte opositiva, e o
que atualiza é a sua parte
positiva, a parte construtiva.
Neste caso não há nenhuma deficiência para o homem, ao
contrário, há uma
elevação perfectiva do homem. E aquele que melhore esta
parte de conviver com a
sociedade será um homem perfectivamente superior àquele
que não pode viver dentro
do seu grupo social.
Temos que compreender que a modificação conseqüentemente
da sociedade
exige (primariamente) a modificação do homem, isto não
tem a menor dúvida, porque
ele é o elemento fundamental, é o que constitui a
matéria desta sociedade, e a
modificação da sociedade só poderá se processar dentro
desta realidade.
Então o problema humano passa a ser o problema do
“conhece-te a ti mesmo”,
porque o “conhece-te a ti mesmo” não é apenas uma
indicação de uma necessidade,
uma introspecção humana, mas o conhecimento do homem em
todas as suas
tendências, em todas as suas inclinações, em todas as
suas propensões, ou seja, numa
linguagem filosófica, o homem olhado pelas suas
disposições.
Nesta disposição vai adquirir os hábitos proporcionados
a ela, quer dizer, o
homem não pode adquirir hábitos que não estejam
proporcionados as disposições que
ele tem, como é o caso do problema do orgulho. Em que
consiste propriamente o
orgulho?
Propriamente na criatura sentir-se ou hipervalorizar-se
além das suas
realidades; isto é, julgar-se como possuidora de uma
valor superior ao valor real que
ela tem. Este é o pecado de todo ser considerado na sua
singularidade e na sua
unidade, quando ele procura impor-se. Trata-se de uma
lei cósmica que é revelada na
própria unidade.
Ela procura impor-se, quer perdurar, quer continuar,
quer expandir-se, quer
dominar, e este sentido dela querer mais é o pecado do
orgulho, caracterizado pela
figura de Satã; é o pecado satânico. Satã é um símbolo
que, no sentido popular, passa
a ter um sentido pessoal; é apenas um símbolo; é apenas
o sentido do orgulho, o
ímpeto que toda unidade que existe tem para se afirmar,
de um modo a impor-se ante
os outros, a ponto até de subordinar e dominar aqueles
que se lhe antepõem.
Encontramos o orgulho já nas origens fundamentais do
homem. Todo ser
humano quer prestigiar-se socialmente sobre os seus
semelhantes, quer ser mais,
quer impor-se, às vezes, quando não pode impor-se pelo
saber ou pela ciência, pela
astúcia ou até pela sua própria malícia considerando-se
superior por ser ruim, por ser
um criminoso mais completo do que os outros.
No fundo é uma ânsia de prestígio, é ainda uma
manifestação deste orgulho
primevo, próprio de todo ser finito, que não se contém
dentro dos seus limites e que
deseja ampliar-se; o que Nietzsche chamava o
“merwollen”, aquele querer mais, mais
tarde a “vontade de potência”; ímpeto para conter-se, de
tender para mais, que é
próprio de todo ser vivo, de toda unidade.
Em que consiste a humildade? Esta consistiria no
conhecimento das suas
próprias possibilidades, do seu real valor. Ser humilde
é que não se apresenta como
mais do que realmente é e reconhece o valor alheio e não
procura desmerecê-lo,
procurando realizar o que está dentro das suas reais
possibilidades.
Ele pode até ser vicioso na humildade a ponto de
desmerecer-se, de julgar-se
aquém do que realmente é, mas então já será um erro que
comete, uma forma viciosa
da humildade, mas a justa é a humildade equilibrada, é
conhecimento das suas
próprias possibilidades, é o desejo de afirmar-se sem
que esta afirmação se faça a
custa da realidade alheia. Precisamente por falta desta
humildade é que a humanidade
sofre, porque precisamente o orgulho daqueles que querem
impor-se aos seus
semelhantes, é que criaram o problema social em todos os
tempos da humanidade
Sacralidade e Secularização
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Na formação do Cristianismo uma das idéias centrais que
predominou era a do
Juízo Final, aguardado como um acontecimento próximo. Os
Evangelhos haviam
assegurado que ele começaria antes que os contemporâneos
de Cristo tivessem
desaparecido. A interpretação dessa passagem bíblica
provocou resultados
heterogêneos, porém, em regra geral, aceitou-se que o
seu advento seria próximo.
Como não sobreveio, passados os anos foi marcada uma
data, e o povo estabeleceu
que o ano mil seria o do juízo.
Neste momento dar-se-ia o fecho final da vida cristã, da
passagem terrena do
homem. Haveria um grande julgamento: os bons ganhariam o
céu e os maus seriam
eternamente condenado. Quando chegou o ano mil, que seja
dito, foi desastroso, pois
pela sua aproximação em conseqüência de certos excessos
religiosos, sobreveio uma
grande decepção no mundo europeu, o que foi gestar uma
busca para esta vida, quer
dizer a sacralidade exagerada do Cristianismo foi se
tornando mais secular.
Nota-se isso nos próprios protestantes que,
posteriormente, vieram dar um
sentido mais secular à concepção cristã, buscar a
realização do Cristianismo nesta
terra e, inclusive, também nos próprios cristãos, que
começaram a procurar melhorar
a sua situação, a vida humana, lutando por melhores
condições.
Convivium, 1964
Um dos grandes problemas que eu considero hoje em dia no campo da filosofia
que já vem de longe, é a falta da nítida compreensão entre a filosofia especulativa e a
filosofia prática, sobre o que se chama ciência especulativa e o que se chama de
ciência prática. Muitas vezes nos encontramos em face do que é válido no campo do
especulativo e não é válido no campo da praticidade, outras vezes encontramos que
aquilo que é válido no campo da praticidade não o é no campo especulativo.
Encontramo-nos assim em face de dificuldades teóricas que são fáceis de
resolver, porque eu digo sempre que em filosofia não há questões insolúveis, há
apenas questões mal colocadas, desde que se faça uma boa colocação do problema as
questões tornam-se de fácil solução.
Ora o que caracteriza propriamente o ser humano é aquilo que os antigos
chamavam a sua racionalidade, que entrava na sua definição clássica: homem animal
racional. E nesse termo de racionalidade inclui-se dois aspectos que possui o homem e
não possuem os outros animais que conhecemos, é que o homem dispõe de uma
vontade e de um entendimento, uma vontade que lhe permite deliberar e escolher
entre futuros contingentes, em que o homem pode acertar ou errar a sua escolha
porque sempre busca aquilo que é o seu bem, isto é, aquilo que é conveniente a sua
natureza.
A natureza do homem considerado na sua estaticidade, na sua dinamicidade,
isto é, no desenvolvimento das suas possibilidades que vão se atualizando e também
na sua cinematicidade, isto é, nas suas correlações e interatuações com os seus
semelhantes dentro da vida social e o bem é portanto tudo aquilo que é conveniente a
esta natureza.
A vontade tende para o bem, mas nós ao tendermos para o bem podemos
errar, podemos escolher mal o bem, não sabermos escolher entre o bem e o mal,
escolhendo muitas vezes um bem menor por um bem maior ou escolhendo o mal por
um bem legítimo para nós. Este é o nosso pecado
original, pecado da espécie humana,
pecado com o qual todos nós nascemos, pecado que na
alegoria do Gênese é
apresentado pela desobediência do ato de Adão e Eva.
Porque o ser humano é o único ser que pode dizer não,
porque os animais não
dizem não, os animais apenas seguem os seus instintos,
ocupam-se daquilo que é
imperioso para sua existência e os seus instintos são
suficientes para lhes indicar o
que lhes é conveniente a sua natureza, mas o ser humano
não, é um ser desprovido
de instintos, é um ser que precisa analisar, cogitar,
escolher, verificar e
consequentemente ele pode errar.
Portanto, ao comer do fruto da árvore da ciência que é
esta árvore do saber
que o homem dispõe, ele está sujeito a negações, é
possível desobedecer, ele
desobedece, porque desobedece a própria natureza, porque
nós mesmos perdemos os
nossos instintos logo que nascemos.
A confusão entre o especulativo e o páthico está aqui,
porque o nosso
entendimento tem uma oréxis, tem um desejo, um apetite,
ele parte para alguma
coisa, assim como a nossa vontade parte para o bem, o
nosso entendimento parte
para a verdade, nós queremos captar a verdade, o homem é
um ser anelante de bem
e de verdade, é um ser que se coloca entre estas suas
exigências da sua natureza, da
sua natureza humana, não animal.
A verdade e o bem e o entendimento é esta capacidade de
buscar a verdade,
quanto à vontade é a capacidade de buscar o bem (do
termo grego oréxis que
corresponde mais ou menos ao apetite, o apetite em latim
que quer dizer este ad
petere, este pedir para) este pedir para alguma coisa,
um pede para o bem e outro
pede a verdade.
Então consequentemente o homem constrói o seu mundo
fundado nestas suas
duas grandes realidades: o mundo da vontade é o mundo da
sua prática, é o mundo
da sua dramaticidade, é o mundo da sua ação, e o mundo
do seu entendimento vai
colimar na obra especulativa, o mundo da criação
intelectual. Podemos dizer assim:
que o mundo da prática é uma criação da vontade,
enquanto o mundo da especulação
é uma criação do entendimento.
Mas estão os dois separados? Será que o entendimento é
algo que funciona
completamente fora da vontade? Não, os dois estão
presentes, a vontade precisa do
entendimento para deliberar bem e o entendimento precisa
da vontade para por-se em
ação, para alcançar a verdade.
Ora a filosofia surge e tem as suas raízes na ação do
homem, neste desejo do
bem, porque aspirando o bem, ele investiga, ele anela
este conhecimento e sobretudo
tem as suas raízes nesse anelo, nessa orexis, pela
verdade que lhe dá o entendimento.
E a filosofia vai se polarizar, aquela que predomina no
entendimento é especulativa e
aquela que predomina a vontade é a filosofia prática.
Temos o seguinte: na filosofia prática o valor principal
para o qual tende é o
conveniente, é o certo, toda vida prática humana, o que
vale é aquilo que pode
corresponder a natureza humana em todos os aspectos em
que ela é considerada, de
todas as formas proteicas em que ela possa se
manifestar, enquanto que na
especulação é a verdade.
Ora observamos logo e é fácil observar, que o que se
refere a verdade é
indivisível porque a verdade é indivisível, ou é ou não
é. Então no mundo especulativo
estamos no mundo do aut aut, no mundo do ou ou. A
disciplina que nos pode guiar
como a matemática ou a lógica e a dialética, como a
lógica formal que trabalha entre
ou ou, ou verdade ou falsidade, não há o menos falso nem
o mais falso, não há o
menos verdadeiro nem o mais verdadeiro, há o verdadeiro
ou há o falso.
Mas no mundo da praticidade humana as coisas poderão ser
mais ou menos
convenientes, poderão ser melhores ou piores, poderão
ser mais certas ou erradas,
então nós temos uma gradatividade, temos uma
divisibilidade. Por isso neste mundo
domina a gradação, a intensidade, os graus intensistas.
No outro é estático, as idéias
são estáticas, os princípios são estáticos, tudo é
incomutável, ou é ou não é.As forças de autodestruição
do ser humano
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Elas são inegáveis, típicas da criatura e do ser
composto, porque os elementos
componentes que formam uma nova estrutura são
subordinados ao interesse da
totalidade, porém cada um deles tem, também, o seu
interesse próprio, da sua parte
que colide com o interesse coletivo. Por isso nos
decompomos e, tudo quanto é físico,
decompõe-se e se destrói. Será possível, será suficiente
que a nossa coragem possa
enfrentar esta autodestruição?
Só posso responder com respostas contingentes, porque se
quisesse uma
resposta necessária, cairia na fé e não estaria me
colocando numa posição filosófica,
pois é possível que sim e é possível que não. Mas entre
estas duas possibilidades
podemos escolher a daqueles que crêem que é possível,
que sim, estamos nos
comprometendo em atuar dentro dessa possibilidade.
Se malograrmos ficará, pelo menos, a satisfação dentro
de nós de termos
cumprido o nosso dever e realizado uma possibilidade
nossa e, se amanhã houver um
outro ser inteligente que possa saber da nossa história,
poderá olhar para aqueles que
amaram a coragem e que tiveram o gesto heróico de lutar
contra a própria
autodestruição com respeito por estes homens.
Podemos nos engajar deste lado, já que estamos numa
época em que todos querem se
engajar, mas para o lado construtivo, para o do bem, que
crê numa nova esperança,
em valores superiores e que não proclama, de antemão, a
sua derrota, porque então é
ela uma dupla derrota.
O que não se pode é tratar do tema de Deus e Satã
fazendo chalaça, e procurando
resolver pelas formas primárias de uma concepção que não
tem fundamento. É
necessário que compreendamos bem que a criatura quanto
toma consciência de si
mesmo, julgando-se pela sua unidade, tem uma tendência a
considerar-se igual ao
Criador, porque a criatura de certo modo participa das
perfeições divinas, mas
participa limitadamente, por isso é parte.
Participação é uma parte das perfeições, porque sendo um
ser limitado, um ser
deficiente, um ser imperfeito, os atributos que possui,
que constituem a sua própria
estrutura não podem, de modo algum, ter a perfeição do
Ser Supremo.
Mas, quando o homem envaidecido, orgulhando-se de si
mesmo (como o homem é um
ser racional, é um ser inteligente), julga-se igual ao
Criador porque é capaz de pensar,
porque tem consciência de si, comete então o seu grande
pecado: o pecado do
orgulho.
Satã significa a criação cósmica quando ela julga-se
mais do que realmente é, isto é,
quando perde a sua humildade e julga-se, então,
possuidora de um valor tão alto
quanto o valor do Criador.
Este é o símbolo de Satã examinado dentro da Simbólica.
Aqueles que querem fazer de
Satã uma determinada criatura, um ser com consciência de
si mesmo é uma questão
de ponto de vista discutível, mas nós como filósofos não
podemos tratar deste tema a
não ser filosoficamente, porque doutro modo é tratá-lo
dentro do campo das religiões
e como estamos fazendo filosofia da religião, que é o
fundamental desta palestra de
hoje, não podemos fugir do campo da própria filosofia;
portanto, Satã dentro da
filosofia deve ser assim compreendido.
A quem devemos modificar: o homem ou a sociedade?
Esta pergunta é fundamental em nossa época, pois sabemos
que há uma necessidade
de modificação, tendo em vista uma série de erros que
tem sido cometidos em
prejuízo de grupos humanos e, todos aqueles que desejam
que as relações sociais
sejam as mais positivas possíveis, procuram saber o que
devemos fazer para evitar
que estas relações nocivas se perpetuem.
Não podemos conceber a sociedade como um ser de per si,
subsistente, temos que
compreender a sociedade como algo que é constituído de
indivíduos, por seres
humanos. Também não se poderá dizer que a sociedade é
uma mera abstração.
Quando o marxismo, por exemplo, coloca a sociedade como
uma única realidade, e o
indivíduo como algo abstrato, podemos fazer uma
inversão, considerar o indivíduo
apenas a parte concreta e a sociedade a parte abstrata.
A sociedade também tem uma concreção, tem uma tensão,
que são aquelas
totalidades que tem uma coerência intrínseca, uma força
de coesão e, ao se
constituírem, tornam-se de certo modo distintas dos
elementos que as constituem,
quer dizer, tem uma forma que é outra que a forma dos
indivíduos ou dos elementos
constituintes.
Vamos dar um exemplo muito simples: o da gota d'água.
Uma molécula de água é
composta de hidrogênio e oxigênio em determinadas
proporções de dois para um;
sabemos que o hidrogênio e o oxigênio são
especificamente distintos, mas a gota
d'água não é apenas uma conjunção, uma aglomeração
destes dois elementos pois
estes, de certo modo, se virtualizam e a molécula de
água constitui uma tensão
própria, uma substância própria com suas propriedades.
Consequentemente, forma uma tensão em que subordina os
elementos componente,
numa nova analogação em que eles se harmonizam, mas que
o interesse do
funcionamento do todo domina sobre o interesse da parte.
Assim, por exemplo, o
homem, o ser humano, constituinte de uma família, de
certo modo virtualiza-se, a
família forma uma totalidade coerente, que tem o seu
interesse próprio e que, de certo
modo, subordina o interesse do indivíduo a coletividade
para poder dar aquela
harmonia necessária.
Não podemos assim ficar em nenhuma das duas posições
abstratas, que a concreção
fosse o homem e a sociedade abstrata, ou que a concreção
fosse a sociedade e o
homem abstrato. Temos que olhar o homem concretamente e
a sociedade também,
porque, tanto um como o outro, são duas realidades que
compõem uma nova
realidade.
A sociedade é uma nova realidade, composta da realidade
dos indivíduos, e os
indivíduos de certo modo terão que virtualizar muito dos
seus interesses que colidem
com os interesses coletivos para poderem permanecer
dentro desta nova unidade. Isto
não vem em defesa das concepções totalitárias como
muitos julgaram e quiseram
provar, que o indivíduo não tem mais a sua plenitude,
porque de certo modo tem que
se submeter ao interesse coletivo.
Mas, note-se o seguinte: o que o indivíduo virtualiza é
precisamente aquilo que
colide com os interesses de outros indivíduos, e na
formação da sociedade o que ele
atualiza é o que é conveniente ao grupo social do qual
faz parte; portanto o que
virtualiza é a parte negativa, e a parte opositiva, e o
que atualiza é a sua parte
positiva, a parte construtiva.
Neste caso não há nenhuma deficiência para o homem, ao
contrário, há uma
elevação perfectiva do homem. E aquele que melhore esta
parte de conviver com a
sociedade será um homem perfectivamente superior àquele
que não pode viver dentro
do seu grupo social.
Temos que compreender que a modificação conseqüentemente
da sociedade
exige (primariamente) a modificação do homem, isto não
tem a menor dúvida, porque
ele é o elemento fundamental, é o que constitui a
matéria desta sociedade, e a
modificação da sociedade só poderá se processar dentro
desta realidade.
Então o problema humano passa a ser o problema do
“conhece-te a ti mesmo”,
porque o “conhece-te a ti mesmo” não é apenas uma
indicação de uma necessidade,
uma introspecção humana, mas o conhecimento do homem em
todas as suas
tendências, em todas as suas inclinações, em todas as
suas propensões, ou seja, numa
linguagem filosófica, o homem olhado pelas suas
disposições.
Nesta disposição vai adquirir os hábitos proporcionados
a ela, quer dizer, o
homem não pode adquirir hábitos que não estejam
proporcionados as disposições que
ele tem, como é o caso do problema do orgulho. Em que
consiste propriamente o
orgulho?
Propriamente na criatura sentir-se ou hipervalorizar-se
além das suas
realidades; isto é, julgar-se como possuidora de uma
valor superior ao valor real que
ela tem. Este é o pecado de todo ser considerado na sua
singularidade e na sua
unidade, quando ele procura impor-se. Trata-se de uma
lei cósmica que é revelada na
própria unidade.
Ela procura impor-se, quer perdurar, quer continuar,
quer expandir-se, quer
dominar, e este sentido dela querer mais é o pecado do
orgulho, caracterizado pela
figura de Satã; é o pecado satânico. Satã é um símbolo
que, no sentido popular, passa
a ter um sentido pessoal; é apenas um símbolo; é apenas
o sentido do orgulho, o
ímpeto que toda unidade que existe tem para se afirmar,
de um modo a impor-se ante
os outros, a ponto até de subordinar e dominar aqueles
que se lhe antepõem.
Encontramos o orgulho já nas origens fundamentais do
homem. Todo ser
humano quer prestigiar-se socialmente sobre os seus
semelhantes, quer ser mais,
quer impor-se, às vezes, quando não pode impor-se pelo
saber ou pela ciência, pela
astúcia ou até pela sua própria malícia considerando-se
superior por ser ruim, por ser
um criminoso mais completo do que os outros.
No fundo é uma ânsia de prestígio, é ainda uma
manifestação deste orgulho
primevo, próprio de todo ser finito, que não se contém
dentro dos seus limites e que
deseja ampliar-se; o que Nietzsche chamava o
“merwollen”, aquele querer mais, mais
tarde a “vontade de potência”; ímpeto para conter-se, de
tender para mais, que é
próprio de todo ser vivo, de toda unidade.
Em que consiste a humildade? Esta consistiria no
conhecimento das suas
próprias possibilidades, do seu real valor. Ser humilde
é que não se apresenta como
mais do que realmente é e reconhece o valor alheio e não
procura desmerecê-lo,
procurando realizar o que está dentro das suas reais
possibilidades.
Ele pode até ser vicioso na humildade a ponto de
desmerecer-se, de julgar-se
aquém do que realmente é, mas então já será um erro que
comete, uma forma viciosa
da humildade, mas a justa é a humildade equilibrada, é
conhecimento das suas
próprias possibilidades, é o desejo de afirmar-se sem
que esta afirmação se faça a
custa da realidade alheia. Precisamente por falta desta
humildade é que a humanidade
sofre, porque precisamente o orgulho daqueles que querem
impor-se aos seus
semelhantes, é que criaram o problema social em todos os
tempos da humanidade
Sacralidade e Secularização
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Na formação do Cristianismo uma das idéias centrais que
predominou era a do
Juízo Final, aguardado como um acontecimento próximo. Os
Evangelhos haviam
assegurado que ele começaria antes que os contemporâneos
de Cristo tivessem
desaparecido. A interpretação dessa passagem bíblica
provocou resultados
heterogêneos, porém, em regra geral, aceitou-se que o
seu advento seria próximo.
Como não sobreveio, passados os anos foi marcada uma
data, e o povo estabeleceu
que o ano mil seria o do juízo.
Neste momento dar-se-ia o fecho final da vida cristã, da
passagem terrena do
homem. Haveria um grande julgamento: os bons ganhariam o
céu e os maus seriam
eternamente condenado. Quando chegou o ano mil, que seja
dito, foi desastroso, pois
pela sua aproximação em conseqüência de certos excessos
religiosos, sobreveio uma
grande decepção no mundo europeu, o que foi gestar uma
busca para esta vida, quer
dizer a sacralidade exagerada do Cristianismo foi se
tornando mais secular.
Nota-se isso nos próprios protestantes que,
posteriormente, vieram dar um
sentido mais secular à concepção cristã, buscar a
realização do Cristianismo nesta
terra e, inclusive, também nos próprios cristãos, que
começaram a procurar melhorar
a sua situação, a vida humana, lutando por melhores
condições.
MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS
Qual o sentido da filosofia?Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Não há uma única, só há a filosofia, porque ela como já
definiu muito bem Pitágoras, continua com a sua definição, ela nada mais é
do que o amor a sabedoria.
Pitágoras, numa aula de geometria, em que fazia a
demonstração de um teorema indicou um caminho.
Ele disse que devia se fazer a filosofia “a more geométrico”, também com
demonstrações rigorosas e apodíticas. Se procedermos assim a filosofia não será
motivo de divergências humanas, mas de aproximação. A matemática não tem divergências, porque ela entrou no campo especulativo e entrou na demonstração rigorosa, o que existe de
divergência é que pode haver é na parte de aplicação, na parte prática.
É lógico que não pode atingir a perfeição incomutável. O triângulo perfeito será
sempre relativo, o que há necessidade é de dar a filosofia outro sentido, se a filosofia
for construída assim é uma só, então encontramos uma filosofia perene, positiva e
perene através dos séculos, através dos milênios.
Filosofia que vem vindo através dos gregos, através dos pitagóricos, socráticos,
platônicos, aristotélicos, através da escolástica, através dos grandes árabes até nós.
Agora estamos numa fase de confusão, porque a filosofia está sendo invadida por
estetas e o espírito do esteta, o espírito romântico é destrutivo, pois ele acha que a
filosofia é subjetiva, pessoal.
A nossa luta é voltar outra vez a estrada real, aquela estrada real que é nossa,
que é patrimônio da humanidade. Filosofia não é filodoxia, filosofia não é o campo dos
palpites, não é o campo das opiniões, na filosofia não há lugar para opinião. Quando se
diz “qual é a sua opinião” não se está mais fazendo filosofia, está se fazendo filodoxia.
Filosofia tem que se demonstrar, se não se pode demonstrar então fica em suspenso,
continua se investigando até que se chegue a demonstração rigorosa.
Porém não se vai encontrar uma explicação apodítica de fatos contingentes,
querer reduzir os fatos da ciência a um sentido especulativo e de raciocínios apodíticos
absolutos não se vai conseguir, são sempre prováveis e este é o campo da
probabilidade da ciência. É provável, por exemplo, que aquela pedra que está solta vá
cair, mas não há nenhuma necessidade absoluta que ela caia, é outra coisa.
Hoje em dia se faz muitas confusão, há muitas tendências, muitas escolas. As
questões que existem na escolástica são questões abertas, mas em regra geral todos
os escolásticos têm uma unidade, há um pensamento entre eles que é unitário, queforma uma unidade, dá uma corporeidade, dá uma tensão a escolástica, assim como
existe no pitagorismo apesar das divergências entre os pitagóricos.
Chamamos nossa filosofia de concreta, porque ela é uma filosofia positiva que
busca concrecionar os aspectos positivos de todo o filosofar, tudo o que expomos
demonstramos apoditicamente e o mais possível, evitando o termo médio, quer dizer
evitando o raciocínio da razão, porque o raciocínio propriamente racional que é o da
ciência é precisamente aquele que usa o termo médio, procuramos evitar o mais
possível, embora nem sempre seja possível evitar.É possível uma filosofia engajada?
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964
Esta questão de filosofia engajada é uma expressão muito moderna, que tem
muitos sentidos. Em primeiro lugar, na verdade não há filosofias, só há a Filosofia.
As divergências humanas surgem porque não se estuda devidamente a filosofia,
porque se partirmos de um princípio fundamental na filosofia de que a verdadeira
autoridade é a demonstração, e não “a” nem “b” nem “c”, e a demonstração deve ser
a mais rigorosa possível, consequentemente a demonstração apodítica, isto é, o juízo
necessário, o juízo quoad se, juízo válido quoad se, por si mesmo, o juízo que
esplende a sua verdade por si mesmo, estabelecemos este juízo, e os procuramos, e
os construímos e temos capacidade de alcançá-los, nós só temos uma filosofia, porque
toda aquela que se afastar disto é erro, tudo aquilo que se opuser e contradizer ao que
está estabelecido nos princípios, é erro. Há aquelas questões que ainda são disputáveis, aquelas
questões em que nós ainda não podemos colocá-las dentro destas demonstrações, estas podem se disputar,mas são questões praticamente acidentais, de forma que as diversas posições da
filosofia que surgiram são mais produtos da ignorância do que verdadeiramente do
saber.
O que surgiu na filosofia grega que perdeu-se numa série de escolas foi a má
compreensão dos fundadores da filosofia. Se tivessem seguido genuinamente o
método de Pitágoras, não tivessem se afastado dele, não aparecessem discípulos
incapazes que começaram a tomar outros caminhos, não teria havido aquela luta
tremenda que há entre atomistas e eleatas e outros que foram surgindo na filosofia e
que só serviram para dividir.
Tudo isso tem um valor, não sou contra, foi bom, porque tudo isso provocou
grandes investigações e permitiu solucionar melhor os problemas filosóficos.
Assim como o cepticismo foi um grande bem, os cépticos gregos trouxeram um
grande benefício, porque colocaram a questão da verdade em cheque, obrigaram a
formação da lógica formal.
O trabalho tremendo dos estóicos, e a grande dialética
dos platônicos não se
teria se construído se não tivesse havido aquelas
divergências. O erro também é
benéfico, também deve aparecer, mas apenas com este
sentido, para estimular a
prestarem atenção melhor a pontos que julgamos já
definitivos, acabados, já
solucionados, e que podiam ser melhor, mais
robustecidamente defendidos.
Essas dissenções que aparecem são necessárias, mas
filosofia só há uma, assim
como só há uma ciência.
Podem achar estranho o meu modo de falar, mas aqueles
que seguem as
minhas aulas sabem perfeitamente como já demonstrei e já
provei que é assim, pois
todas estas divergências surgem da má compreensão.
Na filosofia moderna coloca-se uma grande problemática,
uma problemática já
ultrapassada, são questões que já foram suficientemente
resolvidas, mas como muitos
não estão preparados pensam que são grandes novidades.
Os gregos, sobretudo os atenienses no período de
decadência, quiseram
estudar as causas desta decadência, porque Atenas que
havia brilhado através dos
séculos tinha chegado aquele estado, e quando este
processo foi feito houve uma
grande discussão.
Chegou-se a conclusão de que os culpados eram os
sofistas. Eles é que haviam
levado Atenas aquela situação de desintegração
intelectual,. Procuraram um sofista
para ser um “bode expiatório” e o escolhido foi
Sócrates, que não era sofista, mas o
havia sido na sua juventude.
Mas o povo ignorante e a juventude sobretudo ignorante,
pôs-se a acusar
Sócrates, a gritar nas ruas, a exigir a morte do
filósofo como culpado da
degenerescência do povo de Atenas. Sócrates foi julgado
e é interessante que naquele
julgamento perdeu por um voto e foi condenado a morte,
caindo sobre ele a culpa de
toda a degenerescência.
Realmente aquele processo estava certo, porque o que
degenerou Atenas foram
os sofistas, porque criaram toda aquela divergência de
idéias, criaram a dialética de
persuasão, a dialética era a retórica, e facilitava para
que se discutissem todas as
idéias e consequentemente se tomassem todos os rumos e
Atenas perdeu a sua
unidade, porque quando a elite intelectual de um povo é
dominada por homens que
estão divergindo uns dos outros, este povo está perdido.
A ciência dos valores em filosofia
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
A origem da palavra axiologia vem do termo grego axiós,
que significa valor,
mas temos um outro termo no grego também significando
valor, a língua é mais rica
neste ponto do que a portuguesa, que se chama timos, que
é um valor no sentido
prático, e axiós o valor no sentido especulativo. Temos
a presença de timos em
palavras como estimar, estimação, etc.
Há uma parte da axiologia que penetra na timologia e
auxilia os estudos
timológicos com a sua parte incomutável. Como
trabalhamos com os princípios
metafísicos também na parte da ciência prática, o
princípio de não-contradição é um
princípio de caráter metafísico, lógico também, mas é
ontológico primacialmente. No
entanto vai prevalecer nas outras ciências.
Há certos princípios da axiologia especulativa que
vigoram na axiologia prática
que chamam de axiologia prática e que prefiro chamar de
timologia porque está mais
de acordo porque na prática nós estimamos. É como na
matemática aplicada e na
matemática especulativa, na verdade não há uma
matemática puramente especulativa
e outra prática, a lógica formal não é puramente
especulativa, nós temos uma lógica
material que é verdadeiramente prática, que vai para a
prática.
Temos que fazer estas distinções, mas não podemos ficar
apenas no campo
especulativo, aí há o perigo de ficarmos num campo de
abstrações, também não
podemos confundir os dois campos.O existencialismo
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convívium, 1964
Existe dois tipos: um existencialismo ateu, vamos chamar
assim, e um teísta. O
problema existencialista não é uma novidade criada
agora, descoberta atualmente,
porque o problema da existência já foi estudado
sobretudo pelos místicos cristãos com
muito maior profundidade do que os modernos.
Gostaria que lessem os místicos, iriam ter um momento de
maior emoção, de
maior beleza, iriam ver que estes existencialistas
modernos que escrevem muito bem
não escrevem tão bem como os místicos cristãos, que
despertam lágrimas de emoção
estética, porque o belo é um transcendental que se
coloca entre o bem e o verdadeiro,
todo bem supremo é belo como todo verdadeiro é belo.
Ao lado de uma filosofia, há também uma filocalia, isto
é, um amor ao belo, e
nós quando alcançamos as grandes verdades, os grandes
primeiros princípios temos
aquelas emoções de beleza que nos levam ao êxtase e nos
levam a estados em que
não contemos as lágrimas, porque é uma satisfação tão
grande, uma vitória tão
grande sobre a nossa pequenez, que nos sentimos nesses
instantes raiando uma
felicidade tão alta, e nosso corpo é pobre para
resistir, por isso trepida, estremece, até
se apavora, mas nosso espírito entra em estados de
agradabilidade incomparáveis.
O existencialismo é uma das maneiras de colocar mal o
problema da existência,
e por isso como a época é de má colocação dos problemas,
ele está na sua bela fase,
então ele teve um certo sucesso como teve o paninteísmo
e outras doutrinas que
também fizeram o mesmo furor.
Não deixo de reconhecer no existencialismo aspectos
positivos porque temos
que chegar a conclusão na filosofia de que toda
existência é singular, não temos uma
existência do universal, o universal não existe, de
maneira que a existência é o
momento perfectivo de qualquer ser, é o auge de qualquer
ser na sua existência, mas
o existencialismo não se preocupou propriamente com este
problema da existência das
coisas, mas sim com o problema da existência do homem, e
quis escamotear o
problema da sua essência, primeiro porque nunca
compreendeu claramente o que é a
essência do homem, tiveram uma noção muito errada do que
seja, e o que disseram e
o que tratarem está muito melhor tratado nas obras dos
místicos, e em filósofos como
Duns Scot e também nos místicos franciscanos.
Como é uma matéria muito longa prefero deixar para uma
palestra especial
porque levaria muito tempo para estudar os diversos
tipos de existencialismo e
mostrar os seus defeitos, mas não é nada que me
impressione embora reconheça que
é uma manifestação filosófica que está avassalando a
juventude e que ela está
despreparada para compreender.
Como o panteísmo foi no fim do século passado, são como
esses rojões que
quando acendem brilham muito, esses fogos de artifício e
que deixam depois só
trevas, num total e absoluto esquecimento, mas não deixa
de ter os seus aspectos
positivos, mas os aspectos positivos que tem foram os
que foi buscar de outras
concepções.
Sobre o Marxismo
Mário Ferreira dos Santos - Palestra no Centro
Convivium, 1964
No Renascimento começaram a surgir as chamadas utopias,
quando a Igreja
perdeu o poder, mesmo o seu poder espiritual foi
restringido com a formação das
grandes nações, e o poder temporal praticamente nulo, a
Igreja perdeu totalmente a
força.
A sociedade, com a ascensão do empresário utilitário que
passou a ter um
poder extraordinário porque já tinha o poder econômico,
passou também a participar
do poder político, porque todos aqueles que tem o poder
econômico sempre desejam o
poder político.
As injustiças sociais foram crescendo e se agravando, as
próprias corporações
da Idade Média em que mestres aprendizes e companheiros
formavam verdadeiras
unidades passaram a ser distintos, os mestres
tornaram-se capitalistas, empresários, e
veio a época da industrialização.
Começou a surgir uma preocupação em torno do problema do
homem olhado
do ângulo coletivo, isto é, da coletividade humana,
porque o empresário utilitário por
natureza é individualista, ele necessita de uma certa
liberdade de ação para que possa
desenvolver-se plenamente e põe necessariamente em risco
os interesses coletivos.
O socialismo praticamente surge estruturado assim em
idéias no século passado
e esta palavra socialismo surgiu de uma polêmica que
houve na Inglaterra, num jornal
em que havia um cidadão que escrevia artigos defendendo
o capitalismo
manchesteriano, e assinava “individualista” e num outro
jornal alguém pôs-se a
rebater os seus argumentos e assinava “socialista”, e a
palavra foi cunhada, foi
tomando um conteúdo, foi significando tudo aquilo que se
refere mais ao coletivo em
geral na sua luta contra o individualismo.
Todos que estudam filosofia sabem perfeitamente que o
verdadeiro conceito de
política, como o estudavam os grandes filósofos gregos
implica uma harmonização
entre os interesses individuais com os interesses
coletivos. Propriamente a política é
isto, são os costumes humanos olhados do ângulo da
coletividade e busca conciliar,
harmonizar estes interesses, esta é verdadeiramente a
política, é conciliar os
interesses do homem na ‘polis’, não é mais o homem da
tribo, muito menos não é o
homem da horda, é o homem de uma nova horda, porque a
“polis” é quase uma
verdadeira horda, mas a “polis” perdendo as suas
ligações tribais cada vez mais há a
necessidade de conciliar os interesses de grupos com os
interesses coletivos.
Embora hoje política não se entenda assim, em geral,
entende-se como a arte
de governar para uns, mas na verdade ela é usada como a
arte de conquistar e de
conservar o poder, consequentemente como o político se
desvirtuou do seu verdadeiro
sentido, as formações socialistas desde o início foram
anti-políticas, quer dizer, política
e socialismo foi desde o início considerado como azeite
e água, como coisas
inconciliáveis.
Socialismo fazendo política é uma coisa absurda, porque
a política era a
conquista do poder, era conservar o poder, exercer o
poder, etc., então as primeiras
tentativas de formação de idéias socialistas eram
genuinamente libertárias, de
libertação do homem, libertação de tudo quanto o
oprimia, do ser humano desvincularse
de todas aquelas peias que exerciam sobre ele obstáculos
no seu desenvolvimento.
Passou-se a analisar quais são, o Estado em primeiro
lugar, o maior monstro
opressor que a sociedade humana conhece, pois as classes
economicamente poderosas
que fazem as leis de acordo com seus interesses contra
os interesses da maioria. Todo
o socialismo formou-se num ideal de liquidação das
classes, para evitar a exploração
do homem sobre o homem, e sobretudo a liquidação do
Estado, porque o Estado não
era mais a sociedade politicamente organizada, mas era
apenas um organismo político,
de grupo, que dominavam a sociedade.
O socialismo caracteriza-se desde o início por uma
crítica violenta e desbragada
e exagerada e até injusta em muitos aspectos contra o
Estado e contra as classes
dominantes.
Como o clero nessas ocasiões tomou uma atitude mais
favorável as classes
dominantes, o clero entrou também na lista, quer dizer,
passou também a ser
combatido e eis porque o socialismo em geral combate não
só combatia a aristocracia,
o clero, a burguesia e o Estado, combatia tudo e
naturalmente tinha que tender para a
massa, massa que se manobra sempre para as convulsões
sociais, que são a massa
dos servidores, aqueles que não tem nenhum papel
histórico senão este.
O socialismo foi-se a pouco e pouco estruturando até que
se estruturou em três
tipos de socialismo nitidamente claros: um socialismo de
caráter libertário, antiestatal,
desejando abolir as classes, não pregando a luta de
classes, mas abolir as
classes e estabelecer uma sociedade de iguais; um
socialismo democrático, que quis
democratizar o estado, transformando num órgão que
manifestasse a vontade popular,
as opiniões; e um socialismo de caráter totalitário,
único, exclusivista, que não
permitia as heterogeneidades humanas, que é o
totalitário.
No século passado a predominância dentro do campo
socialista era o socialismo
libertário, o socialismo democrático não tinha a mínima
influência, não era desprezível
porque era mínimo, o totalitário também não era grande,
mas era um pouco mais
numeroso, mas a grande massa era libertária.
Era a época em que surgiu os grandes líderes libertários
como foram Proudhon,
Kropotkine, Jean Grave, Hoover. Marx manifestou
simpatia, pretendia um cargo
administrativo na Saxonia, mas como era judeu, apesar de
ser casado com mulher
alemã, não conseguiu o cargo.
Então passou para a oposição e juntou-se com um grupo de
socialistas que
nesta época publicavam uma revista famosa na Alemanha
que foi a “Gazeta Renana”,
na qual passou a colaborar.
Nesta época começou a ter conhecimento das obras dos
socialistas franceses,
que eram libertários, sobretudo as obras de Proudhon, a
quem Marx saudou como um
pensamento científico do socialismo.
Não podendo manter-se na Alemanha devido as perseguições
políticas, exilouse
na França e aí procurou entrar em contato com Proudhon,
que era a figura que ele
mais admirava, que colocava como a suprema. Mas
aconteceu que Proudhon era um
homem muito sincero, muito franco e um homem que não
sabia esconder a sua
afetividade, e ele não gostou de Marx e tratou-o com
certa distância, e isto o magoou
profundamente.
Mais tarde Marx passou a renegar aquilo que havia dito,
começou a encontrar
defeitos em Proudhon, começou a achar que o pensamento
dele já não era científico,
não era o verdadeiro pensamento socialista, começou a
analisar somente os defeitos
da obra proudhoniana e surgiu então uma pequena cisão.
Marx com um pequeno grupo formou o grupo dos marxistas
que eram
totalitários, mais prussianos, seguindo mais os
princípios do socialismo alemão, de
organização mais militarizada, e Proudhon tinha um
sentido mais latino, mais
libertário, mais romântico.
De início, Marx não teve nenhuma influência, Proudhon
dominou e foi
dominando o socialismo até a guerra de 14 e 18. Enfim os
libertários fizeram a
revolução russa porque a revolução russa não é
bolchevista, os bolchevistas apenas se
aproveitaram.
No fim do século XIX houve um acontecimento
importantíssimo, foi quando se
fundou a Primeira Internacional, e na sua formação
apareciam, como figuras
fundamentais, Marx e Bakunin, sendo que este era a
figura predominante, e depois de
uma série de intrigas astuciosas e muito bem feitas (mas
muito indignas) a Primeira
Internacional não seguiu o seu verdadeiro destino e o
movimento socialista que era
unido, unificado no mundo inteiro foi destruído, porque
foi rompido, ficando uma ala
libertária e uma ala totalitário.
Daí é que se formou uma ala democrática tentando uma
conciliação entre os
dois lados, isto é, nem tanto a terra nem tanto ao mar,
nem muita liberdade, o Estado
não pode ser muito poderoso, etc., uma fórmula
intermédia. Mas Marx nunca pode
deixar de defender as teses libertárias, isto é, da
abolição do Estado, porque no fundo
o marxismo prega que a verdadeira realização do
comunismo é a abolição do Estado,
só se pode dar com a abolição do Estado.
Pregaram isto, mas eles não falam mais porque não lhes
convém, porque o
Estado está muito bem colocado. Naquela época, porém,
eles chegaram a essa
conclusão. Marx também admitia que a revolução social,
feita através do domínio do
proletariado que seria a ditadura do proletariado seria
por alcançar finalmente a
abolição do Estado, o desaparecimento das classes.
Sem o desaparecimento das classes também seria
impossível o Estado, porque
na interpretação marxista do Estado, este é uma espécie
de efeito, de subproduto da
divisão de classes e do domínio das classes na
sociedade, de maneira que o marxismo
formou-se assim, teve a sua história, longa história de
grandezas e de misérias.
Bom, vamos mais a um chavão de momentos extraordinários
e momentos
mesquinhos, tem a sua beleza e tem a sua fealdade,
gostaria também de fazer uma
palestra especial sobre um ponto importante, até trouxe
aqui um documento que
talvez poucos pessoas possuam no mundo.
Eu sabia que a pergunta viria mais dia menos dia, é a
“História da Associação
Internacional dos Trabalhadores da A.I.T.”, a única e
genuína representante dos
trabalhadores que ainda existe, e aqui está o processo
todo do famoso congresso que
deu a cisão do socialismo, que atrasou cem anos o
socialismo.Filosofia especulativa e filosofia prática
Assinar:
Postagens (Atom)