MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS IV
A crise no mundo moderno
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
O tema gira em torno da crise no mundo moderno que é,
sem dúvida, um dos assuntos mais polêmicos e discutidos no momento.
Entretanto, para ser feita uma análise mais completa, necessário se faz uma comparação
entre as diversas concepções sobre a História; o que envolveria um estudo
consequentemente exaustivo de determinados tópicos que, aqui, só serão abordados,
sem passarem por uma análise em maior profundidade.
Seja qual for a concepção que se tenha da História, não se pode desprezar as
grandes contribuições feitas principalmente após 1850.
Se até então, o homem pouco sabia do volume de dados que, posteriormente veio a ter
conhecimento, a quantidade
de estudos das crises que assoberbaram o mundo
ocidental, no fim do século passado
e, principalmente neste, levou-o a estruturar diversas
concepções da História, entre as
quais se destacam a de Spengler e a de Toynbee.
Não que sejam elas as principais, mas entre as que foram
formuladas, são as
que oferecem uma visão contínua da História, na qual se
passou a compreender que o
ser humano conhece, através da sua dinâmica, ciclos
culturais. Estes tem um
nascimento e um desenvolvimento, atingindo um patamar
mais ou menos equilibrado
e precipitando-se depois numa decadência: o grande final
para, finalmente, serem
substituídos por outros...
Esta matéria pode e deve ser discutida e ,realmente, tem
sido tema de
acirradas discussões. É inegável que, se passarmos os
olhos pelos grandes ciclos
culturais conhecidos, observamos que assim se deu com o
mundo egípcio, com o
mundo hindu, com o mundo chinês e está se dando com o
nosso: o mundo cristão.
Seja como for existem nestes ciclos culturais uma
cosmovisão que os estruturou e que
sempre esteve fundamentada numa idéia religiosa.
A formação do mundo egípcio baseava-se numa cosmovisão
que tinha, como
fulcro central, a idéia religiosa dos sacerdotes, assim
como o mundo hindu se
centralizava nos brâmanes. Estas concepções do mundo
possuem um aspecto
genérico, mas não impedem que outros específicos (que
são, de certo modo,
divergentes) também existam.
É, em torno destas idéias fundamentais, destas
cosmovisões que se estabelece
o ciclo cultural; muito embora outros elementos também
façam parte da sua
formação, porém não são os fundamentais, como é a idéia
religiosa, por exemplo.
Observando o nosso ciclo cultural, notamos que ele se
forma ao redor da concepção
cristã opondo-se, quase frontalmente, à concepção
greco-romana.
Para esta o homem não era considerado na sua plenitude,
como no
Cristianismo, já que admitia que alguns nasciam para ser
senhores e outros para ser
escravos. A escravidão era estabelecida por um princípio
natural, advindo do direito
natural; enquanto a pessoa humana tem um valor no
Cristianismo que não se encontra
em outros ciclos culturais.
Enquanto para o homem greco-romano a vontade dos deuses
é que
determinava tudo –o fado, o destino- e, daí o bem e o
mal acontecerem segundo a
vontade e o capricho dos deuses, opunha-se frontalmente
à cristã que concebia o
homem como um ser livre, senhor do seu destino ou, pelo
menos, parcialmente dono
dele. Para a concepção grega este determinismo não era
dado em sentido absoluto,
porque ela admitia que a conjunção de várias causas
pudesse produzir efeitos per
accidens, distintos dos que se dão per se.
Exemplifiquemos: uma macieira dando maçãs é um efeito
per se decorrente
natural da própria natureza da macieira. Já, por
exemplo, um acontecimento fortuito:
um carro que passa pela rua e choca-se com outro
sobrevindo, daí, a morte de
algumas pessoas, isto é um acidente que não decorre per
se, do carro que anda, mas
sim de uma conjunção meramente acidental que, segundo os
gregos, sobrevinham na
vida humana pelo capricho dos deuses.
Eles chamavam de o caráter trágico porque o drama seria
a continuidade, a
decorrência, a sucessão de uma seqüência per se.
O homem que bebe e acaba sendo presa do vício, é
dramático. O jovem que
morre num desastre é trágico. Trágico porque se deu
devido a conjunção acidental de
fatores que geraram aquele efeito; enquanto o anterior é
decorrência natural de um
mau hábito e, do qual, a pessoa não pode se libertar.
Os gregos, freqüentemente, distinguiam o conceito de
dramático do de trágico
e tinham uma concepção, consequentemente, trágica da
vida, já que todo destino
humano estava dependendo da vontade e do capricho dos
deuses.
Para a concepção cristã a vida humana não depende do
capricho dos deuses,
mesmo na concepção da graça –seja da graça santificante
como de outros tipos de
graça- um dos temas mais debatidos e controversos na
teologia cristã, pois elas
podem ser consideradas como favores dados ao homem;
porém muitas são adquiridas
pelo mérito, pelo esforço.
O nosso ciclo cultural formou-se na decadência grega e
seguiu, paralelamente,
o Cristianismo ao greco-romano, consequentemente começou
inserida na parte
material da cultura ocidental, nos remanescentes de sua
filosofia.
Em torno da concepção cristã formaram-se várias idéias
contrárias à ela; já que
nenhum ciclo cultural consegue constituir-se
homogeneamente de modo que totalize
plenamente a parte material, pois há sempre
remanescentes de outros ciclos culturais
que passam a ser, dentro deste, as disposições prévias
corruptivas.
As idéias gregas, que foram corruptivas, continuaram a
atuar no interior da
estrutura cristã com a mesma disposição e isto vem até
os nossos dias, onde observase
um debate em torno das mesmas idéias que animaram os
sofistas gregos no
primeiro período de sua decadência, assim como os
estóicos e os hedonistas durante a
decadência greco-romana. As mesmas razões, os mesmos
temas e argumentos
aparecem manejados por vários autores modernos, embora
já tenham sido refutados
com antecedência de séculos.
Esta tese que vamos apresentar é uma das mais coerentes
e foi aceita não só
pelos egípcios mas, também, pelos hindus e pelos judeus.
Nela vai se observar, por
exemplo, entre estes últimos, no Livro de Daniel, a
mesma concepção que foi
aperfeiçoada no Ocidente.
Não se conhece nenhum ciclo cultural onde não se
encontre uma divisão da
sociedade em quatro estratos sociais, que se degladiam
entre si: o sacerdócio, a
nobreza, o empresário utilitário que, em nosso ciclo
cultural recebeu o nome (um tanto
depreciativo) de burguês, e o servidor, o prestador de
serviços.
Estes quatro ciclos são universais em sua
heterogeneidade, mas possuem os
mesmos aspectos genéricos. Na formação do ciclo cultural
o primeiro período é de
domínio dos sacerdotes, que participam deste poder, em
proporção maior que a
nobreza.
O sacerdócio se apoia na massa de servidores, e o
empresário utilitário se concentra
ao redor da cultura, mas não a penetra pois é um
estranho; apesar de admitido e
aceito, não está incluído no ciclo cultural. Com o tempo
sobrevêm a primeira grande
revolução social que é a da nobreza, pois esta, já com o
poder econômico nas mãos,
aspira o político e, pouco a pouco, tenta subordinar o
sacerdócio para que sirva aos
seus interesses, terminando por conseguir.
Há um equilíbrio de participação no kratos social mas,
finalmente, a nobreza consegue
ter o domínio completo e hegemônico, passando a servir a
esses interesses. Ao
penetrar no clero vem a fazer parte dele, devido ao seu
prestígio ante os servidores e
a massa popular, fortalecendo assim o seu poder. No
Cristianismo, durante o final da
Idade Média e no Renascimento, os altos postos da Igreja
(do bispo para cima) só
podiam ser ocupados por nobres, o que originou um
movimento de rebeldia por parte
dos jesuítas –o episcopalismo.
Neste movimento eles reivindicavam o direito de qualquer
homem –fosse de que
classe fosse- ascender ao papado. A nobreza não
concordou porque assim ela não
dominaria a Igreja. E deu-se o movimento da Reforma com
a fragmentação da Igreja
Católica, indo repartir-se em inúmeras igrejas com a
perda do poder; não só do poder
temporal –do qual ela foi senhora absoluta- mas, também,
do espiritual; já que não
tinha sobre as massas a mesma influência que exercera
nos seus primórdios.
Dá-se a incorporação do empresário utilitário e pode-se
perguntar: por que?
Obviamente que, com o domínio da nobreza, segue-se a
formação dos grandes
estados indo surgir a pseudo-idéia, a “grande mentira”
do nacionalismo pois, neste
momento, os príncipes (desejosos de poder) “inventam” a
concepção nacional para
formar as minorias insatisfeitas de outros povos a
aderir ao seu movimento, alegando
uma homogeneidade étnica ou lingüística, religiosa ou de
direito, ética, o que vai, na
realidade, constituir um subterfúgio político utilizado
para justificar a formação dos
grandes estados. Aparecem os exércitos que precisam ser
uniformizados e cuja
manutenção obriga a produção em série.
O periético –aquele que se encontrava à parte da
cultura- passa a fazer parte dela
vivendo o ciclo e fundindo-se nele, indo desenvolver seu
poder econômico e exigindo,
consequentemente, a participação no governo. No início
aproveita-se dos nobres
arruinados, forçando o casamento com as filhas dos
burgueses e, depois, pela
necessidade crescente do luxo (o que levou a nobreza se
endividar e ser, pouco a
pouco dominada pela burguesia).
Instala-se então a segunda grande revolução que,
realmente, aparece em todos os
ciclos culturais: a revolução burguesa que no nosso
ciclo tem o nome de revolução
democrática, porque são sempre portadores de promessas
de felicidade dos povos,
principalmente em relação aos servidores. Os burgueses
ascendem ao poder e
dominam a nobreza e o próprio clero, quando não os
aniquila.
A esta segunda grande revolução sobrevêm, finalmente, as
grandes agitações que são
provocadas pelos trânsfugas dos diversos estratos
sociais, àqueles que estão
descontentes (sejam oriundos do clero, como da nobreza e
da burguesia) e passam a
agitar as massas para uma nova revolução, cuja
finalidade é transformar a sociedade.
Como o poder já não pode mais ser dado, porque o único
estrato que ainda não os
teve é o servidor, surgem os que lhe vão prometer o
poder. É o que fez Marx no século
passado, propondo ao servidor a assunção ao poder
através da ditadura do
proletariado. Promessa feita no século passado mas que
não aconteceu e não está
acontecendo.
Não que ela seja uma impossibilidade histórica, porque
ante os fatos contingentes não
podemos estabelecer um determinismo rígido, porém
durante estes seis mil anos não
se concretizou a não ser em pequenos grupos, onde as
massas assumiram o poder
político. Não estando, porém, em condições de assumi-lo
por um longo período,
perdem-no para os outros estamentos.
Quando os bolchevistas compreenderam isso substituíram
ou deram à ditadura do
proletariado uma solução: o partido –vanguarda do
proletariado- para que, pouco a
pouco, fosse devolvido o poder ao proletariado através
da redução do Estado que se
processaria lentamente, de acordo com as possibilidades
sociais, e com a promessa de
um estado anárquico, na qual o poder não mais
pertenceria a grupos mas seria da
própria sociedade, politicamente organizada e dona do
seu destino.
Este é um tema, sem dúvida, apaixonante e o qual vivemos
não só como espectadores
mas, também, como intérpretes.
Consequentemente nos atinge e nos interessa e daí os
debates apaixonantes e
polêmicos que surgem. Entretanto observamos os fatores
corruptivos que atuam
corrompendo o ciclo cultural e que vão gerar o estado de
desordem, de confusão do
mundo das idéias.
Desde o início no Cristianismo apareceram fatores
corruptivos que atuaram como
todas as heresias que se formaram, pois se apresentavam
com o espírito religioso e
traziam, no seu bojo, idéias contrárias à concepção
cristã
A religião cristã é sincrética; reúne os pontos altos de
todas as outras religiões tendo
os copiado. Os cristãos não negam; sabem perfeitamente
que a missão cristã não é
criar uma coisa nova. A boa nova não era um substituição
total do que havia, mas sim
a reafirmação do que era positivo no pensamento dos
povos nas suas ligações a um
princípio superior –fonte e origem de todas as coisas -
que o homem deve reverenciar.
Encontra-se sempre em oposição aos princípios positivos
do Cristianismo, os
opositivos, sobretudo negativos que têm uma função
corruptora e, entre estes, o
dogmatismo.
Aqui é empregado em sentido religioso e não ético, como
comumente se faz. Se
observarmos as religiões dos diversos ciclos culturais,
vê-se que todas foram positivas
quando construíram uma cosmovisão –base da formação de
um ciclo cultural.
O cepticismo gerou as constantes idéias do mundo
greco-romano que colocaram a
dúvida, sobretudo no que o cristianismo afirmava como
verdadeiro e serviram à
tentação corruptiva porque, perdendo-se os princípios,
facilmente perdem-se os meios.
A concepção ética, as concepções sobre a vida social que
o cristianismo podia propor,
se os seus princípios fossem deficientes e,
consequentemente seriam falsas as suas
conclusões.
Toda esta ação para destruir a positividade da concepção
cristã gerou os “frutos” da
época moderna.
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
O tema gira em torno da crise no mundo moderno que é,
sem dúvida, um dos assuntos mais polêmicos e discutidos no momento.
Entretanto, para ser feita uma análise mais completa, necessário se faz uma comparação
entre as diversas concepções sobre a História; o que envolveria um estudo
consequentemente exaustivo de determinados tópicos que, aqui, só serão abordados,
sem passarem por uma análise em maior profundidade.
Seja qual for a concepção que se tenha da História, não se pode desprezar as
grandes contribuições feitas principalmente após 1850.
Se até então, o homem pouco sabia do volume de dados que, posteriormente veio a ter
conhecimento, a quantidade
de estudos das crises que assoberbaram o mundo
ocidental, no fim do século passado
e, principalmente neste, levou-o a estruturar diversas
concepções da História, entre as
quais se destacam a de Spengler e a de Toynbee.
Não que sejam elas as principais, mas entre as que foram
formuladas, são as
que oferecem uma visão contínua da História, na qual se
passou a compreender que o
ser humano conhece, através da sua dinâmica, ciclos
culturais. Estes tem um
nascimento e um desenvolvimento, atingindo um patamar
mais ou menos equilibrado
e precipitando-se depois numa decadência: o grande final
para, finalmente, serem
substituídos por outros...
Esta matéria pode e deve ser discutida e ,realmente, tem
sido tema de
acirradas discussões. É inegável que, se passarmos os
olhos pelos grandes ciclos
culturais conhecidos, observamos que assim se deu com o
mundo egípcio, com o
mundo hindu, com o mundo chinês e está se dando com o
nosso: o mundo cristão.
Seja como for existem nestes ciclos culturais uma
cosmovisão que os estruturou e que
sempre esteve fundamentada numa idéia religiosa.
A formação do mundo egípcio baseava-se numa cosmovisão
que tinha, como
fulcro central, a idéia religiosa dos sacerdotes, assim
como o mundo hindu se
centralizava nos brâmanes. Estas concepções do mundo
possuem um aspecto
genérico, mas não impedem que outros específicos (que
são, de certo modo,
divergentes) também existam.
É, em torno destas idéias fundamentais, destas
cosmovisões que se estabelece
o ciclo cultural; muito embora outros elementos também
façam parte da sua
formação, porém não são os fundamentais, como é a idéia
religiosa, por exemplo.
Observando o nosso ciclo cultural, notamos que ele se
forma ao redor da concepção
cristã opondo-se, quase frontalmente, à concepção
greco-romana.
Para esta o homem não era considerado na sua plenitude,
como no
Cristianismo, já que admitia que alguns nasciam para ser
senhores e outros para ser
escravos. A escravidão era estabelecida por um princípio
natural, advindo do direito
natural; enquanto a pessoa humana tem um valor no
Cristianismo que não se encontra
em outros ciclos culturais.
Enquanto para o homem greco-romano a vontade dos deuses
é que
determinava tudo –o fado, o destino- e, daí o bem e o
mal acontecerem segundo a
vontade e o capricho dos deuses, opunha-se frontalmente
à cristã que concebia o
homem como um ser livre, senhor do seu destino ou, pelo
menos, parcialmente dono
dele. Para a concepção grega este determinismo não era
dado em sentido absoluto,
porque ela admitia que a conjunção de várias causas
pudesse produzir efeitos per
accidens, distintos dos que se dão per se.
Exemplifiquemos: uma macieira dando maçãs é um efeito
per se decorrente
natural da própria natureza da macieira. Já, por
exemplo, um acontecimento fortuito:
um carro que passa pela rua e choca-se com outro
sobrevindo, daí, a morte de
algumas pessoas, isto é um acidente que não decorre per
se, do carro que anda, mas
sim de uma conjunção meramente acidental que, segundo os
gregos, sobrevinham na
vida humana pelo capricho dos deuses.
Eles chamavam de o caráter trágico porque o drama seria
a continuidade, a
decorrência, a sucessão de uma seqüência per se.
O homem que bebe e acaba sendo presa do vício, é
dramático. O jovem que
morre num desastre é trágico. Trágico porque se deu
devido a conjunção acidental de
fatores que geraram aquele efeito; enquanto o anterior é
decorrência natural de um
mau hábito e, do qual, a pessoa não pode se libertar.
Os gregos, freqüentemente, distinguiam o conceito de
dramático do de trágico
e tinham uma concepção, consequentemente, trágica da
vida, já que todo destino
humano estava dependendo da vontade e do capricho dos
deuses.
Para a concepção cristã a vida humana não depende do
capricho dos deuses,
mesmo na concepção da graça –seja da graça santificante
como de outros tipos de
graça- um dos temas mais debatidos e controversos na
teologia cristã, pois elas
podem ser consideradas como favores dados ao homem;
porém muitas são adquiridas
pelo mérito, pelo esforço.
O nosso ciclo cultural formou-se na decadência grega e
seguiu, paralelamente,
o Cristianismo ao greco-romano, consequentemente começou
inserida na parte
material da cultura ocidental, nos remanescentes de sua
filosofia.
Em torno da concepção cristã formaram-se várias idéias
contrárias à ela; já que
nenhum ciclo cultural consegue constituir-se
homogeneamente de modo que totalize
plenamente a parte material, pois há sempre
remanescentes de outros ciclos culturais
que passam a ser, dentro deste, as disposições prévias
corruptivas.
As idéias gregas, que foram corruptivas, continuaram a
atuar no interior da
estrutura cristã com a mesma disposição e isto vem até
os nossos dias, onde observase
um debate em torno das mesmas idéias que animaram os
sofistas gregos no
primeiro período de sua decadência, assim como os
estóicos e os hedonistas durante a
decadência greco-romana. As mesmas razões, os mesmos
temas e argumentos
aparecem manejados por vários autores modernos, embora
já tenham sido refutados
com antecedência de séculos.
Esta tese que vamos apresentar é uma das mais coerentes
e foi aceita não só
pelos egípcios mas, também, pelos hindus e pelos judeus.
Nela vai se observar, por
exemplo, entre estes últimos, no Livro de Daniel, a
mesma concepção que foi
aperfeiçoada no Ocidente.
Não se conhece nenhum ciclo cultural onde não se
encontre uma divisão da
sociedade em quatro estratos sociais, que se degladiam
entre si: o sacerdócio, a
nobreza, o empresário utilitário que, em nosso ciclo
cultural recebeu o nome (um tanto
depreciativo) de burguês, e o servidor, o prestador de
serviços.
Estes quatro ciclos são universais em sua
heterogeneidade, mas possuem os
mesmos aspectos genéricos. Na formação do ciclo cultural
o primeiro período é de
domínio dos sacerdotes, que participam deste poder, em
proporção maior que a
nobreza.
O sacerdócio se apoia na massa de servidores, e o
empresário utilitário se concentra
ao redor da cultura, mas não a penetra pois é um
estranho; apesar de admitido e
aceito, não está incluído no ciclo cultural. Com o tempo
sobrevêm a primeira grande
revolução social que é a da nobreza, pois esta, já com o
poder econômico nas mãos,
aspira o político e, pouco a pouco, tenta subordinar o
sacerdócio para que sirva aos
seus interesses, terminando por conseguir.
Há um equilíbrio de participação no kratos social mas,
finalmente, a nobreza consegue
ter o domínio completo e hegemônico, passando a servir a
esses interesses. Ao
penetrar no clero vem a fazer parte dele, devido ao seu
prestígio ante os servidores e
a massa popular, fortalecendo assim o seu poder. No
Cristianismo, durante o final da
Idade Média e no Renascimento, os altos postos da Igreja
(do bispo para cima) só
podiam ser ocupados por nobres, o que originou um
movimento de rebeldia por parte
dos jesuítas –o episcopalismo.
Neste movimento eles reivindicavam o direito de qualquer
homem –fosse de que
classe fosse- ascender ao papado. A nobreza não
concordou porque assim ela não
dominaria a Igreja. E deu-se o movimento da Reforma com
a fragmentação da Igreja
Católica, indo repartir-se em inúmeras igrejas com a
perda do poder; não só do poder
temporal –do qual ela foi senhora absoluta- mas, também,
do espiritual; já que não
tinha sobre as massas a mesma influência que exercera
nos seus primórdios.
Dá-se a incorporação do empresário utilitário e pode-se
perguntar: por que?
Obviamente que, com o domínio da nobreza, segue-se a
formação dos grandes
estados indo surgir a pseudo-idéia, a “grande mentira”
do nacionalismo pois, neste
momento, os príncipes (desejosos de poder) “inventam” a
concepção nacional para
formar as minorias insatisfeitas de outros povos a
aderir ao seu movimento, alegando
uma homogeneidade étnica ou lingüística, religiosa ou de
direito, ética, o que vai, na
realidade, constituir um subterfúgio político utilizado
para justificar a formação dos
grandes estados. Aparecem os exércitos que precisam ser
uniformizados e cuja
manutenção obriga a produção em série.
O periético –aquele que se encontrava à parte da
cultura- passa a fazer parte dela
vivendo o ciclo e fundindo-se nele, indo desenvolver seu
poder econômico e exigindo,
consequentemente, a participação no governo. No início
aproveita-se dos nobres
arruinados, forçando o casamento com as filhas dos
burgueses e, depois, pela
necessidade crescente do luxo (o que levou a nobreza se
endividar e ser, pouco a
pouco dominada pela burguesia).
Instala-se então a segunda grande revolução que,
realmente, aparece em todos os
ciclos culturais: a revolução burguesa que no nosso
ciclo tem o nome de revolução
democrática, porque são sempre portadores de promessas
de felicidade dos povos,
principalmente em relação aos servidores. Os burgueses
ascendem ao poder e
dominam a nobreza e o próprio clero, quando não os
aniquila.
A esta segunda grande revolução sobrevêm, finalmente, as
grandes agitações que são
provocadas pelos trânsfugas dos diversos estratos
sociais, àqueles que estão
descontentes (sejam oriundos do clero, como da nobreza e
da burguesia) e passam a
agitar as massas para uma nova revolução, cuja
finalidade é transformar a sociedade.
Como o poder já não pode mais ser dado, porque o único
estrato que ainda não os
teve é o servidor, surgem os que lhe vão prometer o
poder. É o que fez Marx no século
passado, propondo ao servidor a assunção ao poder
através da ditadura do
proletariado. Promessa feita no século passado mas que
não aconteceu e não está
acontecendo.
Não que ela seja uma impossibilidade histórica, porque
ante os fatos contingentes não
podemos estabelecer um determinismo rígido, porém
durante estes seis mil anos não
se concretizou a não ser em pequenos grupos, onde as
massas assumiram o poder
político. Não estando, porém, em condições de assumi-lo
por um longo período,
perdem-no para os outros estamentos.
Quando os bolchevistas compreenderam isso substituíram
ou deram à ditadura do
proletariado uma solução: o partido –vanguarda do
proletariado- para que, pouco a
pouco, fosse devolvido o poder ao proletariado através
da redução do Estado que se
processaria lentamente, de acordo com as possibilidades
sociais, e com a promessa de
um estado anárquico, na qual o poder não mais
pertenceria a grupos mas seria da
própria sociedade, politicamente organizada e dona do
seu destino.
Este é um tema, sem dúvida, apaixonante e o qual vivemos
não só como espectadores
mas, também, como intérpretes.
Consequentemente nos atinge e nos interessa e daí os
debates apaixonantes e
polêmicos que surgem. Entretanto observamos os fatores
corruptivos que atuam
corrompendo o ciclo cultural e que vão gerar o estado de
desordem, de confusão do
mundo das idéias.
Desde o início no Cristianismo apareceram fatores
corruptivos que atuaram como
todas as heresias que se formaram, pois se apresentavam
com o espírito religioso e
traziam, no seu bojo, idéias contrárias à concepção
cristã
A religião cristã é sincrética; reúne os pontos altos de
todas as outras religiões tendo
os copiado. Os cristãos não negam; sabem perfeitamente
que a missão cristã não é
criar uma coisa nova. A boa nova não era um substituição
total do que havia, mas sim
a reafirmação do que era positivo no pensamento dos
povos nas suas ligações a um
princípio superior –fonte e origem de todas as coisas -
que o homem deve reverenciar.
Encontra-se sempre em oposição aos princípios positivos
do Cristianismo, os
opositivos, sobretudo negativos que têm uma função
corruptora e, entre estes, o
dogmatismo.
Aqui é empregado em sentido religioso e não ético, como
comumente se faz. Se
observarmos as religiões dos diversos ciclos culturais,
vê-se que todas foram positivas
quando construíram uma cosmovisão –base da formação de
um ciclo cultural.
O cepticismo gerou as constantes idéias do mundo
greco-romano que colocaram a
dúvida, sobretudo no que o cristianismo afirmava como
verdadeiro e serviram à
tentação corruptiva porque, perdendo-se os princípios,
facilmente perdem-se os meios.
A concepção ética, as concepções sobre a vida social que
o cristianismo podia propor,
se os seus princípios fossem deficientes e,
consequentemente seriam falsas as suas
conclusões.
Toda esta ação para destruir a positividade da concepção
cristã gerou os “frutos” da
época moderna.
MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS III
Há uma tendência bem desenvolvida neste período do movimento dos jesuítas;já que eles foram acusados pelas escolas cristãs que mais defendiam a sacralidade, de
serem demasiadamente condescendentes para com o ser humano, de terem se
deixado empolgar pela filantropia.
Este é o caso, por exemplo, das penitências que, entre os jesuítas são sempre
suportáveis, não atingindo os graus exagerados levados à efeito pelas outras ordens,
como o de Pascal, representando o grupo de Port-Royal que combateu muito os
jesuítas. Foram eles, também, combatidos porque se opunham aos interesses de
outros setores, primeiro em relação à sacralidade, segundo quanto à nobreza que
perdera, graças à ação dos jesuítas a possibilidade de nomear, pelo princípio das
investiduras, bispos, cardeais, etc.
Eram também combatidos pela burguesia porque não aceitavam a escravidão do
homem, e veja-se a sua atuação na catequese dos povos indígenas. Eles também
defenderam, para o Cristianismo, a secularização da
valorização da vida, “mente sã
num corpo são”, a ginástica, o abandono do misticismo,
repudiando as torturas do
corpo, melhora da vida e possibilidade do homem
participar do banquete da vida,
confirmando assim que os pecados não eram mortais. Daí
terem sido acusados de
serem propugnadores de uma vida imoral.
A caridade não é propriamente dar. Esta virtude não
significa apenas dar ao que
precisa, que é o sentido da filantropia, sentido vicioso
dado à caridade. Ela é o amor ao
próximo, e este amar ao próximo é alguma coisa que não
podemos adquirir por
hábito; é alguma coisa que temos por simpatia, que
sentimos, que vivemos ou não
vivemos.
Por isso a caridade está colocada entre as virtudes
teologais –as virtudes dadas por
Deus- e não as virtudes cardeais –as habituais e
adquiríveis pelo homem. De maneira
que o que chamamos de Cristianismo aquariano, ou de
Aquário, usando essa
expressão da mitologia, e também dos astrólogos (não
tendo, entretanto, o sentido
astrológico comum) mas sim significando, na sua
simbólica, um cristianismo do
homem coletivo porque é uma religião do homem, no
sentido racional.
O principal caráter dele é a vigilância racional, não a
dos sentidos, da afetividade mas
sim da intelectualidade, do homem inteligente, do homem
criador, do que não pode
mais voltar à animalidade pois tem que seguir o seu
caminho humano. É o
Cristianismo para o homem coletivo, para se realizar
nesta terra uma maior soma de
bem-estar possível, sem a ociosidade, pois esta pode ser
fonte de novos vícios. É
preciso ver-se que este Cristianismo exige que o homem
trabalhe, aplique-se
intelectualmente para desenvolver-se plenamente no
caminho do saber.
É uma constante histórica que não se pode deixar de
respeitar, que alguma coisa liga o
homem ao transcendental, porque, embora alguns
psicólogos digam o contrário (sem
fundamento porém), já que há um ou outro caso
excepcional, que não serve de base,
sem isso o homem não se sente tranqüilo, não se liberta
da sua angústia.
Há, sem dúvida, várias exceções, no caso de exemplo de
dignidade, sem ligar-se ao
transcendental, porém não se pode criar uma humanidade
sobre exceções, e sim em
uma regra geral e ela só pode ser esta: o homem só
encontra o equilíbrio dentro de si,
quando crê em algum princípio superior e se sente, de
certo modo, assegurado por um
poder que o sustente, que possa servi-lo, que saiba que
amanhã, no cumprimento do
seu dever, não está abrindo as portas para o seu próprio
mal.
Assim como diziam os pitagóricos, já que Pitágoras
aconselhava aos seus discípulos:
“lembrai-vos que os deuses sempre pouparam os sábios dos
grandes males; acreditai
na sabedoria; acreditai no conhecimento; acreditai nesta
luta pela elevação do homem
que ireis vos afastar, cada vez mais dos males que
afetam àqueles que não tem esta
preparação”.
Este é o problema: o desenvolvimento do bem-estar humano
que a ciência e a técnica
moderna podem nos dar, o progresso que ela pode nos
oferecer, mas que pode,
também, ser o grande perigo para o homem, a sua
destruição, porque o homem no
luxo, na ociosidade poderá decair.
Em que base se pode afirmar que o ser humano só possa
salvar-se tendo crença num
ser transcendental?
Os que se sentem angustiados necessitam dessa crença. O
ser humano não pode viver
dentro de uma situação agnóstica, céptica ou atéia,
porque todas estas situações
foram passageiras na História e não produziram bons
frutos; ao contrário, produziram
os piores frutos que a humanidade já colheu. O ser
humano precisa ter uma crença,
mas que ela seja racional, bem fundamentada.
E os que trabalham para a formação de uma crença
racional, fundada em bases
filosóficas com demonstrações rigorosas, como o fizeram
em grande parte os
escolásticos, é preciso ser continuado.
Para compreender filosoficamente o ser humano a não ser
que caíamos nas piores
aporias, numa concepção do mundo em que apenas se
estabeleça a imanência e não
tenha uma transcendência, necessita-se de qualquer
maneira, de um princípio que seja
a razão de ser de tudo quanto há, porque não se pode, de
modo algum, cair nos erros
de aceitar formas perfectivas que tenham surgimento do
nada.
E não poderíamos compreender a evolução, o
desenvolvimento perfectivo, sem que a
origem tenha já, de antemão, toda esta perfeição, porque
do contrário temos que
postular o surgimento do nada que é, fatalmente, uma
concepção fundamentalmente
errada.
Esta posição não é hipotética, ou seja, fundada apenas
numa concepção hipotética. Ela
é lógica e para isto necessita de uma demonstração. Não
se pode, porém, provar a
existência de um ser transcendente em poucas palavras e
as provas da Filosofia não
são iguais as da Ciência.
O filósofo é um homem desarmado, que não dispõe de
instrumentos de pesquisa nem
de observação, apenas da luz natural da sua razão para
pesquisar e estas
demonstrações sendo de caráter lógico e ontológico
exigem, naturalmente, análises
sobre vários temas.
Mas é muito simples, coloquemos da seguinte maneira o
argumento: o mundo que nós
pensamos, da nossa experiência, é um mundo de coisas que
principiam e tem um fim,
embora possamos admitir que algumas perdurem
constantemente, mas todas elas se
apresentam como algo que principia.
Ora estas que principiam, que nascem são, portanto,
naturais, são físicas, tem um
nascimento e tem que ter, naturalmente, um princípio, de
onde obtiveram o próprio
ser, ou então tem si mesmas, neste caso existiriam antes
de existir ou receberam do
nada e aqui cairíamos no absurdo. Ou tem que receber de
um outro ser antecedente
do qual depende, de onde pende esse ser que elas tem na
admissão disso, deveríamos
então, chegar a uma série e esta não pode ser infinita,
devido aos absurdos que
contém.
Temos que aceitar um princípio que seja fonte e origem
de todos os entes, e deve
conter, com antecedência, toda a perfeição possível de
atualizar-se, porque do
contrário as perfeições posteriores teriam sobrevindo do
nada, o que é absurdo. Este
ser tem de ser, de certo modo, oniperfeito, tem que ter
uma oniperfeição, que é a
origem de todas as coisas. Ele tem de ser também
onipotente, porque tudo quanto
pode ser deve estar contido nele e chegamos, assim, ao
que se chama o deus dos
filósofos.
As religiões vão emprestar a este deus um caráter
pessoal, um certo antropomorfismo.
Não discutimos esse deus das religiões e sim o deus da
Filosofia, e este pode ser e é
bastante suficiente, para fundamentar o cristianismo e o
sentido aquariano. Chamemno
matéria, energia, mas ele tem que ser um ser a se, e não
pode ser um ser que
recebe de outro, um ser ab alio, pois tem em si o seu
próprio princípio, é
imprescindível, não começou a ser, sempre foi, aquilo
que Moisés chamou de Jeová,
cuja palavra é formada de três tempos do verbo ser: o
ser que é, foi e será.
É a concepção de Deus quando perguntou: “Quem és tu?”
-”Sou quem sou”, quer
dizer, sou aquele ser que não tem princípio, que não
provem de outro, princípio de
todos os outros; concepção que pode, perfeitamente,
adequar-se com uma série de
outras concepções. Ela permite um ecumenismo,
aproximando-nos das diversas
crenças religiosas numa fusão universal, não
subordinando-se a uma crença de um
deus personalista, mas de um deus neste aspecto
genérico.
As diversas maneiras de conceber deus
personalísticamente podem pertencer a estas
religiões, pois dentro do aspecto genérico, podem
coincidir com este cristianismo do
sentido aquariano, coletivo e específicamente, ter as
suas concepções não divergentes
no aspecto genérico, apenas no específico; já que o deus
da filosofia não está
especificamente determinado, pois a filosofia não dispõe
de meios suficientes para
estabelecer o que as religiões estabelecem; caso isso se
desse as religiões seriam
desnecessárias e substituídas pela filosofia.
As religiões fundam-se na fé, a única coisa que a
filosofia pode fazer é mostrar que
aqueles princípios de fé não são absurdos, mas não
poderá demonstrar que eles são
verdadeiros, porque se ela fosse capaz de demonstrar
esses princípios de fé, deixariam
de ter razão as religiões e a filosofia as substituiria.
De forma que o que pregamos não ofende as idéias
religiosas de quem quer que seja,
e podem ser aceitas dentro do seu ângulo por aqueles que
apenas aceitam um
princípio que seja fonte e origem de todas as coisas, e
mesmo pelos que não aceitam a
concepção de um deus pessoa.
Aqui se encontram e atuam como cristãos, no sentido do
mandamento de Cristo que é
o seu principal mandamento: amai-vos uns aos outros,
ajudai-vos uns aos outros. Isto
é possível sem que ninguém violente as suas próprias
condições.
O ateísmo
Em primeiro lugar não temos conhecimento de nenhum
grande filósofo ateísta. As
grandes obras filosóficas não foram escritas por
ateístas. Em segundo lugar a
concepção, por exemplo, do deus dos filósofos, que é
combatida pelas religiões, é
aceita por muitos indevidamente chamados ateístas,
porque eles não o são no sentido
das religiões.
Sócrates era chamado ateísta no sentido do teísmo da
religião grega, mas não era
ateu no sentido pessoal, porque acreditava no seu deus;
não acreditava nos deuses da
mitologia grega. Daí se ver que o ateísmo pode ser
relativo, assim alguém pode ser
ateu em relação a Brahma e não o ser em relação a Tao,
que é uma divindade
caracterizada e não determinada.
Na concepção, por exemplo, chinesa. que não tem
caracterização nem pessoal, pode
ser, ateu em relação à divindade budista e não o é em
relação a outra divindade.
De maneira que o ateísmo deve ser assim compreendido: o
que os filósofos
consideram o seu deus e é combatido tenazmente pelos
católicos e também pelas
religiões é o seguinte: eles admitem que há um principio
que é a origem de todas as
coisas, cujo princípio tem todo poder para que as coisas
surjam, que dá as coisas o
seu nascimento, porque não defendem uma tese ex nihil,
já que admitir que o nada
seja capaz de dar alguma coisa que ele não tem, é cair,
obviamente, numa
contradição, já que estamos simultaneamente, afirmando
que o nada não tem e que o
nada dá o que não tem, o que é um absurdo.
Eles admitem um deus não pessoal, no sentido que a
humanidade sempre emprestou a
este conceito; um ser todo poderoso que é a fonte e que
regula, e de onde surge todos
os outros. Esta concepção é universal.
Quanto à questão dos dogmas e as questões das idéias
religiosas, assim como a
demonstração da filosofia, observa-se que ela não
demonstra a verdade como a lógica
também não demonstra a verdade de coisa alguma. Ela
apenas pode nos guiar para
evitar que erremos, já que a demonstração da verdade
cabe a outras providências que
não são as propriamente lógicas. O que a filosofia pode
mostrar é que uma idéia não é
absurda.
Por exemplo: que a idéia da Trindade, mistério cristão
(quer dizer, está oculto) e o
cristão sabe que não pode entender, mas a filosofa pode
mostrar que esta idéia não
contém absurdos, mostrando que, na Eucaristia, não há
absurdos, assim como em
diversas concepções, mas não prova que estas sejam
verdadeiras, já que isto não cabe
à filosofia nem a religião, pois esta não prova a sua
verdade, ela propõe a sua
verdade, o homem aceita por fé, senão a religião
deixaria de ser religião.
O que a caracteriza é uma crença que brota da fé e não
da ciência, porque se brotasse
desta, não seria mais religião.
Se a religião representa um estágio inferior da
humanidade ou não –tema discutível
na filosofia- se a filosofia e a ciência com o tempo
poderão substituir a religião, será
quando ambas possam demonstrar de maneira completa,
aquilo que na religião
constitui os seus mistérios.
Nos estudos sobre a Aporética, parte da Dialética que se
dedica ao estudo das
dificuldades teóricas, toda concepção melhor construída
que o seja, sempre deixa
diversas aporias insolúveis que passam a ser os
problemas que desafiarão a argúcia
dos futuros estudiosos. Verifica-se que pode-se,
aporeticamente, estabelecer o valor
de uma doutrina pelo números das suas aporias.
Uma doutrina que apresenta duas aporias, quer dizer, tem
suas dificuldades teóricas
que não são solucionáveis, é teoricamente mais sólida
que uma concepção que
apresenta três ou quatro aporias. Assim se pode avaliar
o valor de uma concepção pelo
número de suas aporias. Se tem só aporias, que não dá
solução a nenhum problema,
tem naturalmente, de ter menos valor do que aquela que
oferece solução.
Não estamos aqui defendendo uma idéia religiosa, estamos
admitindo que a religião
pode ser apenas a conseqüência de um estágio humano e
que o homem possa, plela
luz natural da sua razão, alcançar a explicação total do
Universo.
Podemos admitir, embora os religiosos digam que não, que
há mistérios que o homem,
nesta vida, no estado de queda, de pecado em que se
encontra, pela sua fraqueza,
pela sua ignorância natural, pelas suas limitações
naturais, jamais conseguirá resolver.
Entretanto, muitos concebem que o homem, pela luz
natural poderá não dar a solução,
no sentido das religiões, mas sim no da filosofia. Esta
é a minha posição.
As concepções religiosas afirmam que não basta apenas a
prática deste ato de respeito
e de veneração a um principio superior interno, apenas
intrínseca, mas precisa
também se exteriorizar, deve manifestar-se em rituais,
porque tem um poder
exemplar, e seria uma reverência mais justa em face dos
outros, o que é matéria
discutível da teologia.
Mas, para os pitagóricos, cuja orientação sigo, porque
considero que foram os grandes
iniciadores da filosofia, abrindo as portas para o
grande caminho do pensamento
humano, estabeleciam isto: a religião nós as respeitamos
todas, mas cada um de nós
conservará para si a sua crença. Agora, pergunto: qual é
o nosso trabalho?
Estudar, analisar, procurar solucionar, dentro dos meios
naturais do homem, o que ele
possa solucionar. Eles julgavam que os limites estavam
muito longe e que o homem
tinha possibilidades imensas de percorrer, dentro do
pensamento e encontrar uma
solução.
Quanto a dizer que o nosso problema atual é puramente
econômico, político, social, de
vida prática ( religião também a esta pertence ) e que
esta última não interessa para a
solução, estamos enganados, porque a falta de crença num
principio superior, não
desperta nos seres humanos uma convivência, um amor ao
próximo.
Há aqueles que não precisam ter uma crença para cumprir
o seu dever, porque basta o
orgulho de serem humanos, de terem uma inteligência, de
saber que o homem é capaz
de realizar formas perfectivas cada vez superiores, mas
a maioria não é assim, precisa
o temor a algo superior para que cumpram o seu dever.
Não queremos culturalizar a humanidade porque não há
mais tempo. A pedagogia
exige mestres e estes levam tempo para se fazer, é
preciso uma longa experiência e
muito tempo. A população, por sua vez, cresce numa
velocidade maior do que a
formação de educadores.
O nosso problema é gravíssimo: estamos ante um mundo que
está repleto de
universidades, de escolas, mas o nível cultural baixou
muito a ponto de alguns
psicólogos e psiquiatras afirmarem que, dentro de dez ou
vinte anos, formaríamos uma
humanidade de estúpidos, débeis mentais e alucinados.
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