domingo, 11 de janeiro de 2009

MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS- VI

MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS- VI

O estudo da caracterologia começou com Fichte, um

filósofo alemão que
trabalhava na polícia. Quando começou a retratar e

fichar as pessoas preocupou-se
com as fisionomias, foi notando que certos criminosos

possuíam certos traços comuns
e então chamou a atenção de vários estudiosos para este

aspecto. Esses estudos
começaram como tudo quanto começa, claudicante,

deficientes, etc., mas com o
tempo foi se desenvolvendo..
Os estudos caracterológicos estão levando os

caracterólogos a estudar a
História e a verificar que os grandes políticos estão

perfeitamente classificados dentro
da caracterologia, que os ditadores possuem certos

traços característicos, etc. O que
quero mostrar é que certas pessoas dadas certas

circunstâncias tem uma tendência
natural a seguir aquele rumo que é próprio do seu

temperamento.
Lombroso também teve um grande papel científico. mas

acontece que ele não
dispunha na época dos elementos que se dispõe hoje. Sua

obra tem um valor mais
histórico do que propriamente científico. Não podemos

nos basear em Lombroso,
digamos assim, num sentido definitivo, mas ele tem uma

função muito grande, porque
trouxe contribuições.
Partindo deste ponto, nós que aceitamos no ser humano,

não um determinismo
absoluto porque seria não só filosoficamente falso como

também antropologicamente
falso, porque o ser humano é capaz de julgar, é capaz de

apreciar, é capaz de
reconhecer os seus próprios erros, é capaz de fazer

análise das suas próprias ações,
podemos dizer que este ser está apto consequentemente a

poder vencer as suas
deficiências e tornar-se amanhã benéfico para a própria

sociedade.
Um dos estudos que aconselho fazerem para o própria bem

pessoal é o estudo
da própria caracterologia, porque ela nos ajuda a vencer

os nossos defeitos. Posso
afirmar aos senhores que eu consegui, tenho muitos

defeitos, mas as minhas virtudes
foram criadas na sua maior parte pelo meu próprio

esforço, eu nasci com todos os
defeitos possíveis, mas venci-os através do conhecimento

das minhas deficiências e
das minhas tendências viciosas, para corrigi-los através

da minha vontade. Foi um
grande sacrifício, mas grande parte auxiliado pelo

próprio conhecimento, porque se eu
não tivesse o conhecimento dessas deficiências também

não teria a possibilidade de
encontrar a solução.
A educação da vontade passa a ser um tema fundamental, a

educação da vontade não
é a educação dos ímpetos, não se deve confundir a

vontade com os ímpetos. O ímpeto,
por exemplo, a orexis, a apetência, que tende para as

coisas não é a vontade.
A vontade é ainda a escolha do bem, a capacidade de

escolher o bem e tender
para este bem, quer dizer, para o bem naturalmente que é

proporcionado ao homem,
porque nem tudo que é bom para um é bom para outro. A

vontade é esta tendência
para o bem; a vontade assistida pelo intelecto se torna

capaz não só de reconhecer
como também de orientar.
Há a volição que pode ser alimentada, pode ser

estimulada, e há processos para
estimulá-la. A volição corresponde a este ímpeto, mas a

vontade é sempre
deliberativa, é propriamente o ato de escolha da seleção

e de marcar o rumo que o
intelecto permite descortinar e segui-la.
Estas características inatas que não sabemos como

modificá-las, mas não
podemos afirmar que são imodificáveis. Temos que admitir

a possibilidade da sua
modificação e a função da ciência médica é precisamente

esta, procurar a solução para
estes casos, para aqueles que são constitucionalmente

deficientes.
Temos que distinguir a vontade da volição, a volição tem

as suas raízes
somáticas, mas a vontade é intelectual, a vontade só

pode ser conquistada pelo
homem depois que atinge um determinado grau. A criança

não tem vontade mas tem
volição, tem desejos, tem ímpetos.
A vontade implica já uma preparação intelectual, daí a

necessidade de preparar
o homem intelectualmente, porque há muitos casos de

neuróticos, como por exemplo,
de certos santos cuja vida é ilustrativa, de terem

vencido certas deficiências e terem
atingido um grau de superioridade extraordinárias.
A vida dos santos é uma parte que merece o estudo dos

psicólogos, porque ali
há exemplos extraordinários de vitórias que homens

exerceram sobre si mesmo. Ainda
não possuímos um conhecimento exato do mecanismo para

que a vontade possa atuar
de maneira segura sobre o temperamento, sobre o caráter

sim, mas sobre o
temperamento é difícil.
Não vamos debater este assunto, mas é suficiente

sabermos que o ser humano
tem meios de poder vencer as suas deficiências, as suas

próprias fraquezas que são os
seus pecados, porque a expressão pecado quer dizer

queda, deficiência. Temos que
lutar para que o homem não seja concupiscente, para que

o homem não seja
malicioso, para que o homem não seja um fraco, para que

o homem não seja um
ignorante.Sobre os valores do brasileiro
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro

Convivium, 1967
Realmente o não caracterizar nitidamente os valores pode

levar a preocupações
com pseudos-valores. O homem tomado na sua estaticidade,

na sua natureza, pode
ser considerado no seu valor supremo, atingir a

plenitude da sua vida individual e a
felicidade. Ele quer alcançar o bem supremo e a verdade

suprema, isto é, quer
alcançar a perfeição do bem e a perfeição da verdade.

Acontece que dentro do campo
da prática, da vida prática humana, que é o campo da

sociologia, que é o campo da
economia, que é o campo da ética, que é o campo do

direito, etc., os valores são
estabelecidos pelo homem segundo ele próprio, não há

estaticidade
O cristianismo estabelece valores primordialmente

estáticos, mas há valores
variáveis segundo as condições históricas e segundo o

drama humano. Temos escalas
de valores que variam: ora uns valores estão acima,

outros descem, há reversões de
valores, etc., de maneira que o estudo dos valores tem

que ser sempre na parte
timológica do homem, tem que ser sempre em função da

história, em função do
momento histórico em que ele vive, porque o que valia,

por exemplo, para o grego,
pode não ter valor para nós, o que valia para nós há

duzentos anos , não tem valor
hoje, e assim sucessivamente.
De maneira que o estudo da escala de valores é muito

sério, mas como em
geral esta escala de valores é dada pelo estamento

dominante, é a sociedade que
impõe a sua escala de valores, então consequentemente há

estas mutações. Por
exemplo, toda a sociedade humana em todos os povos, em

todas as épocas passam
por quatro estágios. Todos os ciclos culturais passam

por estes quatro estágios, que
basicamente estão fundados na própria natureza do homem.
Há uma fase em que domina o sacerdote, há uma fase de

predominância do
aristocrata, há uma fase de predominância do empresário

utilitário e há uma da
predominância do César, que seria a aquela que se diz

que é de predominância do
servidor, mas o servidor que representa a classe

inferior em todos os grupos sociais,
ele nunca é o dirigente da sociedade, Marx previu que

ele seria, mas não é, é sempre
alguém que o representa, é sempre alguém que se diz o

seu representante.
Conforme o período que eles dominam estabelecem a sua

escala de valores. É
lógico que na época em que predomina o sacerdote o valor

mais alto são os valores
religiosos; quando predomina os aristocratas os valores

mais altos são os nobres;
quando predomina o empresário utilitário os mais altos

são os valores utilitários, e na
massa dos servidores predomina quase sempre os valores

utilitários também, porque é
imediatista, tem necessidades urgentes para aplacar, não

pode esperar, tem que ter
soluções rápidas, não pode aguardar soluções, de maneira

que por isso mesmo é fácil
de manejar pelos outros, ela é uma massa de manobras

pelos outros por causa das
suas exigências imediatas, urgentes.
A história humana revela sempre a predominância de um

destes três
estamentos. Há um período de predominância do primeiro,

depois o equilíbrio entre o
primeiro e o segundo.
Por exemplo, no ocidente o símbolo do primeiro período é

a basílica; o do
segundo período, o clero e a nobreza, as igrejas de duas

torres, uma torre singela que
representa o clero, com poucos enfeites, e a torre mais

enfeitada que é a torre da
aristocracia; depois vem a do empresário que já perde o

sentido da simbólica porque
não quer acreditar no símbolo, quer entrar diretamente

nas coisas, a simbólica não
tem mais sentido, então faz estes mostrengos de igrejas

que conhecemos, que é um
misto de românico, de gótico, de renascentista, de

barroco. Cada um destes
estamentos no período que domina faz predominar a sua

escala de valores.
A luta toda se resume em impor uma escala de valores.

Por exemplo, a
juventude brasileira por qual escala de valores vai

lutar? Ela precisa saber. Vai pela
utilitária? Pela nobre? Ou pela sagrada? Ela tem que

saber, ela tem que escolher uma
escala de valores pela qual vai lutar, já que tem no

Brasil um papel importante, porque
o Brasil é um país sem elite e a juventude universitária

é a elite.
Que os dirigentes guiam-se pelos valores utilitários não

há a menor dúvida. A
época é própria do capitalismo, que dá esta

predominância. O capitalismo é diferente
dos outros regimes porque deixa viver as outras escalas

de valor, quer dizer, pode-se
preferir as outras, é verdade que a nobreza também

deixava viver outra escala de
valores.
Só o que não deixa viver outra escala é o césar, a única

escala é a dele, é o
período da brutalidade organizada, é o período que se

diz que é de libertação, quando
é justamente aquele que não tem, só tem uma escala, quem

quiser ter uma outra
pode tê-la, mas não pode manifestá-la.
O Brasil não deve se preocupar com os pseudos valores,

quer dizer com aqueles
valores que não são genuinamente nossos, e este é um

tema que merece ser
estudado.Aspectos dos ciclos culturais
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro

Convivium, 1967
Estudando as chamadas fases cráticas na História

verificamos que o kratos
político, como força de coesão social e como força super

individual que paira acima dos
grupos sociais, é sempre ambicionado não só pelos

indivíduos como pelos próprios
grupos.
O kratos social é propriamente o poder político que se

estrutura nos ciclos
culturais superiores, naquilo que constitui o "estado" e

que dá uma certa coerência a
sociedade, mas uma coerência fundada na lei política e,

sobretudo, na violência
organizada.
Os ciclo culturais passam por vários períodos com

diversas fases. O juvenil é o
período da formação da cultura e se caracteriza,

sobretudo, pela formação de uma
nova concepção do mundo, que dá o verdadeiro consensus

ao ciclo. Neste primeiro
período temos três fases facilmente observadas na

história.
A primeira é a fase teocrática, na qual a cultura se

estrutura tensionalmente
sobre uma forma teocrática, tem a sua origem na

Divindade, sendo transmitida aos
homens pela figura mística de um iluminado, cuja

personalidade se esfuma entre o
histórico e o lendário, muitas vezes divinizada, mas

esta divindade propriamente não
pertence a fase teocrática, ela pertence a uma fase

anterior, mas vai presidir, vai ser a
figura central de todas as afirmações da teocracia

dominante.
Por exemplo, Rama entre os árias, Maomé entre os árabes,

Moisés entre os
judeus, São Paulo entre os cristãos, Thot ou Hermes

Trismegistos entre os egípcios,
etc. Em torno dessa personagem divina ou em torno da sua

significação representadas
por um corpo estruturado por homens hieráticos ou

santificados que regulam,
cumprem e fazem cumprir a lei, pouco a pouco vai se

estruturando a segunda fase
crática, que é a fase da hierocracia (do gr. hieros,

santo) dos homens santificados.
Aqueles que vão dominar o kratos social são os

representantes e cumpridores
da lei, não quer dizer que estes homens sejam

propriamente os dominantes do poder
estatal, eles são os dominantes do poder em geral da

sociedade, porque o próprio
poder estatal depende desses homens superiores que

representam a última palavra
dentro da nova ordem cíclica que se forma.
Ao redor desses homens sagrados vai constituindo-se um

grupo maior que é
formado de homens virtuosos, homens que tem a virtude e

que, paulatinamente, pela
sua coragem, pela sua impetuosidade na fé promovem uma

força material que dá cada
vez mais impulso a fé, não são apenas sacerdotes são

também homens provindos de
todos os setores, os quais terminam por apossarem-se do

kratos político e estabelecer
a terceira fase do primeiro período que é a fase da

"aretocracia" ( do gr. aretê,
virtude).
Paralelamente formam-se outros estamentos como a

aristocracia, que na posse
do poder econômico aspira também o kratos político, e é

neste momento que se
realiza a primeira grande revolução, a revolução

aristocrática, que ascende ao poder.
Os sacerdotes ainda participam do mesmo, mas cada mais

vez numa situação
secundária.
Neste momento surgem os príncipes. Esta aristocracia (

do gr.aristos, os
melhores) vão a pouco e pouco formando um grupo

escolhido, que em torno dos
príncipes vão constituir o poder e a segunda fase deste

segundo período sobrevem, é a
"oligocracia"(do gr. oligós, escolhido). O kratos fica

em poder de um pequeno grupo
que domina totalmente a sociedade.
Os sacerdotes ainda participam do poder, mas cada vez

mais subordinados, até
que finalmente surge o período de absolutismo da

aristocracia, que é a terceira fase do
segundo período, a "monocracia", quando o poder vai

emanar de um rei todo poderoso
que passa a ser a encarnação do próprio estado.
O estamento seguinte é uma classe social que tendo

conquistado o poder
econômico aspira o poder político, e que chamamos de

burguesia Ela provoca a
segunda grande revolução do ciclo cultural, inaugurando

o terceiro período, a
democracia. Esta pode dar-se ainda com a presença da

própria aristocracia, que neste
caso concede direitos ao terceiro estado.
A proporção que a burguesia vai adquirindo poder, ela

vai sendo dominada por
um grupo mais poderoso, o grupo dos ricos, a plutocracia

(do gr. plutos, rico). Este
grupo vai constituir a segunda fase do terceiro período,

isto é, quando os homens de
negócio passam a ser dirigidos pelo grupo dos mais

ricos. Este grupo vai ceder o poder
a um terceiro grupo, o dos dominadores do dinheiro,

inaugurando a terceira fase do
terceiro ciclo, a "argirocracia"(do gr.argiros, prata).
Neste momento começam a surgir as grandes revoltas

populares, quando
elementos saídos dos vários estamentos passam a agitar

as massas populares
preparando-as para o advento da terceira grande

revolução. Estas massas agitadas
pelos demagogos levam de roldão a ordem social e

inauguram o quarto período, que é
o período da "oclocracia"(do gr. oclos, massa das ruas).
A oclocracia não se mantém no poder, porque nunca as

massas mantém o
poder, começam a surgir homens poderosos, forças

militares que vão se impondo e
que procuram salvar da catástrofe inevitável, da

desordem social.
Ascendem ao poder estes homens que constituem a primeira

fase do quarto
período, os césares, a cesariocracia, que é a segunda

fase do último período e que
prepara inevitavelmente a desordem final do ciclo

cultural e, ao mesmo tempo,
prepara o advento de novas idéias, de uma nova fé, de um

novo "consensus", que virá
inevitavelmente constituir-se na sociedade e junto com

povos sobrevindo de outras
regiões realizar o novo ciclo, uma nova esperança para a

humanidade.

MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS V

Após a vitória da democracia de Atenas, depois da

desastrosa guerra do Peloponeso,
os atenienses resolveram fazer um processo para saber

quais as causas que os tinham
levado a situação catastrófica em que se encontravam.

Concluíram que a desgraça fora
a presença dos sofistas, já que haviam deixado os

germens da dissolução, e a
juventude os colhera!
Quando a nobreza de Atenas perdeu, e ascendeu a

democracia, a luta pelo poder foi
imensa. Como a juventude aspirava ao poder tinha que se

preparar: e os meios para
isso eram a oratória e a eloquência que possibilitavam

uma argumentação para os
debates. Sábios de todas as partes do mundo grego

reuniam-se em Atenas onde
encontraram um mercado ávido.
A juventude pagava, à peso de ouro, suas aulas, no

intuito de poder dispor de uma
argumentação poderosa ante os adversários. A

conseqüência foi a queda da juventude,
como decai em todos os momentos de agitação política,

perdendo suas ligações com a
cultura superior, tornando-se apenas uma massa agitada

que vive de palavras de
ordem.
Os sofistas tinham sido a causa desse estado de coisas e

foi cometido um dos maiores
equívocos da História, já que a culpa foi cair em

Sócrates. Sócrates, que nos seus
primórdios fora um sofista, se libertara e lutava

contra, procurando provar como
aqueles pseudo-sábios não tinham o valor que a juventude

lhes dava.
Foi condenado por esta mesma juventude, constituída de

agitadores, que pediu a sua
morte. E morreu bebendo cicuta! Perpetuou-se, assim, o

grande crime contra a
filosofia de Atenas. O primeiro foi contra Anaxágoras,

acusado de impiedade e do qual
foi exigida, também, a morte.
Posteriormente, observa-se na decadência grega, a

presença de duas concepções que
vão debater, acelerar essa decadência: o estoicismo e o

epicurismo.
O primeiro tem aspectos positivos e grandiosos,

sobretudo na parte ética e na
filosófica, mas como é uma doutrina atéia, não uma

doutrina agnóstica, ajudou a
fomentar a dúvida, a descrença, a falta de fé em algum

princípio, em alguma coisa que
pudesse servir de esteio para a juventude.
O epicurismo, que também não deixava de ser agnóstico,

pois a quase maioria dos
epicuristas era atéia, defendia estas mesmas idéias, só

que propunham quase que um
hedonismo, isto é, a busca e satisfação das paixões.
Encontra-se, no decorrer de todo o processo histórico do

Ocidente, a luta constante
contra os princípios fundamentais da filosofia cristã,

que é feita usando dos mais
indignos processos, ao lado também das infâmias

históricas e filosóficas.
Assim, aqueles que antes proclamavam uma tese, quando

esta passa a ser
incorporada a concepção cristã e considerada uma tese

fundamental, eles passam a
combate-la. Vemos a defesa da razão e sua exaltação na

Revolução Francesa, quando
se prova que a razão é um dos esteios da concepção

cristã, surge, então , o
irracionalismo, a defesa da concepção contrária.
Em todos os tipos agnósticos sobretudo, essa presença

adversativa de dois termos em
oposição é que vão acomodando as condições adversas de

um lado e de outro, sempre
provando o contrário que o outro lado defende, porém

fica a pergunta: como
conseguem, se eles estão errados, deteriorar o que está

certo? Essa é a grande
desgraça da humanidade: o erro tem mais facilidade de

propagar-se do que a verdade,
é mais fácil propagar-se uma infâmia do que uma boa

idéia. É mais fácil destruir do
que construir. Essa é uma das condições humanas e uma

das nossas grandes
impossibilidades.
Havia, porém, alguma razão de combater a concepção

cristã? No atual ciclo não há
uma luta contra aqueles que representam o cristianismo,

mas a Igreja errou ante o
seu desenvolvimento histórico, pois teve momentos onde

foi pecadora. A Igreja
triunfante é a dos bem-aventurados que não existe neste

mundo. O que existe é a
Igreja sofredora, a Igreja pecadora, a que teve seus

momentos altos e os de
depressão profunda. Nela surgiram homens que construíram

obras extraordinárias,
mas também muitos que a destruíram.
Hoje a Igreja está colhendo os frutos desse estado

porque há uma grande cisão
interna. Por mais que ela busque através desse concílio,

no ecumenismo uma
unificação, a cisão é inevitável, porque não consegue

mais vencer os males que foram
semeados por homens que não mereciam chamar-se cristãos.
Encontramo-nos nesta situação: seremos os espectadores e

intérpretes de um grande
final? Ou há possibilidade de transformarmos uma causa

material de uma nova
concepção do mundo e que ainda continue cristã dentro

dos princípios fundamentais
do Cristianismo, que são universais, que representam o

que de mais alto e nobre o
homem alcançou?
Esta pergunta, naturalmente, exige uma resposta. Ela é

difícil, porque os estudos
históricos ainda não são suficientes para que se possa

admitir que o final esteja
próximo. Sem dúvida que a guerra nas condições atuais

poderá traçar definitivamente
este final e os sobreviventes voltarem a barbárie e

assim se fechar o nosso atual ciclo
cultural.
Porém é possível vencer-se esta guerra, evitá-la através

de que meios? Será que o
medo da própria destruição seria capaz de evitar o

conflito? Não cremos. O medo não
é positivo, o medo é uma trepidação do ânimo ante um

perigo eminente e não é
suficientemente forte para impedir as guerras porque,

nunca na história, o medo
impediu alguma coisa. Precisamente é a coragem, muita

coragem, pois só ela nos
torna capaz de enfrentar uma situação difícil. Não

existe a possibilidade de um ciclo
cultural ser “eternamente jovem”?
A História nos mostra que não acreditamos em certo

sentido, por uma razão muito
simples: no decorrer da luta estes estratos sociais, que

se formam e no desgaste das
próprias idéias, no entrechoque das acomodações

adversas, chega-se a um final em
que não há mais capacidade de criar como nos

encontramos, infelizmente, hoje: num
mundo estancado de criação que apenas pode se dedicar a

examinar o que Spengler
chamava de produzido, produto, mas que não tem mais

capacidade de produzir a não
ser no setor da técnica e no da ciência ( no setor de

classificação, de exame) e não na
sua parte criadora.
A Escolástica, que foi sucessora do pensamento grego e

que chegou a ter vultos
eminentes, depois do surgimento de um Santo Anselmo, de

um Alexandre de Hales, de
um São Boaventura, de um Duns Scot, de um São Tomás de

Aquino e, finalmente, da
Escola de Coimbra com seus grandes filósofos, e de

Salamanca, representados por
duas figuras do pensamento desta época, Pedro da Fonseca

e Francisco Suarez, entrou
num certo recesso, numa luta estéril de escolas onde as

tentativas criadoras foram
parcas.
O Cristianismo também pode ser visto por dois ângulos:

estamos vivendo o
cristianismo de Pisces (peixe) e já prenuncia-se o de

Aquário. Peixes foi o símbolo dos
cristãos porque eles se procriam sem conjunção carnal, a

fêmea põe os óvulos e o
macho, depois, os fecunda. Cristo foi tomado como o

simbolizado deste símbolo.
Aquário, na concepção dos antigos, tem o sentido mais

social, se observarmos o de
pisces vemos que é um cristianismo individualista, que

busca a salvação pessoal, não
se propondo a salvação das coletividades. O de Aquário,

é a salvação das
coletividades, é fundamentalmente o amor do homem com o

seu semelhante, com o
próximo, que é a caridade.
Ele só é possível dentro das condições em que vivemos,

pois temos a causa material
(no sentido aristotélico), a formal que seria a cristã,

a final seria o bem coletivo, além
da salvação individual para os que tiverem crenças

religiosas, e encontraríamos a
causa eficiente, dependente da nossa vontade, como seres

livres capazes de realizar
esta idéia.
Este cristianismo, portanto, seria uma possibilidade

para nós e que poderia estancar a
nossa decadência, abrindo as portas para uma “nova visão

do mundo” em que o
homem compreendesse que o seu dever é realizar o máximo

de bem aqui para que
mereça, fora deste mundo, alguma coisa.
Para os que não crêem, para os que não tem a crença e a

fé já, que esta não é algo
que se fabrique, que se imponha, mas nasce

espontaneamente no coração humano,
mesmo aqueles que não tem a fé estariam, no entanto,

neste cristianismo, lutando
pelo bem coletivo, pelo bem de todos, principalmente

pelo do servidor, do homem
simples, do trabalhador da nossa época que nunca, como

agora, foi tão desmoralizado.
Os trabalhadores nunca constituíram uma classe

revolucionária, ao contrário, foram
sempre os que mais auxiliaram as reações na História.

Mas, também, quando chega a
esta degenerescência pouco adianta auxiliá-lo e

esperarmos um gesto de gratidão
porque, aqueles que maiores benefícios fizeram a essa

massa serão os mais
combatidos, os mais perseguidos e, no entanto, os

demagogos, os que melhor a
exploram, que sempre lhes dão migalhas, terão a

aprovação das mesmas multidões.
Assim se deu com as multidões em Roma, na Grécia, na

decadência egípcia, que
sempre apoiaram os que não lhes davam nada, mas que

tinham a habilidade de lhes
dar migalhas.
Estes são os aspectos gerais da decadência. Precisamos é

ter uma consciência deste
estado e compreendermos que, pelas nossas condições

históricas, somos capazes de
dar uma possibilidade nova ao mundo, mas não devemos

desmerecer-nos tanto como
até então o fizemos, pois sofremos de um colonialismo

passivo, que é o mais triste dos
colonialismos.
É o que consiste em não dar valor as nossas próprias

possibilidades e só admitir que é
grande aquilo que vem de fora, consequentemente nos

desmerecemos, e é preciso que
nos estimulemos, que tenhamos fé em nós.
O Brasil, pelas suas condições históricas, porque é um

país que recebeu os povos de
todos os quadrantes do mundo e conseguiu dar uma

convivência entre todos, a mais
harmônica que se conhece na História, pois não há entre

nós nenhum conflito de
caráter racial ou de caráter étnico, isto é raro, e daí

que este povo poderá lançar uma
visão ecumênica, uma concepção universal, porque

qualquer ciclo cultural que se
forme hoje, no mundo, tem que ser ecumênico, universal,

porque a ciência está
abrindo as fronteiras, enfim o conhecimento é universal,

por mais que os políticos
cerrem as fronteiras, façam muros da vergonha, cortinas

de aço, o conhecimento está
penetrando, está atravessando e vai além, e este mundo

se tornará num só.
Nós, brasileiros, somos capazes de viver o equilíbrio

dentro do heterogêneo e seremos
capazes de unir os opostos que se analogarão numa

concepção universal.Sobre a tarefa da filosofia
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro

Convivium, 1967
Há muitas pessoas que se admiram que, sendo eu um

filósofo, trate de
matérias pertencentes a tantas e diversas disciplinas,

mas todas elas pertencem a
Filosofia. O que deveria preocupar, impressionar, era

que precisamente eu como
filósofo não fosse capaz de tratar dessas matérias,

porque na filosofia não há
especialização.
O filósofo especialista é uma “contraditio in adjectis”,

porque a filosofia é
universalista, generalista por natureza e uma

especialidade nela só pode haver de
professores de filosofia, mas não de filósofos. Nenhum

grande filósofo foi especialista,
nenhum; todos foram universalistas, todos trataram de

tudo quanto cabe ao campo da
filosofia.
Certa ocasião estava dando uma aula numa faculdade, e um

professor
comentou: “como é que ele pode pensar em aplicar a

teoria das quatro causas de
Aristóteles no problema do socialismo?” Mas não seria eu

filósofo se não fosse capaz
de saber aplicar a teoria das quatro causas também para

interpretar o socialismo.
Por que neste caso que valor tem a filosofia? Ou é ela

um acervo de
conhecimentos de erudição ou apenas um acumulo de dados,

é uma ciência protocolar,
é uma ciência de fichário? Absolutamente, não é isto, se

pensam que ela é isto estão
completamente enganados, a filosofia tem que dar esta

capacidade universalista e
captar tudo sobre o ângulo da sua universalidade além do

ângulo também da sua
particularidade, e o filósofo tem que ser um homem capaz

de penetrar em todos os
temas e em todos os setores naturalmente onde cabe a

filosofia tratar.
Se me vierem fazer perguntas em sociologia ou em

economia que são
específicas da economia, se me perguntarem, por exemplo,

qual foi a produção de
bezerros na Holanda em 1965, eu não posso saber e nem me

interessa ter este
conhecimento. O que me interessa é ter o aspecto

universal da produção agrícola ou
agrária ou pecuária da Holanda; isto é que é filosofia.
Portanto não se devem espantar de eu proceder assim,

porque se não soubesse
aplicar a dialética em qualquer disciplina, não pudesse

aplicar a metafísica em
qualquer disciplina, em suma, se não aplicar a Matese em

qualquer disciplina eu não
seria filósofo. Ser um mero professor de filosofia eu

não sou, posso dar aulas de
filosofia, dar aulas especializadas, mas não sou

propriamente um professor de
filosofia, sou um filósofo, tenho uma obra realizada e

esta obra está publicada.
Tenho oitenta e cinco livros publicados, e tenho mais a

publicar. Queria
estabelecer este ponto porque sei que como predomina nas

escolas e nas
universidades, infelizmente, o espírito do especialismo,

que desde que entrou só serviu
para perturbar o desenvolvimento da cultura humana e

fazer com que estes três
séculos sejam os três séculos mais estéreis do

pensamento humano, eu sei que este
espírito influi na juventude que não está devidamente

preparada e não sabe como
reagir a esta maneira de ver.
Podem verificar na história da filosofia que os grandes

filósofos, não os
pseudamente grandes filósofos, não daqueles que são

incensados por uma publicidade
mal intencionada, mas dos grandes filósofos na história

da humanidade, todos eles
foram universalistas e trataram mateticamente, digamos

assim, de todas as matérias.
Hoje vamos estabelecer que o auditório proponha as

matérias sobre temas de
filosofia ou de qualquer outro. Darei as respostas

dentro das minhas possibilidades.
Um fato que gostaria de ressaltar é o pouco interesse

nosso pelos problemas
brasileiros.
Eu só queria que os brasileiros cuidassem dos seus

problemas assim como o
cubano cuida dos seus, como o americano cuida dos seus e

assim por diante. Os
outros povos cuidam dos seus problemas, mas nós achamos

que os nossos são
secundários e não queremos tomar consciência do risco

que estamos correndo e do
destino que nos ameaça, porque marchamos para nos

tornarmos um país miserável, e
temos de lutar para isso não acontecer.
Outro fato que gostaria de ressaltar foi o que aconteceu

na década de 1920 a
1930, uma década das mais tristes para a humanidade,

porque foi a grande década da
decepção em conseqüência da guerra de 14-18, em que

houve uma revolta sobretudo
nos artistas e literatos do mundo inteiro contra todos

os cânones do passado, mas uma
revolta indiscriminada e desorientada.
Tivemos no Brasil um acontecimento muito exaltado, que

foi porém uma cópia
dos movimentos de rebeldia européia que foi a chamada

Semana da Arte Moderna. Foi
uma campanha que se fez no Brasil para tirar do

brasileiro a confiança em si próprio,
durante a qual se combateu qualquer motivo de orgulho

sobre as nossas coisas, sobre
as nossas possibilidades.
Ela destruiu todo o nosso passado, a ponto que a

juventude de 30 para cá ser
completamente desconhecedora do passado brasileiro,

julgando que fomos sempre um
povo como somos hoje, sem líderes, sem elites

intelectuais a altura, sem valores, um
deserto de homens. Mas nós não fomos um deserto de

homens, tivemos grandes
cabeças, mas a campanha foi tão bem feita que destruiu

nossa confiança, é preciso
olhar este aspecto negativo que foi o movimento chamado

modernista.
Por um lado lutou-se pela libertação do artistas, não

sei se esta libertação foi
positiva, pois o artista atual encontra-se em estado de

angústia, a libertação não lhes
trouxe nenhuma sublimação, nenhuma elevação. O que temos

que compreender é que
nem tanto a terra nem tanto ao mar, que havia

necessidade de se fugir ao
academismo, que havia necessidade de fugir a certa

canonicidade falsa que a arte de
então estava impondo nas escolas de Belas-Artes, mas

também não havia necessidade
de se cair nos exageros que se tombou.
E hoje o artista é um desesperado em busca do que ele

não sabe o que é, e que
não encontra também, senão por um tempo muito restrito,

uma satisfação muito
passageira. Na época da Semana de Arte Moderna eu era

estudante e vivi
intensamente aquele momento. Não aderi a ela porque

queria defender o que era bom
no passado, porque destruímos no Brasil figuras de

grande valor que ficaram
completamente desconhecidas, e eram homens de talento e

que realizaram uma
grande obra literária, para se exaltar mediocridades que

não mereciam a propaganda
que depois vieram ter. Os que sobreviveram foram aqueles

que realmente tinham
valor.
Tive aqui oportunidade de perguntar aos presentes qual

era o ideal do povo
brasileiro e não houve ninguém que me respondesse. Todos

os povos tem um ideal,
todos pretendem alguma coisa, só nós é que não temos.

Será que vamos continuar
assim? E se continuarmos assim vamos marchar para nos

tornarmos um país fellah...
Por que o Brasil foi perdendo a confiança em si mesmo?

Por que passamos a
olhar apenas o estrangeiro, a valorizar apenas aquilo

que pertence aos outros? As
nossas elites nos traíram, deixaram de ser brasileiras

para serem francesas, inglesas,
americanas, italianas ou alemãs, mas brasileiras não.
Vejam as nossas escolas, só tem valor o que é

estrangeiro, parece que o
brasileiro nunca foi capaz de fazer nada, porque também

não se conhece o que os
brasileiros fizeram. Há um hiato completo, poucos sabem

o que foi o Brasil antes de
30, e poucos conhecem os valores de hoje. Há necessidade

de nossas elites, nossa
universidade começar a visualizar o pensamento

brasileiro de modo diferente.Os ciclos culturais da

humanidade
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro

Convívium, 1967
Ao examinar a História verifica-se de que sempre há,

vamos chamar
provisoriamente, um estamento social, para não dar um

caráter assim de classe muito
específico, porque são termos já sociológicos que exigem

naturalmente um exame
mais aprofundado, há sempre um estamento social que

predomina, que dispõe do
poder social e que naturalmente marca a direção da

própria sociedade, segundo,
sobretudo, os seus interesses. Isto a História registra.
E registra também de uma maneira clara, sem exceção

alguma, a presença pelo
menos de quatro estamentos fundamentais que são: o

clero, porque sempre há uma
religião em todo ciclo cultural e o clero tem uma fase

de poder absoluto; a nobreza; o
homem de negócios, que é o empresário econômico e

utilitário, que também tem a sua
fase de domínio, político e social; e finalmente a

grande massa de servidores, os quais
jamais participam do poder, estão sempre fora do poder.
O que se verifica em todos os ciclos culturais, sem

exceção, e isso tem um
fundamento também antropológico no próprio homem é que

ora predomina um desses
grupos, desses estamentos, ora eles se associam,

participam do poder, dividem entre
si o mesmo e a proporção que um assume o poder tende a

absorvê-lo, a monopolizálo,
e a subordinar completamente os outros estamentos.
Assim, por exemplo, o clero tem um período de poder, que

ele participa com a
nobreza, mas esta em menor escala. Finalmente vem uma

revolução da nobreza, como
foi por exemplo as investiduras do ocidente, os nobres

assumem ao poder político e ao
poder econômico, o clero subordina-se, pouco a pouco,

até o pleno domínio da
nobreza, que é o absolutismo.
E, finalmente, o homem de negócios vai por sua vez

ascendendo, como
economicamente vai se tornando poderoso, ele quer também

o poder político ou
participar dele. Todos eles usam para manter o seu poder

apoiar-se no servidor, que é
sempre demagogicamente tratado para servir de esteio a

estes estamentos.
Ora acontece, às vezes, que a nobreza e o clero

participam quase igualmente
do poder; outras ocasiões o clero vai cada vez

diminuindo de poder, a nobreza vai
ascendendo; mas por sua vez o homem de negócios também

vai alcançando o poder
econômico e vai participando do poder político, até que

se dão aquelas revoluções.
A primeira grande revolução é a da nobreza, quando a

nobreza assume a todo o
poder; a segunda grande revolução é sempre a revolução

burguesa, chamada
burguesa por nós no ocidente.
O homem de negócio quando dispõe de poder econômico

procura também
dispor do poder político, e neste caso ele assume todo o

poder, sempre apoiando-se na
massa, até que finalmente as massas agitadas pelos

trânsfugas destas, trânsfugas
deste estamento, quer dizer, uma parte do clero, que se

torna rebelde, uma parte da
nobreza que se torna rebelde, uma parte descendente

também do próprio empresário
que se torna rebelde, agitam as massas para as grandes

eclosões populares, mas
nestas eclosões são prometidas a massa o poder,

dizendo-se, já que todos os
estamentos participaram do poder, vai chegar a vez das

massas.
Mas esta vez nunca chega na História, e a razão é muito

simples, porque as
massas nunca estão devidamente preparadas, não estão

devidamente organizadas,
nem elas tem nem dispõem do conhecimento e dos meios

suficientes, sobretudo
intelectuais para assumir o poder social.
Então este é o momento que surgem os césares, que é

precisamente um
instante de decadência social, instante que surgem os

ditadores, provindos da própria
massa, muitos deles, como trânsfugas desses estamentos.
Esses movimentos são inevitáveis e a História

registra-os constantemente. Isso
se explica e é muito natural, porque se partirmos do

exame antropológico,
verificaremos que o ser humano é um ser capaz de

estimar, de avaliar, de comparar
valores, de preferir, de preterir, não é um ser que

apenas é movido pelos seus
instintos, mas é movido também pelas suas apreciações

axiológicas, pelos valores e
pela capacidade intelectual, por ser um ser inteligente,

tem uma capacidade de
penetrar mais profundamente nas coisas.
Quando busca as coisas como símbolos do simbolizado, ele

tem naturalmente
uma tendência religiosa. Como é naturalmente um ser

capaz de avaliar, capaz de
sentir valores, é também capaz de super prestigiar-se,

de dar a si mesmo maiores
valores, tem consequentemente uma tendência para a

aristocracia.
Como é criador, como é capaz de inventar, de criar, de

usar meios para atingir
determinados fins, também tem tendência para se tornar

empresário utilitário, ser um
realizador. E, finalmente, todo ser humano,

necessariamente, presta serviços, se não a
si mas também aos outros, de maneira que todos nós no

fundo somos um tanto
religiosos, um tanto aristocratas, um tanto utilitários

e um tanto servidores.
Nos tipos humanos, uns são mais, outros menos. Quando

escrevi minha obra “O
Problema Social”, fiz uma interpretação da História de

uma maneira completamente
distinta do que até então se havia interpretado.
Muito embora a minha concepção não seja original, porque

esta concepção já
foi exposta pelos egípcios, pelos hindus, e também no

ocidente, embora não tinha sido
desenvolvida, procurei colocar dentro da interpretação

da História o exame do
problema caracterológico, isto parece aos olhos de

alguns como uma audácia da minha
parte, sem fundamento.
Posso dizer que a última novidade na França é

interpretar a História como eu a
interpretei. Os autores franceses estão publicando

livros neste sentido, mostrando a
necessidade do estudo da caracterologia no estudo dos

tipos humanos, que estes
estamentos estão sobretudo fundados na própria

caracterologia, são tipos humanos
que pelas suas condições psicológicas, podem ser

opressores dos outros, se lhes
derem oportunidades para oprimir.
Uma vitória sobre o temperamento é sempre possível,

naturalmente em
termos, depende também do estado em que a pessoa se

encontra. Um homem
medianamente normal pode pela própria vontade melhorar.

A questão da
personalidade é um dos temas mais importantes na

psicologia, mas infelizmente a
psicologia moderna comete erros muito graves.
Dois erros fundamentais da psicologia moderna que já

eram atacados por
Aristóteles no seu tempo. Um deles quando Aristóteles

criticou Sócrates mostrando
que o “conhece-te a ti mesmo” não era suficiente, porque

não bastava o ser humano
conhecer-se a si mesmo para que estivesse apto a vencer

as suas deficiências, havia
necessidade que soubesse também como vencer as suas

deficiências.
Quando Freud julgou que bastava o conhecimento das

causas determinantes de
qualquer neurose nós estaríamos libertados desta neurose

cometeu um erro, porque
esqueceu que há também a necessidade de um trabalho

pessoal, há necessidade
também de que o paciente lute por meios próprios ou com

apoio médico para poder
vencer aquela deficiência.
Outro ponto importante na psicologia foi confundir, isto

já os antigos chamavam
muito a atenção, a chamado personalidade empírica com a

personalidade ontológica,
porque ontologicamente cada um de nós tem uma

personalidade, mas empiricamente
podemos ter várias personalidades.
Muitos poderão, por exemplo, numa reunião, começando a

ter contato com
outros, modificar até o seu modo de sentir naquele

local, naquele ambiente que está, e
noutro ambiente pode manifestar até idéias contrárias as

que anteriormente tinha
manifestado, por uma fraqueza de sua própria

personalidade, e pode também dentro
de certas circunstâncias, em certos ambientes

manifestar-se nele uma personalidade
empírica, da qual não tem a devida consciência,

posteriormente, como são os casos de
dupla, tripla personalidade. Mas não que a personalidade

ontológica se modifique, esta
permanece a mesma.
O estudo da personalidade ontológica que os antigos

faziam em grande
profundidade, e da personalidade empírica ou

empirológica, como eles chamavam,
levava-os a subministrar sugestões aos psiquiatras muito

mais valiosas do que se
julga, por isso digo a aqueles que querem estudar

psicologia, que precisam conhecer
estes trabalhos realizados pelos filósofos, porque eles

dão sugestões extraordinárias
que depois na parte prática, na parte médica, poderão

ser aproveitadas.

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