MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS II
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Um dos grandes problemas que eu considero hoje em dia no campo da filosofia
que já vem de longe, é a falta da nítida compreensão entre a filosofia especulativa e a
filosofia prática, sobre o que se chama ciência especulativa e o que se chama de
ciência prática. Muitas vezes nos encontramos em face do que é válido no campo do
especulativo e não é válido no campo da praticidade, outras vezes encontramos que
aquilo que é válido no campo da praticidade não o é no campo especulativo.
Encontramo-nos assim em face de dificuldades teóricas que são fáceis de
resolver, porque eu digo sempre que em filosofia não há questões insolúveis, há
apenas questões mal colocadas, desde que se faça uma boa colocação do problema as
questões tornam-se de fácil solução.
Ora o que caracteriza propriamente o ser humano é aquilo que os antigos
chamavam a sua racionalidade, que entrava na sua definição clássica: homem animal
racional. E nesse termo de racionalidade inclui-se dois aspectos que possui o homem e
não possuem os outros animais que conhecemos, é que o homem dispõe de uma
vontade e de um entendimento, uma vontade que lhe permite deliberar e escolher
entre futuros contingentes, em que o homem pode acertar ou errar a sua escolha
porque sempre busca aquilo que é o seu bem, isto é, aquilo que é conveniente a sua
natureza.
A natureza do homem considerado na sua estaticidade, na sua dinamicidade,
isto é, no desenvolvimento das suas possibilidades que vão se atualizando e também
na sua cinematicidade, isto é, nas suas correlações e interatuações com os seus
semelhantes dentro da vida social e o bem é portanto tudo aquilo que é conveniente a
esta natureza.
A vontade tende para o bem, mas nós ao tendermos para o bem podemos
errar, podemos escolher mal o bem, não sabermos escolher entre o bem e o mal,
escolhendo muitas vezes um bem menor por um bem maior ou escolhendo o mal por
um bem legítimo para nós. Este é o nosso pecado
original, pecado da espécie humana,
pecado com o qual todos nós nascemos, pecado que na
alegoria do Gênese é
apresentado pela desobediência do ato de Adão e Eva.
Porque o ser humano é o único ser que pode dizer não,
porque os animais não
dizem não, os animais apenas seguem os seus instintos,
ocupam-se daquilo que é
imperioso para sua existência e os seus instintos são
suficientes para lhes indicar o
que lhes é conveniente a sua natureza, mas o ser humano
não, é um ser desprovido
de instintos, é um ser que precisa analisar, cogitar,
escolher, verificar e
consequentemente ele pode errar.
Portanto, ao comer do fruto da árvore da ciência que é
esta árvore do saber
que o homem dispõe, ele está sujeito a negações, é
possível desobedecer, ele
desobedece, porque desobedece a própria natureza, porque
nós mesmos perdemos os
nossos instintos logo que nascemos.
A confusão entre o especulativo e o páthico está aqui,
porque o nosso
entendimento tem uma oréxis, tem um desejo, um apetite,
ele parte para alguma
coisa, assim como a nossa vontade parte para o bem, o
nosso entendimento parte
para a verdade, nós queremos captar a verdade, o homem é
um ser anelante de bem
e de verdade, é um ser que se coloca entre estas suas
exigências da sua natureza, da
sua natureza humana, não animal.
A verdade e o bem e o entendimento é esta capacidade de
buscar a verdade,
quanto à vontade é a capacidade de buscar o bem (do
termo grego oréxis que
corresponde mais ou menos ao apetite, o apetite em latim
que quer dizer este ad
petere, este pedir para) este pedir para alguma coisa,
um pede para o bem e outro
pede a verdade.
Então consequentemente o homem constrói o seu mundo
fundado nestas suas
duas grandes realidades: o mundo da vontade é o mundo da
sua prática, é o mundo
da sua dramaticidade, é o mundo da sua ação, e o mundo
do seu entendimento vai
colimar na obra especulativa, o mundo da criação
intelectual. Podemos dizer assim:
que o mundo da prática é uma criação da vontade,
enquanto o mundo da especulação
é uma criação do entendimento.
Mas estão os dois separados? Será que o entendimento é
algo que funciona
completamente fora da vontade? Não, os dois estão
presentes, a vontade precisa do
entendimento para deliberar bem e o entendimento precisa
da vontade para por-se em
ação, para alcançar a verdade.
Ora a filosofia surge e tem as suas raízes na ação do
homem, neste desejo do
bem, porque aspirando o bem, ele investiga, ele anela
este conhecimento e sobretudo
tem as suas raízes nesse anelo, nessa orexis, pela
verdade que lhe dá o entendimento.
E a filosofia vai se polarizar, aquela que predomina no
entendimento é especulativa e
aquela que predomina a vontade é a filosofia prática.
Temos o seguinte: na filosofia prática o valor principal
para o qual tende é o
conveniente, é o certo, toda vida prática humana, o que
vale é aquilo que pode
corresponder a natureza humana em todos os aspectos em
que ela é considerada, de
todas as formas proteicas em que ela possa se
manifestar, enquanto que na
especulação é a verdade.
Ora observamos logo e é fácil observar, que o que se
refere a verdade é
indivisível porque a verdade é indivisível, ou é ou não
é. Então no mundo especulativo
estamos no mundo do aut aut, no mundo do ou ou. A
disciplina que nos pode guiar
como a matemática ou a lógica e a dialética, como a
lógica formal que trabalha entre
ou ou, ou verdade ou falsidade, não há o menos falso nem
o mais falso, não há o
menos verdadeiro nem o mais verdadeiro, há o verdadeiro
ou há o falso.
Mas no mundo da praticidade humana as coisas poderão ser
mais ou menos
convenientes, poderão ser melhores ou piores, poderão
ser mais certas ou erradas,
então nós temos uma gradatividade, temos uma
divisibilidade. Por isso neste mundo
domina a gradação, a intensidade, os graus intensistas.
No outro é estático, as idéias
são estáticas, os princípios são estáticos, tudo é
incomutável, ou é ou não é.As forças de autodestruição
do ser humano
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Elas são inegáveis, típicas da criatura e do ser
composto, porque os elementos
componentes que formam uma nova estrutura são
subordinados ao interesse da
totalidade, porém cada um deles tem, também, o seu
interesse próprio, da sua parte
que colide com o interesse coletivo. Por isso nos
decompomos e, tudo quanto é físico,
decompõe-se e se destrói. Será possível, será suficiente
que a nossa coragem possa
enfrentar esta autodestruição?
Só posso responder com respostas contingentes, porque se
quisesse uma
resposta necessária, cairia na fé e não estaria me
colocando numa posição filosófica,
pois é possível que sim e é possível que não. Mas entre
estas duas possibilidades
podemos escolher a daqueles que crêem que é possível,
que sim, estamos nos
comprometendo em atuar dentro dessa possibilidade.
Se malograrmos ficará, pelo menos, a satisfação dentro
de nós de termos
cumprido o nosso dever e realizado uma possibilidade
nossa e, se amanhã houver um
outro ser inteligente que possa saber da nossa história,
poderá olhar para aqueles que
amaram a coragem e que tiveram o gesto heróico de lutar
contra a própria
autodestruição com respeito por estes homens.
Podemos nos engajar deste lado, já que estamos numa
época em que todos querem se
engajar, mas para o lado construtivo, para o do bem, que
crê numa nova esperança,
em valores superiores e que não proclama, de antemão, a
sua derrota, porque então é
ela uma dupla derrota.
O que não se pode é tratar do tema de Deus e Satã
fazendo chalaça, e procurando
resolver pelas formas primárias de uma concepção que não
tem fundamento. É
necessário que compreendamos bem que a criatura quanto
toma consciência de si
mesmo, julgando-se pela sua unidade, tem uma tendência a
considerar-se igual ao
Criador, porque a criatura de certo modo participa das
perfeições divinas, mas
participa limitadamente, por isso é parte.
Participação é uma parte das perfeições, porque sendo um
ser limitado, um ser
deficiente, um ser imperfeito, os atributos que possui,
que constituem a sua própria
estrutura não podem, de modo algum, ter a perfeição do
Ser Supremo.
Mas, quando o homem envaidecido, orgulhando-se de si
mesmo (como o homem é um
ser racional, é um ser inteligente), julga-se igual ao
Criador porque é capaz de pensar,
porque tem consciência de si, comete então o seu grande
pecado: o pecado do
orgulho.
Satã significa a criação cósmica quando ela julga-se
mais do que realmente é, isto é,
quando perde a sua humildade e julga-se, então,
possuidora de um valor tão alto
quanto o valor do Criador.
Este é o símbolo de Satã examinado dentro da Simbólica.
Aqueles que querem fazer de
Satã uma determinada criatura, um ser com consciência de
si mesmo é uma questão
de ponto de vista discutível, mas nós como filósofos não
podemos tratar deste tema a
não ser filosoficamente, porque doutro modo é tratá-lo
dentro do campo das religiões
e como estamos fazendo filosofia da religião, que é o
fundamental desta palestra de
hoje, não podemos fugir do campo da própria filosofia;
portanto, Satã dentro da
filosofia deve ser assim compreendido.
A quem devemos modificar: o homem ou a sociedade?
Esta pergunta é fundamental em nossa época, pois sabemos
que há uma necessidade
de modificação, tendo em vista uma série de erros que
tem sido cometidos em
prejuízo de grupos humanos e, todos aqueles que desejam
que as relações sociais
sejam as mais positivas possíveis, procuram saber o que
devemos fazer para evitar
que estas relações nocivas se perpetuem.
Não podemos conceber a sociedade como um ser de per si,
subsistente, temos que
compreender a sociedade como algo que é constituído de
indivíduos, por seres
humanos. Também não se poderá dizer que a sociedade é
uma mera abstração.
Quando o marxismo, por exemplo, coloca a sociedade como
uma única realidade, e o
indivíduo como algo abstrato, podemos fazer uma
inversão, considerar o indivíduo
apenas a parte concreta e a sociedade a parte abstrata.
A sociedade também tem uma concreção, tem uma tensão,
que são aquelas
totalidades que tem uma coerência intrínseca, uma força
de coesão e, ao se
constituírem, tornam-se de certo modo distintas dos
elementos que as constituem,
quer dizer, tem uma forma que é outra que a forma dos
indivíduos ou dos elementos
constituintes.
Vamos dar um exemplo muito simples: o da gota d'água.
Uma molécula de água é
composta de hidrogênio e oxigênio em determinadas
proporções de dois para um;
sabemos que o hidrogênio e o oxigênio são
especificamente distintos, mas a gota
d'água não é apenas uma conjunção, uma aglomeração
destes dois elementos pois
estes, de certo modo, se virtualizam e a molécula de
água constitui uma tensão
própria, uma substância própria com suas propriedades.
Consequentemente, forma uma tensão em que subordina os
elementos componente,
numa nova analogação em que eles se harmonizam, mas que
o interesse do
funcionamento do todo domina sobre o interesse da parte.
Assim, por exemplo, o
homem, o ser humano, constituinte de uma família, de
certo modo virtualiza-se, a
família forma uma totalidade coerente, que tem o seu
interesse próprio e que, de certo
modo, subordina o interesse do indivíduo a coletividade
para poder dar aquela
harmonia necessária.
Não podemos assim ficar em nenhuma das duas posições
abstratas, que a concreção
fosse o homem e a sociedade abstrata, ou que a concreção
fosse a sociedade e o
homem abstrato. Temos que olhar o homem concretamente e
a sociedade também,
porque, tanto um como o outro, são duas realidades que
compõem uma nova
realidade.
A sociedade é uma nova realidade, composta da realidade
dos indivíduos, e os
indivíduos de certo modo terão que virtualizar muito dos
seus interesses que colidem
com os interesses coletivos para poderem permanecer
dentro desta nova unidade. Isto
não vem em defesa das concepções totalitárias como
muitos julgaram e quiseram
provar, que o indivíduo não tem mais a sua plenitude,
porque de certo modo tem que
se submeter ao interesse coletivo.
Mas, note-se o seguinte: o que o indivíduo virtualiza é
precisamente aquilo que
colide com os interesses de outros indivíduos, e na
formação da sociedade o que ele
atualiza é o que é conveniente ao grupo social do qual
faz parte; portanto o que
virtualiza é a parte negativa, e a parte opositiva, e o
que atualiza é a sua parte
positiva, a parte construtiva.
Neste caso não há nenhuma deficiência para o homem, ao
contrário, há uma
elevação perfectiva do homem. E aquele que melhore esta
parte de conviver com a
sociedade será um homem perfectivamente superior àquele
que não pode viver dentro
do seu grupo social.
Temos que compreender que a modificação conseqüentemente
da sociedade
exige (primariamente) a modificação do homem, isto não
tem a menor dúvida, porque
ele é o elemento fundamental, é o que constitui a
matéria desta sociedade, e a
modificação da sociedade só poderá se processar dentro
desta realidade.
Então o problema humano passa a ser o problema do
“conhece-te a ti mesmo”,
porque o “conhece-te a ti mesmo” não é apenas uma
indicação de uma necessidade,
uma introspecção humana, mas o conhecimento do homem em
todas as suas
tendências, em todas as suas inclinações, em todas as
suas propensões, ou seja, numa
linguagem filosófica, o homem olhado pelas suas
disposições.
Nesta disposição vai adquirir os hábitos proporcionados
a ela, quer dizer, o
homem não pode adquirir hábitos que não estejam
proporcionados as disposições que
ele tem, como é o caso do problema do orgulho. Em que
consiste propriamente o
orgulho?
Propriamente na criatura sentir-se ou hipervalorizar-se
além das suas
realidades; isto é, julgar-se como possuidora de uma
valor superior ao valor real que
ela tem. Este é o pecado de todo ser considerado na sua
singularidade e na sua
unidade, quando ele procura impor-se. Trata-se de uma
lei cósmica que é revelada na
própria unidade.
Ela procura impor-se, quer perdurar, quer continuar,
quer expandir-se, quer
dominar, e este sentido dela querer mais é o pecado do
orgulho, caracterizado pela
figura de Satã; é o pecado satânico. Satã é um símbolo
que, no sentido popular, passa
a ter um sentido pessoal; é apenas um símbolo; é apenas
o sentido do orgulho, o
ímpeto que toda unidade que existe tem para se afirmar,
de um modo a impor-se ante
os outros, a ponto até de subordinar e dominar aqueles
que se lhe antepõem.
Encontramos o orgulho já nas origens fundamentais do
homem. Todo ser
humano quer prestigiar-se socialmente sobre os seus
semelhantes, quer ser mais,
quer impor-se, às vezes, quando não pode impor-se pelo
saber ou pela ciência, pela
astúcia ou até pela sua própria malícia considerando-se
superior por ser ruim, por ser
um criminoso mais completo do que os outros.
No fundo é uma ânsia de prestígio, é ainda uma
manifestação deste orgulho
primevo, próprio de todo ser finito, que não se contém
dentro dos seus limites e que
deseja ampliar-se; o que Nietzsche chamava o
“merwollen”, aquele querer mais, mais
tarde a “vontade de potência”; ímpeto para conter-se, de
tender para mais, que é
próprio de todo ser vivo, de toda unidade.
Em que consiste a humildade? Esta consistiria no
conhecimento das suas
próprias possibilidades, do seu real valor. Ser humilde
é que não se apresenta como
mais do que realmente é e reconhece o valor alheio e não
procura desmerecê-lo,
procurando realizar o que está dentro das suas reais
possibilidades.
Ele pode até ser vicioso na humildade a ponto de
desmerecer-se, de julgar-se
aquém do que realmente é, mas então já será um erro que
comete, uma forma viciosa
da humildade, mas a justa é a humildade equilibrada, é
conhecimento das suas
próprias possibilidades, é o desejo de afirmar-se sem
que esta afirmação se faça a
custa da realidade alheia. Precisamente por falta desta
humildade é que a humanidade
sofre, porque precisamente o orgulho daqueles que querem
impor-se aos seus
semelhantes, é que criaram o problema social em todos os
tempos da humanidade
Sacralidade e Secularização
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Na formação do Cristianismo uma das idéias centrais que
predominou era a do
Juízo Final, aguardado como um acontecimento próximo. Os
Evangelhos haviam
assegurado que ele começaria antes que os contemporâneos
de Cristo tivessem
desaparecido. A interpretação dessa passagem bíblica
provocou resultados
heterogêneos, porém, em regra geral, aceitou-se que o
seu advento seria próximo.
Como não sobreveio, passados os anos foi marcada uma
data, e o povo estabeleceu
que o ano mil seria o do juízo.
Neste momento dar-se-ia o fecho final da vida cristã, da
passagem terrena do
homem. Haveria um grande julgamento: os bons ganhariam o
céu e os maus seriam
eternamente condenado. Quando chegou o ano mil, que seja
dito, foi desastroso, pois
pela sua aproximação em conseqüência de certos excessos
religiosos, sobreveio uma
grande decepção no mundo europeu, o que foi gestar uma
busca para esta vida, quer
dizer a sacralidade exagerada do Cristianismo foi se
tornando mais secular.
Nota-se isso nos próprios protestantes que,
posteriormente, vieram dar um
sentido mais secular à concepção cristã, buscar a
realização do Cristianismo nesta
terra e, inclusive, também nos próprios cristãos, que
começaram a procurar melhorar
a sua situação, a vida humana, lutando por melhores
condições.
Convivium, 1964
Um dos grandes problemas que eu considero hoje em dia no campo da filosofia
que já vem de longe, é a falta da nítida compreensão entre a filosofia especulativa e a
filosofia prática, sobre o que se chama ciência especulativa e o que se chama de
ciência prática. Muitas vezes nos encontramos em face do que é válido no campo do
especulativo e não é válido no campo da praticidade, outras vezes encontramos que
aquilo que é válido no campo da praticidade não o é no campo especulativo.
Encontramo-nos assim em face de dificuldades teóricas que são fáceis de
resolver, porque eu digo sempre que em filosofia não há questões insolúveis, há
apenas questões mal colocadas, desde que se faça uma boa colocação do problema as
questões tornam-se de fácil solução.
Ora o que caracteriza propriamente o ser humano é aquilo que os antigos
chamavam a sua racionalidade, que entrava na sua definição clássica: homem animal
racional. E nesse termo de racionalidade inclui-se dois aspectos que possui o homem e
não possuem os outros animais que conhecemos, é que o homem dispõe de uma
vontade e de um entendimento, uma vontade que lhe permite deliberar e escolher
entre futuros contingentes, em que o homem pode acertar ou errar a sua escolha
porque sempre busca aquilo que é o seu bem, isto é, aquilo que é conveniente a sua
natureza.
A natureza do homem considerado na sua estaticidade, na sua dinamicidade,
isto é, no desenvolvimento das suas possibilidades que vão se atualizando e também
na sua cinematicidade, isto é, nas suas correlações e interatuações com os seus
semelhantes dentro da vida social e o bem é portanto tudo aquilo que é conveniente a
esta natureza.
A vontade tende para o bem, mas nós ao tendermos para o bem podemos
errar, podemos escolher mal o bem, não sabermos escolher entre o bem e o mal,
escolhendo muitas vezes um bem menor por um bem maior ou escolhendo o mal por
um bem legítimo para nós. Este é o nosso pecado
original, pecado da espécie humana,
pecado com o qual todos nós nascemos, pecado que na
alegoria do Gênese é
apresentado pela desobediência do ato de Adão e Eva.
Porque o ser humano é o único ser que pode dizer não,
porque os animais não
dizem não, os animais apenas seguem os seus instintos,
ocupam-se daquilo que é
imperioso para sua existência e os seus instintos são
suficientes para lhes indicar o
que lhes é conveniente a sua natureza, mas o ser humano
não, é um ser desprovido
de instintos, é um ser que precisa analisar, cogitar,
escolher, verificar e
consequentemente ele pode errar.
Portanto, ao comer do fruto da árvore da ciência que é
esta árvore do saber
que o homem dispõe, ele está sujeito a negações, é
possível desobedecer, ele
desobedece, porque desobedece a própria natureza, porque
nós mesmos perdemos os
nossos instintos logo que nascemos.
A confusão entre o especulativo e o páthico está aqui,
porque o nosso
entendimento tem uma oréxis, tem um desejo, um apetite,
ele parte para alguma
coisa, assim como a nossa vontade parte para o bem, o
nosso entendimento parte
para a verdade, nós queremos captar a verdade, o homem é
um ser anelante de bem
e de verdade, é um ser que se coloca entre estas suas
exigências da sua natureza, da
sua natureza humana, não animal.
A verdade e o bem e o entendimento é esta capacidade de
buscar a verdade,
quanto à vontade é a capacidade de buscar o bem (do
termo grego oréxis que
corresponde mais ou menos ao apetite, o apetite em latim
que quer dizer este ad
petere, este pedir para) este pedir para alguma coisa,
um pede para o bem e outro
pede a verdade.
Então consequentemente o homem constrói o seu mundo
fundado nestas suas
duas grandes realidades: o mundo da vontade é o mundo da
sua prática, é o mundo
da sua dramaticidade, é o mundo da sua ação, e o mundo
do seu entendimento vai
colimar na obra especulativa, o mundo da criação
intelectual. Podemos dizer assim:
que o mundo da prática é uma criação da vontade,
enquanto o mundo da especulação
é uma criação do entendimento.
Mas estão os dois separados? Será que o entendimento é
algo que funciona
completamente fora da vontade? Não, os dois estão
presentes, a vontade precisa do
entendimento para deliberar bem e o entendimento precisa
da vontade para por-se em
ação, para alcançar a verdade.
Ora a filosofia surge e tem as suas raízes na ação do
homem, neste desejo do
bem, porque aspirando o bem, ele investiga, ele anela
este conhecimento e sobretudo
tem as suas raízes nesse anelo, nessa orexis, pela
verdade que lhe dá o entendimento.
E a filosofia vai se polarizar, aquela que predomina no
entendimento é especulativa e
aquela que predomina a vontade é a filosofia prática.
Temos o seguinte: na filosofia prática o valor principal
para o qual tende é o
conveniente, é o certo, toda vida prática humana, o que
vale é aquilo que pode
corresponder a natureza humana em todos os aspectos em
que ela é considerada, de
todas as formas proteicas em que ela possa se
manifestar, enquanto que na
especulação é a verdade.
Ora observamos logo e é fácil observar, que o que se
refere a verdade é
indivisível porque a verdade é indivisível, ou é ou não
é. Então no mundo especulativo
estamos no mundo do aut aut, no mundo do ou ou. A
disciplina que nos pode guiar
como a matemática ou a lógica e a dialética, como a
lógica formal que trabalha entre
ou ou, ou verdade ou falsidade, não há o menos falso nem
o mais falso, não há o
menos verdadeiro nem o mais verdadeiro, há o verdadeiro
ou há o falso.
Mas no mundo da praticidade humana as coisas poderão ser
mais ou menos
convenientes, poderão ser melhores ou piores, poderão
ser mais certas ou erradas,
então nós temos uma gradatividade, temos uma
divisibilidade. Por isso neste mundo
domina a gradação, a intensidade, os graus intensistas.
No outro é estático, as idéias
são estáticas, os princípios são estáticos, tudo é
incomutável, ou é ou não é.As forças de autodestruição
do ser humano
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Elas são inegáveis, típicas da criatura e do ser
composto, porque os elementos
componentes que formam uma nova estrutura são
subordinados ao interesse da
totalidade, porém cada um deles tem, também, o seu
interesse próprio, da sua parte
que colide com o interesse coletivo. Por isso nos
decompomos e, tudo quanto é físico,
decompõe-se e se destrói. Será possível, será suficiente
que a nossa coragem possa
enfrentar esta autodestruição?
Só posso responder com respostas contingentes, porque se
quisesse uma
resposta necessária, cairia na fé e não estaria me
colocando numa posição filosófica,
pois é possível que sim e é possível que não. Mas entre
estas duas possibilidades
podemos escolher a daqueles que crêem que é possível,
que sim, estamos nos
comprometendo em atuar dentro dessa possibilidade.
Se malograrmos ficará, pelo menos, a satisfação dentro
de nós de termos
cumprido o nosso dever e realizado uma possibilidade
nossa e, se amanhã houver um
outro ser inteligente que possa saber da nossa história,
poderá olhar para aqueles que
amaram a coragem e que tiveram o gesto heróico de lutar
contra a própria
autodestruição com respeito por estes homens.
Podemos nos engajar deste lado, já que estamos numa
época em que todos querem se
engajar, mas para o lado construtivo, para o do bem, que
crê numa nova esperança,
em valores superiores e que não proclama, de antemão, a
sua derrota, porque então é
ela uma dupla derrota.
O que não se pode é tratar do tema de Deus e Satã
fazendo chalaça, e procurando
resolver pelas formas primárias de uma concepção que não
tem fundamento. É
necessário que compreendamos bem que a criatura quanto
toma consciência de si
mesmo, julgando-se pela sua unidade, tem uma tendência a
considerar-se igual ao
Criador, porque a criatura de certo modo participa das
perfeições divinas, mas
participa limitadamente, por isso é parte.
Participação é uma parte das perfeições, porque sendo um
ser limitado, um ser
deficiente, um ser imperfeito, os atributos que possui,
que constituem a sua própria
estrutura não podem, de modo algum, ter a perfeição do
Ser Supremo.
Mas, quando o homem envaidecido, orgulhando-se de si
mesmo (como o homem é um
ser racional, é um ser inteligente), julga-se igual ao
Criador porque é capaz de pensar,
porque tem consciência de si, comete então o seu grande
pecado: o pecado do
orgulho.
Satã significa a criação cósmica quando ela julga-se
mais do que realmente é, isto é,
quando perde a sua humildade e julga-se, então,
possuidora de um valor tão alto
quanto o valor do Criador.
Este é o símbolo de Satã examinado dentro da Simbólica.
Aqueles que querem fazer de
Satã uma determinada criatura, um ser com consciência de
si mesmo é uma questão
de ponto de vista discutível, mas nós como filósofos não
podemos tratar deste tema a
não ser filosoficamente, porque doutro modo é tratá-lo
dentro do campo das religiões
e como estamos fazendo filosofia da religião, que é o
fundamental desta palestra de
hoje, não podemos fugir do campo da própria filosofia;
portanto, Satã dentro da
filosofia deve ser assim compreendido.
A quem devemos modificar: o homem ou a sociedade?
Esta pergunta é fundamental em nossa época, pois sabemos
que há uma necessidade
de modificação, tendo em vista uma série de erros que
tem sido cometidos em
prejuízo de grupos humanos e, todos aqueles que desejam
que as relações sociais
sejam as mais positivas possíveis, procuram saber o que
devemos fazer para evitar
que estas relações nocivas se perpetuem.
Não podemos conceber a sociedade como um ser de per si,
subsistente, temos que
compreender a sociedade como algo que é constituído de
indivíduos, por seres
humanos. Também não se poderá dizer que a sociedade é
uma mera abstração.
Quando o marxismo, por exemplo, coloca a sociedade como
uma única realidade, e o
indivíduo como algo abstrato, podemos fazer uma
inversão, considerar o indivíduo
apenas a parte concreta e a sociedade a parte abstrata.
A sociedade também tem uma concreção, tem uma tensão,
que são aquelas
totalidades que tem uma coerência intrínseca, uma força
de coesão e, ao se
constituírem, tornam-se de certo modo distintas dos
elementos que as constituem,
quer dizer, tem uma forma que é outra que a forma dos
indivíduos ou dos elementos
constituintes.
Vamos dar um exemplo muito simples: o da gota d'água.
Uma molécula de água é
composta de hidrogênio e oxigênio em determinadas
proporções de dois para um;
sabemos que o hidrogênio e o oxigênio são
especificamente distintos, mas a gota
d'água não é apenas uma conjunção, uma aglomeração
destes dois elementos pois
estes, de certo modo, se virtualizam e a molécula de
água constitui uma tensão
própria, uma substância própria com suas propriedades.
Consequentemente, forma uma tensão em que subordina os
elementos componente,
numa nova analogação em que eles se harmonizam, mas que
o interesse do
funcionamento do todo domina sobre o interesse da parte.
Assim, por exemplo, o
homem, o ser humano, constituinte de uma família, de
certo modo virtualiza-se, a
família forma uma totalidade coerente, que tem o seu
interesse próprio e que, de certo
modo, subordina o interesse do indivíduo a coletividade
para poder dar aquela
harmonia necessária.
Não podemos assim ficar em nenhuma das duas posições
abstratas, que a concreção
fosse o homem e a sociedade abstrata, ou que a concreção
fosse a sociedade e o
homem abstrato. Temos que olhar o homem concretamente e
a sociedade também,
porque, tanto um como o outro, são duas realidades que
compõem uma nova
realidade.
A sociedade é uma nova realidade, composta da realidade
dos indivíduos, e os
indivíduos de certo modo terão que virtualizar muito dos
seus interesses que colidem
com os interesses coletivos para poderem permanecer
dentro desta nova unidade. Isto
não vem em defesa das concepções totalitárias como
muitos julgaram e quiseram
provar, que o indivíduo não tem mais a sua plenitude,
porque de certo modo tem que
se submeter ao interesse coletivo.
Mas, note-se o seguinte: o que o indivíduo virtualiza é
precisamente aquilo que
colide com os interesses de outros indivíduos, e na
formação da sociedade o que ele
atualiza é o que é conveniente ao grupo social do qual
faz parte; portanto o que
virtualiza é a parte negativa, e a parte opositiva, e o
que atualiza é a sua parte
positiva, a parte construtiva.
Neste caso não há nenhuma deficiência para o homem, ao
contrário, há uma
elevação perfectiva do homem. E aquele que melhore esta
parte de conviver com a
sociedade será um homem perfectivamente superior àquele
que não pode viver dentro
do seu grupo social.
Temos que compreender que a modificação conseqüentemente
da sociedade
exige (primariamente) a modificação do homem, isto não
tem a menor dúvida, porque
ele é o elemento fundamental, é o que constitui a
matéria desta sociedade, e a
modificação da sociedade só poderá se processar dentro
desta realidade.
Então o problema humano passa a ser o problema do
“conhece-te a ti mesmo”,
porque o “conhece-te a ti mesmo” não é apenas uma
indicação de uma necessidade,
uma introspecção humana, mas o conhecimento do homem em
todas as suas
tendências, em todas as suas inclinações, em todas as
suas propensões, ou seja, numa
linguagem filosófica, o homem olhado pelas suas
disposições.
Nesta disposição vai adquirir os hábitos proporcionados
a ela, quer dizer, o
homem não pode adquirir hábitos que não estejam
proporcionados as disposições que
ele tem, como é o caso do problema do orgulho. Em que
consiste propriamente o
orgulho?
Propriamente na criatura sentir-se ou hipervalorizar-se
além das suas
realidades; isto é, julgar-se como possuidora de uma
valor superior ao valor real que
ela tem. Este é o pecado de todo ser considerado na sua
singularidade e na sua
unidade, quando ele procura impor-se. Trata-se de uma
lei cósmica que é revelada na
própria unidade.
Ela procura impor-se, quer perdurar, quer continuar,
quer expandir-se, quer
dominar, e este sentido dela querer mais é o pecado do
orgulho, caracterizado pela
figura de Satã; é o pecado satânico. Satã é um símbolo
que, no sentido popular, passa
a ter um sentido pessoal; é apenas um símbolo; é apenas
o sentido do orgulho, o
ímpeto que toda unidade que existe tem para se afirmar,
de um modo a impor-se ante
os outros, a ponto até de subordinar e dominar aqueles
que se lhe antepõem.
Encontramos o orgulho já nas origens fundamentais do
homem. Todo ser
humano quer prestigiar-se socialmente sobre os seus
semelhantes, quer ser mais,
quer impor-se, às vezes, quando não pode impor-se pelo
saber ou pela ciência, pela
astúcia ou até pela sua própria malícia considerando-se
superior por ser ruim, por ser
um criminoso mais completo do que os outros.
No fundo é uma ânsia de prestígio, é ainda uma
manifestação deste orgulho
primevo, próprio de todo ser finito, que não se contém
dentro dos seus limites e que
deseja ampliar-se; o que Nietzsche chamava o
“merwollen”, aquele querer mais, mais
tarde a “vontade de potência”; ímpeto para conter-se, de
tender para mais, que é
próprio de todo ser vivo, de toda unidade.
Em que consiste a humildade? Esta consistiria no
conhecimento das suas
próprias possibilidades, do seu real valor. Ser humilde
é que não se apresenta como
mais do que realmente é e reconhece o valor alheio e não
procura desmerecê-lo,
procurando realizar o que está dentro das suas reais
possibilidades.
Ele pode até ser vicioso na humildade a ponto de
desmerecer-se, de julgar-se
aquém do que realmente é, mas então já será um erro que
comete, uma forma viciosa
da humildade, mas a justa é a humildade equilibrada, é
conhecimento das suas
próprias possibilidades, é o desejo de afirmar-se sem
que esta afirmação se faça a
custa da realidade alheia. Precisamente por falta desta
humildade é que a humanidade
sofre, porque precisamente o orgulho daqueles que querem
impor-se aos seus
semelhantes, é que criaram o problema social em todos os
tempos da humanidade
Sacralidade e Secularização
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Na formação do Cristianismo uma das idéias centrais que
predominou era a do
Juízo Final, aguardado como um acontecimento próximo. Os
Evangelhos haviam
assegurado que ele começaria antes que os contemporâneos
de Cristo tivessem
desaparecido. A interpretação dessa passagem bíblica
provocou resultados
heterogêneos, porém, em regra geral, aceitou-se que o
seu advento seria próximo.
Como não sobreveio, passados os anos foi marcada uma
data, e o povo estabeleceu
que o ano mil seria o do juízo.
Neste momento dar-se-ia o fecho final da vida cristã, da
passagem terrena do
homem. Haveria um grande julgamento: os bons ganhariam o
céu e os maus seriam
eternamente condenado. Quando chegou o ano mil, que seja
dito, foi desastroso, pois
pela sua aproximação em conseqüência de certos excessos
religiosos, sobreveio uma
grande decepção no mundo europeu, o que foi gestar uma
busca para esta vida, quer
dizer a sacralidade exagerada do Cristianismo foi se
tornando mais secular.
Nota-se isso nos próprios protestantes que,
posteriormente, vieram dar um
sentido mais secular à concepção cristã, buscar a
realização do Cristianismo nesta
terra e, inclusive, também nos próprios cristãos, que
começaram a procurar melhorar
a sua situação, a vida humana, lutando por melhores
condições.
MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS
Qual o sentido da filosofia?Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
Não há uma única, só há a filosofia, porque ela como já
definiu muito bem Pitágoras, continua com a sua definição, ela nada mais é
do que o amor a sabedoria.
Pitágoras, numa aula de geometria, em que fazia a
demonstração de um teorema indicou um caminho.
Ele disse que devia se fazer a filosofia “a more geométrico”, também com
demonstrações rigorosas e apodíticas. Se procedermos assim a filosofia não será
motivo de divergências humanas, mas de aproximação. A matemática não tem divergências, porque ela entrou no campo especulativo e entrou na demonstração rigorosa, o que existe de
divergência é que pode haver é na parte de aplicação, na parte prática.
É lógico que não pode atingir a perfeição incomutável. O triângulo perfeito será
sempre relativo, o que há necessidade é de dar a filosofia outro sentido, se a filosofia
for construída assim é uma só, então encontramos uma filosofia perene, positiva e
perene através dos séculos, através dos milênios.
Filosofia que vem vindo através dos gregos, através dos pitagóricos, socráticos,
platônicos, aristotélicos, através da escolástica, através dos grandes árabes até nós.
Agora estamos numa fase de confusão, porque a filosofia está sendo invadida por
estetas e o espírito do esteta, o espírito romântico é destrutivo, pois ele acha que a
filosofia é subjetiva, pessoal.
A nossa luta é voltar outra vez a estrada real, aquela estrada real que é nossa,
que é patrimônio da humanidade. Filosofia não é filodoxia, filosofia não é o campo dos
palpites, não é o campo das opiniões, na filosofia não há lugar para opinião. Quando se
diz “qual é a sua opinião” não se está mais fazendo filosofia, está se fazendo filodoxia.
Filosofia tem que se demonstrar, se não se pode demonstrar então fica em suspenso,
continua se investigando até que se chegue a demonstração rigorosa.
Porém não se vai encontrar uma explicação apodítica de fatos contingentes,
querer reduzir os fatos da ciência a um sentido especulativo e de raciocínios apodíticos
absolutos não se vai conseguir, são sempre prováveis e este é o campo da
probabilidade da ciência. É provável, por exemplo, que aquela pedra que está solta vá
cair, mas não há nenhuma necessidade absoluta que ela caia, é outra coisa.
Hoje em dia se faz muitas confusão, há muitas tendências, muitas escolas. As
questões que existem na escolástica são questões abertas, mas em regra geral todos
os escolásticos têm uma unidade, há um pensamento entre eles que é unitário, queforma uma unidade, dá uma corporeidade, dá uma tensão a escolástica, assim como
existe no pitagorismo apesar das divergências entre os pitagóricos.
Chamamos nossa filosofia de concreta, porque ela é uma filosofia positiva que
busca concrecionar os aspectos positivos de todo o filosofar, tudo o que expomos
demonstramos apoditicamente e o mais possível, evitando o termo médio, quer dizer
evitando o raciocínio da razão, porque o raciocínio propriamente racional que é o da
ciência é precisamente aquele que usa o termo médio, procuramos evitar o mais
possível, embora nem sempre seja possível evitar.É possível uma filosofia engajada?
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964
Esta questão de filosofia engajada é uma expressão muito moderna, que tem
muitos sentidos. Em primeiro lugar, na verdade não há filosofias, só há a Filosofia.
As divergências humanas surgem porque não se estuda devidamente a filosofia,
porque se partirmos de um princípio fundamental na filosofia de que a verdadeira
autoridade é a demonstração, e não “a” nem “b” nem “c”, e a demonstração deve ser
a mais rigorosa possível, consequentemente a demonstração apodítica, isto é, o juízo
necessário, o juízo quoad se, juízo válido quoad se, por si mesmo, o juízo que
esplende a sua verdade por si mesmo, estabelecemos este juízo, e os procuramos, e
os construímos e temos capacidade de alcançá-los, nós só temos uma filosofia, porque
toda aquela que se afastar disto é erro, tudo aquilo que se opuser e contradizer ao que
está estabelecido nos princípios, é erro. Há aquelas questões que ainda são disputáveis, aquelas
questões em que nós ainda não podemos colocá-las dentro destas demonstrações, estas podem se disputar,mas são questões praticamente acidentais, de forma que as diversas posições da
filosofia que surgiram são mais produtos da ignorância do que verdadeiramente do
saber.
O que surgiu na filosofia grega que perdeu-se numa série de escolas foi a má
compreensão dos fundadores da filosofia. Se tivessem seguido genuinamente o
método de Pitágoras, não tivessem se afastado dele, não aparecessem discípulos
incapazes que começaram a tomar outros caminhos, não teria havido aquela luta
tremenda que há entre atomistas e eleatas e outros que foram surgindo na filosofia e
que só serviram para dividir.
Tudo isso tem um valor, não sou contra, foi bom, porque tudo isso provocou
grandes investigações e permitiu solucionar melhor os problemas filosóficos.
Assim como o cepticismo foi um grande bem, os cépticos gregos trouxeram um
grande benefício, porque colocaram a questão da verdade em cheque, obrigaram a
formação da lógica formal.
O trabalho tremendo dos estóicos, e a grande dialética
dos platônicos não se
teria se construído se não tivesse havido aquelas
divergências. O erro também é
benéfico, também deve aparecer, mas apenas com este
sentido, para estimular a
prestarem atenção melhor a pontos que julgamos já
definitivos, acabados, já
solucionados, e que podiam ser melhor, mais
robustecidamente defendidos.
Essas dissenções que aparecem são necessárias, mas
filosofia só há uma, assim
como só há uma ciência.
Podem achar estranho o meu modo de falar, mas aqueles
que seguem as
minhas aulas sabem perfeitamente como já demonstrei e já
provei que é assim, pois
todas estas divergências surgem da má compreensão.
Na filosofia moderna coloca-se uma grande problemática,
uma problemática já
ultrapassada, são questões que já foram suficientemente
resolvidas, mas como muitos
não estão preparados pensam que são grandes novidades.
Os gregos, sobretudo os atenienses no período de
decadência, quiseram
estudar as causas desta decadência, porque Atenas que
havia brilhado através dos
séculos tinha chegado aquele estado, e quando este
processo foi feito houve uma
grande discussão.
Chegou-se a conclusão de que os culpados eram os
sofistas. Eles é que haviam
levado Atenas aquela situação de desintegração
intelectual,. Procuraram um sofista
para ser um “bode expiatório” e o escolhido foi
Sócrates, que não era sofista, mas o
havia sido na sua juventude.
Mas o povo ignorante e a juventude sobretudo ignorante,
pôs-se a acusar
Sócrates, a gritar nas ruas, a exigir a morte do
filósofo como culpado da
degenerescência do povo de Atenas. Sócrates foi julgado
e é interessante que naquele
julgamento perdeu por um voto e foi condenado a morte,
caindo sobre ele a culpa de
toda a degenerescência.
Realmente aquele processo estava certo, porque o que
degenerou Atenas foram
os sofistas, porque criaram toda aquela divergência de
idéias, criaram a dialética de
persuasão, a dialética era a retórica, e facilitava para
que se discutissem todas as
idéias e consequentemente se tomassem todos os rumos e
Atenas perdeu a sua
unidade, porque quando a elite intelectual de um povo é
dominada por homens que
estão divergindo uns dos outros, este povo está perdido.
A ciência dos valores em filosofia
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convivium, 1964
A origem da palavra axiologia vem do termo grego axiós,
que significa valor,
mas temos um outro termo no grego também significando
valor, a língua é mais rica
neste ponto do que a portuguesa, que se chama timos, que
é um valor no sentido
prático, e axiós o valor no sentido especulativo. Temos
a presença de timos em
palavras como estimar, estimação, etc.
Há uma parte da axiologia que penetra na timologia e
auxilia os estudos
timológicos com a sua parte incomutável. Como
trabalhamos com os princípios
metafísicos também na parte da ciência prática, o
princípio de não-contradição é um
princípio de caráter metafísico, lógico também, mas é
ontológico primacialmente. No
entanto vai prevalecer nas outras ciências.
Há certos princípios da axiologia especulativa que
vigoram na axiologia prática
que chamam de axiologia prática e que prefiro chamar de
timologia porque está mais
de acordo porque na prática nós estimamos. É como na
matemática aplicada e na
matemática especulativa, na verdade não há uma
matemática puramente especulativa
e outra prática, a lógica formal não é puramente
especulativa, nós temos uma lógica
material que é verdadeiramente prática, que vai para a
prática.
Temos que fazer estas distinções, mas não podemos ficar
apenas no campo
especulativo, aí há o perigo de ficarmos num campo de
abstrações, também não
podemos confundir os dois campos.O existencialismo
Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro
Convívium, 1964
Existe dois tipos: um existencialismo ateu, vamos chamar
assim, e um teísta. O
problema existencialista não é uma novidade criada
agora, descoberta atualmente,
porque o problema da existência já foi estudado
sobretudo pelos místicos cristãos com
muito maior profundidade do que os modernos.
Gostaria que lessem os místicos, iriam ter um momento de
maior emoção, de
maior beleza, iriam ver que estes existencialistas
modernos que escrevem muito bem
não escrevem tão bem como os místicos cristãos, que
despertam lágrimas de emoção
estética, porque o belo é um transcendental que se
coloca entre o bem e o verdadeiro,
todo bem supremo é belo como todo verdadeiro é belo.
Ao lado de uma filosofia, há também uma filocalia, isto
é, um amor ao belo, e
nós quando alcançamos as grandes verdades, os grandes
primeiros princípios temos
aquelas emoções de beleza que nos levam ao êxtase e nos
levam a estados em que
não contemos as lágrimas, porque é uma satisfação tão
grande, uma vitória tão
grande sobre a nossa pequenez, que nos sentimos nesses
instantes raiando uma
felicidade tão alta, e nosso corpo é pobre para
resistir, por isso trepida, estremece, até
se apavora, mas nosso espírito entra em estados de
agradabilidade incomparáveis.
O existencialismo é uma das maneiras de colocar mal o
problema da existência,
e por isso como a época é de má colocação dos problemas,
ele está na sua bela fase,
então ele teve um certo sucesso como teve o paninteísmo
e outras doutrinas que
também fizeram o mesmo furor.
Não deixo de reconhecer no existencialismo aspectos
positivos porque temos
que chegar a conclusão na filosofia de que toda
existência é singular, não temos uma
existência do universal, o universal não existe, de
maneira que a existência é o
momento perfectivo de qualquer ser, é o auge de qualquer
ser na sua existência, mas
o existencialismo não se preocupou propriamente com este
problema da existência das
coisas, mas sim com o problema da existência do homem, e
quis escamotear o
problema da sua essência, primeiro porque nunca
compreendeu claramente o que é a
essência do homem, tiveram uma noção muito errada do que
seja, e o que disseram e
o que tratarem está muito melhor tratado nas obras dos
místicos, e em filósofos como
Duns Scot e também nos místicos franciscanos.
Como é uma matéria muito longa prefero deixar para uma
palestra especial
porque levaria muito tempo para estudar os diversos
tipos de existencialismo e
mostrar os seus defeitos, mas não é nada que me
impressione embora reconheça que
é uma manifestação filosófica que está avassalando a
juventude e que ela está
despreparada para compreender.
Como o panteísmo foi no fim do século passado, são como
esses rojões que
quando acendem brilham muito, esses fogos de artifício e
que deixam depois só
trevas, num total e absoluto esquecimento, mas não deixa
de ter os seus aspectos
positivos, mas os aspectos positivos que tem foram os
que foi buscar de outras
concepções.
Sobre o Marxismo
Mário Ferreira dos Santos - Palestra no Centro
Convivium, 1964
No Renascimento começaram a surgir as chamadas utopias,
quando a Igreja
perdeu o poder, mesmo o seu poder espiritual foi
restringido com a formação das
grandes nações, e o poder temporal praticamente nulo, a
Igreja perdeu totalmente a
força.
A sociedade, com a ascensão do empresário utilitário que
passou a ter um
poder extraordinário porque já tinha o poder econômico,
passou também a participar
do poder político, porque todos aqueles que tem o poder
econômico sempre desejam o
poder político.
As injustiças sociais foram crescendo e se agravando, as
próprias corporações
da Idade Média em que mestres aprendizes e companheiros
formavam verdadeiras
unidades passaram a ser distintos, os mestres
tornaram-se capitalistas, empresários, e
veio a época da industrialização.
Começou a surgir uma preocupação em torno do problema do
homem olhado
do ângulo coletivo, isto é, da coletividade humana,
porque o empresário utilitário por
natureza é individualista, ele necessita de uma certa
liberdade de ação para que possa
desenvolver-se plenamente e põe necessariamente em risco
os interesses coletivos.
O socialismo praticamente surge estruturado assim em
idéias no século passado
e esta palavra socialismo surgiu de uma polêmica que
houve na Inglaterra, num jornal
em que havia um cidadão que escrevia artigos defendendo
o capitalismo
manchesteriano, e assinava “individualista” e num outro
jornal alguém pôs-se a
rebater os seus argumentos e assinava “socialista”, e a
palavra foi cunhada, foi
tomando um conteúdo, foi significando tudo aquilo que se
refere mais ao coletivo em
geral na sua luta contra o individualismo.
Todos que estudam filosofia sabem perfeitamente que o
verdadeiro conceito de
política, como o estudavam os grandes filósofos gregos
implica uma harmonização
entre os interesses individuais com os interesses
coletivos. Propriamente a política é
isto, são os costumes humanos olhados do ângulo da
coletividade e busca conciliar,
harmonizar estes interesses, esta é verdadeiramente a
política, é conciliar os
interesses do homem na ‘polis’, não é mais o homem da
tribo, muito menos não é o
homem da horda, é o homem de uma nova horda, porque a
“polis” é quase uma
verdadeira horda, mas a “polis” perdendo as suas
ligações tribais cada vez mais há a
necessidade de conciliar os interesses de grupos com os
interesses coletivos.
Embora hoje política não se entenda assim, em geral,
entende-se como a arte
de governar para uns, mas na verdade ela é usada como a
arte de conquistar e de
conservar o poder, consequentemente como o político se
desvirtuou do seu verdadeiro
sentido, as formações socialistas desde o início foram
anti-políticas, quer dizer, política
e socialismo foi desde o início considerado como azeite
e água, como coisas
inconciliáveis.
Socialismo fazendo política é uma coisa absurda, porque
a política era a
conquista do poder, era conservar o poder, exercer o
poder, etc., então as primeiras
tentativas de formação de idéias socialistas eram
genuinamente libertárias, de
libertação do homem, libertação de tudo quanto o
oprimia, do ser humano desvincularse
de todas aquelas peias que exerciam sobre ele obstáculos
no seu desenvolvimento.
Passou-se a analisar quais são, o Estado em primeiro
lugar, o maior monstro
opressor que a sociedade humana conhece, pois as classes
economicamente poderosas
que fazem as leis de acordo com seus interesses contra
os interesses da maioria. Todo
o socialismo formou-se num ideal de liquidação das
classes, para evitar a exploração
do homem sobre o homem, e sobretudo a liquidação do
Estado, porque o Estado não
era mais a sociedade politicamente organizada, mas era
apenas um organismo político,
de grupo, que dominavam a sociedade.
O socialismo caracteriza-se desde o início por uma
crítica violenta e desbragada
e exagerada e até injusta em muitos aspectos contra o
Estado e contra as classes
dominantes.
Como o clero nessas ocasiões tomou uma atitude mais
favorável as classes
dominantes, o clero entrou também na lista, quer dizer,
passou também a ser
combatido e eis porque o socialismo em geral combate não
só combatia a aristocracia,
o clero, a burguesia e o Estado, combatia tudo e
naturalmente tinha que tender para a
massa, massa que se manobra sempre para as convulsões
sociais, que são a massa
dos servidores, aqueles que não tem nenhum papel
histórico senão este.
O socialismo foi-se a pouco e pouco estruturando até que
se estruturou em três
tipos de socialismo nitidamente claros: um socialismo de
caráter libertário, antiestatal,
desejando abolir as classes, não pregando a luta de
classes, mas abolir as
classes e estabelecer uma sociedade de iguais; um
socialismo democrático, que quis
democratizar o estado, transformando num órgão que
manifestasse a vontade popular,
as opiniões; e um socialismo de caráter totalitário,
único, exclusivista, que não
permitia as heterogeneidades humanas, que é o
totalitário.
No século passado a predominância dentro do campo
socialista era o socialismo
libertário, o socialismo democrático não tinha a mínima
influência, não era desprezível
porque era mínimo, o totalitário também não era grande,
mas era um pouco mais
numeroso, mas a grande massa era libertária.
Era a época em que surgiu os grandes líderes libertários
como foram Proudhon,
Kropotkine, Jean Grave, Hoover. Marx manifestou
simpatia, pretendia um cargo
administrativo na Saxonia, mas como era judeu, apesar de
ser casado com mulher
alemã, não conseguiu o cargo.
Então passou para a oposição e juntou-se com um grupo de
socialistas que
nesta época publicavam uma revista famosa na Alemanha
que foi a “Gazeta Renana”,
na qual passou a colaborar.
Nesta época começou a ter conhecimento das obras dos
socialistas franceses,
que eram libertários, sobretudo as obras de Proudhon, a
quem Marx saudou como um
pensamento científico do socialismo.
Não podendo manter-se na Alemanha devido as perseguições
políticas, exilouse
na França e aí procurou entrar em contato com Proudhon,
que era a figura que ele
mais admirava, que colocava como a suprema. Mas
aconteceu que Proudhon era um
homem muito sincero, muito franco e um homem que não
sabia esconder a sua
afetividade, e ele não gostou de Marx e tratou-o com
certa distância, e isto o magoou
profundamente.
Mais tarde Marx passou a renegar aquilo que havia dito,
começou a encontrar
defeitos em Proudhon, começou a achar que o pensamento
dele já não era científico,
não era o verdadeiro pensamento socialista, começou a
analisar somente os defeitos
da obra proudhoniana e surgiu então uma pequena cisão.
Marx com um pequeno grupo formou o grupo dos marxistas
que eram
totalitários, mais prussianos, seguindo mais os
princípios do socialismo alemão, de
organização mais militarizada, e Proudhon tinha um
sentido mais latino, mais
libertário, mais romântico.
De início, Marx não teve nenhuma influência, Proudhon
dominou e foi
dominando o socialismo até a guerra de 14 e 18. Enfim os
libertários fizeram a
revolução russa porque a revolução russa não é
bolchevista, os bolchevistas apenas se
aproveitaram.
No fim do século XIX houve um acontecimento
importantíssimo, foi quando se
fundou a Primeira Internacional, e na sua formação
apareciam, como figuras
fundamentais, Marx e Bakunin, sendo que este era a
figura predominante, e depois de
uma série de intrigas astuciosas e muito bem feitas (mas
muito indignas) a Primeira
Internacional não seguiu o seu verdadeiro destino e o
movimento socialista que era
unido, unificado no mundo inteiro foi destruído, porque
foi rompido, ficando uma ala
libertária e uma ala totalitário.
Daí é que se formou uma ala democrática tentando uma
conciliação entre os
dois lados, isto é, nem tanto a terra nem tanto ao mar,
nem muita liberdade, o Estado
não pode ser muito poderoso, etc., uma fórmula
intermédia. Mas Marx nunca pode
deixar de defender as teses libertárias, isto é, da
abolição do Estado, porque no fundo
o marxismo prega que a verdadeira realização do
comunismo é a abolição do Estado,
só se pode dar com a abolição do Estado.
Pregaram isto, mas eles não falam mais porque não lhes
convém, porque o
Estado está muito bem colocado. Naquela época, porém,
eles chegaram a essa
conclusão. Marx também admitia que a revolução social,
feita através do domínio do
proletariado que seria a ditadura do proletariado seria
por alcançar finalmente a
abolição do Estado, o desaparecimento das classes.
Sem o desaparecimento das classes também seria
impossível o Estado, porque
na interpretação marxista do Estado, este é uma espécie
de efeito, de subproduto da
divisão de classes e do domínio das classes na
sociedade, de maneira que o marxismo
formou-se assim, teve a sua história, longa história de
grandezas e de misérias.
Bom, vamos mais a um chavão de momentos extraordinários
e momentos
mesquinhos, tem a sua beleza e tem a sua fealdade,
gostaria também de fazer uma
palestra especial sobre um ponto importante, até trouxe
aqui um documento que
talvez poucos pessoas possuam no mundo.
Eu sabia que a pergunta viria mais dia menos dia, é a
“História da Associação
Internacional dos Trabalhadores da A.I.T.”, a única e
genuína representante dos
trabalhadores que ainda existe, e aqui está o processo
todo do famoso congresso que
deu a cisão do socialismo, que atrasou cem anos o
socialismo.Filosofia especulativa e filosofia prática
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