domingo, 11 de janeiro de 2009

MARIO FERREIRA DOS SANTOS - ( FILOSOFIA CONCRETA)

MARIO FERREIRA DOS SANTOS - ( FILOSOFIA CONCRETA)

MARIO FERREIRA DOS SANTOS - PALESTRAS- VII

bserva-se que desde os primórdios de sua formação todo ciclo cultural encontra-se entre o choque de dois núcleos de forças antagônicas: as que tem o seu ímpeto construtivo e proporcionais à solidez, e as que tem o ímpeto destrutivo, preparando as formas corruptivas.
Assim se fossemos estabelecer dentro da concepção aristotélica as causas formativas de um ciclo cultural teríamos: a causa material seria constituída pelo conjunto dos indivíduos que constituem as diversas gerações, e a causa formal seria a cosmovisão, a visão geral do mundo, que estrutura este ciclo.
Um aspecto precisa ser destacado: esta luta que perdura dentro do ciclo cultural e que também é intrinsecamente um conjunto de disposições prévias corruptivas, são os poderes que buscarão romper a coesão do ciclo e que podem muitas vezes e até em certos casos, prematuramente,
destruir um ciclo em formação, como já aconteceu na História. De maneira que se encontra como partes integrantes, essenciais de um ciclo cultural, inúmeros elementos genéricos e alguns
particulares, os específicos. Entre os primeiros temos o termo médio. Na Sociologia, é o termo
médio que vai dar a coesão de uma relação social, por exemplo, na família é a mãe o
termo médio. No caso das partes integrantes, essenciais, universais da sociedade, o termo
médio é o "consensus" que é constituído pela cosmovisão, pela teovisão, pela fé religiosa fundamental do ciclo cultural. Em outras partes integrantes, essenciais da
sociedade, genéricas, a autoridade do termo médio que coacta as partes, que dá o
atualizar-se tensional do ciclo cultural é constituído da comunidade de interesses
éticos, como os religiosos, sociológicos, ecumênicos, históricos, jurídicos, etc.
Entre os que são particulares temos a diferença específica dos elementos universais determinados, elementos examinados cada um em particular. Além destas partes integrantes, essenciais, a sociedade tem as integrantes acidentais, àquelas que são estritamente necessárias, que não fazem parte da essência do ciclo. Entre elas a componência étnica social que pode variar muito, o contorno ecológico e os interesses dinamicamente considerados que mudam segundo os grupos, segundo as diversas fases e os diversos períodos da sociedade. De forma que o desenvolvimento histórico de um ciclo social é sempre proporcionado à forma e à matéria que o constituem e suas possibilidades são, consequentemente, proporcionadas aos estágios da
atualização que possa vir a ter. Há uma série de possibilidades que pertencem ao futuro:
as prometeícas que podem atualizar-se e as não atualizadas, que vão constituir o
epimeteico. Assim ao colocar o ciclo cultural nas suas partes integrantes, quer essenciais, quer acidentais, forma-se uma polaridade adversa: de um lado o que consiste na preservação de um
desenvolvimento normal, do que integra a sociedade e, do outro lado, as disposições
prévias corruptivas, atuantes dinamicamente para corromper a sua integridade. Os elementos téticos são os que apoiam a integração da sociedade e, por sua vez, contrapõem-se aos que constituem as disposições prévias corruptivas. Na análise destes elementos integrantes encontra-se uma série de aspectos que salientamos analiticamente, abstraídos do conjunto da realidade e dão uma visão mais nítida do ciclo cultural. Por exemplo, a valorização do superior teológico, que é típico do primeiro período, do homem neste período como um termo médio para
ligar à divindade, valorização relativa ao inferior cósmico posto a disposição do homem. Estes aspectos são téticos, são positivos porque estruturam e dão força ao ciclo cultural.
Verifica-se a justificação da cosmovisão, da visão teocósmica, da microcósmica dentro do ciclo social que é mais forte no primeiro período e, sobretudo, na segunda fase e na terceira fase, porque é a época mais apologética, onde luta-se principalmente para fortalecer esta cosmovisão. O fundamental nesta fase é a salvação do homem inserido nas idéias religiosas que fazem parte
do ciclo. Consequentemente a esta visão do mundo, a esta teovisão, subordina-se todo o
conhecimento e é nesta época em que normalmente a Filosofia está subordinada a Teologia. Justifica-se a teovisão que é, no primeiro período, meramente religiosa. Já no fim do primeiro período ela exige o auxílio da Filosofia que dará os elementos a favor da cosmovisão religiosa.
É o período da escolasticidade, observado em todos os ciclos culturais, que passam do primeiro para o segundo período. Isto não quer dizer, absolutamente, que as forças antitéticas estejam amortecidas; ao contrário, estão ativas. Há uma luta dos elementos remanescentes de outros ciclos culturas ou os que foram incorporados ao novo ciclo ante a concepção religiosa. Observa-se que estas investidas antitéticas são muito fortes, inclusive àquelas que se constituem os
defensores da cosmovisão vigente; é o período das heresias, das idéias provindas de
outros setores que negam validez aos princípios fundamentais da nova cosmovisão emergente.
Analisando os aspectos antitéticos que se manifestam, observa-se a valorização excessiva dos aspectos cosmológicos em oposição da cosmovisão teológica ou seja uma luta para valorizar os valores antropológicos e, por outro lado, uma tendência a negar as possibilidades cognoscitivas do
homem. Surge, então, o cepticismo, o pragmatismo, o nihilismo e a valorização da Filosofia ante à Teologia e, sobretudo, a Filosofia Prática, a Ciência Prática, tomada apenas no seu aspecto
empirista. É quando se vai valorizar a razão humana, não para justificar propriamente as
tese que constituem o fundamento da cosmovisão religiosa, mas as tese que se opõem
àquela, as antíteses. Há uma valorização do empírico, do racional, negação constante das possibilidade do homem penetrar no Absoluto, a busca para separar a Filosofia
cada vez mais da Teologia e da Religião, separando a Ciência da Filosofia.
Processa-se o desenvolvimento acelerado da técnica e, finalmente, consegue-se
a separação da Ciência à Filosofia; o que já é próprio do segundo período e inicio do
terceiro. Antes de chegar ao período democrático há uma tendência predominantemente
panteísta, aos axiomas, aos princípios e postulados aceitos; a negação constante da
validez dos mesmos. Desenvolve-se o cepticismo, o agnosticismo, o criticismo, o
pragmatismo, o positivismo, o materialismo, o ficcionalismo, o nihilismo, o idealismo
até que, já no terceiro período, vai surgir uma reação romântica, mas desordenada,
que não poderá por si só salvar o que havia de positivo no ciclo cultural e exigirá
outras providências. Finalmente é quando as doutrinas filosóficas são, pouco a pouco, substituídas pelos postulados ideológicos. Surgem aí tendências ideológicas que dividem a sociedade, não
mais no pensamento filosófico, mas em ideologias que vão interessar mais a grupos
que propriamente à sociedade. A proporção que a parte tética se desenvolve na História, também se desenvolve a parte antitética, de forma que à proporção que a primeira justifica a sua posição em face das oposições, as antíteses são refutadas, demonstradas e até justificadas como
favorecendo a posição tética; imediatamente a posição antitética começa a combatêlas
ou seja tudo o que antes defendera. Mas utiliza outros representantes daqueles
poderes destrutivos dos ciclos sociais. Por exemplo: no princípio da formação teocrática do
ciclo cultural a base é toda feita na revelação divina, aceita-se como conhecimento aquela
cosmovisão que vai dar a forma ao ciclo social como alguma coisa revelada pela divindade, através de homens escolhidos. Por sua vez a parte antitética vai combater esta revelação, negando-a, afirmando que todo aquele conjunto que constitui a religião vai ser um
conjunto de mitos psicológicos em projeções ficcionais, etc. A dúvida é apresentada contra a validez dos postulados éticos em geral - dos que vão constituir a ética da nova concepção.
Há um indiferentismo muito grande em relação às idéias religiosas e surgem suspeitas
cépticas. O que caracteriza a parte antitética nesse período é a negação da validez da
revelação. Procura-se reduzir a Ética à Moral, afirmando-se que o nosso conhecimento
é apenas o que é dado pela experiência, fundado no empírico, racionalizado posteriormente.
A medida que o grupo que defende a parte construtiva e tética da sociedade demonstrar que esta parte empírico-racional é um fundamento filosófico, da própria concepção teológica, ou pode servir como fundamento filosófico da concepção teológica, imediatamente o lado antitético coloca
dúvidas sobre a capacidade abstratora da razão indo alcançar a negação da sua validez. Surge, então, o relativismo, o cepticismo, o criticismo, etc. Nesta fase busca-se negar o poder da razão para aceitar-se apenas o que constitui o experimental. Quanto a parte tética vai justificar que a
Metafísica se fundamenta na realidade dada pela experiência e na racionalização que
é fundada em bases reais, então a parte antitética nega também a ação abstratora
do homem e afirma que a própria realidade empírica é incaptável. O mundo é um conjunto de ficções que o homem cria. É natural que se duvide do conteúdo real dos conceitos e surja o nominalismo. As palavras são apenas nomes que se dão as coisas; a lógica torna-se uma lógica da
extensão, negam-se os princípios e o valor dos princípios de identidade, da contradição, de causalidade, da razão suficiente. Procura-se também negar o poder cognoscitivo do homem; o saber é puramente pragmático. Valoriza-se a posição positivista e o capitalismo é sistemático. Nega-se o valor a demonstração, às provas que vão se afirmar, por sua vez, dependem dos preconceitos prévios dados a priori ao homem que vai só classificar. Como o conceito implica
essência, a classe mais simples, porque ela apenas se funda nas semelhanças acidentais e não essenciais, busca substituir o conceito dizendo que o homem apenas alcança o classificatório; porque a conceituação implicaria a penetração no essencial, o que lhe está vedado. O problema da revelação, que era o fundamental de todos os ciclos, passa a ser secundário. A salvação do homem só se pode dar dentro do campo cósmico. A solução só pode caber às disciplinas que constituem a Ética, como a Sociologia, a Economia, a Política. A Filosofia é colocada em dúvida e as vezes chega a ser negada; a Ciência Especulativa também o é e a própria Ciência Prática perde a sua
força. Fortalece-se uma Ciência Pragmática, meramente classificatória, como modernamente
se observa na valorização extremada do protocolar. Neste momento o aspecto antitético atinge seu fim porque depois disto não lhe resta mais nada a não ser cair no nihilismo. É neste terceiro
período que se desenvolve mais a parte antitética, que as lutas ideológicas surgem porque, se os problemas não são econômicos, são políticos, são sociológicos e são estas posições que devem
prevalecer. É quando se constróem ideologias, as quais prometem alcançar através de
determinados fins a salvação, porém esta só será alcançada neste mundo e não em
outro. A posição antitética predomina neste período e é precisamente quando se dão
os ataques à posição tética. Esta é abalada nos seus fundamentos fazendo surgir uma
nova certeza, uma nova convicção, fundada no próprio conhecimento, na experiência humana, que é revelada através de homens superiores que estruturam as novas possibilidades. Estas se ligam numa forma tensional e serve de cosmovisão para o novo ciclo cultural que se inicia.
No decorrer desta luta observa-se uma série de aspectos de grande importância, por
exemplo: toda posição tética que defende a cosmovisão do ciclo cultural é uma posição
afirmativa, e as filosofias que se formam são sempre de afirmação. Já na posição
antitética, que é sempre negativa, as filosofias correspondentes são de negação. As
primeiras interessam, sobretudo, em afirmar-se, em postular e demonstrar; as
segundas negam, e também negam a validez a todos os meios demonstrativos.
Quer dizer que há uma dinâmica no decorrer dos ciclos, porque a cada posição afirmativa corresponde uma acomodação à esta posição adversa pela formação de uma concepção que cai no extremo contrario. Por exemplo: ao excesso de racionalismo observa-se o excesso do romantismo, do irracionalismo romântico. Ao excesso deste surgiu a fenomenologia moderna e outras concepções que vão buscar opor-se a este aspecto negativo.
Há uma constante luta, uma constante adversidade, no desenvolvimento dos períodos com as fases que não se processam sem que esteja presente esta dinâmica de acomodação às condições adversas, tanto do lado tético como do lado antitético.
-------- Mário Ferreira dos Santos, filósofo brasileiro,
nasceu na cidade de Tietê, em São Paulo, em 1907.Autodidata, desenvolveu sua obra filosófica à margem dos círculos universitários brasileiros. Quantidade pode não ser o melhor critério para julgar um pensamento filosófico, mas neste caso os números espantam.
São mais de quarenta volumes publicados, cerca de dez mil páginas, tratando de todos os ramos da filosofia – da ética à teoria do conhecimento, passando pela análise de temas econômicos e sociais. Para completar, textos sobre temas contemporâneos, como o domínio cultural, política libertária e a influência estrangeira na cultura brasileira. Nas livrarias é possível encontrar apenas três títulos – um sobre Pitágoras, um sobre Platão e outro sobre o Cristianismo. São a ponta do iceberg. Seu pensamento concilia influências diversas - Leibnitz, Sto. Tomás, Hegel, mas sobretudo Pitágoras e Nietzsche - em uma síntese original. Militante anarquista, desenvolveu uma filosofia política baseada na liberdade da consciência individual. Faleceu em 1968, em São Paulo.

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