domingo, 11 de janeiro de 2009

Da incoerência de nossas ações - Montaigne

Da incoerência de nossas ações - Montaigne
Michel de Montaigne
Ensaios, Livro II, Capítulo I
Da incoerência de nossas ações
Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando

procuram agrupar e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se

contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo. Mário, o

Jovem, ora parece filho de Marte ora filho de Vênus. Dizem que o Papa Bonifácio VII assumiu

o papado como uma raposa, conduziu-se como um leão e morreu como um cão. E quem diria que

Nero, essa verdadeira imagem da crueldade, como lhe apresentassem para ser assinada, de

acordo com a lei, a sentença contra um criminoso, observou: – Prouvera a Deus que eu não

soubesse escrever! – tanto lhe apertava o coração condenar um homem à morte. Há tantos

exemplos semelhantes, e tão facilmente os encontrará sozinho quem quiser, que estranho ver

por vezes gente de bom senso procurando juntar tais contradições, mesmo porque a irresolução

me parece ser o vício mais comum e evidente de nossa natureza, como o atesta este verso de

Públio, o satírico: “Má opinião, a de que não se pode mais mudar.”
É aparentemente possível julgar um homem pelos fatos mais comuns de sua vida; mas, dada a

instabilidade natural de nossos costumes e opiniões, pareceu-me muitas vezes que os melhores

autores erravam em se obstinar a dar de alguém uma idéia bem assentada e lógica. Adotam um

princípio geral e de acordo com este ordenam e interpretam as ações, tomando o partido de as

dissimular quando não as deformam para que entrem dentro do molde preconcebido. O imperador

Augusto escapou-lhes; deparamos nesse homem com uma tal flagrante diversidade de ações, tão

inesperada e contínua no decurso de sua existência, que os mais ousados juízes, renunciando

a julgá-lo em seu conjunto, tiveram de deixá-lo assim indefinido. Acredito que a constância

seja a qualidade mais difícil de se encontrar no homem, e a mais fácil a inconstância. Quem

os julgasse pormenorizadamente de acordo com seus atos, um por um, estaria mais apto a dizer

a verdade a seu respeito.
Fora difícil encontrar em toda a antigüidade uma dúzia de homens que tenham orientado sua

vida em obediência a determinado princípio, o que é o fim principal da sabedoria. A qual,

segundo um autor antigo [Sêneca], se resume em uma frase que enfeixa, em uma só, todas as

regras da vida: “querer e não querer são sempre a mesma e a única coisa”. E poderia

acrescentar: à condição de que o que queremos ou não queremos seja justo, pois, se não o é,

impossível se faz que permaneça constantemente a mesma coisa. Efetivamente, que o vício nada

mais é senão desregramento e falta de medida e por conseguinte não o podemos imaginar

constante. Atribui-se a Demóstenes a seguinte máxima: a virtude, qualquer que seja, consiste

de início em recolhimento e deliberação; a constância, a seguir, comprova-lhe a perfeição.

Em refletindo seguimos sempre o melhor caminho, mas ninguém pensa antes de agir. “Desdenha o

que pediu, volta ao que largou e, sempre hesitante, contradiz-se sem cessar” (Horácio).
Nossa maneira habitual de fazer está em seguir os nossos impulsos instintivos para a direita

ou para a esquerda, para cima ou para baixo, segundo as circunstâncias. Só pensamos no que

queremos no próprio instante em que o queremos, e mudamos de vontade como muda de cor o

camaleão. O que nos propomos em dado momento, mudamos em seguida e voltamos atrás, e tudo

não passa de oscilação e inconstância. “Somos conduzidos como títeres que o fio manobra”

(Horácio).
Não vamos, somos levados como objetos que flutuam, ora devagar, ora com violência, segundo o

vento: “Acaso não vemos todo mundo indeciso; uns procurando sem descontinuar, outros mudando

de lugar, como para largar uma carga pesada demais?”(Lucrécio). Cada dia nova fantasia, e

movem-se as nossas paixões de acordo com o tempo: “o pensamento dos homens assemelha-se na

terra aos cambiantes raios de luz com que Júpiter a fecunda”(Cícero).
Hesitamos em tomar partido; nada decidimos livremente, de maneira absoluta, coerente. Se

alguém traçasse e estabelecesse determinadas leis de conduta e regime político de vida,

veríamos brilhar em seus atos e atitudes uma harmonia cabal e em seus costumes uma ordem e

uma correlação evidentes. Empédocles observa a seguinte contradição entre os agrigentinos:

alguns se entregam aos prazeres como se devessem morrer no dia seguinte e outros edificam

como se a vida não tivesse de acabar jamais. O plano de vida fora entretanto fácil de se

estabelecer, como se vê em Catão, o Jovem: quem nele toca uma tecla, toca todas, pois há

nele uma harmonia de sons bem afinados que nunca se entrechocam. Não seguimos, nós outros,

tão sábio exemplo e cada uma de nossas ações decorre de um juízo específico. E na minha

opinião seria melhor procurar-lhes as causas nas circunstâncias do momento sem mais

aprofundada pesquisa e sem tirar delas quaisquer conseqüências.
Durante as desordens que agitaram nosso pobre país, disseram-me que uma jovem, bem perto do

local onde eu me encontrava, se jogara pela janela a fim de escapar à brutalidade de um

soldado que hospedava. Não teve morte instantânea e para se acabar tentou cortar o pescoço

com uma faca, o que não a deixaram fazer. Nesse triste estado, confessou que o soldado nada

mais fizera do que lhe declarar seu amor, solicitá-la e presenteá-la, mas ela temera que

chegasse a violentá-la. Daí seus gritos, sua atitude, o sangue derramado, como se se

tratasse de uma nova Lucrécia. Entretanto, eu soube que antes e depois dessa ocorrência

sempre se mostrou muito menos arisca. Como dizem por aí, “por mais belo e decente que sejas,

se não és aceito pela tua amada, não concluas, sem mais amplas informações, ser ela de uma

castidade a toda prova; isso não impede que o arrieiro tenha a sua possibilidade”.
Antígono, que se afeiçoara a um de seus soldados por causa de sua valentia e coragem, mandou

que o médico tratasse de uma doença que o atormentava havia muito. Observando, após a cura,

que o homem se expunha muito menos nos combates, perguntou qual a razão dessa mudança que o

tornara poltrão: “Vós mesmo, Sire, porquanto me libertastes dos males que faziam com que eu

não apreciasse a vida.”
Um soldado de Luculo fora roubado pelo inimigo. Para se vingar executou contra ele um golpe

de mão notável, amplamente compensador de seus prejuízos. Luculo que ficara com excelente

opinião dele quis empregá-lo em uma arriscada expedição e, afim de decidi-lo, usava todos os

meios de persuasão, “com palavras capazes de entusiasmar os mais tímidos”(Horácio). Mas o

soldado atalhou: “Mandai algum soldado miserável que tenha sido roubado.” E recusou

peremptoriamente. Como diz Horácio: “Irá quem tiver perdido a bolsa.”
Maomé II admoestara violentamente Chasan, chefe de seus janízaros cuja tropa fora desfeita

pelos húngaros, sendo que se conduzira ele próprio covardemente durante o combate. Como

única resposta, Chasan, sozinho, sem precisar de ninguém, precipitou-se furioso, espada na

mão, contra o primeiro pelotão inimigo que percebeu e desapareceu em poucos instantes como

se fora por ele tragado. Nesse ato, parece que foi movido menos pelo desejo de se reabilitar

do que em virtude de uma reviravolta em seus sentimentos: Não agia sob o impulso da coragem

moral e sim por despeito. Quem ontem vistes tão temerário, não vos espanteis em vê-lo

poltrão no dia seguinte. A cólera, a necessidade, a companhia ou o vinho, ou o som de uma

trombeta, terão feito de suas tripas coração. Não foi o raciocínio que lhe deu coragem:

foram as circunstâncias. Não nos espantemos, pois, de ver que mudou ao mudarem elas. Essa

variação e essa contradição, tão comuns em nós, levaram muitas pessoas a pensar que

possuímos duas almas, ou duas forças que atuam cada qual num sentido, uma no sentido do bem

e outra no do mal. Uma só alma e uma só força não poderiam conciliar-se com tão repentinas

variações de sentimentos.
Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo

me agito e perturbo em conseqüência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se

examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um

aspecto, ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras

é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como

na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno,
trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero,

sábio, ignorante, liberal e avarento, e pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança

que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e

até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a

mim um juízo completo, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra.

“Distingo” é o termo mais encontradiço em meu raciocínio.
Embora acredite sempre que é preciso falar bem do que é justo e interpretar com simpatia o

que a tal juízo se presta, nossa condição é tão singular que não raro o próprio vício nos

impele a bem fazer (se o bem não se julgasse unicamente pela intenção que o determina). Daí

não se dever tirar de um ato corajoso a conclusão de que um valente o praticou. Valente será

efetivamente quem o for sempre em todas as ocasiões. Se fosse um hábito e não u gesto

imprevisto, a virtude faria que um homem mostrasse sempre igual resolução; seria o mesmo, só

ou acompanhado, na justa como no campo de batalha. Suportaria esse homem, com igual atitude

uma enfermidade em seu leito e um ferimento na guerra e não temeria mais a marte em seu lar

do que em um assalto. Não o veríamos lançar-se através de uma brecha com insopitável bravura

e em seguida chorar como uma mulher a perda de um processo ou de um filho; ser covarde

diante da infâmia e resoluto na miséria, ter medo da navalha do barbeiro e desafiar a espada

do adversário. Em tais casos, a ação é louvável, não o homem. Há gregos, diz Cícero, que

tremem à vista do inimigo e se mostram tenazes quando enfermos, e tem-se o inverso nos

cimbros e nos celtiberos: “Nada pode ser estável se não parte de um princípio

sólido”(Cícero).
Não há maior valentia, no gênero, do que a de Alexandre, o Grande, e no entanto não se

verifica em tudo. Por incomparável que seja, tem suas falhas, o que o faz perturbar-se à

mais insignificante suspeita de conjuras e o leva a incrível e absurda crueldade na

repressão e a temores em nada compatíveis com sua apreciação habitual das coisas. A

superstição que lhe era peculiar participa também da pusilanimidade, e a exagerada

penitência que se impõe a si mesmo após o assassínio de Clito prova igualmente a

desigualdade de sua coragem. Somos um amontoado de peças juntadas inarmonicamente e queremos

que nos honrem quando não o merecemos. A virtude vale por si mesma; se para outro fim

tomamos a sua máscara, logo ela no-la arranca da cara. Quando nossa alma se impregna dela,

forma ela uma espécie de verniz fortemente adesivo que só se tira com a própria pele. Eis

por que para julgar um homem é preciso seguir suas pegadas, penetrar sua vida, e se não

deparamos com a constância alicerçando seus atos, “com um plano de vida bem ponderado e

previsto”(Cícero), se sua marcha, ou antes, seu caminho (pois é lícito acelerar ou diminuir

o passo) se modifica segundo as circunstâncias, abandonemo-lo. Como a ventoinha gira de

acordo com o vento, assim reza a divisa de nosso Talbot.Não é de espantar, diz um autor

antigo, que o acaso tenha tanta força sobre nós, pois por causa dele é que existimos. Quem

não orientou sua vida, de um modo geral, em determinado sentido, não pode tampouco dirigir

suas ações. Não tendo tido nunca uma linha de conduta, não lhe será possível coordenar e

ligar uns aos outros os atos de sua existência. De que serve fazer provisão de tintas se não

se sabe que pintar? Ninguém determina do princípio ao fim o caminho que pretende seguir na

vida; só nos decidimos por trechos, na medida em que vamos avançando. O archeiro precisa

antes escolher o alvo; só então prepara o arco e a flecha e executa os movimentos

necessários; nossas resoluções se perdem porque não temos um objetivo determinado. O vento

nunca é favorável a quem não têm um porto de chegada previsto. Não estou de acordo com o

juízo que se fez, ao assistir a uma tragédia de Sófocles, declarando-o, contra a opinião de

seu filho, capaz de administrar seus bens. Não acho tampouco muito mais lógico o que fizeram

os párias enviados com missão de reformar o governo dos milésios. Depois de visitar a ilha,

observando o cultivo cuidadoso da terra, a boa ordem das propriedades, e registrando os

nomes dos proprietários, considerando que a atenção e a eficiência demonstradas na

administração de seus negócios particulares eram uma garantia de que de igual modo iam gerir

os negócios do Estado.
Somos todos constituídos de peças e pedaços juntados de maneira casual e diversa, e cada

peça funciona independentemente das demais. Daí ser tão grande a diferença entre nós mesmos

quanto entre nós e outrem: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-se como um só

homem”(Sêneca). Se a ambição pode impelir o homem a ser valente, sóbrio, liberal e mesmo

justo, se a avareza pode dar coragem a um caixeiro criado no ócio e na indolência e

infundir-lhe bastante confiança para que se lance à aventura em frágil navio, à mercê de

Netuno, e lhe ensina a discrição e a prudência; se a própria Vênus arma de resolução a

audácia o jovem ainda sob a autoridade paterna, e faz com que se mostre impudica a virgem de

coração terno ainda sob a égide de sua mãe:
“Passando furtivamente entre os guardas que dormem, protegida por Vênus, vai a jovem

sozinha, dentro da noite, juntar-se a seu amante”(Tibulo), se assim é, não deve um espírito

refletido julgar-nos pelos nossos atos exteriores; cumpre-lhe sondar as nossas consciências

e ver os móveis a que obedecemos. É uma tarefa elevada e difícil e desejaria por isso mesmo

que menor número de pessoas se dedicassem a ela.
Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592)
(In: Ensaios, Michel de Montaigne; tradução de Sérgio Milliet, 2. ed. São Paulo: Abril

Cultural, 1980, pp. 159-162)

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