Michael Patton
O Guia Destinado a Não-Filósofos para «Os Homens Maus Podem Levar Cérebros Bons a Fazer
Coisas Más?»
(ou Por que Razão Alguém Acha que Isto Tem Graça?)
Considere o seguinte caso:
Na Terra Gémea, um cérebro numa cuba está ao volante de um trólei em movimento. Ao
aproximar-se de uma bifurcação, o cérebro vê que só dispõe de duas opções: ou vai para a
linha direita ou vai para a linha esquerda. Não há qualquer maneira de parar ou fazer
descarrilar o trólei e o cérebro está consciente disso, pois o cérebro conhece tróleis. O
cérebro está causalmente conectado ao trólei de tal maneira que o cérebro pode determinar o
caminho que o trólei vai seguir.
Na linha direita há um único trabalhador ferroviário, Jones, que morrerá de certeza se o
cérebro desviar o trólei para a direita. Se o trabalhador que está à direita não morrer, irá
matar cinco homens simplesmente porque lhe apetece matá-los, mas ao matá-los salvará
inadvertidamente a vida de trinta órfãos (um dos cinco homens que ele matará está a planear
destruir uma ponte que o autocarro dos órfãos irá atravessar nessa noite). Se não for morto,
na vida adulta um dos órfãos tornar-se-á um tirano que levará homens utilitaristas bons a
fazer coisas más. Outro dos órfãos crescerá e tornar-se-á G. E. M. Anscombe, e um terceiro
inventará as latas de refrigerantes.
Se o cérebro numa cuba escolher ir para a linha esquerda, o trólei atingirá e matará de
certeza o trabalhador ferroviário que está na linha esquerda, «Esquerdino». Também atingirá
e destruirá dez corações vivos que estão na linha, que poderiam ser (e seriam)
transplantados para dez pacientes do hospital mais próximo que morrerão na ausência de
corações de doadores. Estes são os únicos corações disponíveis, e o cérebro está consciente
disto, pois o cérebro conhece corações. Se o trabalhador que está na linha esquerda
sobreviver, também ele matará cinco homens – na verdade, os mesmos cinco homens que o
trabalhador da linha direita mataria. No entanto, no caso de «Esquerdino» a morte dos cinco
homens será uma consequência não pretendida de salvar dez homens: ele matará
inadvertidamente os cinco homens enquanto corre para o hospital mais próximo de modo a
entregar os corações a tempo. O acto de «Esquerdino» terá ainda outro resultado: o autocarro
dos órfãos será poupado. Entre os cinco homens que «Esquerdino» matará contam-se o homem
responsável por ter posto o cérebro a conduzir o trólei e a autora deste exemplo. Se os dez
corações e «Esquerdino» forem destruídos pelo trólei, os dez pacientes a aguardar um
transplante de coração morrerão e os seus rins serão utilizados para salvar a vida de vinte
pacientes que aguardam um transplante de rim – um deles descobrirá a cura do cancro quando
for crescido, e outro tornar-se-á Hitler. Existem outros rins e máquinas de hemodiálise, mas
o cérebro não conhece rins, e por isso este não é um factor a ter em conta.
Presuma que a escolha do cérebro, seja ela qual for, será tomada como exemplo por outros
cérebros em cubas e que assim os efeitos da sua decisão serão ampliados. Presuma também que
se o cérebro escolher a linha direita isso resultará numa guerra injusta sem crimes de
guerra, enquanto que se o cérebro escolher a linha esquerda isso resultará numa guerra justa
com crimes de guerra. Além disso, há um génio cartesiano intermitentemente activo que ilude
o cérebro de tal maneira que este nunca sabe se está a ser iludido.
Questão: O que deve fazer o cérebro?
Exemplo alternativo: O mesmo que o anterior, só que desta vez o cérebro foi sujeito a uma
comissurotomia: agora a metade esquerda do cérebro é consequencialista, mas a metade direita
é absolutista.
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quarta-feira, 9 de abril de 2008
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