FALSA MEMÓRIA
Em 1986, Nadean Cool, uma ajudante de enfermagem em Wisconsin, procurou ajuda terapêutica de
um psiquiatra para auxiliá-la a superar um evento traumático experimentado pela sua filha.
Durante a terapia, o psiquiatra usou hipnose e outras técnicas sugestivas para trazer à tona
recordações de abuso que Cool supostamente teria experimentado. No processo, Cool foi
convencida de que ela tinha memórias reprimidas de ter estado em um culto satânico, de comer
os bebês, de ser estuprada, de ter sexo com animais e de ser forçada a assistir o
assassinato da sua amiga de oito anos. Ela chegou a acreditar que teve mais de 120
personalidades - crianças, adultos, anjos e até mesmo um pato - tudo isso porque lhe foi
dito que ela havia passado por severo abuso sexual e físico na infância. O psiquiatra também
executou exorcismos nela, um dos quais durou cinco horas e incluiu o uso de água benta e
gritos para Satanás deixar o seu corpo.
Quando Cool percebeu finalmente que aquelas falsas recordações foram implantadas, ela
processou o psiquiatra por negligência profissional. Depois de cinco semanas de julgamento,
o caso dela foi resolvido fora do tribunal por 2,4 milhões de dólares em março de 1997.
Nadean Cool não é a única paciente a desenvolver falsas recordações como resultado de uma
terapia questionável. Em 1992 no Missouri, um conselheiro de igreja ajudou Beth Rutherford a
se lembrar, durante terapia, que o seu pai, um clérigo, a tinha estuprado regularmente dos
sete aos catorze anos e que a sua mãe às vezes o ajudava segurando-a. Sob a direção do
terapeuta, Rutherford desenvolveu recordações de seu pai engravidando-a duas vezes e
forçando-a a abortar o feto ela mesma com um cabide. O pai teve que resignar do posto de
clérigo quando as alegações se tornaram públicas. Mais tarde um exame médico da filha
revelou, porém, que ela ainda era virgem aos 22 anos e nunca tinha estado grávida. A filha
processou o terapeuta e recebeu 1 milhão de dólares de indenização em 1996.
Aproximadamente um ano antes, dois júris apresentaram vereditos desfavoráveis a um
psiquiatra de Minnesota, o qual foi acusado de implantar falsas recordações pelos seus
ex-pacientes Vynnette Hamanne e Elizabeth Carlson que submetidos à hipnose e ao amytal
sódico1, e depois de serem mal informados sobre os funcionamentos da memória, vieram a se
lembrar de horroroso abuso por membros da família. Os jurados compensaram Hammane com 2,67
milhões e Carlson com 2,5 milhões de dólares pelos seus sofrimentos.
Em todos os quatro casos, as mulheres desenvolveram recordações sobre abuso infantil na
terapia e posteriormente negaram a sua autenticidade. Como nós podemos determinar se
recordações de abuso infantil são verdadeiras ou falsas? Sem corroboração, é muito difícil
de diferenciar entre falsas e verdadeiras recordações. Também, nestes casos, algumas
recordações eram contrárias à evidência física, como memórias explícitas e detalhadas de
estupro e aborto quando o exame médico confirmava virgindade. Como é possível as pessoas
adquirirem falsas recordações tão elaboradas e seguras? Um número crescente de investigações
demonstra que sob circunstâncias adequadas falsas recordações podem ser instiladas muito
facilmente em algumas pessoas.
Minha própria pesquisa em distorção de memória remonta ao início dos anos 70, quando iniciei
os estudos do "efeito da informação incorreta". Estes estudos mostram que quando as pessoas
que testemunham um evento são posteriormente expostas a informação nova e enganosa sobre
ele, as suas recordações freqüentemente se tornam distorcidas. Em um exemplo, participantes
viram um acidente de automóvel simulado em um cruzamento com um sinal de Pare. Depois do
ocorrido, metade dos participantes recebeu uma sugestão de que o sinal de tráfego era um
sinal de passagem preferencial. Quando perguntados posteriormente que sinal de tráfego eles
se lembravam de ter visto no cruzamento, os que haviam sido sugestionados tendiam a afirmar
que tinham visto um sinal de passagem preferencial. Aqueles que não tinham recebido a falsa
informação eram muito mais precisos na lembrança do sinal de tráfego.
Meus estudantes e eu administramos até agora mais de 200 experiências envolvendo mais de
20.000 indivíduos que documentam como a exposição à informação enganosa induz à distorção de
memória. Nestes estudos, pessoas "recordaram" um celeiro digno de nota numa cena bucólica
que não continha nenhum edifício; vidro quebrado e gravadores de fita que não estavam nas
cenas que viram; um veículo branco em vez de azul na cena de um crime; e Minnie Mouse quando
eles na verdade viram Mickey Mouse. Considerados em conjunto, estes estudos mostram que a
informação enganosa pode mudar a memória de um indivíduo de um modo previsível e às vezes
muito poderoso.
A informação enganosa tem o potencial de invadir nossas recordações quando falamos com
outras pessoas, quando somos interrogados sugestivamente ou quando lemos ou vemos a
cobertura da mídia sobre algum evento que podemos ter experienciado nós mesmos. Depois de
mais de duas décadas explorando o poder da informação enganosa, pesquisadores aprenderam
muita coisa sobre as condições que fazem as pessoas suscetíveis à modificação da memória. As
recordações são mais facilmente modificadas, por exemplo, quando a passagem de tempo permite
o enfraquecimento da memória original.
Falsas Memórias Infantis
Uma coisa é mudar um detalhe ou dois numa memória intacta mas outra totalmente diferente é
implantar uma falsa memória de um evento que nunca aconteceu. Para estudar a falsa memória,
eu e meus estudantes tivemos de achar um modo de implantar uma pseudomemória que não
causasse nos nossos participantes tensão emocional imprópria, tanto no processo de criá-la
quanto na revelação de que eles tinham sido enganados intencionalmente. Nós quisemos ainda
tentar implantar uma memória que seria pelo menos ligeiramente traumática se a experiência
tivesse ocorrido de fato.
Eu e minha parceira de pesquisa, Jacqueline E. Pickrell, concordamos em tentar implantar uma
memória específica de estar perdido em um shopping center ou em uma grande loja de
departamentos ao redor dos cinco anos. Aqui está como fizemos isto. Nós perguntamos para
nossos participantes, 24 indivíduos dos 18 aos 53 anos, para tentarem se lembrar de eventos
de infância que tinham sido contados a nós por um pai, um irmão mais velho ou outro parente
próximo. Nós preparamos uma brochura para cada participante contendo estórias de um
parágrafo sobre três eventos que haviam acontecido de fato a ele ou a ela e um que não
havia. Nós construímos o falso evento sobre um possível passeio ao shopping usando
informação provida por um parente, o qual verificou também se o participante não havia
estado, de fato, perdido aos cinco anos. O enredo de "perdido no shopping" incluiu os
seguintes elementos: perdido durante um período prolongado, choro, ajuda e consolo por uma
mulher idosa e, finalmente, a reunião com a família.Depois de ler cada história da brochura,
os participantes escreveram sobre o que eles se lembravam do evento. Se eles não se
lembrassem dele, eram instruídos a escrever, "eu não me lembro disto". Em duas entrevistas
seguidas, nós falamos aos participantes que estávamos interessados em examinar o quanto de
detalhe que eles podiam se lembrar e comparar as recordações deles com as dos seus parentes.
Os parágrafos sobre o evento não foram lidos literalmente a eles, em vez disso foram
fornecidos trechos para sugerir a lembrança. Os participantes recordaram aproximadamente 49
dos 72 eventos verdadeiros (68 %) logo depois da leitura inicial da brochura e também em
cada uma das duas entrevistas seguidas. Depois de lerem a brochura, sete dos 24
participantes (29 %) lembraram-se tanto parcialmente como totalmente do falso evento
construído para eles, e nas duas entrevistas seguidas seis participantes (25 %) continuaram
afirmando que eles se lembravam do evento fictício. Estatisticamente, havia algumas
diferenças entre as verdadeiras e as falsas recordações: participantes usaram mais palavras
para descrever as verdadeiras recordações, e eles avaliaram as verdadeiras recordações como
estando um pouco mais claras. Mas se um espectador fosse observar muitos de nossos
participantes descreverem um evento, seria realmente difícil para ele dizer se a estória era
uma recordação verdadeira ou falsa. Claro que, estar perdido, por mais assustador, não é o
mesmo que ser molestado. Mas o estudo de "perdido no shopping" não é sobre experiências
reais de estar perdido; é sobre implantar falsas memórias de estar perdido. O modelo mostra
um modo de instalar falsas recordações e dá um passo em direção ao entendimento de como isto
poderia acontecer no mundo real. Além disso, o estudo fornece evidência de que as pessoas
podem ser conduzidas a se lembrarem do seu passado de modos diferentes, e elas podem até
mesmo serem persuadidas a se "lembrar" de eventos completos que nunca aconteceram.
Estudos em outros laboratórios usando um procedimento experimental semelhante produziram
resultados semelhantes. Por exemplo, Ira Hyman, Troy H. Husband e F. James Billing da
Western Washington University pediram para estudantes de faculdade que recordassem
experiências de infância que haviam sido contadas pelos seus pais. Os pesquisadores disseram
aos estudantes que o estudo era a respeito de como as pessoas se lembram das mesmas
experiências de modo diferente. Além de eventos reais reportados pelos pais, foi dado a cada
participante um evento falso, seja uma hospitalização à noite devido a uma febre alta e a
uma possível infecção de ouvido, ou uma festa de aniversário com pizza e palhaço que
supostamente aconteceram aos cinco anos. Os pais confirmaram que nenhum desses eventos
ocorreu de verdade.Hyman descobriu que os estudantes recordaram completa ou parcialmente 84
% dos eventos verdadeiros na primeira entrevista e 88 % na segunda entrevista. Nenhum dos
participantes recordou o evento falso durante a primeira entrevista, mas 20 % disseram na
segunda entrevista que se lembravam de algo sobre o evento falso. Um participante que foi
exposto à história da hospitalização de emergência mais tarde se lembrou de um médico, de
uma enfermeira e de um amigo da igreja que veio visitá-lo no hospital. Em um outro estudo,
Hyman apresentou junto com eventos verdadeiros, diferentes eventos falsos, como derramar
acidentalmente uma tigela de ponche nos pais da noiva numa recepção de casamento ou ter que
abandonar um supermercado quando o sistema de irrigação contra fogo ativou-se
acidentalmente. Novamente, nenhum dos participantes recordou o falso evento durante a
primeira entrevista, mas 18 % se lembraram de algo a respeito na segunda entrevista. Por
exemplo, durante a primeira entrevista, um participante, quando perguntado a respeito do
casamento fictício, declarou, "eu não tenho nenhuma idéia. Eu nunca ouvi isso antes". Na
segunda entrevista, o participante disse, "era um casamento ao ar livre, e eu acho que
estávamos correndo e derrubamos alguma coisa como uma tigela de ponche ou algo parecido e
fizemos uma grande bagunça e, é claro, fomos repreendidos por isto."
Inflação da Imaginação
A descoberta de que uma sugestão externa pode conduzir à construção de falsas recordações
infantis nos ajuda a entender o processo pelo qual as falsas recordações surgem. É natural
querer saber se esta pesquisa é aplicável em situações reais como a de ser interrogado por
um oficial da lei ou na psicoterapia. Embora uma sugestão enfática pode não acontecer
habitualmente em um interrogatório policial ou na terapia, a sugestão na forma de um
exercício imagético às vezes o faz. Por exemplo, quando tentando obter uma confissão,
oficiais da lei podem pedir para um suspeito que imagine ter participado de um ato
criminoso, e alguns profissionais de saúde mental encorajam os pacientes a imaginar eventos
infantis como um modo de recuperar memórias supostamente escondidas.
Pesquisas de psicólogos clínicos revelam que 11 % deles instruem seus clientes "a deixarem a
imaginação correr solta" e 22 % dizem para seus clientes "dar rédea livre à imaginação". A
terapeuta Wendy Maltz, autora de um livro popular sobre abuso sexual infantil, defende que
se dê a seguinte recomendação ao paciente: "Gaste tempo imaginando que você foi abusado
sexualmente, sem se preocupar que a exatidão prove qualquer coisa, ou ter que fazer suas
idéias terem sentido....Pergunte a si mesmo...estas questões: Que hora do dia é agora? Onde
você está? Em um lugar fechado ou ao ar livre? Que coisas estão acontecendo? Há uma ou mais
pessoas com você?" Maltz adicionalmente recomenda que os terapeutas continuem fazendo
perguntas como "Quem teria sido o provável responsável? Quando você foi mais vulnerável ao
abuso sexual em sua vida?"
O uso crescente de tais exercícios de imaginação conduziu a mim e a vários colegas a se
perguntarem sobre as suas conseqüências. O que acontece quando as pessoas imaginam
experiências infantis que não aconteceram? Imaginar um acontecimento na infância aumenta a
convicção de que realmente aconteceu? Para explorar isto, nós projetamos um procedimento de
três fases. Nós primeiro pedimos aos participantes que indicassem a probabilidade de que
certos eventos aconteceram a eles durante a infância. A lista contém 40 eventos, cada um
classificado numa escala variando de "definitivamente não aconteceu" a "sem dúvida
aconteceu". Duas semanas mais tarde nós pedimos aos participantes que imaginassem que haviam
experienciado alguns destes eventos. Foi pedido a diferentes indivíduos que imaginassem
diferentes eventos. Algum tempo depois foi pedido aos participantes que respondessem à lista
original de 40 eventos infantis novamente, indicando quão provável estes eventos realmente
aconteceram a eles. Considere um dos exercícios de imaginação: é dito aos participantes que
imaginem brincar dentro de casa depois da escola, ouvindo então um ruído estranho do lado de
fora, correndo para a janela, tropeçando, caindo, e alcançando e quebrando a janela com as
suas mãos. Além disso, nós perguntamos aos participantes coisas como "No que você tropeçou?
Como você se sentia?" Em um estudo 24 % dos participantes que imaginaram a cena da janela
quebrada relataram mais tarde um aumento de confiança de que o evento havia acontecido,
enquanto que aqueles aos quais não foi pedido imaginar o incidente apenas 12 % relataram um
aumento na probabilidade de que havia ocorrido. Nós descobrimos este efeito da "inflação da
imaginação" em cada um dos oito eventos que os participantes imaginaram a nosso pedido.
Várias explicações possíveis vêm à mente. Uma óbvia é de que o ato de imaginar simplesmente
faz o evento parecer mais familiar e essa familiaridade é relacionada erroneamente às
recordações de infância ao invés de ser relacionada ao ato de imaginar. Tal confusão de
fonte, quando uma pessoa não se lembra da fonte de informação, pode ser especialmente
intensa para as distantes experiências da infância.
Os estudos de Lyn Giff e de Henry L. Roediger III da Universidade de Washington sobre
recente experiências ao invés de experiências infantis, conectam de forma mais direta as
ações imaginadas à construção da falsa memória. Durante a sessão inicial, os pesquisadores
instruíram os participantes a imaginar a ação proposta ou apenas escutá-la sem fazer mais
nada. As ações eram simples: bata na mesa, erga o grampeador, quebre um palito, cruze seus
dedos, e rode seus olhos. Durante a segunda sessão, foi pedido aos participantes que
imaginassem algumas das ações que eles não haviam executado anteriormente. Durante a sessão
final, eles responderam perguntas sobre quais ações eles executaram de fato durante a sessão
inicial. Os pesquisadores descobriram que quanto mais os participantes imaginavam uma ação
não executada, mais provável era que eles se lembrassem de tê-la executado.
Recordações Impossíveis
É altamente improvável que um adulto possa se recordar de lembranças incidentais verdadeiras
do primeiro ano de vida, em parte porque o hipocampo, que desempenha um importante papel na
criação de recordações, não amadureceu o bastante para formar e armazenar recordações
duradouras que possam ser recuperadas na fase adulta.
Um procedimento para implantar "recordações impossíveis" sobre experiências que ocorrem logo
após o nascimento foi desenvolvido pelo falecido Nicholas Spanos e seus colegas da
Universidade de Carleton. Pessoas foram levadas a acreditar que elas tinham habilidades de
exploração visual e de movimento ocular bastante coordenados provavelmente porque elas
nasceram em hospitais que penduravam coloridos mobiles oscilantes em cima dos berços das
crianças. Para confirmar se eles tiveram tal experiência, metade dos participantes foi
submetida à hipnose e conduzida até o dia posterior ao nascimento e então foram questionadas
sobre o que elas se lembravam. A outra metade do grupo participou de um procedimento de
"reestruturação mnemônica dirigida" que usou regressão de idade assim como um vívido
encorajamento para se recriar as experiências infantis imaginando-as. Spanos e seus colegas
de trabalho descobriram que a vasta maioria dos participantes era suscetível a estes
procedimentos de implante de memória. Tanto os participantes hipnóticos quanto os dirigidos
relataram recordações infantis. Surpreendentemente, o grupo dirigido recordou um pouco mais
(95 % contra 70 %). Ambos os grupos se lembravam do móbile colorido numa taxa relativamente
alta (56 % do grupo dirigido e 46 % do hipnótico). Muitos participantes que não se lembravam
do móbile, se recordavam de outras coisas, como médicos, enfermeiras, luzes brilhantes,
berços e máscaras. Também, em ambos os grupos, daqueles que relataram recordações de
infância, 49 % sentiam que as recordações eram reais contra 16 % que reivindicavam que elas
eram apenas fantasias. Estas descobertas confirmam estudos prévios de que muitas pessoas
podem ser levadas a construir falsas recordações complexas, vívidas e detalhadas por meio de
um procedimento bastante simples. A hipnose claramente não é necessária.
Como as Falsas Memórias se Formam
No estudo de perdido-no-shopping, a implantação da falsa memória aconteceu quando outra
pessoa, normalmente um membro da familia, afirmou que o incidente aconteceu. A corroboração
de um evento por uma outra pessoa pode ser uma técnica poderosa para induzir a uma falsa
memória. De fato, só de afirmar ter visto uma pessoa fazendo algo errado já é o suficiente
para conduzí-la a uma falsa confissão.
Este efeito foi demonstrado em um estudo de Saul M. Kassin e seus colegas da Williams
College que investigaram as reações de indivíduos acusados falsamente de danificar um
computador apertando a tecla errada. Os participantes inocentes inicialmente negaram a
acusação, mas quando uma pessoa associada ao experimento disse que havia visto eles
executarem a ação, muitos participantes assinaram uma confissão, absorveram a culpa pelo ato
e continuaram a confabular detalhes que fossem consistentes com aquela convicção. Estas
descobertas mostram que uma falsa evidência incriminatória pode induzir as pessoas a
aceitarem a culpa por um crime que não cometeram e até mesmo a desenvolver recordações para
apoiar os seus sentimentos de culpa.
As pesquisas estão começando a nos dar uma compreensão de como falsas recordações de
experiências emocionalmente envolventes e completas são criadas em adultos. Primeiro, há uma
exigência social para que os indivíduos se lembrem; por exemplo, num estudo para trazer à
tona as recordações, os pesquisadores costumam exercer um pouco de pressão nos
participantes. Segundo, a construção de memórias pelo processo de imaginar os eventos pode
ser explicitamente encorajada quando as pessoas estão tendo dificuldades em se lembrar. E,
finalmente, os indivíduos podem ser encorajados a não pensar se as suas construções são
reais ou não. A elaboração de falsas recordações é mais provável de acontecer quando estes
fatores externos estão presentes, seja num ambiente experimental, terapêutico, ou durante as
atividades cotidianas.
Falsas recordações são construídas combinando-se recordações verdadeiras com o conteúdo das
sugestões recebidas de outros. Durante o processo, os indivíduos podem esquecer a fonte da
informação. Este é um exemplo clássico de confusão sobre a origem da informação na qual o
conteúdo e a proveniência da informação estão dissociados.
Está claro que não é porque nós podemos implantar falsas recordações de infância em alguns
indivíduos que todas as recordações que surgirem após a sugestão serão necessariamente
falsas. Dizendo de outro modo, embora o trabalho experimental na criação de falsas
recordações pode levantar dúvidas sobre a validade de recordações remotas, como um trauma
recorrente, de nenhuma maneira os desmentem. Sem corroboração, há muito pouco que possa ser
feito para ajudar até mesmo o mais experiente observador a diferenciar as verdadeiras
recordações daquelas que foram sugestivamente implantadas.
Os mecanismos precisos pelos quais esses tipos de falsas memórias são construídos aguardam
por novas pesquisas. Nós ainda temos muito a aprender sobre o grau de confiança e as
características das falsas memórias criadas desta maneira, e nós precisamos descobrir que
tipos de indivíduos são particularmente suscetíveis a estas formas de sugestão e que tipos
são resistentes.
Enquanto continuamos este trabalho, é importante prestar atenção à advertência contida nos
dados já obtidos: profissionais de saúde mental e outros devem estar atentos de quão
enormemente eles podem influenciar a lembrança de eventos e da urgente necessidade de se
manter a moderação em situações nas quais a imaginação é usada como um auxílio para
recuperar memórias presumivelmente perdidas.
***
Artigo publicado na Scientific American, em setembro de 1997, vol 277 #3 páginas 70-75..
ELIZABETH F. LOFTUS é professora de psicologia e professora auxiliar de Direito na
Universidade de Washington. Ela recebeu o Ph.D em psicologia da Universidade de Stanford em
1970. Sua pesquisa concentra-se em memória humana, depoimento de testemunha ocular e
procedimentos de Tribunal. Loftus publicou 18 livros e mais de 250 artigos científicos e
serviu como especialista ou assessora em testemunhas em centenas de julgamentos, inclusive
no caso de molestamento na pré-escola McMartin2. Seu livro Eyewitness Testimony ganhou o
National Media Award da Fundação Psicológica Americana. Ela recebeu doutorados honorários da
Universidade de Miami, Universidade de Leiden e da Faculdade John Jay de Justiça Criminal.
Loftus foi eleita presidenta da Sociedade Psicológica Americana recentemente.
Notas
1 - Barbitúrico usado como sedativo e hipnótico. Vulgarmente conhecido como 'soro da
verdade'. (N.T.) Voltar
2 - Processo sobre abuso sexual na Califórnia que durou seis anos e custou 15 milhões de
dólares ao Estado. Em agosto de 1983, Judy Johnson denunciou que seu filho havia sido
molestado na pré-escola McMartin. Devido à falta de evidência não houve processo.
Entretanto, o delegado da polícia de Manhattan Beach fez circular uma carta aos pais dos
estudantes da pré-escola McMartin mencionando um possível abuso sexual. Criou-se um pânico
generalizado e a mídia se encarregou de espalhar o boato. Centenas de crianças foram
entrevistadas e 360 foram diagnosticadas como tendo sofrido abuso. O exame médico foi
realizado em 150 crianças e apesar da falta de evidência física, o médico concluiu que 120
delas haviam sido molestadas. Outras escolas da área e até uma igreja foram envolvidas numa
suposta quadrilha de abuso infantil. Professores foram acusados de abuso sexual e de
praticar rituais satânicos. Entre as inúmeras acusações estavam a de terem forçado as
crianças a participarem de filmes e fotos pornográficos, de terem matado e mutilado animais
para intimidar as crianças, de as terem forçado a participar de rituais satânicos e a beber
o sangue de bebês que haviam sido mortos, de as terem forçado a entrar em caixões e de
enterrá-las, e outras ainda mais bizarras. A polícia investigou 10 escolas e uma igreja e
não encontrou nenhuma evidência concreta. Judy Johnson foi posteriormente diagnosticada como
esquizofrênica e acabou morrendo em casa de problemas no fígado relacionados ao excesso de
álcool antes do início do julgamento. A informação sobre o seu estado mental foi escondida
da defesa. Após um longo e extenuante processo, em 1990 os acusados foram considerados
inocentes, e a promotoria desistiu de novas acusações. Qualquer semelhança entre este caso e
o ocorrido em São Paulo na Escola Base não é mera coincidência. Guardada as devidas
proporções, os dois casos foram uma combinação sinergética entre uma imprensa irresponsável,
uma polícia ineficiente, e médicos e terapeutas incompetentes. (N.T.) Voltar
Leitura Complementar
THE MYTH OF REPRESSED MEMORY. Elizabeth F Loftus and Katherine Ketcham. St. Martin's Press,
1994.
THE SOCIAL PSYCHOLOGY OF FALSE CONFESSIONS: COMPLIANCE, INTER NALIZATION, AND CONFABULATION.
Saul M. Kassin and Katherine L. Kiechel in Psychological Science, Vol. 7, NO. 3, pages
12S-128; May 1996.
IMAGINATION INFLATION: IMAGINING A CHILDHOOD EVENT INFLATES CONFIDENCE THAT IT OCCURRED.
Maryanne Carry, Charles G. Manning, Elizabeth F. Loftus and Steven J. Sherman in Psychonomic
Bulletin and Review, Vol. 3, NO. 2, pages 208-214; June 1996.
REMEMBERING OUR PAST: STUDIES IN AUTOBIOGRAPHICAL MEMORY. Edited by David C. Rubin.
Cambridge University Press, 1996.
SEARCHING FOR MEMORY: THE BRAIN, THE MIND, AND THE PAST. Daniel L. Schacter. BasicBooks,
1996.
False Memory Syndrome Foundation
http://directory.google.com/Top/Society/People/Men/Issues/Equality/Men%27s_Rights/Law/False_
Accusations/False_Memory_Syndrome
Referência
# http://www.skepdic.com/falsememory.html
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quarta-feira, 9 de abril de 2008
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