Terra Gémea – Este exemplo foi usado pela primeira vez por Hilary Putnam em «The Meaning of
Meaning» num argumento a favor da ideia de que diferenças microscópicas em substâncias ou
objectos macroscopicamente indistinguíveis mudariam o significado das nossas palavras. Nesse
artigo, Putnam diz-nos que na Terra Gémea aquilo que a nós, terrestres, parece água na
verdade não é composto de H2O, mas de xyz. Assim, se fôssemos transportados para a Terra
Gémea todos os nossos juízos sobre xyz parecer-nos-iam juízos verdadeiros sobre água, mas na
verdade seriam juízos falsos sobre xyz. Isto é em parte uma resposta ao descritivismo
russelliano e ao nominalismo enquanto perspectiva sobre o significado dos termos.
Cérebro numa cuba – Uma actualização do génio cartesiano à maneira dos filmes de ficção
científica dos anos cinquenta. O cenário do cérebro numa cuba é uma experiência mental
concebida para mostrar a plausibilidade do cepticismo radical. Se fôssemos apenas cérebros
em cubas, ligados a computadores capazes de enviar impulsos eléctricos iguais aos que o
nosso corpo costuma receber, teríamos experiências indistinguíveis das que constituem a
«vida real» e ficaríamos sem qualquer hipótese de descobrir a nossa verdadeira situação.
Assim, de acordo com os que consideram este exemplo persuasivo, é possível que o cepticismo
radical – a tese de que não temos qualquer conhecimento seguro – seja verdadeiro. Hilary
Putnam reagiu ao cenário do cérebro numa cuba com uma versão do argumento a favor da ideia
de que o cepticismo radical tem de ser falso. Putnam usa uma versão do argumento da
linguagem privada para defender que um cérebro numa cuba não teria quaisquer crenças
verdadeiras. De acordo com a teoria do céptico radical, devemos supor que um cérebro numa
cuba que estivesse ligado ao computador de modo a receber os mesmos inputs que teria
recebido se estivesse num corpo acreditaria nas mesmas coisas em que nós acreditamos. Mas
não teria qualquer referente público para as suas palavras e frases, e por isso não poderia
ter qualquer linguagem humana, pois segundo Putnam todas as linguagens precisam de
referentes públicos. Putnam defende que o céptico que pensa que todas nossas crenças são (ou
poderiam ser) falsas tem de supor que nós somos como cérebros em cubas. Mas como cérebros em
cubas não poderiam ter uma linguagem e nós temos...
Conhece – No artigo de Judith Jarvis Thomson que reanimou o problema do trólei, «Killing,
Letting Die, and the Trolley Problem», a palavra «conhece» surge em itálico quando se
estipula que o condutor do trólei tem apenas duas opções. Ele pode parar ou fazer
descarrilar o trólei, escreve Thomson, e o condutor tem consciência disto porque ele conhece
tróleis. Peguei neste aspecto e abusei dele ao longo do artigo, o que teve um grande efeito
cómico, não acha?
Jones – Jones é o nome habitual do infeliz «homem comum» em todos os exemplos filosóficos
desde o tempo daqueles rapazes ousados de Cambridge (Bertie Russell, G. E. Moore e Alfred
North White-Westinghouse) Jones? Não podiam ter arranjado um nome mais original? Grandes
génios criativos, não há dúvida...
G. E. M. Anscombe – A Sr.ª Anscombe é uma filósofa moral inglesa muito famosa.
Latas de refrigerantes – Não são giras? Especialmente as novas, com uma abertura grande? Meu
Deus, adoro tecnologia...
Consequência não pretendida – Quem está familiarizado com a Igreja Católica e a sua
influência na filosofia moral, sabe que esta é uma referência à sua Doutrina do Duplo
Efeito, a doutrina segundo a qual é permissível fazer absolutamente tudo a toda a gente
desde que o queiramos e ninguém nos possa impedir. Não, espere! Esta é a sua Doutrina da
Vida Quotidiana. A Doutrina do Duplo Efeito é a doutrina segundo a qual em certas
circunstâncias um agente não é culpável pelas consequências previstas, mas não pretendidas,
de acções moralmente permissíveis, mesmo que essas consequências sejam imorais ou
impermissíveis. Esta doutrina surge frequentemente em discussões sobre o bombardeamento de
alvos civis durante a guerra. Por outras palavras, se alguma coisa que eu disse aqui o
ofendeu, paciência. Eu não tinha a intenção de o ofender, só pretendia esclarecê-lo, e por
isso não fiz nada de mal!
Autora deste exemplo – Esta parte do exemplo também deve muito ao artigo de Judith Jarvis
Thomson, «Killing, Letting Die, and the Trolley Problem». Thomson foi a filósofa que
concebeu o caso parecido conhecido por problema do transplante ou problema do trólei. Neste
problema temos que decidir se sacrificamos uma pessoa cujos órgãos podem ser utilizados para
salvar cinco pessoas que estão prestes a morrer. É certo que a maior parte das pessoas
desviaria o trólei para cima de um trabalhador de modo a salvar cinco, mas é ainda mais
certo que não sacrificariam um paciente de modo a salvar cinco no caso cirúrgico. Esta
assimetria deu origem a um enorme esforço de análise das supostas diferenças morais que se
verificam entre os dois casos. Penso que Jonathan Bennett resolveu a disputa em «Killing and
Letting Die» e no seu livro Events and Their Names.
Hitler – Está a brincar, não está? Não sabe quem foi Hitler? Volte para cima.
Ampliação do efeito – Mais tarde ou mais cedo, qualquer utilitarista digno desse nome tem de
enfrentar um exemplo de ilha deserta. Os críticos do utilitarismo nunca deixam de sublinhar
que, se um utilitarista estivesse numa ilha deserta sem qualquer possibilidade de vir a ser
resgatado ou descoberto, nas circunstâncias apropriadas qualquer curso de acção seria
permissível. Suponho que leram demasiadas vezes A Ilha do Tesouro quando eram jovens. Seja
como for, a ideia é mostrar que, segundo os cálculos utilitaristas, todas as formas de
comportamento repreensível devem ser reprimidas apenas porque seria mau (i.e., provocaria
mais infelicidade que prazer) as más acções serem descobertas. Numa ilha deserta a ameaça de
descoberta desapareceria e nós, utilitaristas, ficaríamos como os miúdos de O Senhor das
Moscas. Para impedir as lamúrias dos anti-utilitaristas, incluo no meu caso a ideia de que
todos os cérebros em cubas se comportariam exactamente como o cérebro.
Guerra justa – Santo Agostinho foi um dos primeiros filósofos que dedicou muito tempo e
energia mental à defesa da ideia de que podem haver guerras justas desde que certas
condições rigorosas sejam satisfeitas. Desde então outros filósofos desenvolveram o projecto
e passaram ainda mais tempo a pensar no problema de saber que guerras são justas e que
guerras são injustas. Investigue.
Génio cartesiano – Ser imaginado por René Descartes nas suas extremamente influentes
Meditações sobre a Filosofia Primeira. Descartes está interessado em assegurar-se de que
todas as suas crenças são dignas de confiança, e por isso decide suspender todas as crenças
de que não pode estar absolutamente seguro. Para ter a certeza de que não persistem
quaisquer crenças duvidosas, imagina um ser omnipotente cujo objectivo principal é enganá-lo
sistematicamente. Descartes conclui que um tal ser poderia iludi-lo fazendo-o enganar-se em
todas as suas crenças excepto nesta – a crença na sua própria existência. Esta é a fonte da
famosa expressão Cogito, ergo sum.
Comissurotomia – Uma operação (tome atenção, pois estamos precisamente a falar de cirurgia
cerebral) na qual os neurónios e o tecido que ligam os hemisférios esquerdo e direito (ou
direito e esquerdo, consoante o ponto de vista) são cortados, de tal modo que deixa de
ocorrer qualquer comunicação entre os dois lados do cérebro. Esta operação foi realizada
sobretudo em pessoas com epilepsia de maneira a reduzir a intensidade dos seus ataques, mas
os resultados deram origem a um bom terreno para exploração filosófica chamado Ciência
Cognitiva. Os efeitos da comissurotomia são assombrosos, até porque não se manifestam fora
das condições laboratoriais. Uma das coisas mais surpreendentes que se descobre quando se
investiga o assunto é a facilidade com que as pessoas deixavam os médicos brincar com o seu
cérebro nos anos 50 e 60. Na altura não devia haver advogados suficientes. Duas leituras
recomendáveis são o bom livro de Charles Marks, Commissurotomy, Consciousness, and Unity of
Mind, e o ensaio de Thomas Nagel, «Brain Bisection and the Unity of Consciousness».
Consequencialista – Um consequencialista é um filósofo moral que pensa que a correcção ou
incorrecção de uma acção depende apenas das suas consequências: não interessa se um acto cai
dentro de uma certa categoria, a intenção do agente ou qualquer outro aspecto da acção. O
utilitarismo é uma forma muito conhecida de consequencialismo (apresentada, entre outros,
por Mill e Bentham), segundo a qual a consequência relevante é quantidade de felicidade que
um acto produz.
Absolutista – Um absolutista é um filósofo moral que pensa que algumas acções são
categoricamente erradas, de tal maneira que nunca podemos ponderar a possibilidade de as
realizar. Immanuel Kant (tal como G. E. M. Anscombe) é um absolutista muito conhecido:
defendeu que nunca é permissível dizer uma mentira, por muito trivial que seja, de modo a
conseguir um bem, por muito grande que seja.
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quarta-feira, 9 de abril de 2008
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