Antigamente eu não escrevia todos os meus pensamentos com tanta sinceridade, sem medo. Eu só falava comigo mesma nas minhas agendas e diários. Mas um dia eu me dei conta que iria morrer. Eu vou estar morta, enterrada. Não restará mais nada. Então de que adiantou temer tanto? Por que tanto medo de expressar meus verdadeiros pensamentos? Eles são vergonhosos? São odiosos? As pessoas vão me odiar se souberem o que realmente se passa na minha mente. Quando você fala com as pessoas, usa uma máscara diferente para cada. Mas ao falar com você mesmo... não há mentiras. Ah, mas as malditas mentiras estão tão encarnadas na alma que nem com você mesmo é possível ser sincero. Você mente, você nega, está disposto a entregar a vida e a sanidade somente para não admitir seus desejos mais secretos. “Eu não tenho preconceitos” Verdade? Me mostre como se faz. “Desejo um mundo melhor. Um mundo de paz, onde todos se amem... tenho tanto medo da guerra, do ódio! Queria viver num lugar perfeito. Se todos desejarem isso, iremos conseguir” Essa não é uma mentira completa. Eu também desejo que o mundo seja um lugar melhor, mas... eu também adoro sentir o delicioso prazer da desgraça nos filmes, nos jogos, nas diversões poderosas. Faz o meu coração acelerar e eu não nego. Eu vou morrer! Provavelmente não tão depressa. Não sei se eu gostaria de viver muito. Viver, morrer, tudo é assustador e eu tremo de medo debaixo dessa máscara de força, mas... como meu coração acelera de prazer e horror ao ver a morte! Lembro como era no hospital. Naquela noite. Aquela madruga, em que eu me senti extremamente fraca com aquele monte de agulhas enfiadas nos meus pulsos. As pessoas se afastaram. Era somente eu e a cama branca. Fraca, fraca... e ninguém me dizia. Eu não entendia o que estava acontecendo. Vomitando no chão, cambaleando. Eu sempre fui tão forte e de repente me sinto fraca como um rato preso na gaiola da morte. Eu senti o horror quando aquelas pessoas se aproximaram e pediram para que eu me acalmasse. Meu coração acelerou. Aguardando o resultado do exame de sangue, presa naquela cama, ligada a um soro. Sozinha. Completamente. Dessa experiência escrevi o P.A. Esse é o próximo livro que pretendo lançar após os quatro volumes de Velevi. Foi um livro escrito também baseado no sonho mais poderoso e complexo que já tive. O sonho em que visitei os mortos que trabalhavam naquela fábrica dos escravos do tempo e do relógio. A menina de cabelos encaracolados que jogava ping-pong. Meus poucos leitores veneram o P.A. Talvez porque eu tenha retratado com fidelidade essa experiência real. Mas eu venero Velevi. Eu levo muito a sério todas as coisas que acontecem na minha vida e transformo tudo em arte. Nenhum livro meu foi escrito por acaso. Eles retratam experiências poderosas. Velevi foi resultado de uma experiência violenta. É a minha bíblia. Digo que é a minha Lira dos Vinte Anos. Eu tinha um caminho, um objetivo forte. E cada coisa que aconteceu nos últimos anos me fez em pedaços. Eu virei um quebra-cabeça extremamente perigoso. Eu monto a história da minha vida, passo por passo, através das minhas histórias. Desde setembro de 2007 eu estava trancada no meu quarto, sem sair. Decidi que escreveria uma história contando as minhas conclusões para o sentido da vida baseado em minhas experiências e estudos. Nos Agradecimentos do Livro 1 de Velevi eu conto qual foi o resultado físico e psicológico dessa experiência. Embora eu tenha ido poucas vezes ao hospital ao longo da minha vida, as vezes que fui me marcaram. No meio da madrugada, correndo para o hospital. Hospital, paredes brancas, o cheiro, o vazio absoluto daquele local sem vida. Se eu estivesse morrendo naquele dia, me sentiria a pessoa mais sozinha do mundo. Eu aceito morrer em qualquer lugar, mas jamais em um hospital. Porque eu não vou me esquecer. Mais uma vez: por que Velevi foi o primeiro? Toda vez que leio aquele volume, eu sinto tudo. É vivo, é real. Acredito que eu consiga passar a vida real nas minhas histórias porque escrevo com meu sangue. Criadores covardes! Onde estão os escritores que derramam lágrimas e sangue nas histórias? Que morrem por elas? Eu quero algo pelo qual darei a minha vida. O meu mundo real é tedioso, sem graça. Um quarto fechado, abandonado. E dentro dele eu crio meu universo. Universo de desgraças. Há esperanças. Mas os capítulos em que sinto as sensações mais poderosas costumam ser aqueles que me fazem morrer enquanto escrevo. Os meus livros já me fizeram chorar, já me fizeram passar mal, desmaiar. Já me trouxeram sensações horríveis, assustadoras. O medo e o terror. Entrem, pois sou o teu anfitrião e tu és o meu convidado. Eu peço por isso. Peço pela vinda da desgraça. Que merda! Por que eu amo tanto foder com os meus personagens?! Eu os humilho, eu os desgraço, faço com que rastejem no chão e rio. O meu sorriso ao ver a dor alheia. Meus queridos cachorrinhos, bonecos artificiais que posso espancar com prazer. O prazer é meu. Será sempre meu. Eu mostro todo esse universo fabuloso e horrível nos meus livros. Meu público é restrito, pois nem todos gostam de ler verdades. As pessoas preferem suas mentiras cor-de-rosa. E vivem em seus perfeitos mundos falsos. Como eu me sinto em ser uma pessoa sincera nesse mundo de mentiras? Eu quero foder com os meus personagens!! Porque eu amo ver a expressão de dor da minha mente. E eu transo com cada um deles. Até que eles peçam por misericórdia. Pare! Não posso suportar nem mais um segundo essa deliciosa dor que me destrói e que me revifica. Meu amor, meu amor... o sexo precisa ser extremamente violento. Você não faz amor; você faz ódio. Pois é necessária uma boa dose de ódio para gerar uma criança e trazê-la para o nosso circo engraçado. Eu morro de rir. Ninguém se diverte mais que eu. A espectadora do palco fantástico que humilha suas criaturas como um Deus malicioso e doentio, com sede da VERDADE. Eu quero a verdade, nada mais do que a verdade. Seu covarde! Então morra com seus segredos. E com suas mentiras. Não há tempo para pensar demais. Essa é a vida real, que te apresento. Bem-vindo ao mundo real. O espetáculo já começou e você está escondido por trás da cortina sem participar, apenas assistindo... por MEDO de ser julgado. Você sente o medo e o terror de expressar seus verdadeiros pensamentos. Tem medo do poder das palavras. Você sabe matar com palavras? Eu aprendi um dia e tremi de dor e prazer. Mas eu estou viva. E desejo participar do espetáculo e mover as minhas marionetes antes de morrer. Esse é meu brinquedo. Você que lê meu livro, é meu brinquedo. Vamos começar a brincadeira? Quem abre um livro meu precisa pensar duas vezes. Estou falando sério. Eu sou a pessoa mais séria do mundo. Não levo a vida na brincadeira. Eu só escrevo algo que me faça sentir viva, que me faça carregar a vida e a morte nas mãos. E eu só escrevo um livro com o objetivo de matar o leitor no final. Há muitas maneiras de matar uma pessoa. Eu uso a técnica de primeiro matar a mente. E depois o nível de sanidade em que cada criatura se encontra após a leitura, depende das suas mentiras. Se você sempre mentiu ao longo da vida, vai doer. Mas eu já disse. Você sabe. Não importa se doer. Afinal, vai doer no final de qualquer maneira. Por que fugir disso como um covarde miserável? "I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived … I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practice resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life, to cut a broad swath and shave close, to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms..." Thoreau
postado por Ratinha
quinta-feira, 26 de junho de 2008
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