segunda-feira, 12 de maio de 2008

HISTÓRIA DAS RELIGIÕES - PARTE DOIS


Lutero, criador da primeira igreja protestante.

LUTERANISMO

Considerada a primeira religião fundada durante as Reformas Protestantes, o Luteranismo foi uma religião criada em meio às questões sócio-políticas do Sacro Império Germânico. Ainda arraigado aos entraves do feudalismo, o Sacro-Império contava com um conjunto de principados que tinham mais de um terço de suas terras dominados pela Igreja Católica.

Tolhidos pelo poder de decisão dos clérigos, a relação entre a nobreza e a Santa Igreja já se mostrava abalada mesmo antes de chegarmos ao surgimento das polêmicas levantadas pelas idéias do padre e professor Martinho Lutero. Durante seus estudos, Lutero começou a criticar pontos vitais da doutrina católica. No ano de 1517, ele censurou a venda de indulgências e outras práticas da Igreja na obra As 95 Teses. Escrita em alemão, a obra ganhou popularidade e chegou ao conhecimento dos clérigos católicos.

Repudiando as idéias de Lutero, o papa Leão X, em 1520, redigiu uma carta condenando sua obra e exigindo a retratação do monge, ameaçando-o de excomunhão. Em 1521, sob ordens do imperador Carlos V, Lutero foi convocado a negar suas idéias num encontro chamado Dieta de Worms. Durante o encontro Lutero reafirmou suas crenças e foi considerado herege. Mesmo com a oposição da Igreja, setores da nobreza alemã resolveram proteger Martinho Lutero.

Durante esse período, Lutero se dedicou a traduzir do latim para o alemão e publicar a chamada Confissão de Augsburgo. Essa última publicação continha as bases da doutrina luterana que, entre outros pontos, defendia a salvação pela fé, a livre interpretação do texto bíblico, a negação do celibato e da adoração à imagens, a realização de cultos em língua nacional e a subordinação da Igreja ao Estado.

A nova religião, mesmo contendo pontos que favoreciam o poder nobiliárquico, também foi responsável pela incitação de uma série de revoltas populares contra a ordem estabelecida. Nesse período, várias terras foram invadidas e igrejas foram saqueadas pelos alemães. Condenando os movimentos insurgentes, Lutero apoiou as forças senhoriais que reprimiram o movimento.

Somente em 1555, com a assinatura da Paz de Augsburgo, os conflitos sociais e religiosos cessaram de vez. No tratado estabelecido, os príncipes alemães teriam o direito de adotar livremente qualquer tipo de orientação religiosa para si e seus súditos.

Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola

Reforma Protestante - Idade Moderna
História Geral - Brasil Escola

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


O selo de Martinho Lutero

O selo de Martinho Lutero

O Luteranismo é uma denominação cristã ligada diretamente a Martinho Lutero, pioneiro da Reforma da Igreja na Alemanha, a partir de 1517.


A História da Igreja Luterana

Em 10 de novembro de 1483, na cidade de Eisleben, na Alemanha, nasceu Martinho Lutero, um jovem que, contrariando a vontade dos pais, decidiu tornar-se monge. No mosteiro, Lutero vivia em angústias e desespero por duvidas que tinha sobre seus méritos espirituais. Quanto mais se penitenciava, tanto mais cresciam suas dúvidas e incertezas. Não possuía, por isso, paz de alma e via Deus como um severo juiz pronto a castigar os pecadores.

Lutero tornou-se Doutor em Teologia e passou a lecionar na Universidade de Wittenberg. Sendo um dos privilegiados a ter acesso a uma Bíblia, Lutero desenvolveu nova visão teológica lendo as palavras de Romanos 1.17: "O justo viverá por fé". Segundo sua interpretação, dizia que o perdão e a vida eterna não são conquistados por nós mediante boas obras, mas nos são dados gratuitamente por meio da fé em Jesus Cristo, O Filho de Deus, que morreu e ressuscitou para perdão de toda a humanidade.

Em 1517, na Alemanha, o professor e monge Martinho Lutero fixou à porta da Catedral de Wittenberg 95 teses criticando a atuação do Papa e do alto clero. Elas se propagaram rapidamente, mesmo com a intervenção da Igreja. Lutero foi apoiado por parte da população e pela nobreza que, desejosa de conquistar novas terras sob domínio de Roma (na região da atual Alemanha), o protegeram da perseguição do papa, poupando-o da fogueira, mas não da excomunhão.

Alguns exemplos dessas teses:

Tese 27:Pregam a doutrina humana os que dizem que,tão logo seja ouvido o tilintar da moeda lançada na caixa,a alma sairá voando.

Tese 32:Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres,aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de cartas de indulgência.

Tese 86:Por que o papa, cuja fortuna é hoje maior que a dos mais ricos crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos a Basílica de São Pedro, em vez de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

Lutero, então, passou a participar de vários debates teológicos com autoridades civis e eclesiásticas que tentavam fazê-lo abrir mão de suas idéias e retratar-se de críticas à Igreja e ao Papa. Em 1520, Lutero foi excomungado pelo Papa e, no mesmo ano, queimou a Bula de Excomunhão em praça pública, rompendo assim com a Igreja Católica da época. Em 1530, surgiu a Confissão de Augsburgo que foi escrita por Lutero e Melanchthon, um fiel companheiro seu. Este documento trazia um resumo dos ensinos luteranos.

Uma das principais preocupações de Martin Lutero, era que todas as pessoas pudessem ler o livro no qual os ensinamentos católicos estariam escritos e assim pudessem tirar suas próprias conclusões. Por isto Martin Lutero traduziu a Bíblia para o Alemão para que todos pudessem lê-la em sua própria língua. Alguns anos mais tarde, a bíblia foi traduzida para o Inglês, Francês e Espanhol as pessoas passaram a ler a Bíblia e terem suas próprias conclusões. Aos poucos a Igreja Católica foi perdendo poder e influência. Depois de Lutero a Igreja Católica nunca mais conseguiu exercer o forte domínio sobre a Europa como tinha antes da Reforma Protestante.

Pouco a pouco, o ideal de reforma da Igreja Católica que Lutero possuía foi sendo sufocado e o Reformador viu-se obrigado, juntamente com seus seguidores, a formar um grupo separado de cristãos que queriam permanecer fiéis às suas idéias. Surgia assim a Igreja Luterana.

As Confissões Luteranas

As Confissões Luteranas podem também ser consideradas como estandarte, em torno do qual os luteranos cerram fileiras em defesa de suas visões doutrinárias da Escritura contra o erro, ou podem ser consideradas como uma bandeira, à qual os mestres da igreja prestam juramento de fidelidade. Cada membro da Igreja Luterana deve subscrever não apenas a Bíblia, mas também as confissões como exposição correta das doutrinas bíblicas. Para o leigo isto significa, ao menos, o Catecismo Menor de Lutero; para o pastor e professor significam todas as confissões adotadas pela Igreja Luterana.

Em suas constituições, os grupos luteranos – congregações, bem como sínodos – geralmente definem sua posição doutrinária mais ou menos nestas palavras: "Confessamos que os livros canônicos do Antigo e do Novo Testamento são a palavra de Deus inspirada e, portanto, a única regra de fé e vida, e que as confissões da Igreja Evangélica Luterana são uma exposição correta das doutrinas desta palavra". Por que esta firme insistência, como resumido nas confissões luteranas? Porque para luteranos não pode haver nada mais importante do que as doutrinas expostas conforme sua interpretação da Bíblia.

Em vista do precedente, segundo sua interpretação, o termo "igreja" jamais deveria ser empregado para definir um grupo religioso que não pertence ao Senhor como seu corpo ( Ef. 1.22,23). Uma seita que, de acordo com sua visão, nega a divindade de Jesus, como a dos unitaristas, Mórmons ou Testemunhas de Jeová, não deveria ser chamada igreja.

Escreve Lutero nos Artigos de Esmalcalde: "Graças a Deus, (hoje) uma criança de sete anos de idade sabe o que é a igreja, a saber, os santos crentes e cordeiros que escutam a voz do seu Pastor" (parte III, art. XII, cf. Livro de Concórdia, p. 338). Em seu Catecismo Maior, ele apresenta essa definição clássica: "Eu creio que há sobre a terra um pequeno grupo santo e congregação de santos puros sob uma cabeça, Cristo, chamados pelo Espírito Santo para uma fé, uma mente e uma compreensão, com dons multiformes, entretanto concordando em amor, sem seitas nem cismas. Também faço parte do mesmo, sendo participante e co-proprietário de todos os bens que possui, trazido a ele e incorporado nele pelo Espírito Santo pelo ouvir e pelo continuar a ouvir a palavra de Deus, que é o processo de iniciação nele. Pois, anteriormente, antes de termos alcançado isto, pertencíamos ao diabo, nada sabendo de Deus e de Cristo. Assim, até o último dia, o Espírito Santo permanece com a santa congregação, ou cristandade, por intermédio da qual ele nos traz a Cristo, e é ela que o Espírito Santo utiliza para nos ensinar a pregar a palavra; pela igreja ele age e promove a santificação, fazendo-a crescer diariamente e fortalecendo-a na fé e nos frutos que ele faz produzir". (O Credo. Art. III, cf. Livro de Concórdia, p. 454).

A Confissão de Ausburgo

A Confissão de Ausburgo é o documento que Felipe Melanchton escreveu e que foi apresentado, como sendo o testemunho luterano, ao Imperador Carlos V e à Dieta do Santo Império Romano, a 25 de junho de 1530. Compõe-se de vinte e oito artigos. Destes, os primeiros vinte e um apresentam a doutrina luterana e sintetizam os ensinamentos de Lutero. Eles tentam provar que os luteranos não estavam ensinando novas doutrinas, contrárias às Escrituras Sagradas, e que não constituíram uma nova seita religiosa. Os Artigos XXI a XXVIII pretendem tratar dos abusos medievais que os luteranos tinham corrigido.

Sua leitura angariou prosélitos importantes. O bispo Stadion de Ausburgo teria afirmado: "O que foi lido é a pura verdade, e nós não podemos negá-lo". Quando João Eck, um dos mais ativos adversários de Lutero, supostamente disse ao duque Guilherme da Baviera que ele era capaz de refutar a Confissão de Ausburgo com os pais eclesiáticos, mas não com as Sagradas Escrituras, Guilherme teria respondido: "Assim, pois, ouço que os luteranos estão com a Escritura e nós, que seguimos o pontífice, fora dela".

Os Credos Ecumênicos

Em reposta à acusação de que a Igreja Luterana se desviou da antiga fé da Igreja Cristã e era, por isso, uma nova seita, os pais luteranos oficialmente declararam sua concordância total com os credos ecumênicos. No prefácio da Fórmula de Concórdia declararam: "E porque imediatamente depois do tempo dos apóstolos e mesmo enquanto eles ainda viviam, falsos mestres e hereges se levantaram, símbolos, isto é, confissões breves e concisas, foram compostos contra eles na igreja primitiva, que foram considerados como a unânime, universal fé cristã e a confissão da Igreja Ortodoxa e verdadeira, a saber, o Credo Apostólico, o Credo Niceno, e o Credo Atanasiano; juramos fidelidade a eles, e deste modo rejeitamos todas as heresias e doutrinas, que, contrárias a eles, têm sido introduzidas na igreja de Deus".

A primeira confissão da fé cristã foi o Credo Apostólico. Divergências posteriores levaram à formulação do Credo Niceno (325) e do Credo Atanasiano (451). Essas três confissões são conhecidas como Credos Ecumênicos ou Universais.

Contudo, com o passar dos tempos, segundo a visão Luterana, a igreja foi se desviando da verdade bíblica. Vozes que clamavam contra o erro foram silenciadas. Martinho Lutero, monge agostiniano, doutor em Teologia e professor da Bíblia na Universidade de Wittemberg, Alemanha, Postulou que a igreja estava desviada da verdade bíblica. A Igreja Luterana vê em Lutero um instrumento de Deus para reconduzir a igreja às verdades bíblicas e considera ainda que Deus preparou outros homens fiéis que participaram da causa da Reforma.

Os seguintes documentos formam as Confissões Luteranas:

  • Catecismo Menor (1529), um resumo de interpretações bíblicas, escritas para o povo.
  • O Catecismo Maior (1529), as mesmas interpretações detalhadamente explicadas para adultos.
  • A Confissão de Augsburgo (1530), a principal confissão luterana.
  • A Apologia (1531), uma defesa da Confissão de Augsburgo.
  • Os Artigos de Esmalcalde (1537) reafirmam os ensinos da Confissão de Augsburgo e expõem, com mais profundidade, a doutrina da Santa Ceia, segundo a visão Luterana.
  • A Fórmula de Concórdia (1577), que define o pecado original, a impossibilidade de o homem salvar-se por suas próprias força e a pessoa e obra de Cristo.

As Confissões foram reunidas no Livro de Concórdia, em 1580, que é aceito hoje por muitas igrejas luteranas no mundo. Essas igrejas afirmam: " Aceitamos todos os livros canônicos das Escrituras Sagradas do Antigo e Novo Testamentos, como palavra infalível de Deus e, como exposição correta da Escritura Sagrada, aceitamos os livros simbólicos reunidos no Livro de Concórdia." A Escritura ou Bíblia Sagrada é a única norma na igreja para doutrina e praxe.





O Calvinismo é tanto um movimento religioso protestante quanto uma ideologia sócio-cultural com raízes na Reforma iniciada por João Calvino em Genebra no século XVI.

A obra de João Calvino

João Calvino exerceu uma influência internacional no desenvolvimento da doutrina da Reforma Protestante, à qual se dedicou com a idade de 30 anos, quando começou a escrever os "Institutos da religião Cristã" em 1534 (publicado em 1536). Esta obra, que foi revista várias vezes ao longo da sua vida, em conjunto com a sua obra pastoral e uma colecção massiva de comentários sobre a Bíblia, são a fonte da influência permanente da vida de João Calvino no protestantismo.

Para Bernardye Cotitretw, biógrafo de Calvino, "o calvinismo é o legado de Calvino e torna-se uma forma de disciplina, de ascese, que não raramente é levada ao extremo da teimosia". O Calvinista é pois no extremo um profundo conhecedor da Bíblia, que pondera todas as suas ações pela sua relação individual com a moral cristã. O Calvinismo é também o resultado de uma evolução independente das idéias protestantes no espaço europeu de língua francesa, surgindo sob a influência do exemplo que na Alemanha a figura de Martinho Lutero tinha exercido. A expressão "Calvinismo" foi aparentemente usada pela primeira vez em 1552, numa carta do pastor luterano Joachim Westphal, de Hamburgo.

O Calvinismo marca a segunda fase da Reforma Protestante, quando as igrejas protestantes começaram a se formar, na seqüência da excomunhão de Martinho Lutero da Igreja Católica romana. Neste sentido, o Calvinismo foi originalmente um movimento luterano. O próprio Calvino assinou a confissão luterana de Augsburg de 1540. Por outro lado, a influência de Calvino começou a fazer sentir-se na reforma Suíça, que não foi Luterana, tendo seguido a orientação conferida por Ulrico Zuínglio. Tornou-se evidente que a doutrina das igrejas reformadas tomava uma direcção independente da de Lutero, graças à influência de numerosos escritores e reformadores, entre os quais João Calvino era o mais eminente, tendo por isso esta doutrina tomado o nome de Calvinismo.

Uma vez que tem múltiplos fundadores, o nome "Calvinismo" induz ligeiramente ao equívoco, ao pressupor que todas as doutrinas das igrejas calvinistas se revejam nos escritos de João Calvino.

O nome aplica-se geralmente às doutrinas protestantes, que não são luteranas, e que têm uma base comum nos conceitos calvinistas, sendo normalmente ligadas a igrejas nacionais de países protestantes, conhecidas como igrejas reformadas, ou a movimentos minoritários de reforma protestante.

Na Holanda, os calvinistas estabeleceram a Igreja Reformada Holandesa. Na Escócia, através da zelosa liderança do ex-sacerdote católico John Knox, a Igreja Presbiteriana da Escócia foi estabelecida segundo os princípios calvinistas. Na Inglaterra, o calvinismo também desempenhou um papel na Reforma, e, de lá, seguiu com os puritanos para a América do Norte. Na França, os calvinistas, chamados de Huguenotes, foram perseguidos, combatidos e muitas vezes obrigados ao exílio. Em Portugal, na Espanha ou na Itália, estas doutrinas tiveram pouca divulgação e foram ativamente combatidas pelas forças da Contra-Reforma, com a ação dos Jesuítas e da Inquisição.

O sistema teológico e as práticas da igreja, da família ou na vida política, todas elas algo ambiguamente chamadas de "Calvinismo", são o resultado de uma consciência religiosa fundamental centrada na "soberania de Deus".

O Calvinismo pressupõe que o poder de Deus tem um alcance total de atividade e resulta da convicção de que Deus trabalha em todos os domínios da existência, incluindo o espiritual, físico, intelectual, quer seja secular ou sagrado, público ou privado, no céu ou na terra. De acordo com este ponto de vista, qualquer ocorrência é o resultado do plano de Deus, que é o criador, preservador, e governador de todas as coisas, sem excepção, e que é a causa última de tudo. As atividades seculares não são colocadas abaixo da prática religiosa. Pelo contrário, Deus está tão presente no trabalho de cavar a terra como na prática de ir ao culto. Para o cristão calvinista, toda a sua vida é um culto a Deus.

De acordo com o princípio da Predestinação, por causa de seus pecados,o homem perdeu as regalias que possuía e distanciou-se de Deus. O homem é considerado "morto" para as coisas de Deus e é dominado por uma indisposição para servir a Deus.

Só havia, então, uma maneira de resolver esse problema: o próprio Deus reatando os laços. Deus então, segundo a doutrina da predestinação, escolheu alguns dos seres humanos caídos para salvar da pecaminosidade e restaurar para a comunhão com ele. Deus teria tomado esta decisão antes da criação do Universo. Mas é claro que não é por causa de quaisquer boas ações que eles foram escolhidos: "porque pela graça sois salvos,mediante a fé, e isso não vem de vós;é dom de Deus; não vem de obras, para que ninguém se glorie".(Efésios 2:8,9)

A presença do calvinismo no Brasil remonta ao século XVI. Ministros religiosos, enviados a partir da recomendação do próprio João Calvino, chegaram ao país durante a tentativa de colonização francesa conhecida como França Antártica. No século seguinte, durante a invasão holandesa, uma Igreja Reformada chegou a ser organizada (com vários presbitérios) no Nordeste brasileiro. Por fim, a partir do século XIX, os calvinistas instalaram-se definitivamente no território brasileiro, seja por meio da imigração européia (e estadunidense), seja por meio da atuação missionária.

Atualmente, os calvinistas somam mais de um milhão de fiéis em todo o Brasil (considerando, nesta soma, os membros de todas as denominações de origem calvinista do país)[1]. Seu impacto pode ser observado não apenas no aspecto puramente religioso, como também no campo educacional, com suas várias escolas e faculdades (como a Faculdade Gammon e a Universidade Mackenzie).

Calvinismo na Invasão Francesa

França Antártica

A França Antártica foi uma tentativa de colonização francesa no território brasileiro (na região do atual estado do Rio de Janeiro). Empreendido pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon, o projeto iniciou-se com a chegada das naus francesas em 1555 e durou até a expulsão definitiva em 1567. “Esse empreendimento contou com o apoio do almirante Gaspard de Coligny (†24-08-1572), influente estadista e futuro líder dos calvinistas franceses, os huguenotes”[2].

O almirante calvinista Gaspard de Coligny, elo de ligação entre Villegaignon e João Calvino
O almirante calvinista Gaspard de Coligny, elo de ligação entre Villegaignon e João Calvino

Em dado momento, em virtude de problemas morais e religiosos na tropa, Villegaignon escreveu cartas a Gaspard de Coligny e ao reformador francês João Calvino “para que enviassem profissionais e religiosos para a novel colônia francesa”[3]. Calvino, por meio da Igreja Reformada de Genebra, respondeu afirmativamente, enviando um grupo de calvinistas franceses (conhecidos como huguenotes) sob a liderança dos pastores Pierre Richier e Guillaume Chartier[4]. Villegaignon encaminha uma outra carta, então, agradecendo o pronto atendimento: "acredito que não seja possível exprimir com palavras quanto me alegram suas cartas e os irmãos que com elas vieram"[5].

A expedição, com a presença dos huguenotes, chegou à Baía de Guanabara em 7 de março de 1557. Três dias depois, em 10 de março, foi realizado o primeiro culto protestante nas Américas, oficiado pelo Rev. Pierre Richier. No domingo, 21 de março, houve a primeira celebração da Ceia do Senhor sob o rito calvinista[6].

Havia cultos em todos os dias da semana. Aos domingos, especialmente, as celebrações aconteciam pela manhã e à tarde. Em outros momentos da semana, havia reuniões de oração[7]. Esta quantidade de serviços religiosos aponta para a importância da delegação calvinista em meio à tropa.

Conforme se estruturava o serviço religioso no Forte Coligny, os pastores huguenotes se sentiam à vontade para exercer um trabalho missionário, alcançando os índios do continente. “Realizaram várias visitas às tabas litorâneas dos índios tamoios em Cotina, Ocarantim, entre outras. Os missionários, muitas vezes, permaneciam semanas inteiras percorrendo os aldeamentos e lhes falando do Cristianismo por meio de intérpretes”[8].

Escultura representando a primeira celebração eucarística protestante nas Américas, oficiada pelos pastores Rev. Pierre Richier e Rev. Guillaume Chartier
Escultura representando a primeira celebração eucarística protestante nas Américas, oficiada pelos pastores Rev. Pierre Richier e Rev. Guillaume Chartier

Tanto nas solicitações encaminhadas a Coligny e Calvino quanto na própria recepção aos huguenotes, as reações de Villegaignon sempre foram as mais positivas possíveis. Segundo o colono Jean de Léry, testemunha ocular, ao chegarem os huguenotes, Villegaignon “os recebeu todo risonho, abraçando a todos”[9]. Quando da primeira celebração eucarística, ele foi o primeiro a comungar, professando, assim, diante de todos, a sua fé reformada”[10]. Osvaldo Rack apresenta uma viva descrição, com base no texto de Léry, da participação de Villegaignon num dos cultos:

Ajoelhado num coxim de veludo, o governador do Forte, em voz alta, proferiu longas orações, rendendo graças a Deus por ter sido chamado dos negócios mundanos, entre os quais vivia por apetite e ambição, para a obra de preparar um lugar e morada pacífica para aqueles que estavam privados de invocar publicamente o nome de Deus em espírito e verdade. Rogou a Deus para que o sítio de Coligny e país da França Antártica se tornasse um inexpugnável refúgio daqueles que, com boa consciência e sem hipocrisia, ali se abrigassem para se dedicar à exaltação da glória de Deus. Ainda suplicou a Deus o afastamento do espírito de vingança e que ficasse livre dos apóstatas da religião. [11]

Este espírito de paz e tolerância, no entanto, não durou muito. Em virtude de questões teológicas (que reproduziam as guerras religiosas que grassavam na Europa), Villegaignon passou a perseguir os colonos huguenotes. Um personagem importante desta mudança de atitude foi o ex-frade dominicano Jean de Cointac. Para ele, “a participação sacramental da Ceia não devia obrigar a pessoa a ser cristã de confissão calvinista, e, por outro lado, dizia ele que o sacramento do batismo devia seguir o rito católico romano” [12]. Grupos de opiniões distintas passaram, então, a se confrontar. Villegaignon deixara de lado suas novas convicções calvinistas, pois, numa carta à Igreja Reformada de Genebra, assim se refere às doutrinas dos huguenotes: “esses delírios [a doutrina de Chartier] nos agitavam turbas enormes e quanto mais cuidadosamente se discutia, mais aparecia a vacuidade da doutrina” "[13]. A conseqüência foi, primeiro, a proibição dos cultos dos calvinistas, depois suas reuniões de oração e, por fim, a sua expulsão do Forte Coligny.

Em virtude da expulsão, os calvinistas franceses entraram em contato direto com os tupinambás. Entre os expulsos estava o sapateiro Jean de Léry, que, mais tarde, descreveria suas experiências em seu livro Histoire d'un voyage faict en la terre du Brésil (1578)[14].

Com a passagem de um navio que seguiria para França (o Les Jacques), os colonos expulsos resolveram retornar seu país. “Mesmo não se opondo ao embarque, Villegaignon enviou instruções secretas para serem entregues ao primeiro juiz em França, dizendo para que se executassem os huguenotes como traidores e hereges.” ”[15] No entanto, estas instruções acabaram não servindo diretamente para alguns dos colonos, pois, ao perceber o risco de naufrágio, cinco deles – Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon e Jacques Le Balleur – voltaram à terra firme[16]. Villegaignon os aprisionou imediatamente e exigiu uma resposta, por escrito, em doze horas, a uma série de questionamentos teológicos. Os huguenotes presos ofereceram a resposta por meio da redação de um documento conhecido como Confissão de Fé da Guanabara[17].

Como os colonos reformados recusaram-se a abjurar suas convicções religiosas, Villegaignon os condenou a morte. “Bourdel, Verneuil e Bourdon foram estrangulados e lançados ao mar. André Lafon, sendo o único alfaiate da colônia, teve a vida poupada sob a condição de que não divulgasse as suas idéias religiosas”[18]. O único que conseguiu fugir foi Jacques Le Balleur.

Le Balleur chegou a São Vicente, onde pregou a fé cristã a partir do ponto de vista calvinista. Foi detido, por insistência dos jesuítas, e levado a Salvador, então capital da colônia, ficando preso entre os anos de 1559 e 1567. Por fim, foi levado para o recém fundado Rio de Janeiro e, sob as ordens do governador geral Mem de Sá, condenado à forca. O carrasco, no entanto, recusou-se a executá-lo. Diante disso, o padre jesuíta José de Anchieta o teria estrangulado com suas próprias mãos[19].

França Equinocial

A França Equinocial foi o esforço francês de colonização no que hoje é o estado brasileiro do Maranhão. Muito curto, o empreendimento se deu entre 1612 e 1615 (apesar de novas tentativas de invasão francesa nos anos seguintes). Pode-se dizer que a “França Equinocial fora um empreendimento comercial católico que teve como principal chefe um protestante: La Ravardière"[20].

De maneira semelhante ao que havia acontecido na tentativa anterior, também na França Equinocial “os huguenotes participaram ativamente na evangelização dos índios locais”[21]. No entanto, não há grandes registros desta atividade calvinista no nordeste brasileiro. Segundo historiadores eclesiásticos, após o fim da invasão francesa, alguns dos huguenotes que permaneceram se converteram à Igreja Católica Romana[22].

Calvinismo no Brasil Holandês

Rev. Frederico Kesseler, pastor da Igreja Cristã Reformada do Recife, entre 1637 e 1643
Rev. Frederico Kesseler, pastor da Igreja Cristã Reformada do Recife, entre 1637 e 1643

A colonização holandesa do Nordeste brasileiro se concentrou na primeira metade do século XVII (primeira fase, entre 1624 e 1625; segunda fase, entre 1630-1654). A segunda fase desta colonização, marcadamente nas cidades de Olinda e Recife, teve presença significativa da Igreja Cristã Reformada Holandesa.

Primeira fase (1624-1625)

Em 1621, os holandeses criaram a Companhia das Índias Ocidentais, com o objetivo de conquistar e colonizar territórios economicamente lucrativos nas Américas[23]. Como conseqüência disto, uma expedição foi enviada à Bahia, em 1624.

Como os holandeses eram calvinistas, a Igreja Reformada se estabeleceu junto à colônia. O primeiro culto reformado na cidade de Salvador aconteceu em 11 de maio de 1624, e a vida da Igreja Reformada da Bahia foi efêmera, existindo por apenas um ano[24]. Com a expulsão dos holandeses, ainda houve um breve estabelecimento na Paraíba. O estudioso holandês (e professor no Brasil) Frans Leonard Schalkwijk oferece um relato sobre o início e o fim deste estabelecimento:

Quando o reforço da frota holandesa chegou à Bahia, o seu comandante Boudewvn Hendricksz percebeu que havia chegado tarde demais, e regressou ao norte. Para reabastecer, aportaram na Bahia da Traição no norte da Paraíba (...). Ali os holandeses ficaram durante seis semanas, tratando bem os índios locais, que se tornaram seus amigos. Quando estes, porém, notaram que os navios se preparavam para deixar o Brasil, procuraram embarcar também, temendo a vingança portuguesa. Apenas seis jovens conseguiram embarcar para a Holanda. Ali aprenderam a falar holandês, foram alfabetizados, passearam nas ruas de Leiden, onde morava o diretor De Laet, e se tornaram cristãos reformados. Um deles era o índio Pedro Poti, que posteriormente se tornaria importante no trabalho missionário da igreja reformada no Nordeste brasileiro. [25]

Dentre as poucas informações que se têm sobre o calvinismo brasileiro deste período, restam os nomes dos pastores da Igreja Reformada da Bahia: Rev. Enoch Sterthenius, substituído em 1625 pelo Rev. Jacobus Dapper; Rev. Johannes Neander, falecido na Bahia, substituído pelo Rev. Valentinus Artopaeus; Rev. J. C. Pick, Rev. J. Michaelis e Rev. H. Wisman[26].

Segunda fase (1630-1654)

A segunda fase das invasões holandesas foi uma colonização em todos os sentidos do termo. Espalhando-se por grande parte do território nordestino, o cristianismo calvinista era a religião oficial durante o domínio holandês. No entanto, havia liberdade religiosa (especialmente sob o governo de Maurício de Nassau) para os católicos e judeus.

O primeiro culto reformado nas imediações de Pernambuco foi realizado a bordo do navio do almirante Hendrick Lonck, em 14 de fevereiro de 1630. O culto foi oficiado pelo rev. Johannes Baers, e marca o reinício das atividades da Igreja Reformada em território brasileiro[27].

A força da Igreja Reformada no Brasil se demonstra em sua organização no período. “Foram criadas vinte e duas igrejas locais e congregações, dois presbitérios (Pernambuco e Paraíba) e até mesmo um sínodo, o Sínodo do Brasil (1642-1646)”[28]. Mais de cinqüenta pastores (também chamados de “predicantes”) calvinistas serviram nas paróquias organizadas.

Organização

Ata do Presbitério Reformado de Pernambuco, de dezembro de 1636
Ata do Presbitério Reformado de Pernambuco, de dezembro de 1636

As Igrejas Reformadas seguiam o modelo de organização clássico calvinista. Cada igreja local era administrada por um “conselho” ou “consistório”, composto dos pastores e dos presbíteros eleitos pela paróquia. Algumas igrejas eram por demais pequenas, por isso não tinham consistórios e eram consideradas congregações, ou igrejas em formação.

"Além das igrejas locais dirigidas pelos seus respectivos 'consistórios', organizou-se a partir de 1636 uma convenção, 'Classe' ou 'Presbitério', reunindo todas as igrejas no território ocupado, agrupando-as a nível 'nacional', com o nome oficial de 'Classe do Brasil da Igreja Cristã Reformada'."[29] O Presbitério é a estrutura mais importante da eclesiologia calvinista, pois é o elo entre a Igreja nacional e as igrejas locais.

Seis anos depois da criação do Presbitério do Brasil, com o crescimento do número de Igrejas, decidiu-se desdobrar o concílio, fazendo nascer duas novas Classes; o Presbitério de Pernambuco e o da Paraíba, que, juntos, formaram o Sínodo do Brasil[30] (o Sínodo é o órgão eclesial superior ao Presbitério, servindo como concílio de apelação). As igrejas na Holanda não concordaram com o projeto de criação do Sínodo brasileiro. No entanto, “apesar da desaprovação da Holanda, o Sínodo do Brasil funcionou durante quatro anos, e muitas vezes a contento"[31].

Templos e liturgia

Quando chegaram ao Brasil, os calvinistas holandeses não se preocuparam com a construção de novos templos, pois eles podiam usar os templos católico-romanos que já existiam. No entanto, a “exemplo da Holanda, removeram as imagens, não as tolerando, em acordo com o Catecismo de Heidelberg. Semelhantemente se desfizeram do altar e dos paramentos sacerdotais. Em seguida, colocaram no centro do santuário a Bíblia em um púlpito alto, e logo abaixo a pia batismal e a mesa para a santa ceia"[32].

Os cultos eram simples, segundo o modelo litúrgico reformado. Os homens geralmente assistiam a celebração de pé e as mulheres sentavam-se em cadeiras levadas para o culto. Dois serviços eram realizados nos domingos: um culto às nove horas da manhã e uma celebração de catequese no período da tarde. Frans Schaldwijk também apresenta um resumo da liturgia calvinista no Brasil Holandês:

O pastor iniciava o culto com o “votum”: “O nosso socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra”, saudando em seguida a igreja com “Graça e paz a vós outros por parte de Deus Pai e do Nosso Senhor Jesus Cristo na comunhão do Espírito Santo”. Em seguida a igreja cantava alguns salmos de Davi e confessava seus pecados numa oração dirigida pelo pastor. Logo após a promessa de perdão, vinha a leitura dos dez mandamentos, como norma para a vida de gratidão. Em seguida a outro cântico congregacional de um salmo vinha a pregação, que durava quase uma hora. (...) O culto se encerrava com cântico, oração, bênção apostólica e uma coleta para a diaconia. [33]

A celebração eucarística não era dominical. A exemplo do que acontecia na Igreja Cristã Reformada da Holanda, a Santa Ceia só era ministrada quatro vezes ao ano, o que demandava uma série de cuidados especiais, como visitas aos fiéis e preparação espiritual dos ministros[34].

Missão junto aos índios

Segundo Schalkwijk, pode-se dividir a história da missão reformada junto aos índios do Nordeste do Brasil em três etapas: a preparação (1630-1636), a expansão (1637-1644) e a conservação (1645-1654)[35].

Alguns dos índios que haviam embarcado para a Holanda após o fim da invasão na Bahia retornaram para servirem como intérpretes dos missionários junto aos nativos do Nordeste brasileiro. Passados cinco anos na Europa, e após aprenderem a ler e escrever, estes índios (entre eles, Pedro Poti) foram os primeiros missionários protestantes brasileiros[36].

O trabalho missionário envolvia a evangelização propriamente dita e a educação dos indígenas (chamados, pelos holandeses, de “brasilianos”). Uma escola foi organizada próximo à aldeia de Nassau e dois “brasilianos”, educados pelos holandeses, tornaram-se professores: João Gonsalves e Melchior Francisco. O próprio governo holandês pagava o salário de 12 florins mensais aos professores-índios, o correspondente ao soldo de um cabo do exército[37].

Com a expulsão definitiva dos holandeses, no entanto, a influência calvinista desapareceu aos poucos. O padre Antônio Vieira, numa visita à Serra da Ibiapaba, qualificou a região pejorativamente como a “Genebra de todos os sertões do Brasil”. “A influência do ensino religioso havia sido mais profunda do que se imaginava à primeira vista. Os padres ficaram atônitos diante do traje fino dos indígenas, da arte de ler e escrever e especialmente do lado religioso, porque "muitos deles eram tão calvinistas e luteranos como se houvessem nascido na Inglaterra ou Alemanha", considerando a igreja romana uma "igreja de moanga", uma igreja falsa” [38]. Poucos anos depois, entretanto, não restava nada da Genebra brasileira.

Protestantismo de Imigração

Com o Decreto de Abertura dos Portos, promulgado por Dom João VI em 1808, um número grande de estrangeiros afluiu ao Brasil. Dentre estes, muitos eram protestantes (em especial, os ingleses, anglicanos em sua maioria). Outros tratados (como o de Aliança e Amizade e o de Comércio e Navegação) traziam artigos que concediam liberdade religiosa aos estrangeiros que aqui chegassem.

Além disso, após a Independência, a liberdade religiosa passou a ser preceito constitucional. Assim rezava o artigo 5º da Constituição de 1824:

A religião católica apostólica romana continuará a ser a religião do Império. Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo[39].

Somando-se estes fatores ao incentivo real à imigração européia, houve uma nova chegada – depois de um século e meio – de protestantes em território brasileiro. A esta afluência de protestantes, seja em razão do comércio, seja por colonização imigratória, chama-se protestantismo de imigração[40].

Em junho de 1827, foi fundada a “Comunidade Protestante Alemã-Francesa do Rio de Janeiro”, por iniciativa do cônsul da Prússia Wilhelm von Theremin. Esta paróquia era composta por imigrantes luteranos e calvinistas, sendo o seu primeiro pastor o Rev. Ludwig Neumann[41]. No entanto, com o passar do tempo, a comunidade tornou-se totalmente luterana.

A presença calvinista pode ser vista, também, no serviço de capelania dos marinheiros estadunidenses ancorados no Brasil. Entre 1851 e 1854, este posto foi ocupado pelo pastor presbiteriano Rev. James Cooley Fletcher[42]. Mesmo após abandonar o posto de capelão, Fletcher continuou no Brasil, ocupando posição importante no processo de inserção do protestantismo no país[43].

Missões calvinistas no século XIX

Pelas mesmas razões aludidas acima (que resultaram na tolerância ao protestantismo em território brasileiro), vários missionários protestantes chegaram ao Brasil com o objetivo expresso de evangelizar os brasileiros, numa tentativa de organizar um protestantismo genuinamente nacional. A este movimento missionário protestante com o objetivo de organizar Igrejas compostas por fiéis brasileiros chama-se protestantismo de missão[44].

Quase todos os primeiros missionários protestantes no Brasil eram calvinistas[45]. O citado Rev. James Fletcher, por exemplo, teria ficado “obcecado por uma única idéia: converter o Brasil ao protestantismo e ao progresso” [46]. Apesar disso, Fletcher não chegou a organizar uma Igreja calvinista no Brasil e nem a batizar nenhum brasileiro.

O primeiro missionário calvinista a organizar uma Igreja formada por brasileiros foi o médico e pastor escocês Rev. Robert Reid Kalley. Ele já havia servido como missionário na Ilha da Madeira entre 1838 e 1846, aprendendo, por conta disto, a língua portuguesa. Kalley e sua esposa Sarah chegaram ao Brasil em maio de 1855 e, no mesmo ano, organizaram a primeira escola dominical em território brasileiro. “Em 11 de julho de 1858, Kalley fundou a Igreja Evangélica, depois Igreja Evangélica Fluminense (1863), cujo primeiro membro brasileiro foi Pedro Nolasco de Andrade” [47]. A Igreja Evangélica Fluminense (uma Igreja Congregacional, de doutrina calvinista) é a primeira Igreja protestante, fruto do trabalho missionário, brasileira.

Muitas reuniões foram realizadas, também, em Petrópolis. Em virtude da freqüência de brasileiros a tais reuniões, Kalley chegou a ser intimado à delegacia e proibido de exercer suas atividades como médico. O missionário encaminhou uma carta de defesa à representação diplomática britânica. “Junto à sua carta de contestação, Kalley apresentou a Stuart a opinião legal de três dos mais notáveis jurisconsultos brasileiros da época: Caetano Alberto Soares, José Tomaz Nabuco de Araújo e Urbano Sabino Pessoa de Melo" [48]. Tais respostas apontavam para uma nova interpretação da Constituição, permitindo-se, então, que a fé protestante fosse pregada aos brasileiros[49]. O relacionamento do casal Kalley com o Imperador Dom Pedro II (que visitou sua casa, algumas vezes) serviu, também, para dar credibilidade ao seu trabalho[50].

Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, fundada em 1862
Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, fundada em 1862

O calvinismo só se estabeleceu oficialmente, no entanto, com a chegada dos missionários presbiterianos enviados pela Presbyterian Church in the United States of America. O trabalho missionário presbiteriano começou com a chegada do pastor Rev. Ashbel Green Simonton ao Brasil, em 12 de agosto de 1859[51].

Estabelecendo-se no Rio de Janeiro, Simonton iniciou os seus trabalhos como capelão de marinheiros ingleses ancorados no Brasil. Após aprender a língua portuguesa, iniciou seus cultos com a presença de portugueses e brasileiros. O resultado disto foi a organização, em 12 de janeiro de 1862, da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro (a primeira paróquia da Igreja Presbiteriana do Brasil). O próprio Simonton relata a organização desta Igreja, pela recepção de seus dois primeiros membros:

No sábado, celebramos a Santa Ceia, e recebi por profissão de fé a Henry E. Milford e a Cardoso Camilo de Jesus. Foi uma hora de gozo íntimo. Antes mesmo do que eu esperava, Deus me deu os primeiros frutos de nossa missão. Sinto-me grato, mas julgo que devia estar mais ainda. O culto de comunhão foi dirigido por Schneider e por mim, em inglês e português. O Sr. Cardoso, a seu próprio pedido e de acordo com o que nós mesmos, depois de muito pensar e hesitar, tínhamos achado melhor, foi batizado. Seu exame foi julgado mais do que satisfatório por Schneider e por mim, e não nos deixou dúvida alguma com respeito à realidade de sua conversão.[52]

Além disso, é de Simonton, também, a iniciativa de criar o jornal Imprensa Evangélica (1864), primeiro periódico protestante de língua portuguesa a circular no Brasil. Como conseqüência de sua missão, organiza-se o Presbitério do Rio de Janeiro (1865) e procede-se à ordenação do primeiro pastor protestante latino-americano, o brasileiro José Manoel da Conceição[53].

Os nomes de dois outros missionários presbiterianos estão vinculados à presença calvinista no estado de São Paulo. São eles o Rev. Alexander Latimer Blackford e o Rev. George Whitehill Chamberlain. Este último foi o criador da Escola Americana, em 1870, dando origem ao que é hoje a Universidade Presbiteriana Mackenzie[54]. Com o trabalho destes missionários, o calvinismo implantou-se definitivamente no país.

Referências

  1. ↑ Bauswein & Vischer, The Reformed Family Worldwide, pp. 82ss.
  2. ↑ Matos, A “França Antártica” .
  3. ↑ Hack, ‘’Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial’’, p. 112.
  4. ↑ Matos, A “França Antártica”.
  5. ↑ Carta de Villegaignon a Calvino, 31 de março de 1557, apud Schalwvijk, “O Brasil na Correspondência de Calvino”, p. 109.
  6. ↑ Matos, A “França Antártica”.
  7. ↑ Hack, ‘’Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial’’, p. 119.
  8. ↑ Hack, ‘’Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial’’, p. 119.
  9. ↑ Apud Ferreira, A presença dos reformadores franceses no Brasil Colonial, p. 9.

A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma das mais antigas denominações protestantes do Brasil, presente em todos os estados da federação, tendo sido fundada pelo missionário Ashbel Green Simonton (1833-1867), que chegou no Brasil em 1859.

História

O surgimento do presbiterianismo no Brasil resultou do trabalho missionário do americano Ashbel Green Simonton (1833-1867), que chegou ao Rio de Janeiro em 12 de agosto de 1859, aos 26 anos de idade. Em abril de 1860, Simonton dirigiu o seu primeiro culto em português; em janeiro de 1862 foi fundada a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. No breve período em que viveu no Brasil, Simonton, auxiliado por alguns colegas, fundou o primeiro jornal evangélico do país (Imprensa Evangélica, 1864), criou o primeiro presbitério (1865) e organizou um seminário (1867). O Rev. Simonton morreu vitimado pela febre amarela aos 34 anos, em 1867 (sua esposa, Helen Murdoch, havia falecido três anos antes).

O ex-padre José Manuel da Conceição (1822-1873), foi o primeiro brasileiro a ser pastor (1865). Visitou incansavelmente dezenas de vilas e cidades no interior de São Paulo, Vale do Paraíba e sul de Minas, pregando e fundando comunidades.

O ano de 1869 marca uma nova etapa na história da IPB por ser o ano da chegada dos missionários da Igreja Presbiteriana do sul dos Estados Unidos. Nesta época, em virtude dos problemas políticos enfrentados nos Estados Unidos, havia duas Igrejas Presbiterianas: uma do norte do país (a PCUSA) - que enviou os primeiros missionários ao Brasil - e outra no sul (a PCUS).

Os primeiros missionários da Igreja do sul dos Estados Unidos a vir para o Brasil foram George Nash Morton e Edward Lane. Seu trabalho concentrou-se no interior de São Paulo, tendo fundado, em 1870, a Igreja Presbiteriana de Campinas. As regiões da Mogiana, o oeste de Minas, o Triângulo Mineiro e o sul de Goiás foram atingidos por outros missionários que os seguiram, dentre eles o Rev. John Boyle.

A expansão da IPB no norte e no nordeste do país deve-se ao trabalho pioneiro dos missionários da PCUS. Dentre os muitos nomes deste período fulguram o do missionário John Rockwell Smith, que fundou a Igreja Presbiteriana do Recife, em 1878, e o Rev. Belmiro de Araújo César, um dos primeiros e mais conhecidos pastores brasileiros do nordeste.

Rev. Belmiro César
Rev. Belmiro César

Durante este período, a missão da Igreja Presbiteriana do norte dos Estados Unidos (PCUSA) se consolidava no restante do país. Um dos grandes eventos deste período foi a fundação da Escola Americana, em 1870, por George Chamberlain e sua esposa, Mary Chamberlain. A Escola Americana, mais tarde, passaria a se chamar Mackenzie College, chegando a ser o conhecido Instituto Presbiteriano Mackenzie, que abriga, dentre outras instituições, a Universidade Mackenzie.

Alguns novos pastores brasileiros são ordenados nestes anos, como Manuel Antônio de Menezes, Delfino dos Anjos Teixeira, José Zacarias de Miranda e Caetano Nogueira Júnior. O grande nome, no entanto, viria a ser o do Rev. Eduardo Carlos Pereira.

Rev. George Chamberlain
Rev. George Chamberlain

Em setembro de 1888 foi organizado o Sínodo da Igreja Presbiteriana do Brasil, assim tornou-se autônoma, desligando-se das igrejas norte-americanas.

Depois da proclamação da república nasceu um movimento nacionalista no seio da IPB, em que pastores brasileiros manifestaram-se contrários a missionários americanos por serem maçons, gerando um cisma que levou à fundação da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Um grande líder do começo do século XX foi o pastor Erasmo Braga. O presidente da república Café Filho era presbiteriano e frequentava a 1ª Igreja Presbiteriana de Natal.

Ao longo do século XX, surgiram outras igrejas congêneres que também se consideram herdeiras da tradição calvinista. São as seguintes, por ordem cronológica de organização: Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (1903), Igreja Presbiteriana Conservadora (1940), Igreja Presbiteriana Fundamentalista (1956), Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil (1975), e Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (1978).

A Igreja Presbiteriana do Brasil tem aproximadamente 3.840 igrejas locais (sem contar as congregações), 263 presbitérios, 64 sínodos, 2.660 pastores, 503.500 membros - sendo 370.500 membros comungantes (que participam da Santa Ceia) e 133.000 membros não-comungantes -, estando presente em todos os estados da federação.

O órgão oficial da IPB é o jornal Brasil Presbiteriano.

Estrutura

O governo presbiteriano é uma forma de organização da Igreja que se caracteriza pelo governo de uma assembléia de presbíteros, ou anciãos. Esta forma de governo foi desenvolvida como rejeição ao domínio por hierarquias de bispos individuais (Episcopado).

A função do ministério da palavra de Deus e a administração dos sacramentos é ordinariamente atribuída a uma pessoa em cada congregação local.

A administração da ordenação e legislação está a cargo das assembléias de presbíteros, entre os quais os ministros e outros anciãos são participantes de igual importância. Estas assembléias são chamadas concílios.

Os concílios presbiterianos crescem em gradação hierárquica. Cada Igreja local tem o seu concílio, chamado de conselho. As Igrejas de uma determinada região compõem um concílio maior chamado presbitério. Os presbitérios, por sua vez, compõem um sínodo. O concílio maior da Igreja Presbiteriana do Brasil é o Supremo Concílio.

Cada igreja local se divide em departamentos que organizam as atividades de cada faixa etária: UCP (União de Crianças Presbiterianas), UPA (União Presbiteriana de Adolescentes), UMP (União de Mocidade Presbiteriana), UPH (União Presbiteriana dos Homens) e SAF (Sociedade Auxiliadora Feminina).


  1. ↑ Apud Ferreira, A presença dos reformadores franceses no Brasil Colonial, p. 10.
  2. ↑ Hack, ‘’Sementes do Calvinismo no Brasil Colonial’’, p. 119.
  3. Congregação Cristã no Brasil

    Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

    A CONGREGAÇÃO CRISTÃ NO BRASIL é um grupo religioso cristão de origem norte americana e está presente em território nacional desde 1910, trazida pelo italiano Louis Francescon.

    Origem

    NO FINAL do Século XIX, o italiano Louis Francescon recebeu, segundo seu relato, uma revelação acerca do batismo por imersão, que lhe advertia por não ter cumprido esse Sacramento deixado por Jesus Cristo. Tal doutrina o separou e a alguns mais do grupo Presbiteriano-valdense ao qual pertenciam, que não a aceitou.

    Tempos depois, em 1907 na cidade de Chicago, na 943 W. North Ave (semelhantemente à Rua Azuza em Los Angeles, CA), havia uma missão que anunciava a Promessa do Espírito Santo com evidência de se falar novas línguas. Francescon visitou aquele serviço a convite e teria recebido, conforme suas palavras, uma confirmação Divina de que aquela Obra era de Deus; prontamente o grupo que o acompanhava uniu-se aquela irmandade, a maioria recebendo o Dom de se falar línguas diferentes. Estavam reunidas as doutrinas dos Batismos da água e do Espírito.

    Vindo para o Brasil em 20 de abril de 1910, Francescon realizou o primeiro batismo em Santo Antonio da Platina, Paraná, batizando o italiano Felicio Mascaro e mais dez pessoas; depois dirigiu-se para a cidade de São Paulo, onde foram batizadas mais vinte pessoas. Durante muitos anos, os fiéis se reuniram sem denominação alguma e somente após adquirir seu primeiro prédio na cidade de São Paulo, escolheu-se o nome "Congregação Cristã do Brasil". Nos anos 60 por questões internas passou a denominar-se "Congregação Cristã no Brasil". Possuiu maioria italiana até a década de 1930, e desde então, passaram a preponderar as demais etnias e, desde 1950, está presente em todo território brasileiro e em diversos países do mundo.

    Em 2007 há quase 18 mil igrejas espalhadas em todo o mundo (16.926 no Brasil) e cerca de 2,6 milhões de fiéis no Brasil; atualmente são batizadas cerca de 100.000 pessoas por ano[1]Sua igreja central é estabelecida em São Paulo, no bairro do Brás, onde o Ministério reúne-se anualmente em Assembléia Geral e são estabelecidas convenções aplicadas em todas as congregações.

    A Congregação Cristã possui igrejas nas seguintes localidades, segundo seu Relatório Anual de 2007: Africa do Sul, Alemanha, Andorra, Angola, Argentina, Bélgica, Bolívia, Cabo Verde, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Espanha, Estados Unidos, França, Gana, Grécia, Guatemala, Guiana, Guiana Francesa, Guiné-Bissau, Holanda, Honduras, Índia, Inglaterra, Irlanda, Israel, Itália, Japão, México, Moçambique, Nicarágua, Nigéria, Nova Zelândia, Panamá, Paraguai, Peru, Portugal, República Democrática do Congo, República do Congo, República Dominicana, São Tomé e Príncipe, Síria, Suiça, Suriname, Uruguai, Venezuela e Zimbábue.

    Doutrina

    No ano de 1927 na cidade de Niagara Falls, NY, houve uma Assembléia Geral da Congregação Cristã, onde foram definidos seus 12 Artigos de Fé:

  4. Crença na Bíblia como sendo a infalível palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo (II Pedro 1:21; II Timóteo 3:16-17; Romanos 1:16);
  • Crença na existência de um só Deus, com três pessoas distintas (Efésios 4:6; Mateus 28:19; I João 5:7);
  • Crença na natureza divina e humana de Jesus Cristo, e na sua morte por culpa de todos os homens (Lucas 1: 27-35; João 1:14; I Pedro 3:18);
  • Crença na existência pessoal do diabo e seus anjos, que estão condenados ao fogo eterno (Mateus 25:41);
  • Crença no novo nascimento pela fé em Jesus Cristo, e na sua ressurreição para tornar justos os crentes, assim a salvação da alma através da [[fé] (Romanos 3:24-25; I Corintos 1:30; II Corintos 5:17).
  • Prática do batismo nas águas, com uma só imersão, para perdão de pecados (Mateus 28:18-19);
  • Crença no batismo do Espírito Santo, com a evidência inicial de falar em novas línguas (Atos 2)].
  • Prática da Santa Ceia anualmente, com um só pão partido com a mão e um só cálice, para relembrar a morte de Jesus Cristo (Lucas 22:19-20; I Corintos 11:25-25).
  • Crença de se abster da idolatria, da fornicação, e de sangue e carne sufocada (Atos 15:28-29; 16-4; 21-25).
  • Prática da unção com óleo para apresentar o enfermo ao Senhor (Mateus 8:17; Tiago 5:14-15).
  • Crença no retorno de Jesus Cristo e no arrebatamento dos fiéis (I Tessalonissenses 4:16-17; Apocalipse 20-6);
  • Crença na ressurreição dos mortos em novos corpos; no Juízo Final e no tormento eterno para injustos e vida eterna para os justos (Atos 24:15; Mateus 25:46).

Práticas

Culto

O culto da Congregação Cristã no Brasil segue uma ordem pré-estabelecida, mas sem uma liturgia fixa, assim os pedidos de hinos, orações, testemunhos e a pregação da Bíblia são feitos de forma espontânea, crendo serem baseados na inspiração do Espírito Santo. Os serviços são solenes com uma atmosfera formal; desse modo evitam-se manifestações individualizantes, mas preza-se a participação coletiva. Há uma série de práticas no culto como o uso do véu pelas mulheres; o uso do ósculo entre irmãos e irmãs de per si; assento separado, no salão de culto, entre homens e mulheres.

Ministérios e Cargos

A Congregação Cristã no Brasil possui um ministério organizado, servindo sem expectativas de receber salários [2] e é distribuído segundo as necessidades de cada localidade, a saber:

  • Ancião - responsável pelo atendimento da Obra, realização de batismos, santas ceias, ordenação de novos obreiros (anciães e diáconos), eleição de Cooperadores do Ofício Ministerial, encarregado de conferir ensinamentos à igreja, cuidar dos interesses espirituais e do bem-estar da igreja, entre outras funções;
  • Diácono - responsável pelo atendimento assistencial e material à igreja. É auxiliado por irmãs obreiras chamadas de "Irmãs da Obra da Piedade". Assim como o ancião, atende a diversas congregações de sua região;
  • Cooperador do Ofício Ministerial - responsável pela cooperação e presidência de cultos em uma determinada localidade, não podendo realizar batismos.
  • Cooperador de Jovens e menores - responsável de atender as reuniões de jovens e menores de sua comum congregação.
  • Músico - membro habilitado e depois de passar por testes musicais é oficializado para tocar nos cultos e demais reuniões.

Cargos

  • Encarregado de Orquestras - músico oficializado, designado para organizar ensaios musicais da Orquestra da Congregação e ensinar a música. As "Examinadoras" são organistas oficializadas, designadas para avaliar organistas aprendizes no processo de oficialização;além dos instrutores e instrutoras musicais.
  • Auxiliar de Jovens e Menores - responsável de fazer os recitativos para o moços, sendo auxiliado pelas moças no recitativo das moças, sendo também responsabilidade deles, quando não houver ninguem para atender a renião, o auxiliar deve atender e sendo tambem sua responsabilidade de auxiliar seu cooperador de jovens e menores e seu cooperador do oficio ministerial.
  • Administração - ministério material, constituído por Presidente, Tesoureiro, Secretário, Auxiliares da Administração, Conselho Fiscal e Conselho Fiscal Suplente, sendo que os administradores são empossados ou reempossados de 3 em 3 anos e o Conselho Fiscal anualmente, na época da Assembléia Geral Ordinaria (AGO)ou em casos específicos Assembléia Geral Extaordonaria(AGE);


Para construções de templos, utilizam-se de volutariado mobilizado em esquema de mutirão. Para outros serviços burocráticos das igrejas como portaria, limpeza, som, etc.. também são escolhidos dentre os membros, voluntários que não possuem expectativa de receber salário.

Organização

Segundo os seus Estatutos, a Congregação Cristã no Brasil não possui registro de membros, considerando que estes devem responder somente a Deus; não prega o dízimo e mantem-se pelo espírito voluntário dos seus membros, que contribuem com coletas secretas e exercem seus ministérios sem a expectativa de receber dinheiro ou bens materiais.

As mudanças de caráter doutrinário na Congregação Cristã no Brasil são discutidas em assembléia anual e pelo Conselho de Anciãos, que é formado pelos anciãos mais velhos em ministério e não necessariamente de idade. Nestas assembléias são considerados "Tópicos de Ensinamentos", os quais, tomados em reuniões e por oração, tratam de assuntos relacionados à doutrina, costumes e comportamento na atualidade.

A Orquestra

A Congregação Cristã no Brasil possui uma orquestra de música sacra muito valorizada. Ela provê aos fiéis escolas musicais gratuitas em suas dependências.

Atualmente, possui em sua orquestra os seguintes instrumentos:

Violino,Viola, Violoncello; Flauta transversal; Oboé; Fagote; Clarinete; Clarone; Acordeon; Saxofone-sopranino, soprano, alto, tenor, barítono e baixo; Trompete; Pocket; Cornet; Trompa; Trombonito; Trombone; Saxhorn; Bombardino; Bombardão; Flugelhorn e Orgão, sendo esse último de liberdade de execução somente de mulheres e os demais instrumentos somente de homens.

O hinário da Congregação Cristã no Brasil, intitula-se "Hinos de Louvores e Súplicas a Deus" e encontra-se na sua quarta edição datada de 1965, quando foram adicionadas novas melodias e poesias.Possui muitas melodias de autores norte americanos e italianos, com algumas poesias traduzidas e semi-traduzidas do inglês e do italiano. Possui 450 hinos, tendo entre eles, especiais para Batismos, Santas Ceias, Funerais, 50 para as "Reuniões de Jovens e Menores", e sete coros.

O livro original chamava-se Inni e Salmi Spirituali, publicado, no começo do século XX, pela Assemblea Cristiana Italiana de Chicago, Ill USA.

Os hinários com notação musical seguem o modelo europeu, contendo as claves de Sol e de Fá, e estão escritos para instrumentos em Dó, Mi bemol e Si bemol.

A Congregação Cristã não produz gravações em disco de seus hinos, nem mesmo as autoriza.

Política

A Congregação Cristã no Brasil crê na separação total entre Estado e religião, sendo uma organização religiosa totalmente apolítica, sem ligação nem manifestação de apoio ou repúdio a causas ou partidos políticos, candidatos a cargos públicos e nem mesmo ongs ou qualquer outra instituição governamental ou não. Se algum membro de seu corpo ministerial aceitar cargos políticos, deverá renunciar ao seu cargo congregacional[3] . Seus fiéis são livres para exercer suas obrigações de cidadão conforme sua consciência, todavia é aconselhado aos próprios a refutarem quaisquer tendências políticas que corroborem com uma doutrina de natureza anticristã. Por fim, considera-se permissão Divina o estar no poder.

Mídia

A Congregação Cristã no Brasil não possui propaganda em meios de comunicação como rádio, televisão, internet, imprensa escrita, ou qualquer outro tipo de propagação da sua doutrina que não seja o frequentar quaisquer de suas igrejas pelos interessados em conhecê-la.


A IGREJA CONGREGAÇAO CRISTÃ NO BRASIL TEVE ORIGEM NA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

Louis Francescon

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Ir para: navegação, pesquisa

Louis Francescon (Cavasso Nuovo, 29 de março de 1866 — Oak Park, 7 de setembro de 1964) foi um religioso italiano, missionário fundador de várias denominações em vários países, entre elas a Congregação Cristã no Brasil.

Após cumprir serviço militar, migrou para a América do Norte, onde aportou, em 3 de março de 1890. Nesse mesmo ano, iniciou sua convivência com o evangelicalismo protestante, ao qual veio a doar-se, a partir de dezembro de 1891.

Em março de 1892, foi eleito diácono (e, anos após, ancião) de uma recém criada igreja presbiteriana, liderada por italianos valdenses. Em 1º de Janeiro de 1895, casou-se com Rosina Balzano, membro de sua igreja. Suas memórias citam uma experiência pessoal, em princípios de 1894 quando estava em Cincinnati, Ohio, por motivo de trabalho. Estando ajoelhado em seu quarto, orando e lendo a Bíblia, ao chegar em Colossenses 2.12, que trata do batismo por imersão, Francescon ouviu uma voz que lhe disse duas vezes: ”Tu não obedeceste a este meu mandamento”; ao que teria respondido: ”Senhor, jamais alguém me falou neste assunto”. Sua carreira de fé mudou após esse acontecimento.

Em 1903 juntamente com outras famílias lideradas por Giuseppe Beretta, foram batizados por este no Lago Michigan, deixando Igreja Prebiteriana Valdense, passando a reunir-se em casas. Francescon e duas outras famílias separariam do grupo liderado por Beretta em 1904.

Em julho de 1907, na Congregação Cristã da W. North Ave, 943, sua esposa recebeu a promessa do Espírito Santo, o que ele próprio também recebeu dias após, em 25 de agosto. A igreja do grupo de Beretta, reunida na West Grand Avenue, em Chicago aceitou a doutrina do Batismo no Espírito Santo proposta por Francescon em Setembro de 1907, voltando ele a ocupar o ofício de ancião naquela igreja.

Em janeiro de 1908, batizou nas águas cerca de 70 desses novos irmãos, alguns dos quais milagrosamente foram libertos de doenças crônicas e incuráveis, entre os quais um por nome G. Lombardi.

Em março do ano seguinte, Francescon e Lombardi, ambos casados e com seis filhos, abandonaram seus empregos e integraram-se à causa da fé. Em 4 de setembro, embarcaram de Chicago para Buenos Aires, para onde viajariam novamente, em janeiro de 1910.

Da Argentina, seguiram até São Paulo (Brasil), em 8 de março de 1910, onde permaneceram até 18 de abril, quando Lombardi retornou para Buenos Aires e Francescon seguiu para Santo Antônio da Platina, no Paraná, onde chegou dois dias depois. Durante sua estadia, 11 pessoas creram no Evangelho, foram batizadas em águas e no Espírito Santo.

Por contrariar poderes religiosos estabelecidos na região, Francescon foi jurado de morte e regressou para São Paulo, em 20 de junho. Chegando naquela cidade, cerca de 20 pessoas (na maioria presbiterianos, batistas e metodistas, além de alguns poucos católicos romanos) creram na pregação de Francescon, alguns dos quais foram curados de enfermidades e outros selados com o dom do Espírito Santo. Estas foram as primícias da Congregação Cristã no Brasil.

Louis Francescon faleceu em 1964 no estado de Illinois, nos Estados Unidos.

Obtido em "http://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_Francescon"

Espiritismo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Série
Doutrina Espírita
Allan Kardec
Portal do Espiritismo
edite esta caixa


O termo espiritismo (do fr. "espiritisme") surgiu como um neologismo, mais precisamente um "porte-manteau", criado pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de "Allan Kardec", para nomear especificamente o corpo de idéias por ele sistematizadas inicialmente em "O Livro dos Espíritos" (1857). Contudo, a utilização de raízes oriundas da língua viva para compor a palavra ("spirit": espírito + "isme": doutrina), que, se por um lado foi um expediente a que Kardec recorreu para facilitar a difusão do novo conjunto de idéias, por outro fez com que o termo fosse rapidamente incorporado ao uso cotidiano para designar tudo o que dizia respeito à comunicação com os espíritos. Assim, por espiritismo, muitos entendem hoje as várias doutrinas religiosas e/ou filosóficas que crêem na sobrevivência do espírito à morte do corpo, e, principalmente, na possibilidade de se comunicar ordinariamente com ele.

O presente artigo visa a tratar do espiritismo levando em consideração todos os diferentes usos do termo, enquanto que o artigo doutrina espírita está voltado para descrever o espiritismo conforme sistematizado por Kardec. Essa divisão entre espiritismo (geral) e doutrina espírita (específico) é meramente didática, não implicando apologia a nenhum dos dois usos.

O espiritismo, de um modo geral, fundamenta-se nos seguintes pontos:

  • o homem é um espírito temporariamente ligado a um corpo (para Kardek esta ligação é feita através de um interface que denomina de perispírito, um envoltório semimaterial que o vulgo denomina como "fantasma");
  • a alma é o espírito enquanto se encontra ligado ao corpo;
  • o espírito, compreendido como individualidade inteligente da Criação, é imortal;
  • a reencarnação é o processo natural de aperfeiçoamento dos espíritos;
  • o aperfeiçoamento, através das reencarnações (vidas sucessivas), está ligado a uma "Lei de Causa e Efeito", segundo a qual recebemos na medida do que causamos (bondade e/ou maldade);
  • os espíritos encarnados ("vivos") e os espíritos desencarnados ("mortos") podem se comunicar entre si através da mediunidade (em língua inglesa também "channeling");
  • a Terra não é o único planeta com vida inteligente (pluralidade dos mundos habitados).

Os fenômenos mediúnicos são registrados em todas os lugares e épocas da História, desde a Antiguidade, sob diversas formas. Como exemplo refere-se:
  • a prática ancestral de culto aos antepassados, venerando-os ou rendendo-lhes homenagens por meio de diversos rituais;
  • na cultura judaico-cristã encontram-se registrados no Antigo Testamento, nomeadamente a proibição de Moisés à prática da "consulta aos mortos" (evidência da crença judaica nessa possibilidade, uma vez que não se proíbe aquilo que não é praticado)[1], e, no Novo Testamento, a comunicação de Jesus com Moisés e Elias no Monte Tabor (Mt, 17:1-9).
  • na cultura da Grécia Antiga, a crença em que as almas dos mortos habitavam o submundo e que era possível entrar em contacto com eles, cuja referência mais conhecida encontra-se na Odisséia. Ali Homero narra que Odisseu (Ulisses), rei de Ítaca realiza um ritual conforme indicações da feiticeira Circe, logrando conversar com as almas de sua mãe e dos seus companheiros, que haviam soçobrado durante a Guerra de Tróia. Em época posterior, registram-se os comentários de Platão sobre o "dáimon" ou gênio que acompanharia Sócrates.
  • os povos Celtas acreditavam que os espíritos regressavam ao mundo dos vivos em certas ocasiões ("Samhain"), crença essa que se encontra na origem das populares festas de "halloween".
  • na Idade Média, a persistência popular de crenças em superstições e amuletos para obter protecção.
  • na Idade Moderna, as narrativas sobre fantasmas e assombração de locais, ilustrada, por exemplo, pela peça de teatro Hamlet, em que o dramaturgo inglês William Shakespeare apresenta o fantasma do rei assassinado demandando vingança ao protagonista, seu filho.

Os xamãs dos povos "primitivos" da Ásia e Oceania, também afirmam ter o dom de comunicação com o além. Entre a população nativa americana, apenas o xamã (feiticeiro) tinha o poder de comunicar com os deuses e espíritos, fazendo a mediação entre eles e os mortais. A principal função do xamã era a de assegurar a ajuda do mundo dos espíritos, incluindo o Espírito Supremo, para benefício da comunidade. Tal como os xamãs, os curandeiros na América Latina, são capazes de aceder ao mundo dos espíritos. A actuação a este nível, envolve não só o uso de orações, mas também a consulta de guias espirituais ou espíritos superiores.

Actualmente é comum adotar-se a data de 31 de março de 1848, início do fenómeno das Irmãs Fox, como marco inicial das modernas manifestações mediúnicas, quando se inicia uma fase de manifestações mais ostensivas[2] e freqüentes do que jamais ocorrera, particularmente nos Estados Unidos da América e na Europa[3], o que levou muitos pesquisadores a se debruçarem sobre tais fenômenos.

Entre esses pesquisadores destacou-se o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, que mais tarde, sob o pseudônimo de Allan Kardec, com base em uma série de relatos psicografados, publicou O Livro dos Espíritos.

Diversos usos do termo espiritismo

Espiritismo kardecista

Allan Kardec (1804-1869), o codificador da doutrina espírita.
Allan Kardec (1804-1869), o codificador da doutrina espírita.

A expressão, criada no Brasil, refere-se à Doutrina espírita, codificada por Allan Kardec e, assim como o neologismo "Kardecismo", é vivamente repudiada por adeptos mais ortodoxos da doutrina[4].

As expressões nasceram da necessidade de alguns em distinguir o "Espiritismo" (como originalmente definido por Kardec) dos cultos afro-brasileiros, como a Umbanda. Estes últimos, discriminados e perseguidos em vários momentos da história recente do Brasil, passaram a se auto-intitular espíritas (em determinado momento com o apoio da Federação Espírita Brasileira), num anseio por legitimar e consolidar este movimento religioso, devido à proximidade existente entre certos conceitos e práticas destas doutrinas. Seguidores mais ortodoxos de Kardec, entretanto, não gostaram de ver a sua prática associada aos cultos afro-brasileiros, surgindo assim o termo "espírita kardecista" para distinguí-los dos que passaram a ser denominados como "espíritas umbandistas".

Alguns adeptos de Kardec entendem que o espiritismo, como corpo doutrinário, é um só - aquele que foi codificado por Allan Kardec - o que tornaria redundante o uso do termo "espiritismo kardecista". Assim, ao seguirem estritamente os ensinamentos codificados por Kardec nas obras básicas, sem a interferência de qualquer outra linha de pensamento que não tenha sido a codificada, ou ao menos prevista pelo mesmo, denominam-se simplesmente "espíritas", sem o complemento "kardecista". Em complemento, alegam que o espiritismo, em sua essência, não se liga à figura única de um homem, como ocorre com o cristianismo e o budismo, e a uma coletividade de espíritos que manifestaram através de diversos médiuns.

Históricamente, no Brasil, existiram ainda conflitos entre "kardecistas" e "roustainguistas", consoante a admissão ou não dos postulados da obra "Os Quatro Evangelhos", de Jean-Baptiste Roustaing, nomeadamente acerca da natureza do corpo de Jesus.

Cultos afro-brasileiros

No Brasil, existem casos em que o termo espiritismo é utilizado como designação para algumas das religiões afro-brasileiras. Por exemplo: muitos centros de umbanda são denominados Espíritas e seus frequentadores definem-se como espíritas. Há também a Confederação Espírita Umbandista do Brasil e a Federação Espírita Umbandista do Brasil.

Racionalismo cristão

No início do século XX, em Santos (Brasil) surgiu uma doutrina muito semelhante ao Kardecismo, inicialmente denominada "Espiritismo Racional e Científico Cristão", denominada posteriormente racionalismo cristão, codificada por Luís de Matos.

Espiritismo ramatisiano

Alguns centros espíritas seguem a doutrina ditada pelo espírito Ramatis (corporificada sobretudo nas obras psicografadas por Hercílio Maes). Distinguem-se dos centros espíritas tradicionais em função da maior ênfase ao universalismo (origem comum das religiões) e ao estudo comparado de religiões e filosofias espiritualistas ocidentais e orientais. Nota-se também a influência mais acentuada de correntes de pensamento orientais (tais como o budismo e o hinduísmo) e a proximidade com a cosmogonia do espiritualismo universalista.

Doutrina espírita e cristianismo

Os espiritistas (em Portugal) ou espíritas (no Brasil), na sua maioria, afirmam-se cristãos e atribuem à Doutrina Espírita o carácter de uma doutrina cristã. Entretanto, essa associação entre espiritismo (doutrina espírita) e o cristianismo é contestada pelas religiões de matriz judaico-cristãs, sob a alegação de que, embora partilhe valores cristãos, por rejeitar determinadas ideias bíblicas e teológicas, isso não a torna "cristã".

Fundamentam em defesa do carácter cristão da Doutrina Espírita no facto de Allan Kardec, em seus diálogos com os espíritos, ter concluído que a moral cristã, isenta dos dogmas de fé a ela associados, seria o que de mais próximo a um código de ética divino e racional o homem possuí. Em O Livro dos Espíritos, na resposta à pergunta 625 de Kardec, os "espíritos" interrogados por ele afirmam que Jesus Cristo é o maior exemplo moral de que dispõe a humanidade. (O Livro dos Espíritos, pág. 298). Num estudo sobre a natureza de Cristo, Kardec nega que Jesus Cristo seja Deus. (Obras Póstumas, 13.ª Edição, pág. 121). Segundo o espiritismo, Jesus seria o guia e modelo para toda a humanidade, e a sua doutrina seria a expressão mais pura da lei de Deus[5].

Deste modo, a principal diferença entre os cristãos tradicionais (aqueles que seguem os dogmas de Igrejas) e os espíritas está no fato dos espíritas não considerarem Jesus como o Deus, mas sim como um espírito de luz, extremamente evoluído, cuja encarnação teve o objetivo de trazer lições de moral à humanidade. Da mesma forma que Jesus, existem muitos outros espíritos evoluídos que se preocupam com o desenvolvimento humano, sendo que os espíritas acreditam que nós mesmos podemos evoluir, através de sucessivas encarnações, nos tornando no futuro tão evoluídos como o próprio Cristo. [6].

A Prof.ª Dora Incontri, pós-doutorada pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, defende o caráter cristão da doutrina espírita, apontando na proposta estruturada por Allan Kardec um novo modelo de religião, alheio a dogmas, fórmulas, hierarquias sacerdotais e baseado eminentemente no aspecto ético-moral do sujeito. Considera ainda Rousseau e Pestalozzi como os dois grandes percursores da idéia de uma "religiosidade natural", predominantemente moral, e defende que "evidenciou-se com a publicação de O Evangelho segundo o Espiritismo e de O Céu e o Inferno que, embora não o confessasse, ele [Kardec] estava fazendo uma nova leitura do Cristianismo". (Pedagogia Espírita: um projeto brasileiro e suas raízes histórico-filosóficas, São Paulo, Feusp, 2001, pág. 74)

Um estudioso da religiosidade brasileira mais céptico, o Prof. António Flávio Pierucci, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, procura demonstrar que o espiritismo (doutrina espírita) não é uma religião cristã. Este afirma que os espíritas utilizam o cristianismo para se legitimarem. Pierucci defende também que o vínculo com a Igreja Católica defendido pelos espíritas serviu, durante décadas, para lutar contra a discriminação e a intolerância. (O Desencantamento do Mundo – Todos os Passos do Conceito, São Paulo, Editora 34, 2003). Esta interpretação entretanto carece de fundamentação histórica já que o espiritismo nunca criou vínculo com a Igreja Católica.

O Conceito da Bíblia

As religiões de matriz judaico-cristãs entendem que, com a Lei dada a Moisés no Antigo Testamento, Deus interditou à Antiga Israel as comunicações com o mundo dos espíritos e o uso de poderes sobrenaturais por eles concedidos. "... não haverá no meio de ti ninguém que faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, que interrogue os oráculos, pratique adivinhação, magia, encantamentos, enfeitiçamentos, recorra à adivinhação ou consulte os mortos (necromancia)" (Deutornóminos 18:10-14). Afirmam ainda que essa proibição é confirmada no Novo Testamento, através das referências contidas nos Evangelhos e no livro de Actos aos "espíritos impuros". A citação do apóstolo Paulo em Gálatas 5:20, afirma que quem pratica "feitiçaria" (ou bruxaria, o termo grego usado é farmakía) ... não herdará o Reino de Deus". (Na Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, o termo é vertido por "espiritismo". Mas esta aplicação da palavra não se refere especificamente à doutrina espírita). É comum encontrar referências ao uso do termo espiritismo para denominar outras doutrinas e cultos que não sejam aquela codificada por Allan Kardec (Ver o item Diversos usos do termo espiritismo deste artigo para exemplos).

Já para a doutrina espírita, a Bíblia não condena a prática mediúnica em si, pois esta seria fundamentada em um fenómeno natural, e sim o uso dos recursos mediúnicos para finalidades frívolas. Em o Novo Testamento (Mateus 17:3-4) Pedro vê Elias e Moisés conversando com o Mestre, encarando a situação de forma natural.

A necromancia envolvia retirada de restos mortais, dos locais onde estavam enterrados, para invocar-se o espírito e fazer interrogatório.

A doutrina espírita não pratica necromancia. Faz uso de comunicação livre, manifesta-se o espírito que tiver necessidade, através de médium que se dispõe a recebê-lo.

Pela forte ligação do espiritismo com a ciência, muitos espíritas acreditam que a Biblia é um livro mitológico, contendo a transcrição da história, ritos, lendas e tradição do povo judeu e dos primeiros cristãos que antes eram transmitidas apenas oralmente. Assim, ao contrário dos cristãos tradicionais, existiria a crença de que a Bíblia não seria a palavra de Deus nem traria o pensamento e idéias divinas, não se fazendo necessário assim segui-la como se fosse a Lei e a verdade absoluta do universo. Essa idéia fundamenta-se nos estudos históricos que apontam a manipulação e uso político da Bíblia, como no Concílio de Nicéia em 325dC, onde o imperador romano Constantino escolheu dentre dezena de evangelhos disponíveis nas comunidades cristãs primitivas aqueles que mais lhe convinham para a unificação e disseminação do cristinanismo[7].

O diálogo com as religiões cristãs

A posição oficial da Igreja Católica proíbe terminantemente os seus fiéis assistir a sessões mediúnicas realizadas ou não com auxílio de médiuns espíritas - mesmo que estes pareçam ser honestos ou piedosos - quer interrogando os espíritos e ouvindo suas respostas, quer assistindo por mera curiosidade. Posições similares têm as demais religiões cristãs.

No entanto, a Igreja não nega a possibilidade física de comunicação com entidades espirituais. Em pesquisas recentes, sob a tutela do Papa João Paulo II, o Padre François Brune, que publicou o livro Os Mortos nos Falam, defende a realidade das comunicações com os espíritos. Além disso, principalmente no Brasil, é possível observar uma maior tolerância por parte de muitos leigos católicos às práticas mediúnicas.

Atualmente muitas comunidades evangélicas procuram manter uma postura respeitosa com relação ao espiritismo, mesmo que discordem de suas práticas, por reconhecer nos trabalhos sociais desenvolvidos pelas casas espíritas uma atividade séria e comprometida. Além disso, algumas denominações empenham-se na realização de cultos ecumênicos, ou, para as que não atribuem ao espiritismo um caráter cristão, no diálogo inter-religioso.

Fenómenos espíritas e a ciência

A investigação dos fatos e causas do fenómeno mediúnico é objecto de estudo pela Pesquisa Psíquica, ramo da parapsicologia (substituindo a metapsíquica). Seu primeiro interesse é o de verificar a ocorrência dos aludidos factos, mediante o uso de metodologia própria, que inclui a estatística e o chamado teste duplo-cego. Faz-se investigação científica [8] também em âmbito universitário, mas os resultados obtidos até o momento não permitem a conclusão científica da existência de espíritos[9].

Para além dos aspectos doutrinais, existe uma diversidade de práticas que vêm suscitando uma crescente curiosidade dos pesquisadores da área - a ectoplasmia, psicoquinesia, levitação, telepatia, clarividência, clariaudiência, pré-cognição via onírica (sonhos), psicografia, psicopictografia, medicina e cirurgia mediúnica, radiestesia e rabdomancia.

Kardec, no preâmbulo de "O Que É o Espiritismo?", afirma que ele "é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal". Dentro dessa perspectiva, Kardec teria fundado o que naquele momento se chamou de "ciência espírita"[10], tendo como objecto de estudo o espírito e adotando uma postura teórico-metodológica própria, ou seja, não baseada no método científico [11]. Na "Revue Spirite", que publicou até à sua morte, Kardec analisa vários relatos de fenômenos aparentemente mediúnicos ou sobrenaturais, oriundos de diversas partes do mundo. Esmerava-se por distinguir os acontecimentos que considerava verossímeis de charlatanismo e da simples imaginação superexcitada pela fé.

Tratamentos espirituais

Ver artigo principal: Tratamento espiritual

Cirurgia espiritual

Actualmente, o termo "cirurgia espiritual" é associado a uma prática onde uma suposta entidade espiritual, com ou sem a incorporação num médium hospedeiro, e sem cortes, executariam cirurgias buscando a reabilitação do enfermo. Existem relatos anedóticos de sucesso na cura em grande número de casos, gerando algum confronto com os conhecimentos actuais da ciência, mas não há nenhuma demonstração científica dessas curas que não seja explicada por outros mecanismos, como o efeito placebo. O caso do médium João Teixeira de Faria que executa as suas "cirurgias" na Casa de Dom Inácio de Loyola é para alguns um exemplos actual de "cirurgia espiritual".

Porém, o Conselho Federal de Medicina e a comunidade científica de modo geral, alertam que esse tipo de cirurgia não deve ser feita em substituição da medicina tradicional, principalmente em casos graves. Se alguém convencer um paciente de que esse método é eficaz, no Brasil este pode ser enquadrado na lei por charlatanismo, principalmente se a "cirurgia espiritual" for cobrada ou causar algum dano no paciente por negligência de socorro, podendo pagar multas e ser condenado a até 1 ano de prisão (ver, a título de exemplo, o ocorrido com o Rubens Farias Jr., que culminou com a morte de uma menina, por leucemia, em 1998).

Apesar de o espiritismo não negar a sua eficácia, a prática de cirurgias espirituais por intermédio de médiuns não é abordada na Codificação espírita.

Cronologia

Materialização de um rosto, pela médium Eva Carrière (1912).

Materialização de um rosto, pela médium Eva Carrière (1912).

[editar] Século XVII

  • 1688 - Nascimento de Emanuel Swedenborg

Século XVIII

  • 1734 - Nascimento de Franz Mesmer
  • 1746 - Nascimento do Abade Faria

Século XIX

  • 1804 - Nascimento de Hippolyte Léon Denizard Rivail (Allan Kardec)
  • 1830 - Publicação da primeira obra espírita: "La Voyante de Prevorst", do Dr. Justinus Kerner
  • 1832 - Nascimento de Alexandre Aksakof
  • 1837 - Nascimento de Albert de Rochas
  • 1846 - Nascimento de Léon Denis
  • 1847 - Manifestação do fantasma de Hydesville (Irmãs Fox)
  • 1847 - Primeira reunião espírita em Manchester, nos Estados Unidos da América
  • 1850 - Manifestação, nos EUA, da mediunidade de efeito físicos de Daniel Dunglas Home
  • 1855 - Nascimento de Jean Meyer
  • 1857 - Publicação da obra "Livre des Esprits", de Kardec
  • 1858 - Lançamento, em França, da "Revue spirite", por Kardec
  • 1859 - Nascimento de Arthur Conan Doyle
  • 1861 - Auto-de-fé de Barcelona
  • 1865 - Nascimento de Fernando Augusto de Lacerda e Mello
  • 1869 - Lançamento, no Brasil, do periódico O Echo d'Álem-Túmulo, por Luís Olímpio Teles de Menezes
  • 1869 - Morte de Allan Kardec
  • 1874 - Primeiras experiências do académico inglês William Crookes com a médium Florence Cook
  • 1874 - Nascimento de Harry Houdini
  • 1875 - Fundação da Sociedade Teosófica em Adyar, na Índia
  • 1878 - Nascimento de Ngo Van Chieu, fundador do Caodaísmo
  • 1883 - Lançamento, no Brasil, do periódico "Reformador" por Augusto Elias da Silva
  • 1884 - Fundação da Federação Espírita Brasileira
  • 1885 - Morte do espírita Victor Hugo
  • 1889 - Congresso espírita e espiritualista internacional em Paris
  • 1900 - Congresso espírita e espiritualista internacional em Paris

Século XX

  • 1903 - Experiências, em Argel, de Charles Robert Richet e de Gabriel Delanne, com a médium de efeitos físicos Marthe Beráud (depois Eva Carrière)
  • 1908 - Manifestação, no Brasil, do Caboclo das Sete Encruzilhadas pelo médium Zélio Fernandino de Moraes, dá origem à Umbanda
  • 1910 - Nascimento de Francisco Cândido Xavier
  • 1912 - Constituição da Ordem Mística do Templo da Rosacruz
  • 1913 - Escândalo do periódico "Miroir": fotografias do Dr. Albert von Schrenck-Notzing.
  • 1916 - Constituição da Igreja Católica Liberal
  • 1922 - Congresso Internacional Espírita em Londres
  • 1923 - Fundação da Federação Espírita Internacional em Liège, na Bélgica
  • 1924 - Teoria científica do espiritismo, por Charles Henry
  • 1925 - Congresso Internacional Espírita em Paris, organizado pela Federação Espírita Internacional, congrega representantes de 22 países, sob a presidência de Léon Denis
  • 1939 - Fundação da União Espiritista de Umbanda do Brasil


Nenhum comentário: